24/09/2025

1588 – Quito

O neto de Atahualpa

Suam ouro as colunas, arabescos e folhagens de ouro; rezam os santos de ouro e as adoradas virgens de dourado manto e o coro de anjos e asinhas de ouro: esta é uma das casas que Quito oferece ao que há séculos nasceu em Belém, em palha de estábulo, e morreu despido.
A família do Inca Atahualpa tem um altar nesta igreja de São Francisco, no retábulo grande do cruzeiro, ao lado do Evangelho. Aos pés do altar, descansam os mortos. O filho do Atahualpa, que se chamou Francisco como seu pai e o assassino de seu pai, ocupa a tumba principal. Deus há de ter em sua glória o capitão Francisco Atahualpa se Deus escuta, como dizem, os pareceres dos que mandam com maior atenção da que presta aos alaridos dos mandados. O filho do Inca soube afogar os alçamentos indígenas no sul. Ele trouxe a Quito, prisioneiros, os caciques rebeldes de Cañaribamba e Cuyes e foi recompensado com o cargo de diretor de Trabalhos Públicos desta cidade.
As filhas e as sobrinhas de Francisco vieram instalar a imagem de Santa Catarina que um escultor de Toledo, Juan Bautista Vázquez, talhou para que brilhe no alto do altar dos Atahualpa. Alonso, o filho de Francisco, enviou a imagem da Espanha; e a família ainda não sabe que Alonso morreu em Madrid enquanto Santa Catarina atravessava o mar rumo a esta igreja.
Alonso Atahualpa, neto do Inca, morreu na prisão. Sabia tocar a harpa, o violino e o clavicórdio. Só vestia roupas espanholas, cortadas pelos melhores alfaiates, e há muito tempo deixara de pagar o aluguel de sua casa. Os fidalgos não vão à prisão por causa das suas dívidas, mas Alonso foi parar na cadeia, denunciado pelos alfaiates, os joalheiros e os chapeleiros e os fabricantes de luvas mais importantes de Madrid. Tampouco tinha pago a escultura que sua família está colocando agora, entre grinaldas de ouro, no dourado altar.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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