O neto de Atahualpa
Suam ouro as colunas, arabescos e
folhagens de ouro; rezam os santos de ouro e as adoradas virgens de
dourado manto e o coro de anjos e asinhas de ouro: esta é uma das
casas que Quito oferece ao que há séculos nasceu em Belém, em
palha de estábulo, e morreu despido.
A família do Inca Atahualpa tem um
altar nesta igreja de São Francisco, no retábulo grande do
cruzeiro, ao lado do Evangelho. Aos pés do altar, descansam os
mortos. O filho do Atahualpa, que se chamou Francisco como seu pai e
o assassino de seu pai, ocupa a tumba principal. Deus há de ter em
sua glória o capitão Francisco Atahualpa se Deus escuta, como
dizem, os pareceres dos que mandam com maior atenção da que presta
aos alaridos dos mandados. O filho do Inca soube afogar os alçamentos
indígenas no sul. Ele trouxe a Quito, prisioneiros, os caciques
rebeldes de Cañaribamba e Cuyes e foi recompensado com o cargo de
diretor de Trabalhos Públicos desta cidade.
As filhas e as sobrinhas de Francisco
vieram instalar a imagem de Santa Catarina que um escultor de Toledo,
Juan Bautista Vázquez, talhou para que brilhe no alto do altar dos
Atahualpa. Alonso, o filho de Francisco, enviou a imagem da Espanha;
e a família ainda não sabe que Alonso morreu em Madrid enquanto
Santa Catarina atravessava o mar rumo a esta igreja.
Alonso Atahualpa, neto do Inca, morreu
na prisão. Sabia tocar a harpa, o violino e o clavicórdio. Só
vestia roupas espanholas, cortadas pelos melhores alfaiates, e há
muito tempo deixara de pagar o aluguel de sua casa. Os fidalgos não
vão à prisão por causa das suas dívidas, mas Alonso foi parar na
cadeia, denunciado pelos alfaiates, os joalheiros e os chapeleiros e
os fabricantes de luvas mais importantes de Madrid. Tampouco tinha
pago a escultura que sua família está colocando agora, entre
grinaldas de ouro, no dourado altar.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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