10/09/2023

Hollywood | 25


Passaram-se vários dias. Eu não fazia grande coisa, apenas ia às corridas, voltava e brincava com o poema. Trabalhava em três áreas: o poema, o conto e o romance. Agora, com o argumento, eram quatro. Ou não eram? Sem o filme, seria eu um escritor de argumentos? Jim Beam não estava dançando.
Aí Jon ligou.
– Como vão os cavalinhos?
– Vão muito bem. Escuta, como está você, aliás?
– Eu estou bem... só queria contar pra você o que aconteceu.
– Sim?
– Bem, depois do cancelamento, a primeira coisa que François e eu fizemos foi tomar um porre de dois dias e duas noites...
– Uma lavagem, certo?
– Certo. Depois disso fui ao prédio da Firepower, numa tentativa de ver Friedman e descobrir por que ele cancelou o filme. Foi um choque pra mim.
– Pra mim também.
– Fui até lá. O guarda não quis me deixar entrar. Evidentemente, Friedman tinha dado ordens pra que eu não visse ele.
– Filho da puta.
– É, ele é às vezes. De qualquer modo, fui pela outra entrada, tem duas...
– É, eu sei.
– Eu conheço o advogado deles. Disse ao guarda que ia falar com o advogado, e ele me deixou entrar. Mas não fui ver o advogado, fui ao gabinete de Friedman e entrei direto.
– Boa.
– Friedman levantou a cabeça e me viu. Disse: “Ora, olá, Jon, como vai você?”. Eu disse que estava ótimo. Decidi não perguntar por que ele cancelara o filme. Isso era lá com ele mesmo. Por isso disse: “Você vai arranjar outra pessoa pra esse filme?”. Ele perguntou: “Você tem mais alguém?”. Eu disse que não tinha. Depois disse: “Nós vamos arranjar alguém. E quando arranjarmos, quero sua palavra sobre uma coisa”. “Qual?”, ele perguntou. “Bem, quando arranjarmos alguém, vamos fazer com que paguem a você todas as suas despesas até agora com a pré-produção.” “Ótimo”, ele disse. “Mas”, eu disse, “quero sua palavra de que deixará o filme seguir em frente sob essas condições, e de que a Firepower não exigirá pagamentos adicionais.” “Ótimo”, disse Friedman, “vá em frente. Arranje outra pessoa. Eu concordo com os termos. E boa sorte pra você.”
– E ficou nisso?
– Ficou, apertamos as mãos e eu saí. Acredito que ele ficou encantado com a possibilidade de recuperar os custos de pré-produção.
– Agora a gente só tem de arranjar alguém.
– Já temos...
– Quê?
– Sabe, o tempo todo em que negociamos com a Firepower, mesmo depois deles assinarem o contrato pra fazer o filme, a gente procurava em segredo outros produtores. Jamais confiamos muito na Firepower. Assim, quando um dos outros produtores descobriu que o filme tinha sido cancelado, pulou dentro.
– Oh, quem são essas pessoas?
– É Edleman, um GRANDE operador imobiliário do leste. O homem dele na costa oeste é Sorenson. A gente checou tudo. O dinheiro está lá, é concreto. E eles dizem: “Sim, nós temos o dinheiro. Sim, a gente quer fazer o filme. Vamos fazer”.
– Tem certeza de que esses caras são legais?
– O dinheiro está lá. Eles estão estabelecidos. Nós estamos numa melhor do que com a Firepower. E eles adoram o argumento e os atores. Estão prontos pra rolar. Estamos tratando da documentação. Assinamos quinta-feira à tarde.
– Lindo, Jon. Estou feliz por você. Por mim também.
– A gente faria o filme de qualquer jeito. Eu estava decidido. Mas agora podemos fazer imediatamente.
– Estou orgulhoso de você, Jon.
– Mantenho você informado. Tchau.
– Faça isso. Tchau, Jon…

O telefonema seguinte foi uns dois dias depois.
– Filho da puta!
– Qualé, ô?
– A Firepower voltou atrás! Eles sabem de Edleman e Sorenson. AGORA ESTÃO EXIGINDO ENTRE 500 E 750 MIL DÓLARES A MAIS!
– QUÊ?
– Friedman voltou atrás em sua palavra. Chamei ele no telefone, disse: “Mas você me disse que não ia pedir nada mais! Você me deu sua palavra!”
– Que foi que ele disse?
– Não disse nada. Desligou. Agora não consigo entrar em contato com ele. Não atende meus telefonemas. Vou fazer uma GREVE DE FOME!
– Quê?
– UMA GREVE DE FOME! Pego minha garrafa d’água e uma cadeirinha baixa e vou me sentar na frente da Firepower e me matar de fome!
– Agora?
– É, estarei lá dentro de dez minutos!
– Não tá falando sério...
– Claro que tou falando sério!
Quando passei de carro, lá estava Jon Pinchot sentado defronte do prédio, em sua cadeirinha baixa. Tinha a garrafa d’água. E um cartaz em letras grosseiras:

GREVE DE FOME!
A FIREPOWER É
O PODER DA MENTIRA!

Estacionei e fui até ele. Quatro ou cinco pessoas o fitavam. Eu me ajoelhei ao lado dele.
– Escuta, Jon. Vamos esquecer essa porra desse filme. Eu devolvo seu dinheiro. Não preciso dele tanto assim. Vamos acabar com essa merda e tomar um porre em algum lugar, hum?
Jon enfiou a mão no bolso e me entregou um pedaço de papel.
– Dei um jeito de mandar entregar isso por mensageiro a Harry Friedman. Ele recebeu. Isso aí é uma cópia. – E ele puxou outro papel. – Aqui está o acordo de liberação.
Li o primeiro papel que ele tinha me entregue:

Caro Harry:
Aqui estão as duas alternativas que eu lhe disse pelo telefone. Como vê, são ambas aceitáveis por mim. Acredite-me, quando eu sugiro uma solução em que não ganho dinheiro algum, isso não é só para salvar o projeto, mas também porque eu gosto de você, muito mais do que você pode imaginar.
Tudo bem, agora você decide. Por favor, decida rápido, porque eu tenho Edleman, que está pronto a assumir o filme e todas as obrigações em todos os contratos. Se Edleman, que está disposto a assumir o filme imediatamente, não tiver esse pedaço de papel (Solução nº 1 anexa) assinado por você até quinta-feira à tarde, não poderá iniciar a produção no dia 19. Dez pessoas importantes precisam ser contratadas antes disso. O que nos deixa só terça e quarta para que Edleman assuma o filme. Se não se fizer isso, perderemos Jack Bledsoe como principal ator e você perderá cerca de um milhão de dólares. Isso é suicídio para qualquer um, pelo menos financeiramente. Mas tenho de ir mais um passo à frente, como se segue: se meu filme não estiver liberado por você amanhã de manhã, às nove horas, como você me prometeu, a Solução nº 2 é que começarei a cortar pedaços de meu corpo e mandá-los em envelopes para você, todos os dias. Estou falando sério. Você não pode se dar o luxo de esperar nem mais um dia. É UMA QUESTÃO DE VIDA OU MORTE PARA O FILME.
Com amor,
Jon

O outro pedaço de papel tinha o título Solução nº 1 e começava:

EMENDA AO ACORDO DE LIBERAÇÃO DOS
SERVIÇOS DE DIREÇÃO DE JON PINCHOT

Tendo sido escrito por um advogado, era quase ilegível, mas parecia exigir que Friedman liberasse o filme para Edleman e ficasse com o dinheiro que seria de Jon.
Devolvi os papéis a ele.
– Qual é a Solução nº 2?
– O corte dos pedaços.
– Chama isso de solução?
– Acho que se podia chamar de resolução.
– Você não vai fazer isso?
– Vou, sim. É só o que eu sei.
– Você está doido.
– Não. Não. Mas venha comigo. Preciso me preparar.
– Preparar?
– É.

Estávamos no carro de Jon.
– Já tenho a primeira parte do que preciso. O anestésico. Sabe, tive de ir ao médico por causa de uma unha do pé encravada. Ele operou. E me deu o anestésico para depois. Funcionou sensacionalmente...
– Aonde vamos?
– Você vai ver. De qualquer modo, tive de voltar pra verificar a unha. Disse ao médico: “Aquele anestésico foi sensacional, durou dez horas. Me fale sobre ele”. Ele me falou. Depois eu perguntei: “Eu posso ver?”. Ele me levou ao seu armarinho de remédios e mostrou o tal. “Muito interessante”, eu disse. A gente conversou mais um pouco, e eu saí. Mas tinha uma mochila comigo, uma pequena mochila de viagem. Deixei ela junto do armarinho de remédios. Depois que saí do consultório, voltei. “Oh”, disse à recepcionista, “esqueci minha mochila.” Entrei pra pegar e não tinha ninguém por perto. Abri o gabinete e peguei o anestésico.
– Você não pode fazer isso – eu disse a Jon.
– Eu TENHO que – ele respondeu.
Estávamos numa ferragem.
– Sim? – disse o balconista.
– Eu quero uma serra – disse Jon. – Uma motosserra.
O vendedor dirigiu-se a um mostruário de parede e voltou com o aparelho laranja.
– Esta é uma Black and Decker, uma das melhores que temos.
– Onde se põe a lâmina? – perguntou Jon. – Como se põe?
– Oh, é muito fácil – disse o vendedor. Pegou uma lâmina e encaixou-a.
Jon olhou-a. A lâmina tinha dentes muito grandes.
– Humm – disse Jon –, não é essa exatamente a lâmina que eu procurava.
– Que tipo de lâmina você quer? – perguntou o vendedor.
Jon pensou um momento. Depois disse:
– Uma pra cortar pequenas peças de madeira. Madeira dura.
– Oh – disse o vendedor –, que tal esta?
Encaixou a nova lâmina. Tinha dentes finos, muito juntos, afiados.
– É – disse Jon –, é essa que eu quero. Essa serve.
– Dinheiro ou cartão de crédito? – perguntou o vendedor.

De volta ao carro, e voltando para retomar a greve de fome, perguntei a Jon:
– Não vai realmente fazer isso, vai?
– Claro. Vou começar com o dedo mindinho da mão esquerda. Pra que serve ele mesmo?
– É o que a gente usa para bater a letra “a” na máquina de escrever.
– Eu bato sem usar a letra “a”.
– Escuta, amigo, não há nenhuma maneira de dar meia-volta nessa coisa e esquecer tudo?
– Não. De jeito nenhum.
– E você vai estar lá às nove da manhã?
– No escritório do advogado dele. Ligarei a máquina. E farei a coisa se ele não liberar o filme.
Eu acreditava. Era como ele dizia: uma simples declaração de um fato, sem sobretons melodramáticos.
– Você me espera antes de entrar no escritório do advogado?
– Espero, mas você tem de chegar na hora. Vai chegar na hora?
– Estarei lá na hora – eu disse.
Voltamos à Firepower.

Charles Bukowski, in Hollywood

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