22/04/2018

Namorados

— Foi neste quarto. Exatamente neste quarto.
— Você está doido.
— Aposto o que você quiser.
— O quarto estaria o mesmo, tanto tempo depois?
— Algumas coisas mudaram, mas olha a vista. A vista é a mesma.
— Como você sabe? A última coisa que queria fazer, naquele dia, era olhar a vista.
— Acho que eu estou me lembrando até do número. Era o 703. Tenho certeza.
— Tá sonhando.
— Lembra que você trouxe uma sacola com pijama? Achei aquilo maravilhoso. Em vez de uma camisola, ou de nada, um pijama de flanela azul.
— Que no fim eu nem usei.
— Tomamos banho juntos, lembra? Antes e depois.
— Foi a primeira vez que vi você nu. E quis me casar assim mesmo.
— Olha o banheiro. Igualzinho. Era o 703!
— Que ideia, vir para o mesmo hotel, tantos anos depois...
— E acabar no mesmo quarto! O que você está fazendo?
— Ligando pra casa. Pra ver se está tudo em ordem.
— Não vá dizer onde nós estamos.
— Vou. Vou dizer “Olha, seu pai quis passar o Dia dos Namorados no mesmo hotel em que dormimos juntos pela primeira vez”.
— Você trouxe os meus remédios?
— Trouxe. Estão na sacola, junto com os meus. Aliás, na sacola só tem remédios.
Mais tarde:
Ela: — Você não vem pra cama?
Ele: — Já vou. Estou olhando a vista.
Luís Fernando Veríssimo, in Amor veríssimo

Nenhum comentário:

Postar um comentário