28/04/2025

Darl


Pai está em pé ao lado da cama. Por trás de sua perna, Vardaman espia, com a cabeça redonda e os olhos redondos e a boca que começa a se abrir. Ela olha Pai: parece que toda a sua débil vida flui para os olhos, urgente, irremediavelmente. “É Jewel quem ela quer ver”, diz Dewey Dell.
Ora, Addie”, diz Pai, “ele e Darl foram apanhar outro carregamento. Julgaram que haveria tempo. Que você esperaria por eles, e que esses três dólares, afinal...”
Inclina-se e põe a mão na mão dela. Por um Instante ela o olha, sem censura, sem nada, como se os olhos apenas aguardassem o momento de ouvir a irrevogável cessação da voz dele. Em seguida, soergue-se, ela que não se move há dez dias. Dewey Dell debruça-se sobre a cama, tentando fazer com que se deite.
Mãe”, ela diz, “Mãe.”
Está olhando pela janela, para Cash que, inclinado com determinação sobre o cavalete, à luz desfalecente, trabalha quase no escuro, e entra no escuro como se o golpe da serra iluminasse seu próprio movimento engendrado pela tábua e pela serra.
Cash!”, ela grita com voz áspera, forte, inalterada. “Escute, Cash!” Ele levanta o olhar para o rosto consumido que o crepúsculo emoldura na janela. O mesmo quadro desde os seus tempos de criança, Ele pousa a serra e ergue a tábua para que ela a veja, olhando a janela do onde o rosto não se move. Levanta outra tábua e junta as duas, em sua final justaposição, apontando para as tábuas que ainda estão no solo, e modelando, com a mão vazia, em pantomima, o caixão, quando estiver pronto. Durante mais um pouco ela olha para ele, do quadro composto pela janela, .sem censura ou aprovação. Depois, o rosto desaparece.
Ela se deita novamente e vira a cabeça, sem um olhar de relance, sequer, para Pai. Olha Vardaman; seus olhos, a vida neles, a vida que ainda tem, ali se concentra; os dois clarões luzem por um rápido instante, e depois se apagam, como se alguém, tendo se inclinado, houvesse soprado.
Mãe”, diz Dewey Dell, “Mãe!”
Inclinada sobre a cama, as mãos um pouco erguidas, o leque ainda agitando-se, como há dez dias, ela começa a lamuriar-se. Sua voz é forte, juvenil, trêmula e clara, arrebatada por seus próprio timbre e volume; ainda agita, o leque com firmeza, para cima e para baixo, sussurrando no ar inútil. Depois, ela cai sobre os joe lhos e Addie Bundren, e agarrando-a, sacode-a com a furiosa força dos jovens, antes de estender-se, de súbito, sobre o punhado de ossos corroídos que resta de Addie Bundren, abalando a cama com o silvo rangente do colchão, os braços estendidos e o leque, numa das mãos, ainda a bater, com um sopro expirante, no cobertor.
Por trás da perna de Pai, Vardaman espia, de boca bem aberta e a cor fluindo do rosto para a boca, como se, de certo modo, houvesse cravado os dentes em si mesmo, sugando. Começa a se afastar vagarosamente da cama, os olhos redondos, o rosto pálido desmaiando no crepúsculo qual pedaço de papel colado a uma parede arruinada, e sai pela porta.
Pai inclina-se para a cama; ao crepúsculo sua silhueta encovada assemelha-se ao aspecto eriçado, descontente, de um mocho que disfarça uma sabedoria por demais profunda, ou por demais inerte para ser, sequer, concebida.
Meninos danados”, ele diz.
Jewel, eu digo. Por cima, o dia definha, monótono e cinzento, escondendo o sol atrás de uma nuvem de lanças cinzentas, As mulas fumegam um pouco, sob a chuva, amarelecidas pelos respingos de lama, e a da direita, apesar de escorregar, mantém se na estrada, acima da valeta. A carga de madeira despede um brilho amarelo-escuro, empapado , de água e pesado como chumbo, inclinado de banda, para a valeta, por sobre a roda quebrada; em volta dos raios entrançados e em volta dos tornozelos de Jewel, um fio grosso de água e amarelo, nem água nem terra, gira, seguindo a estrada amarela, nem água nem terra, desce pela encosta em forma de massa dissoluta, verde-escuro, nem água nem céu. Jewel, eu digo Cash aparece à porta, de serra na mão. Pai continua em pé, ao lado da cama, curvado, os braços pendentes. Volta a cabeça; seu perfil gasto e seu queixo desaparecem devagar, enquanto ele comprime o fumo contra as gengivas.
Findou-se”, diz Cash.
Foi embora e nos deixou”, diz Pai. Cash não o olha. “Falta muito para acabar o trabalho?", pergunta Pai. Cash não responde- Entra carregando a serra. "Ê melhor acabar o trabalho", diz Pai. "Você tem de caprichar, agora que os rapazes estão a caminho." Cash pousa os olhos no rosto du mãe. Não ouve Pai de forma nenhuma. Não se aproxima da cama. Para no meio do quarto, a serra contra a perna, os braços suados polvilhados de serragem, o rosto grave. "Se estiver apertado, talvez alguém venha amanhã dar-lhe ajuda", diz Pai. "Vernon, por exemplo." Cash não está ouvindo. Olha o rosto da mãe, pacificado e rígido, esmaecendo ao crepúsculo como se as sombras se antecipassem à última terra, até que, por fim, o rosto parece flutuar, destacado de si mesmo, leve como o reflexo de uma folha morta. "Não faltam bons cristãos para ajudar você", diz Pai. Cash não escuta. Depois de algum tempo, vira-se sem olhar Pai e deixa o quarto. Depois, a serra começa a roncar novamente. "Vão nos ajudar em nossa desgraça", diz Pai.
O som da serra é firme, competente, sereno; agita a claridade mortiça, de forma que, a cada golpe, o rosto da morta parece despertar um pouco, em expressão de atenção e espera, como se ela estivesse contando os golpes. Pai baixa o olhar para o rosto, junto aos cabelos pretos e esparramados de Dewey Dell que, de braços abertos, tem o leque agora imóvel sobre o cobertor descorado. “Acho que é melhor você preparar o jantar”, ele diz.
Dewey Dell não se move.
Levante-se, já e já, e vá servir o jantar”, diz Pai. “Temos de manter as forças. O Dr. Peabody deve estar faminto por causa da caminhada, E Cash terá de comer ligeiro e voltar ao trabalho a fim de terminar tudo a tempo.” Dewey Dell levanta-se com dificuldade. Contempla o rosto da morta. Ele parece um molde de bronze pálido sobre o travesseiro somente nas mãos um ligeiro vestígio de vida: uma inércia encrespada, nodosa; um aspecto de coisa gasta, mas ainda vigilante, do qual ainda não saíram a preocupação, a fadiga, o trabalho, como se duvidassem ainda da realidade do repouso, guardando com penosa e eriçada vigilância a imobilidade que bem sabem não pode durar.
Dewey Dell inclina-se, puxa o cobertor debaixo das mãos e estende-o ate o queixo, alisando-o, estirando-o até que fique bem macio. Depois, sem olhar Pai, ela contorna a cama e sai do quarto.
Vai ao encontro de Peabody, a um lugar onde passa, em pé a penumbra, fitar-lhe as costas com tal expressão que, sentindo seus olhos e voltando-se, ele dirá: “Não fique as sim tão desgostosa. Ela era velha e estava doente. Sofria mais do que se podia imaginar Não ia ficar boa. Vardaman está crescendo e, como você, tomará conta de todos. Eu, em seu lugar, não ficaria tão desgostoso. Acho que é melhor ir aprontar o jantar. Não preciso fazer muita coisa. Mas eles têm de comer”. E ela, olhando-o, parece dizer: “O senhor bem que podia me ajudar, se quisesse. Se soubesse. Eu sou eu e o senhor é o senhor e eu sei e o senhor não sabe e o senhor podia fazer muito por mim se quisesse e se o senhor quisesse então eu lhe contaria e então ninguém precisaria ficar sabendo exceto o senhor e eu e Darl”.
Pai está em pé ao lado da cama, de braços pendentes, encurvado, imóvel. Leva a mão à cabeça, puxa o cabelo, ouvindo a serra. Aproxima-se e esfrega a mão, a palma e as costas da mão na coxa, e depois põe a mão no rosto e no dorso do cobertor, onde estão as mãos dela. Toca o cobertor como viu Dewey Dell fazer, tentando alisá-lo até o queixo, mas, em vez disso, enrugando-o. Procura alisá-lo de novo, desajeitadamente; a mão trapalhona como uma garra alisa as rugas que ele fez e que continuam a emergir debaixo da mão, com perversa ubiquidade, de forma que, por fim, ele desiste; a mão tomba na ilharga e ele volta a esfregar palma e costas da mão na coxa. O som da serra ronca com firmeza dentro do quarto. Pai respira com um som tranquilo e rascante, mastigando o tabaco contra as gengivas. "Seja o que Deus quiser", diz. "Agora posso comprar a dentadura." O chapéu de Jewel pende mole sobre seu pescoço, escorrendo água sobre o empapado saco de aniagem amarrado ao ombro, enquanto ele, enterrando os pés na valeta lamacenta, levanta o eixo com um pedaço de pau escorregadio e podre, que usa como alavanca. Jewel, eu digo, ela está morta, Jewel. Addie Bundren morreu.

William Faulkner, em Enquanto agonizo

27/04/2025

Flávio Venturini Feat. Frejat | Mais Uma Vez

Começo do mundo

É verdade, o túmulo é mais poderoso que os
olhos da pessoa amada. Um túmulo aberto, com todos
os seus ímãs. E eu digo isso para você, você que quando
sorri me faz pensar no começo do mundo.

Vicente Huidobro, em Altazor

Aventuras Naturais

Uma vez O cineasta Geraldo Sarno, que é muito natural embora não pareça, me levou para almoçar num restaurante natural e saí de lá deprimido, levei dois dias para me recuperar. Quanto a ele, garantiu-me que adorava aquilo tudo, apesar de comer com o mesmo ar funéreo dos demais presentes. Pior do que essa experiência acabrunhante, só a que tive num restaurante macrobiótico de Salvador, ao qual concordei que me levassem num momento de insensatez e que me deixou abaladíssimo — aqueles mastigadores obstinados, aquela aura de expiação de pecados através de penitências alimentares, aquela atmosfera pálida e astênica.
Desconfiado, diria mesmo que intimidado, perguntei se não havia qualquer coisinha para beber e responderam que havia, claro que havia. Maravilhoso, que podia ser, então?
Dependia da minha preferência. Ah, sim, nesse caso, que sugeriam? Com revoltante cinismo, o falso amigo que me levou a esse lugar desfiou um rosário horripilante de possibilidades, a começar por suco de espinafre (que nunca vi, mas considero imoral por definição) e terminando por suco de beldroega, que não sei o que é mas tampouco soa como algo decente. Perguntei se não havia água, então, uma agüinha mineral. Mineral não, responderam com desdém, temos água descansada.
Água descansada? Descansada?
Sim, água descansada.
E essa água descansada é diferente da água comum? Quer dizer que normalmente bebo água cansada? Isso é mau?
De certa maneira, você bebe água cansada, sim, pode-se dizer isso. Água misturada com aditivos nocivos, talvez poluída, esterilizada através de meios violentos e antinaturais como a filtragem e a fervura.
A daqui não é filtrada nem fervida?
Claro que não. É água natural, de uma fonte límpida, que deixamos decantando em vasos de cerâmica especial. Descansando, portanto.
Fantástica água. Será que eu posso beber um copo d’água geladinha?
Geladinha não temos.
Por quê? Gelar cansa a água?
Não é natural beber água gelada, é outra violência que se comete contra o organismo. Além disso, o senhor não devia beber água às refeições, não é bom, talvez um chá, temos chás excelentes.
De beldroega?
Se o senhor quiser. Mas temos de tília, de...
Não, não, esqueça, tudo bem, eu espero a comida.
Não sei por que resolvi esperar, devia ter fugido antes, inclusive porque, de outra ponta da sala, como um espectro ossudo, aparece um outro amigo meu, que por sinal não reconheci na mesma hora. Macilento, de uma cor parda indefinida, gestos fluidos, voz aflautada, cumprimentou-me festivamente. Que alegria eu lhe dava, aparecendo ali, vendo finalmente o caminho da saúde, da felicidade e da paz de espírito.
Nunca tive tanta saúde — disse, com um sorriso de múmia.
Você não está me achando bem?
Hein? Sim, muito bem, está muito bem mesmo.
Pois é — disse ele, os olhos muito protuberantes no rosto escaveirado. — Sinto-me uns 10 a 15 anos mais moço.
Embora pareça uns 40 mais velho”, pensei eu, mas não disse, até porque estava chegando a comida. Ao contrário do que acontece quando a comida chega em circunstâncias normais, ninguém esfregou as mãos, lambeu os beiços, sorriu ou lançou um olhar satisfeito sobre os pratos. Ao contrário, criou-se um clima contido e grave, piorado no meu caso pela dor nas costas que me dá sentar em almofadas no chão, o que também me deixa sem saber o que fazer com as pernas. Mas, de fato, a comida não mereceria outro tipo de recepção que não aquele velório.
Que é isto aqui? — perguntei a um dos amigos, apontando uma massa de cor repelente e consistência suspeita.
Isto é arroz, arroz integral. Receita da casa, os donos são gênios culinários.
Com certeza, conseguem vender esse negócio e o pessoal ainda paga e agradece.
Hein?
Nada, não. Arroz, hein? Quem diria, assim à primeira vista eu pensei que era papa de alpiste com goma arábica.
Ha-ha, mas é arroz. É uma delícia, experimente.
Está certo. Acontecendo alguma coisa, avise à família.
Hein, que tal? Hein? Não! Não!
Não o quê? O que foi, eu estou pálido? Estou roxo?
Não é isso, você não mastigou.
Mastiguei, sim. Não havia muito o que mastigar, mas mastiguei.
Nada disso, você tem de mastigar pelo menos 50 vezes.
Cinquenta vezes? É por isso que ninguém fala aqui, todo mundo contando as mastigadas?
Não é preciso que sejam rigorosamente 50 mastigadas. Mas essa é a média para que você consiga liquidificar a comida na boca.
Se é assim, então por que não passam tudo logo no liquidificador?
Não, tem de ser feito na boca. Deve-se mastigar até a água.
Cinquenta vezes cada gole?
Mais ou menos.
Na saída, com os maxilares destroncados e a sensação de que tinha comido vento moído, refugiei-me imediatamente num boteco da esquina, comi um sanduíche de pernil e jurei romper relações com o primeiro que me levasse à macrobiótica ou à naturalidade ou a qualquer coisa correlata. Mas o destino é irônico. Não é que minha filha Chica, que recentemente colheu a primeira flor no jardim de sua existência, com 13 quilos e físico de lutador de sumô, é metida a natural? Com essa idade, vejam vocês, já é toda natural, não come carne, é cheia de novidades. Altas preocupações na família, grandes leituras do dr. Spock e do dr. Delamare — essa menina precisa comer proteínas, carboidratos e lipídios.
Mas o preparo físico dela (se houvesse recorde infantil para levantamento de peso, essa medalha já estava no papo) demonstra que alguma coisa dá certo na dieta dela. Como será que ela obtém as tão faladas proteínas? A resposta, como outras grandes descobertas, veio por acaso. Aqui em Itaparica tivemos também uma praga de grilos, uma infestação generalizada, grilo por tudo quanto era canto. Em nossa casa, contudo, a infestação era mais moderada que em outros lugares. Por quê? Eis que, observando Chica brincando no chão, noto que ela pegou alguma coisa que pôs na boca.
Que é isso aí na boca? Tire isso da boca!
Tarde demais. Mastigando com grande prazer gastronômico, Chica acabara de jantar um grilo ao primo cri-cri. Só consegui puxar uma perninha, já mastigadinha.
Mulher! — gritei lá para dentro. — Chica comeu um grilo!
São João Batista também comia — disse ela.
Mas você acha certo esse negócio de Chica comer grilo?
Não posso fazer nada, isso nem é a pior coisa que ela já comeu. Você quer saber o que eu já peguei ela comendo? Ela...
Não, não diga, não diga, eu já sei!
Bem, é proteína, isso ninguém pode negar. Dobramos a vigilância, mas Chica consegue traçar uns dois grilos por dia, no mínimo. E a verdade é que tudo na vida pode ser visto por um ângulo favorável. Outro dia mesmo, quando Zé de Honorina estava lá em casa para tomar um cafezinho, observou que tínhamos bem menos grilos do que as outras casas da ilha.
Que é que você faz, usa muito inseticida? — perguntou ele.
Não. Nós usamos controle biológico — respondi, olhando para minha filha orgulhosamente.

João Ubaldo Ribeiro, em O rei da noite

O Impressionismo de Manet

No Conservatório (1879), de Édouard Manet

1563 – Forte de Arauco

A história que será

O cerco afoga. Neste forte de fronteira, duas vezes queimado e renascido, quase não resta água. Logo haverá que beber o pouco que se mija. Tantas flechas caíram dentro que os espanhóis as usam como lenha para cozinhar.
O chefe dos araucanos se aproxima, a cavalo, até os pés da muralha:
Capitão! Me escutas?
Lorenzo Bernal aparece lá no alto.
O chefe indígena anuncia que rodearão a fortaleza com palha e acenderão o fogo. Diz que não deixaram homem com vida em Concepción.
Que nada! – grita Bernal.
Renda-se, capitão! Não tem saída!
Que nada! Nunca!
O cavalo fica em pé em duas patas.
Então, vão morrer!
Pois morreremos – diz Bernal, e grita: “Mas com o tempo ganharemos a guerra! Seremos cada vez mais!”
O índio responde com uma gargalhada.
Com que mulheres? – pergunta.
Se não há espanholas, teremos as vossas – diz o capitão, lento, saboreando, e acrescenta:
E nelas faremos filhos que serão vossos amos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Estrelas e santos


Espera, me deixa explicar…
A vida inteira eu me vi nesse tipo de situação, como naquele dia com o psiquiatra. Ele estava hospedado no chalé atrás da minha casa enquanto a sua casa nova passava por uma reforma. Parecia muito simpático, além de bonito, e claro que eu queria causar uma boa impressão; pensei até em levar uns brownies para ele, mas não queria que ele me achasse oferecida. Uma manhã, logo depois do amanhecer, como de costume, eu estava tomando café e olhando pela janela para o meu jardim, que estava lindo naquela época, com ervilhas-de-cheiro, delfínios e cosmos. Eu estava sentindo, bem, eu estava sentindo uma enorme alegria… por que hesito em te contar isso? Não quero que você me ache boba, quero causar uma boa impressão. Enfim, eu estava feliz e joguei um punhado de alpiste no deque lá fora, depois fiquei sentada, sorrindo sozinha enquanto dezenas de rolinhas e tentilhões vinham voando para comer o alpiste. De repente, num relâmpago, dois gatos enormes saltaram para o deque e começaram a estraçalhar os passarinhos, penas voando para todo lado, justo na hora em que o psiquiatra estava saindo pela porta do chalé. Ele olhou para mim, chocado, disse “Que horror!” e foi embora. Depois daquela manhã, ele passou a me evitar completamente, e não era imaginação minha. Não havia jeito de explicar que tudo tinha acontecido rápido demais, que eu não estava sorrindo porque os gatos estavam devorando os passarinhos. É que a minha alegria com as ervilhas-de-cheiro e os tentilhões não tinha tido tempo de murchar.
Até onde me lembro, eu sempre causei uma péssima primeira impressão. Como naquela vez em Montana em que o que eu estava tentando fazer era só tirar as meias de Kent Shreve para a gente ficar descalço, mas elas estavam presas às ceroulas dele. Mas o que eu queria falar mesmo é da escola St. Joseph’s. Sabe, os psiquiatras (por favor, não me entenda mal, eu não sou obcecada por psiquiatras nem nada disso)… é só que tenho a impressão de que os psiquiatras se concentram demais na cena primária e na privação pré-edipiana e ignoram o trauma da escola e das outras crianças, que são cruéis, secas, impiedosas.
Não vou nem mencionar o que aconteceu na Vilas, a primeira escola que frequentei em El Paso. Um grande mal-entendido do início ao fim. Então, dois meses depois de iniciado o ano letivo, na terceira série, lá estava eu no pátio em frente à St. Joseph’s. Minha nova escola. Absolutamente apavorada. Eu tinha pensado que usar uniforme fosse ajudar. Só que o problema era o trambolho que eu tinha nas costas, um colete de metal para corrigir o que chamavam de curvatura, mas que era, vamos encarar os fatos, uma corcunda. Então, eu tive que comprar uma blusa branca e uma saia xadrez de um tamanho muito maior do que o meu para poder vesti-las por cima do colete, e claro que nem passou pela cabeça da minha mãe fazer pelo menos uma bainha na saia.
Outro grande mal-entendido. Meses mais tarde, a irmã Mercedes estava encarregada de monitorar o hall. Ela era aquele tipo de freira jovem e doce que devia ter tido um caso amoroso trágico. Ele provavelmente tinha morrido na guerra, num avião bombardeiro. Quando estávamos passando por ela em fila, duas a duas, ela pôs a mão na minha corcunda e disse baixinho: “Minha querida, você tem uma cruz para carregar”. Ora, como ela poderia saber que eu tinha me transformado numa fanática religiosa àquela altura, que aquelas suas palavras inocentes só iriam confirmar a minha suspeita de estar predestinada a me unir ao Nosso Salvador?
(Ah, e as mães. Outro dia mesmo, no ônibus, uma mãe entrou com o filho pequeno. Ela obviamente trabalhava fora, tinha acabado de pegar o filho na escola maternal, estava cansada, mas feliz de vê-lo, e perguntou como tinha sido o dia dele. O menino contou a ela todas as coisas que ele havia feito. “Você é tão especial!”, ela disse e o abraçou. “Especial quer dizer que eu sou retardado!”, disse o menino. Lágrimas enormes brotaram de seus olhos e ele ficou lá sentado, com uma expressão de pânico no rosto, enquanto a mãe continuava sorrindo exatamente como eu no episódio dos passarinhos.)
Aquele dia no pátio eu tive a certeza de que nunca na vida ia conseguir me enturmar. Não falo da coisa de se adequar, mas de se enturmar. Num canto do pátio, duas meninas giravam uma corda grossa e pesada e, uma a uma, lindas meninas de bochechas rosadas saíam da fila correndo para pular sob a corda, pulavam, pulavam e saíam de novo na hora exata, depois voltavam para a fila. Vapt, vapt, ninguém perdia uma única batida. No meio do pátio havia um balanço redondo, com um assento circular que girava vertiginosa e alegremente sem nunca parar, mas crianças risonhas saltavam para subir ou descer dele sem… não só sem cair, mas sem sequer titubear. Ao meu redor no pátio, em todo canto, havia simetria, sincronia. Duas freiras, as contas do rosário estalando em uníssono, os rostos lavados se virando para cumprimentar as crianças como se fossem um só. O jogo das pedrinhas. A bola quicando no cimento com um baque seco, as doze pedrinhas voando para o alto e agarradas todas de uma vez com o giro de um pequeno pulso. Tapa, tapa, tapa, outras meninas faziam complicadas brincadeiras de bater as mãos. Era uma vez um pequeno holandês. Tapa, tapa. Fiquei circulando, não só incapaz de me enturmar, mas aparentemente invisível, o que era um misto de bênção e maldição. Fugi para a lateral do edifício, onde ouvi ruídos e risos vindos da cozinha da escola. Foi ali que me escondi do pátio; os barulhos amistosos que vinham lá de dentro me tranquilizavam. Mas eu também não podia entrar lá. Pouco depois, no entanto, ouvi gritos e brados e uma freira dizendo “Ah, eu não consigo, eu simplesmente não consigo”, e concluí que eu poderia entrar, porque o que ela não conseguia fazer era tirar os ratos mortos das ratoeiras. “Eu faço isso”, eu disse. E as freiras ficaram tão contentes que não disseram nada sobre o fato de eu estar na cozinha, embora uma delas tenha cochichado “Protestante” para a outra.
E foi assim que começou. Além disso, elas me deram um pãozinho, quente e delicioso, com manteiga. Claro que eu tinha tomado café da manhã, mas o pãozinho era tão delicioso que eu o devorei num instante e elas me deram outro. Então, todo dia, em troca de esvaziar e rearmar duas ou três ratoeiras, eu ganhava não só pãezinhos, mas também uma medalha de são Cristóvão, que eu usava mais tarde como ficha para comprar lanche. Isso me poupava do embaraço de entrar na fila, antes de a aula começar, para trocar moedas pelas medalhas que serviam como fichas para o lanche.
Por causa das minhas costas, as freiras deixavam que eu ficasse na sala durante a aula de educação física e o recreio. Era só de manhã cedo que era difícil, porque o ônibus chegava lá antes da hora em que o portão do prédio era aberto. Eu me forçava a tentar fazer amizade, a puxar conversa com meninas da minha turma, mas era inútil. Todas elas eram católicas e se conheciam desde o jardim de infância. Eram, justiça seja feita, boas meninas, meninas normais. Eu estava adiantada na escola e, portanto, era bem mais nova do que elas. Além disso, só tinha morado em campos de mineração remotos antes da guerra. Não sabia dizer coisas como “Você gosta de estudar o Congo Belga?” ou “O que você gosta de fazer no seu tempo livre?”. Chegava perto delas de repente e disparava: “O meu tio tem um olho de vidro”. Ou “Uma vez eu encontrei um urso morto com a cara cheia de larvas”. Elas me ignoravam, davam risadinhas ou diziam “Quem mente o nariz cresce!”.
Então, durante algum tempo eu tive um lugar para ir antes das aulas. Eu me sentia útil e valorizada. Mas depois comecei a ouvir as meninas sussurrarem “bolsista carente” e “protestante” quando me viam e, passado um tempo, elas começaram a me chamar de “menina da ratoeira” e “Minnie Mouse”. Eu fingia não ligar e, além do mais, adorava a cozinha, o riso suave e os murmúrios das freiras cozinheiras, que usavam batinas rústicas, parecidas com camisolas, na cozinha.
Claro que a essa altura eu tinha decidido me tornar freira, não só porque elas nunca pareciam ficar nervosas, mas principalmente por causa das batinas pretas e das toucas brancas, que pareciam enormes flores de lis brancas e engomadas. Aposto que a Igreja católica perdeu uma porção de aspirantes a freiras quando elas começaram a se vestir como guardas femininas comuns. Então, a minha mãe resolveu fazer uma visita à escola para saber como eu estava me saindo. Elas disseram que o meu desempenho nos trabalhos de classe era excelente e o meu comportamento, perfeito. A irmã Cecilia disse que elas eram muito gratas a mim na cozinha e sempre zelavam para que eu tomasse um bom café da manhã. Minha mãe, a esnobe, com aquele seu casaco velho e xexelento que tinha uma gola de raposa xexelenta cujos olhos de conta tinham caído, ficou chocada, enojada com a história dos ratos e furiosa com a medalha de são Cristóvão, porque eu continuava a receber dinheiro para o lanche todas as manhãs e o gastava com balas quando saía da escola. Ladrazinha trapaceira. Vapt, vapt. Chocada!
Então, fim da história, e foi um grande mal-entendido de todos os lados. Ao que parece, as freiras achavam que eu fazia ponto na cozinha porque era uma pobre criancinha desamparada e faminta, e só me davam a tarefa de cuidar das ratoeiras por caridade, não porque de fato precisassem de mim. O problema é que até hoje eu não sei como a falsa impressão poderia ter sido evitada. Talvez se eu tivesse recusado o pãozinho?
Foi assim que eu acabei indo matar o tempo antes das aulas na igreja e decidi realmente virar freira, ou santa. O primeiro mistério que encontrei foi que as fileiras de velas em frente a cada uma das estátuas de Jesus, Maria e José ficavam bruxuleando e tremendo como se estivessem recebendo lufadas de vento, quando na verdade a enorme igreja estava toda muito bem fechada e nenhuma de suas portas pesadas estava aberta. Concluí, então, que o espírito de Deus nas estátuas era tão forte que fazia as chamas das velas se agitarem e sibilarem, trêmulas de sofrimento. Cada pequeno pique de luz iluminava o sangue coagulado nos pés brancos e ossudos de Jesus e fazia com que ele parecesse úmido.
No início, eu ficava bem no fundo da igreja, grogue, embriagada com o cheiro de incenso. Ajoelhava e rezava. Ajoelhar era muito doloroso, por causa do problema nas minhas costas e porque o colete se encravava na coluna. Eu tinha certeza de que isso me tornava santa e servia como penitência pelos meus pecados, mas doía demais e, por fim, acabei desistindo e passei a ficar só sentada lá, na igreja escura, até o sinal da entrada tocar. Geralmente não havia ninguém na igreja além de mim, salvo nas quintas-feiras, quando o padre Anselmo ia para o confessionário e se trancava lá. Algumas senhoras, meninas dos últimos anos do colegial e, de vez em quando, uma ou outra aluna do ginásio se dirigiam até lá, parando para se ajoelhar e fazer o sinal da cruz diante do altar, depois se ajoelhando e fazendo o sinal da cruz de novo antes de entrarem pelo outro lado do confessionário. O que me intrigava era o tempo variável que elas passavam rezando depois que saíam de lá. Eu teria dado qualquer coisa no mundo para saber o que acontecia lá dentro. Não sei ao certo quanto demorou até eu conseguir reunir coragem para entrar, com o coração martelando no peito. O interior do confessionário era muito mais bonito do que eu poderia ter imaginado. Enevoado pela mirra, uma almofada de veludo para ajoelhar, uma virgem abençoada olhando para mim lá do alto com infinita piedade e compaixão. Atrás da treliça trabalhada estava o padre Anselmo, que normalmente era um homenzinho ensimesmado. Mas ele estava em silhueta, como o homem de cartola na parede de Mamie. Poderia ser qualquer um… Tyrone Power, meu pai, Deus. Sua voz não parecia nem um pouco com a do padre Anselmo; era uma voz grave, com um leve eco. Como eu não conhecia a oração que me pediu para rezar, ele recitou os versos e eu os repeti, profundamente arrependida de vos ter ofendido. Então, ele me perguntou quais eram os meus pecados. Eu não estava mentindo. Realmente não tinha nenhum pecado para confessar. Nenhum mesmo. Fiquei muito envergonhada. Não era possível que eu não conseguisse pensar em alguma coisa. Procure bem no fundo do seu coração, minha filha… Nada. Aflita, querendo desesperadamente agradar, eu inventei um pecado. Tinha batido na cabeça da minha irmã com uma escova de cabelo. Você tem ciúme da sua irmã? Tenho, tenho sim, padre. O ciúme é um pecado, minha filha, reze para ficar livre dele. Três ave-marias. Enquanto rezava, ajoelhada, eu me dei conta de que tinha recebido uma penitência curta. Da próxima vez eu me sairia melhor. Mas não haveria próxima vez. Naquele dia, a irmã Cecilia quis conversar comigo depois da aula. O fato de ela ser tão gentil tornou a coisa ainda pior. Ela entendia que eu quisesse vivenciar os sacramentos e os mistérios da Igreja. Os mistérios, sim! Mas eu era protestante e não tinha sido batizada nem crismada. Podia frequentar a escola delas, e ela era grata por isso, porque eu era uma aluna estudiosa e obediente, mas não podia tomar parte na Igreja delas. Tinha que ficar no pátio com as outras crianças.
Um pensamento terrível me passou pela cabeça e eu tirei quatro santinhos de dentro do bolso. Toda vez que a gente tirava nota máxima em leitura ou aritmética, ganhava uma estrela. Nas sextas-feiras, a aluna que tivesse mais estrelas recebia um santinho, que era parecido com um card de beisebol, só que na auréola tinha purpurina. “Eu posso ficar com os meus santinhos?”, perguntei a ela, com o coração apertado.
Claro que pode. E eu espero que você ganhe vários outros.” Ela sorriu para mim e me fez outro favor. “Você ainda pode rezar, minha querida, pedindo que Deus a guie. Vamos rezar uma ave-maria juntas.” Eu fechei os olhos e rezei com fervor para Nossa Senhora, que para mim sempre vai ter o rosto da irmã Cecilia.
Sempre que uma sirene soava lá fora, na rua, perto ou longe, a irmã Cecilia nos fazia parar o que quer que estivéssemos fazendo, deitar a cabeça nas nossas mesas e rezar uma ave-maria. Eu ainda faço isso. Rezar uma ave-maria, quero dizer. Bem, às vezes eu também deito a cabeça em mesas de madeira, para ouvi-las, porque elas de fato produzem sons, como galhos ao vento, como se ainda fossem árvores. Várias coisas andavam me intrigando muito naquela época, como o que dava vida às velas ou de onde exatamente vinha o som das mesas de madeira. Se tudo o que existe no mundo de Deus tem alma, até as mesas, já que elas têm uma voz, então deve existir um céu. Eu não podia ir para o céu, porque era protestante. Ia ter que ir para o limbo. Eu preferia ir para o inferno a ir para o limbo. Que palavra feia, limbo. Parece lombo, molambo. Um lugar sem dignidade nenhuma.
Eu disse à minha mãe que queria virar católica. Ela e meu avô tiveram um ataque. Ele queria me botar de volta na escola Vilas, mas minha mãe disse que não, que lá era cheio de mexicanos e de delinquentes juvenis. Eu disse a ela que havia muitas alunas mexicanas na St. Joseph’s, mas ela disse que elas eram de boas famílias. A gente era uma boa família? Eu não sabia. Uma coisa que eu ainda faço até hoje é espiar pelas janelas o interior de salas onde famílias estão reunidas e ficar pensando o que será que aquelas pessoas fazem, como será que elas falam umas com as outras.
Uma tarde, a irmã Cecilia e outra freira foram até a nossa casa. Eu não sei por que elas foram lá e elas não tiveram a chance de dizer. Estava tudo uma bagunça. A minha mãe chorando e Mamie, a minha avó, também. Vovô estava bêbado e avançou para cima delas, chamando-as de bruxas. No dia seguinte eu estava com medo de que a irmã Cecilia tivesse ficado zangada comigo e não me dissesse mais “Até logo, minha querida” quando me deixasse sozinha na sala durante o recreio. Mas, antes de sair, ela me deu um livro chamado Understood Betsy e disse que achava que eu ia gostar. Foi o primeiro livro de verdade que eu li, o primeiro livro pelo qual me apaixonei.
Ela elogiava os meus trabalhos na escola e comentava com as outras alunas sempre que eu recebia uma estrela ou ganhava um santinho às sextas-feiras. Eu fazia tudo para agradar-lhe, escrevia A.M.D.G.* com letras cuidadosamente desenhadas no alto de todos os trabalhos, corria para apagar o quadro-negro. A minha voz era a mais alta quando rezávamos, a minha mão era a primeira a se erguer quando ela fazia uma pergunta. Ela continuou a me dar livros para ler e, uma vez, me deu um marcador de livro de papel que dizia “Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”. Eu mostrei o marcador para Melissa Barnes na cafeteria. Tinha posto na cabeça, tolamente, que, já que a irmã Cecilia gostava de mim, as meninas também passariam a gostar. Mas agora, em vez de rir de mim, elas me odiavam. Quando eu me levantava para responder a alguma pergunta na aula, elas sussurravam queridinha, queridinha, queridinha. Se a irmã Cecilia me escolhia para recolher as moedas e distribuir as medalhas para comprar lanche, cada uma das meninas sussurrava queridinha quando recebia a medalha de mim.
Então um dia, sem mais nem menos, a minha mãe ficou furiosa comigo porque o meu pai escrevia mais para mim do que para ela. É porque eu escrevo mais para ele. Não, é porque você é a queridinha dele. Um dia, eu cheguei tarde em casa. Tinha perdido o ônibus que passava na praça. Minha mãe apareceu no alto da escada, segurando uma carta aérea azul do meu pai numa das mãos. Com a outra, ela acendeu um fósforo na unha do polegar e queimou a carta enquanto eu corria escada acima. Aquilo sempre me assustava. Quando era pequena, eu não via o fósforo e achava que ela acendia os cigarros dela com um polegar em chamas.
Parei de falar. Não disse: agora, eu não vou mais falar. Simplesmente fui parando aos poucos e, quando sirenes passavam, eu deitava a cabeça na mesa e sussurrava a oração para mim mesma. Quando a irmã Cecilia me chamava, eu sacudia a cabeça e me sentava de novo. Parei de ganhar estrelas e santinhos. Mas já era tarde demais. Agora elas me chamavam de burralda. Um dia, a irmã Cecilia ficou na sala depois que a turma saiu para a aula de educação física. “O que há com você, minha querida? Eu posso ajudar? Por favor, fale comigo.” Eu trinquei os dentes e me recusei a olhar para ela. Ela saiu e eu fiquei lá sentada, na penumbra quente da sala de aula. Ela voltou mais tarde, com um exemplar de Beleza negra, que pousou na minha mesa. “Esse livro é maravilhoso, só que muito triste. Diga para mim, você está triste com alguma coisa?”
Eu fugi dela e do livro e corri para o pequeno vestiário de guardar casacos. Claro que não havia casaco nenhum lá, já que no Texas faz muito calor, mas sim caixas cheias de livros didáticos empoeirados, enfeites de Páscoa, enfeites de Natal. A irmã Cecilia entrou no vestiário minúsculo atrás de mim. Ela me fez virar de frente para ela e ajoelhar. “Vamos rezar”, disse.
Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco. Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus… Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Eu não consegui suportar a ternura que havia neles e me desvencilhei dela, derrubando-a sem querer no chão. A touca ficou presa num gancho de casaco e foi arrancada. Ela não tinha a cabeça raspada como as meninas diziam. Ela gritou e saiu de lá correndo.
Fui mandada para casa naquele dia mesmo, expulsa da Saint Joseph’s por agredir uma freira. Não sei como ela pode ter achado que eu seria capaz de bater nela. Não tinha sido nada disso.
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* Ad maiorem Dei gloriam (“para maior glória de Deus”), lema dos jesuítas. (N. T.)

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

26/04/2025

Zeca Baleiro | Santa Luzia

Malhar o judas

vou polir meu pé
de lata
pra corrida
dos muleque
hoje tem
roda de tchaco
voadora de ninja
no peito
pedrada paulada
marimbada no olho
vou rasgar
tua cara
pra abrir
teu coração
e pular
tua carniça
pra vingar
jesus.

Bruna Beber, em Rua da padaria

O impagável Laerte

Sim

Eu disse a uma amiga:
A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

O Curioso Caso de Benjamin Button


IX

Num certo dia de Setembro de 1910 — poucos anos depois de a Roger Button & Co., Grossista de Ferragens, ter passado para as mãos do jovem Roscoe Button — um homem que aparentava vinte anos inscreveu-se como calouro na Universidade de Harvard, em Cambridge. Não caiu na asneira de anunciar que não voltaria a ver os cinquenta anos e também não mencionou que o filho se formara na mesma instituição dez anos antes.
Foi admitido e atingiu quase de imediato uma situação proeminente na turma, em parte por parecer um pouco mais velho do que os outros calouros, cuja idade média rondava os dezoito anos.
Mas o seu êxito deveu-se em grande medida ao fato de, no jogo de futebol com a Yale, ter jogado tão brilhantemente, com tanto ímpeto e uma fúria tão intensa e implacável que marcara sete tou-chdowns e catorze field goals por Harvard e fizera com que onze homens da Yale, ou seja, uma equipe inteira, fossem levados um por um do campo, todos eles inconscientes. Foi o homem mais célebre da universidade.
Pode parecer estranho, mas no seu terceiro ano — ou júnior — dificilmente conseguiu “chegar” à equipe. Os treinadores diziam que ele perdera peso e parecia, até, aos mais observadores, que não estava tão alto como antes. Já não marcava touchdowns — na realidade, foi mantido na equipe principalmente na esperança de que a sua enorme reputação causasse terror e desorganização à equipe da Yale. No seu ano sênior não chegou, sequer, a fazer parte da equipe. Tornara-se tão débil e frágil que, um dia, alguns estudantes do segundo ano o tomaram por um calouro, incidente que o humilhou tremendamente. Passou a ser conhecido como uma espécie de prodígio — um sênior que, seguramente, não tinha mais de dezesseis anos — e sentiu-se muitas vezes chocado com a mundaneidade de alguns dos seus condiscípulos. Os estudos tinham-se tornado mais difíceis para ele — tinha a sensação de que eram avançados demais. Ouvira os seus condiscípulos falar da St. Midas, a famosa escola secundária onde tantos deles tinham se preparado para a universidade, e decidiu que, terminado o curso, ele próprio iria para a St. Midas onde a vida abrigada entre rapazes do seu tamanho seria mais agradável para si. Terminado o curso em 1914 regressou para casa, em Baltimore, com o diploma da Harvard na algibeira. Como Hildegarde residia agora na Itália, Benjamin foi viver com o filho, Roscoe. Mas, apesar de ter sido de modo geral bem recebido, não havia, obviamente, nenhum entusiasmo nos sentimentos de Roscoe em relação a ele — havia mesmo uma tendência perceptível, da parte do filho, para pensar que, enquanto vagueava pela casa mergulhado numa divagação adolescente, o pai atrapalhava um pouco.
Roscoe era agora casado e notável na vida de Baltimore e não queria que surgisse nenhum escândalo relacionado com a sua família.
Benjamin, que deixara de ser persona grata entre os debutantes e o grupo mais jovem da nata da faculdade, deu consigo muito isolado e só, excetuando a camaradagem de três ou quatro rapazes de quinze anos do bairro. A ideia de ir para a St. Midas School era recorrente nele.
Ouça — lembrou, um dia, a Roscoe —, já lhe disse não sei quantas vezes que quero ir para a escola secundária.
Está bem, vá — respondeu Roscoe, secamente. O assunto desagradava-lhe e queria evitar uma discussão.
Não posso ir sozinho — disse Benjamin, desanimadamente. — Terá que me matricular e levar lá. — Não tenho tempo — replicou Roscoe, com brusquidão, e depois semicerrou os olhos e olhou pouco à vontade para o pai. — Na verdade — acrescentou —, seria melhor não continuar com essa ideia muito mais tempo. Seria melhor travar.
Seria melhor.. seria melhor... — Fez uma pausa e o seu rosto tornou-se escarlate enquanto procurava as palavras adequadas — ... seria melhor dar uma volta e recomeçar no sentido inverso. Isto já foi longe demais para ser uma brincadeira. Deixou de ter graça. Você. . você se comporte!
Benjamin olhou-o, à beira das lágrimas.
Mais uma coisa — continuou Roscoe —, quando tivermos visitas em casa quero que me trate por “tio”... não por “Roscoe”, mas por tio, compreendeu? Parece absurdo um rapaz de quinze anos tratar-me pelo meu nome próprio. Talvez seja melhor me tratar sempre por tio, para se habituar.
Olhando severamente para o pai, Roscoe virou as costas e afastou-se.

F. Scott Fitzgerald, em O Curioso Caso de Benjamin Button

25/04/2025

Matheus Nicolaiewsky/ Yotam Silberstein/ Kiko Freitas - Abre Alas

O genro tímido

A noiva lhe explicou, com muito jeito, que ele tinha certas maneiras de falar que sua mãe (dela) estranhava um pouco. Que ele compreendesse e não ficasse zangado: muito religiosa, muito retraída, a “velha” estranhava certas expressões que não têm nada de mais, mas que ela não estava acostumada a ouvir.
O rapaz encabulou: teria, sem querer, dito algum palavrão? A moça disse que nem pensasse nisso, eram apenas maneiras de dizer as coisas. Por exemplo, ele dissera, a certa altura do jantar: “Não sou muito amante do abacate não.” Ela, a moça, achava isso natural, mas a mãe, coitada, ficava meio chocada com essa palavra amante. Ele poderia dizer, por exemplo, amigo.
No jantar seguinte, na casa da futura sogra, respondendo a uma pergunta desta, sobre se gostava de doce de abóbora, disse: “Não, senhora, eu não sou muito amigo de amantes, não.”
Um dia a futura sogra perguntou que fita estava passando no Metro. Lembrou-se do título: “Numa ilha com você”. E respondeu: “— Numa ilha... com a senhora”.

Rubem Braga, em Recado de primavera

Sobre os degraus da morte (Na morte de Paul Éluard)

Ainda tenho no ouvido tua voz grave, feita metálica pelo interurbano, a me dizer do México para Los Angeles: “Alors, mon vieux, qu’est-ce que tu attends? Viens, donc...” Tu me chamavas sem me conhecer, porque sabias que eu sou poeta, não tão grande quanto és, não tão bravo quanto foste, não tão necessário quanto serás; mas poeta, e poeta atento às necessidades do seu tempo. Tu me chamavas porque outros poetas, amigos nossos, te haviam falado de mim.
Eras tu, Di Cavalcanti, Neruda, Guillén, a me chamarem, a me mandarem cartas escritas em bares, cheias de fraternidade e palavrões, a me falarem da beleza do México e do gosto da tequilla, a me cativarem para o vosso convívio boêmio e grave.
E eu fui. Fui porque me “tutoiaste” sem me conhecer, nessa grande intimidade que só os poetas têm e só a poesia pode dar. Mas quando cheguei já havias partido para França, a compromissos urgentes. Conheci tua mulher, tua terceira mulher Dominique, que ficara por uns poucos dias mais, essa menina alta, de face lisa de campônia, que vivia ainda envolta na beleza das coisas que lhe deras e lhe disseras. Tinhas casado com ela dias antes, depois de um passeio louco em companhia de Siqueiros e sua mulher pelo México adentro. Ela só tinha na boca jovem um nome: o teu nome. Ela dizia Paul, Paul, Paul, Paul – com uma esperança simples no olhar. Seus braços traziam ainda as marcas de tuas carícias de homem. Tinhas dado um papagaio a ela, e ela o carregava alto no dedo e lhe falava de ti, dizia-lhe que breve estaríeis todos juntos na França, e que ele teria de ter juízo e não falar quando o poeta estivesse trabalhando, pois o poeta era um homem cheio de poemas a fazer. Ela lhe falava como a uma criança, a voz quente, e as penas da cabeça da ave eriçavam-se brandamente enquanto engrolava também doces absurdos.
Tua morte – como a de Mário de Andrade, de angina pectoris - chegou-me, tal a dele, como um teor vazio e abstrato. Inútil pensar que morreste. Mário morreu por acaso? Não vem ele visitar-me sempre que estou sozinho, sempre que estou sofrendo, o amigo fiel? – e não pousa como dantes a grande mão no meu ombro e se deixa horas comigo a discutir os velhos assuntos sentidos, poesia, amizade, beleza, amor, morte, vida, arte, povo, mulher, bebida – e poesia ainda, e ainda poesia, e mais poesia?
Loucura pensar que morreste. Sobre cada face viva, sobre cada coisa viva, sobre o coração da vida – escrevo o teu nome.
Escrevo o teu nome sobre os degraus da morte, gravo-o a fogo sobre os seios da aurora, pinto-o em luz sobre tudo o que é triste, escuro e trágico. Tu escolheste. Tu foste claro, ardente, digno. Delicado até os ossos de ti mesmo - esses que restarão de tua bela figura de homem – tu enfrentaste a brutalidade dos carrascos. Hoje eu digo o teu nome e digo-o sentindo-me melhor por ter participado do teu tempo humano. Teu nome é também Liberdade, Paul Éluard.

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

O sapo verde


Aquele amarelo que apareceu um dia em nossa terra, ou por outra, aquele japonês, pois não sei se um chim daria o mesmo desfecho ao caso, dedicava-se a trabalhos de papel. Com incrível celeridade, dobrava, redobrava, multidobrava, premia aqui, puxava dali, e pronto: saía um pato, uma cesta, um avião, um urso, um homem sentado, uma mulher dançando, um navio, todas as coisas que há no mundo. Algumas dessas habilidades, ele as fazia às vezes em câmara lenta, para que a gente pudesse aprender. Mas era impossível guardar de memória o segredo do sapo verde, o maravilhoso sapo verde que comportava nada menos de sessenta e quatro dobras e que dava um salto quando lhe tocavam no lombo. Comprei um e fui para casa desmanchá-lo. Ficou-me nas mãos um quadrado de papel, inextrincavelmente entrecruzado de vincos. Como não consegui fazer a operação contrária, isto é, rearmar o sapo, dali a dias encomendei outro.
Hoje não poder — disse ele.
Por quê?
Por acabar papel verde.
E por que não faz um sapo branco?... ou um sapo azul... ou um sapo vermelho... ou…
Mas o seu quase imperceptível sorriso de comiseração cortou-me a linda sequência colorida.

Mário Quintana, em Sapato Florido

Roxo

Roxo aperta.
Roxo é travoso e estreito.
Roxo é a cordis, vexatório,
uma doidura pra amanhecer.
A paixão de Jesus é roxa e branca,
pertinho da alegria.
Roxo é travoso, vai amadurecer.
Roxo é bonito e eu gosto.
Gosta dele o amarelo.
O céu roxeia de manhã e de tarde,
uma rosa vermelha envelhecendo.
Cavalgo caçando o roxo,
lembrança triste, bonina.
Campeio amor pra roxeamar paixonada,
o roxo por gosto e sina.

Adélia Prado, em Bagagem

A igreja do Diabo


Capítulo I

De uma ideia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
Vá, pois, uma igreja — concluiu ele. — Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: “Vamos, é tempo.” E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

Capítulo II

Entre Deus e o Diabo

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
Que me queres tu? — perguntou este.
Não venho pelo vosso servo Fausto — respondeu o Diabo rindo —, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
Explica-te.
Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
Sabes o que ele fez? — perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece?
Vieste dizê-la, não legitimá-la — advertiu o Senhor.
Tendes razão — acudiu o Diabo —; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
Vai.
Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma ideia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer cousa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
Velho retórico! — murmurou o Senhor.
Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor — a indiferença, ao menos — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em cousas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie — replicou-lhe o Senhor. — Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
Já vos disse que não.
Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
Negas esta morte?
Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
Retórico e sutil! — exclamou o Senhor. — Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma cousa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Capítulo III

A boa-nova aos homens

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
Sim, sou o Diabo — repetia ele —; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu...” O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de cousas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, cousas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, cousas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra cousa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E, como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

Capítulo IV

Franjas e franjas

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas malpovoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogman; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinquenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma cousa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:
Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Machado de Assis, em Gazeta de Notícias, 12 de fevereiro de 1883