24/02/2025

A estrada de tijolos amarelos | Zé Ramalho

Altazor | 2

O sol nasce em meu olho direito e põe-se em meu olho esquerdo
Na minha infância uma infância ardente como um álcool
Sentava-me nos caminhos da noite
A escutar a eloquência das estrelas
E a oratória da árvore
Agora a indiferença neva na tarde da minha alma
Abram-se em espigas as estrelas
Quebre-se a lua em mil espelhos
Torne a árvore ao ninho de sua amêndoa
Apenas quero saber porquê
Porquê
Porquê
Sou protesto e rasgo o infinito com minhas garras
E grito e gemo com miseráveis gritos oceânicos
O eco de minha voz faz ressoar o caos
Sou desmesurado cósmico
As pedras as plantas as montanhas
Saúdam-me as abelhas os ratos
Os leões e as águias
Os astros os crepúsculos as auroras
Os rios e as florestas perguntam-me
Então como tem passado?
E enquanto os astros e as ondas tiverem algo para dizer
Será pela minha boca que falarão aos homens
Trazei-me uma hora para desfrutar a vida
Trazei-me um amor pescado pela orelha
E deixai-o aqui a morrer perante meus olhos
Que eu role pelo mundo a toda a brida
Que eu corra pelo universo a toda a estrela
Que me afunde ou me levante
Lançado sem piedade entre planetas e catástrofes
Senhor Deus se tu existes é a mim que o deves

Vicente Huidobro, em Altazor

Sinais dos tempos

Esses que, pelas estradas claras dos primeiros séculos, mendigavam e faziam pueris e deliciosos milagres, viraram agora transformistas de palco. Santos que perderam a fé, socorrem-se habilmente dos recursos inesgotáveis que a técnica hoje em dia nos proporciona, quando seria muito mais fácil um milagre... A divina simplicidade de um milagre.

Mário Quintana, em Sapato Florido

Adolescência

Bicudinho, de Caco Galhardo 

Diário de Bernardo Soares | Ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa

6.

Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.
Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto pela minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reação contra mim desce-me da inteligência... Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui, eu, assim!…

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

João Porém, o criador de perus


Se procuro, estou achando.
Se acho, ainda estou procurando?
Do Quatrêvo.

Agora o caso não cabendo em nossa cabeça. O pai teimava que ele não fosse João, nem não. A mãe, sim. Daí o engano e nome, no assento de batismo. Indistinguível disso, ele viçara, sensato, vesgo, não feio, algo gago, saudoso, semi-surdo; moço. Pai e mãe passaram, pondo-o sozinho. A aventura é obrigatória. Deixavam ao Porém o terreno e, ainda mais, um peru pastor e três ou duas suas peruas.
E tanto; aquilo tudo e egiptos. Desprendado quanto ao resto, João Porém votou-se às aves — vocação e meio de ganho. De dele rir-se? A de criar perus, os peruzinhos mofinos, foi sempre matéria atribulativa, que malpaga, às poucas estimas.
Não para o João. Qual o homem e tal a tarefa: congruíam-se, como um tom de vida, com riqueza de fundo e deveres muito recortados. Avante, até, próspero. Tomara a gosto. O pão é que faz o cada dia.
Já o invejavam os do lugar — o céu aberto ao público — aldeiazinha indiscreta, mal saída da paisagem. Ali qualquer certeza seria imprudência. Vexavam-no a vender o pequeno terreiro, próprio aos perus vingados gordos. Porém tardava-os, com a indecisão falsa do zarolho e o pigarro inconcusso da prudência. Tornaram; e Porém punha convicção no tossir, prático de economias quiméricas, tomadas as coisas em seu meio.
Desistiram então de insistir, ou de esperar que, mais-menos dia, surgida alguma peste, ele desse para trás. Mas lesavam-no, medianeiros, no negócio dos perus, produzidos já aos bandos; abusavam de seu horror a qualquer espécie de surpresas. Porém perseverava, considerando o tempo e a arte, tão clara e constantemente o sol não cai do céu. No fundo, coqueirais. Mas inventaram, a despautação, de espevitar o espírito.
Incutiram-lhe, notícia oral: que, de além-cercanias, em desfechada distância, uma ignorada moça gostava dele. A qual sacudida e vistosa — olhos azuis, liso o cabelo — Lindalice, no fino chamar-se. João Porém ouviu, de sus brusco, firmes vezes; miúdo meditou. Precisava daquilo, para sua saudade sem saber de quê, causa para ternura intacta. Amara-a por fé — diziam, lá eles. Ou o que mais, porque amar não é verbo; é luz lembrada. Se assim com aquela como o tivessem cerrado noutro ar, espaço, ponto. Sonha-se é rabiscos. Segredou seu nome à memória, acima de mil perus, extremadamente.
Embora de lá não quisesse sair, em busca, deixando o que de lei, o remédio de vida. — Não ia ver o amor? — instavam-no, de graça e com cobiça. Arrendar-lhe-iam o sítio, arranjavam-lhe cavalo e viático... Se bem pensou, melhor adiou: aficado, com recopiada paciência, de entre os perus, como um tutor de órfãos. Sustentava-se nisso, sem mecanismos no conformar-se, feito uma porção de não-relógios. A moça, o amor? A esperança, talvez, sempre cabedora. A vida é nunca e onde.
E vem que o tiveram de louvar — sob pressão de desenvolvimento histórico: um, dos de caminhão, da cidade, fechara com o Porém dos perus tráfico ajuste perfeito; e a bela vez é quando a fortuna ajuda os fracos.
Nem se dava disso, inepto exato, cuidando e ganhando, só em acrescentamentos, homem efetivo, já admirado, tido na conta de ouro. Pasmavam, os outros. Pudera crer na inventada moça, tendo-a a peito? Ágil, atentivo, sempre queria antigas novidades dela.
De dó ou cansaço, ou por medo de absurdos, acharam já de retroceder, desdizendo-a. Porém prestou-lhe a metade surda de seus ouvidos. Sabia ter conta e juízo, no furtivar-se; e, o que não quer ver, é o melhor lince. Aceitara-a, indestruía-a. Requieto, contudo, na quietude, na inquietude. O contrário da ideia-fixa não é a ideia solta.
— “Aconteceu que a moça morreu...” — arrependidos tiveram então de propor-lhe, ajuntados para o dissuadir, quase com proas. Porém gaguejou bem — o pensamento para ele mesmo de difícil tradução: — Esta não é a minha vez de viver... — quem sabe. Maior entortou o olhar, sinceramente evasivo, enquanto coléricos perus sacudiam grugulejos. Tanto acreditara? Segurava-se à falecida — pré-anteperdida. E fechou-se-lhe a estrada em círculo.
Porém, sem se impedir com isso, fiel à forte estreiteza, não desandava. Infelicidade é questão de prefixo. Manejava a tristeza animal, provisória e perturbável. Se falava, era com seus perus, e que viver é um rasgar-se e remendar-se. Era só um homem debaixo de um coqueiro.
Vem que viam que ele não a esquecia, viúvo como o vento. Andava o rumo da vida e suas aumentadas substituições. Ela não estava para trás de suas costas. Porém, Lindalice, ele a persentia. Tratava centena de peruzinhos em gaiolas, e outros tantos soltos, já com os pescoços vermelhos.
Bem que bem — e porque houvesse justo o coincidir fortuito — moveram de o fazer avistar-se com uma mocinha, de lá, também olhos azuis, lisos cabelos, bonita e esperta, igual à outra, a urdida e consumida. Talvez desse certo. Pois, por sombras! Porém aqui suspendeu suma a cabeça, só zarolhaz, guapamente — vez tudo, vez nada — a mais não ver.
Deixaram-no, portanto, dado às aranhas dos dias, anos, mundo passável, tempo sem assunto. E Porém morreu; nem estudou a quem largar o terreno e a criação. Assustou-os.
Tinham de o rever inteiro, do curso ordinário da vida, em todas as partes da figura — do dobrado ao singelo. João Porém, ramerrameiro, dia-a-diário — seu nariz sem ponta, o necessário siso, a força dos olhos caolhos — imóvel apaixonado: como a água, incolormente obediente.
Ele fora ali a mente mestra. Mas, com ele não aprendiam, nada. Ainda repetiam só: — “Porém! Porém...” Os perus, também.

Guimarães Rosa, em Tutameia

23/02/2025

Maria Bethânia | A Voz de Uma Pessoa Vitoriosa

La Capricciosa

É claro que estou exposto
eu como todos os outros
animais às intempéries
que cedo ou tarde nos ferem;
mas aqui a noite, seda,
suavemente me enleia:
espelhos olhares vinhos
uvas cachos rosas risos
e ali, do lado de lá
das lâminas de cristal
tão tranquila e cintilante
quanto o céu, sonha a cidade.

Desperta-me um celular:
a morte também tem arte.

Antonio Cícero, em Porventura

CAPÍTULO VII. Da segunda saída do nosso bom cavaleiro D. Quixote de la Mancha.



Naquilo se estava, quando principiou a dar brados D. Quixote, dizendo:
— Aqui, aqui, valorosos cavaleiros! aqui é mister mostrar a possança dos vossos valorosos braços, que os cortesãos levam a melhoria no torneio!
Para acudir àqueles gritos, não se passou adiante com o exame dos livros que ainda faltavam; e assim se crê que não deixariam de ir ao lume, sem serem vistos nem ouvidos, a Caroléia e Leão de Espanha, com os feitos do Imperador, compostos por D. Luís de Ávila, que sem dúvida deviam de estar entre os remanescentes; e talvez, se o cura os visse, não padecessem tão rigorosa sentença.
Quando chegaram a D. Quixote, já ele estava levantado da cama, e prosseguia nas vozes e desatinos, dando cutiladas e reveses para todas as partes, estando tão acordado, como se nunca tivera dormido.
Arcaram com ele, e à força o deitaram no leito; e, depois que serenou um tanto mais, tornando-se a falar com o cura, lhe disse:
— Senhor Arcebispo Turpin, não há dúvida que é grande desar, para os que nós chamamos Doze Pares, deixarmos sem mais nem mais levar a vitória deste torneio aos cavaleiros cortesãos, tendo nós outros, os aventureiros, ganhado o prêmio dos três dias antes.
— Cale Vossa Mercê a boca, senhor compadre — disse o cura — que Deus há-de ser servido de que a sorte se mude, e o que hoje se perde amanhã se ganhe. Por agora o que importa é tratar da saúde, que, segundo me parece, deve estar muitíssimo cansado, a não ser que esteja até mal ferido.
— Ferido não — interrompeu D. Quixote; — porém moído e quebrantado, sem dúvida que o estou, porque aquele filho da mãe de D. Roldão me moeu à bordoada com o tronco de uma azinheira; e tudo por inveja: por ver que eu só à minha banda contrapeso todas as suas valentias. Mas Reinaldo de Montalvão me não torne eu a chamar, se em me levantando deste leito mo não pagar, a despeito de todos os seus encantamentos; e por agora tragam-me de jantar, que sei que é o mais preciso, e o vingar-me fica a meu cuidado.
Assim se fez. Deram-lhe de comer, e recaiu no sono, deixando a todos admirados de tamanho desorientamento.
Naquela noite incendiou e destruiu a ama quantos livros havia no pátio e em toda a casa; e alguns arderiam que merecessem ser guardados em perpétuos arquivos. Mas não o quis assim a mofina e a pressa do seletor; cumpriu-se o rifão que diz: que às vezes paga o justo pelo pecador.
Um dos remédios que o barbeiro e o cura por então idearam, foi que se condenasse e emparedasse a sala dos livros, para que ao levantar-se o amigo não pudesse dar com ela (tirada a causa, talvez cessasse o efeito). Dir-lhe-iam que um encantador os tinha levado com o aposento e tudo, e assim se executou com a maior presteza.
A dois dias andados, ergueu-se D. Quixote, e o que primeiro fez foi ir-se ver os seus livros, e, como não achava o quarto em que os tinha deixado, corria de uma parte para outra a procurá-lo.
Chegava onde costumava estar a porta, e tenteava-a às apalpadelas, e volvia e revolvia os olhos por todos os cabos, sem proferir palavra. Porém, depois de um grande espaço, perguntou à ama a que parte ficava o aposento dos seus livros.
A ama, que já estava bem precavida do que havia de responder, lhe disse:
— Que aposento ou que história busca Vossa Mercê? Já não há aposento nem livros nesta casa, carregou com tudo o mesmo diabo.
— Não era diabo — acudiu a sobrinha — era um encantador que veio numa nuvem, numa noite depois daquele dia em que Vossa Mercê se abalou daqui, e, apeando-se de uma serpe em que vinha encavalgado, entrou no aposento. Não sei o que fez lá dentro; ao cabo de um breve espaço, saiu voando pelo telhado, deixando a casa cheia de fumarada, e, quando tornamos em nós, e fomos ver o que tinha feito, não vimos nem livros, nem aposento algum. Só nos lembra muito bem a mim e à ama que, ao tempo de partir-se, aquele malvado velho proferiu em altas vozes, que, por inimizade secreta, que tinha com o dono daquela livraria e estância, deixava feito o dano que depois se veria. Disse também que se chamava o sábio Munhatão.
— Frestão é que havia de dizer — acudiu D. Quixote.
— Não sei — interrompeu a ama — se era Frestão ou Fritão; só sei que o nome acabava em tão.
— Isso mesmo — disse D. Quixote — é esse um sábio encantador grande inimigo meu, e que me tem osga, porque sabe por suas artes e letras, que, pelo andar dos tempos, tenho de pelejar em singular batalha com um cavaleiro a quem ele favorece, e o hei-de vencer sem que ele mo possa estorvar; por isso procura fazer-me quantas sensaborias pode, e eu digo-lhe que mal poderá ele evitar o que do céu nos está determinado.
— Disso ninguém duvida — disse a sobrinha — mas quem o mete, senhor tio, a Vossa Mercê nessas pendências? Não será melhor estar-se manso e pacífico em sua casa, em vez de se ir pelo mundo procurar pão que o diabo amassou, sem se lembrar de que muitos vão buscar lã e vêm tosquiados?
— Ai sobrinha, sobrinha! — respondeu D. Quixote — Como andas fora da conta! Primeiro que a mim me tosquiem, terei peladas e arrancadas as barbas a quantos imaginarem tocar-me na ponta de um só cabelo.
Não quiseram as duas replicar-lhe mais nada, vendo que o agastamento lhe queria ir a mais.
O caso é que teve o nosso herói de passar em casa quinze dias mui quedo, sem dar mostras de querer recair nos seus primeiros devaneios; quinze dias em que passou graciosíssimos contos com os seus dois compadres, o cura e o barbeiro.
Era sempre a sua teima, que de nada precisava tanto o mundo, como de cavaleiros andantes; e oxalá essa cavalaria andante cá ressuscitara!
O cura algumas vezes o contradizia, e outras ia com ele, porque sem essa velhacaria, como se haviam de entender?
Neste meio tempo, solicitou D. Quixote a um lavrador seu vizinho, homem de bem (se tal título se pode dar a um pobre), e de pouco sal na moleira; tanto em suma lhe disse, tanto lhe martelou, que o pobre rústico se determinou em sair com ele, servindo-lhe de escudeiro.
Dizia-lhe entre outras coisas D. Quixote, que se dispusesse a acompanhá-lo de boa vontade, porque bem podia dar o acaso que do pé para a mão ganhasse alguma ilha, e o deixasse por governador dela.
Com estas promessas e outras quejandas, Sancho Pança (que assim se chamava o lavrador) deixou mulher e filhos, e se assoldadou por escudeiro do fidalgo.
Deu logo ordem D. Quixote a buscar dinheiros; e, vendendo umas coisas, empenhando outras, e malbaratando-as todas, juntou uma quantia razoável. Apetrechou-se com uma rodela, que pediu emprestada a um amigo; e, consertando a sua celada, o melhor que pôde, notificou ao seu escudeiro Sancho o dia e a hora em que tencionava porem-se a caminho, para que ele se arranjasse do que lhe fosse mais preciso; sobretudo lhe recomendou que levasse alforjes. Respondeu ele que os levaria, e que também pensava em levar um asno que tinha mui bom, porque não estava costumado a andar muito apé.Naquilo do asno é que D. Quixote não deixou de refletir o seu tanto, cismando se lhe lembraria que algum cavaleiro andante teria trazido escudeiro montado asnalmente; mas nenhum lhe veio à memória. Apesar disso, decidiu que podia levar o burro, com o propósito de lhe arranjar cavalgadura de maior foro apenas se lhe deparasse ocasião, que seria tirar o cavalo ao primeiro cavaleiro descortês que topasse.
Preveniu-se de camisas, e das mais coisas que pôde, conforme o conselho que o vendeiro lhe havia dado.
Feito e cumprido tudo, sem se despedir Pança dos filhos e mulher, nem D. Quixote da ama e da sobrinha, saíram uma noite do lugar sem os ver alma viva, e tão de levada se foram, que ao amanhecer já se iam seguros de que os não encontrariam, por mais que os rastejassem.
Ia Sancho Pança sobre o seu jumento como um patriarca, com os seus alforjes e a sua borracha, e com muita ânsia de se ver já governador da ilha que o amo lhe havia prometido.
Acertou D. Quixote de seguir a mesma direção que levara na primeira jornada, que foi pelo campo de Montiel, por onde caminhava mais satisfeito que da primeira vez, por ser ainda de manhã e dar-lhes de escape o sol, o que sempre importunava menos.
Disse então Sancho Pança a seu amo:
— Olhe Vossa Mercê, senhor cavaleiro andante, não se esqueça do que me prometeu a respeito da ilha, que lá o governá-la bem, por grande que seja, fica por minha conta.
— Hás-de saber, amigo Sancho Pança — disse D. Quixote — que foi costume muito usado dos antigos cavaleiros andantes fazerem governadores aos seus escudeiros das ilhas ou reinos que ganhavam; e eu tenho assentado em que, por minha parte, se não dê quebra a esta usança de agradecido, antes nela me desejo avantajar; porque os outros, algumas vezes, e as mais delas, estavam à espera de que os seus escudeiros chegassem a velhos, e já depois de fartos de servir, e de levar maus dias e piores noites, é que lhes davam algum título de Conde, ou pelo menos de Marquês de algum vale ou província de pouco mais ou menos; e tu, se viveres e mais eu, bem poderá ser que antes de seis dias andados eu ganhe um reino com outros seus dependentes, que venham mesmo ao pintar para eu te coroar a ti por seu Rei. E não te admires do que te digo, pois coisas e casos acontecem aos tais cavaleiros, por modos tão nunca vistos e pensados, que facilmente eu te poderia dar até mais do que te prometo.
— Desse modo — respondeu Sancho Pança — se eu fosse Rei por algum milagre dos que Vossa Mercê diz, pelo menos Joana Gutierres, meu conchego, chegaria a ser Rainha, e os meus filhos infantes.
— Quem o duvida? — respondeu D. Quixote.
— Duvido eu — replicou Sancho Pança — porque tenho para mim que, ainda que Deus chovera reinos sobre a terra, nenhum assentaria bem na Maria Gutierres. Saiba, senhor meu, que ela para Rainha não vale dois maravedis; lá Condessa muito melhor acertara, e assim mesmo com a ajuda de Deus.
A Nosso Senhor encomenda tu, meu Sancho, o negócio, que ele lhe dará o que mais lhe acerte; mas não apouques tanto os teus espíritos, que venhas a contentar-te com menos que ser adiantado.
— Esteja descansado, senhor meu — respondeu Sancho — tenho ânimo, tenho, e mais servindo a um amo tão principal como é Vossa Mercê, que me há-de saber dar tudo que me esteja bem, e me couber nas forças.

Miguel de Cervantes, em Dom Quixote de La Mancha

O Impressionismo de Signac

Le Château des Papes (1909), de Paul Signac 

Escrever (II)

Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva.
Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação.
Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.
Que pena que só sei escrever quando espontaneamente a “coisa” vem. Fico assim à mercê do tempo. E, entre um verdadeiro escrever e outro, podem-se passar anos.
Lembro-me agora com saudade da dor de escrever livros.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

O velho saltimbanco


Por toda parte, espalhavam-se, deleitavam-se pessoas em férias. Era uma dessas solenidades que os saltimbancos, os prestidigitadores, os expositores de animais e os vendedores ambulantes esperam por muito tempo, para compensar os maus períodos do ano.
Nesses dias, parece-me que o povo esquece tudo, a dor e o trabalho; torna-se parecido com as crianças. Para estas, é um dia de folga, é o horror à escola adiado por vinte e quatro horas. Para os adultos, é um armistício concluído com as potências maléficas da vida, uma trégua na tensão e na luta universais.
O próprio homem da classe alta e o homem ocupado com trabalhos espirituais dificilmente escapam à influência desse jubileu popular. Absorvem, sem querer, sua parte dessa atmosfera de despreocupação. Quanto a mim, nunca deixo, como autêntico parisiense, de passar em revista todas as barracas que se exibem nessas épocas solenes.
Na verdade, elas faziam concorrência formidável umas às outras: piavam, mugiam, urravam. Era uma mistura de gritos, estrondos de cobre e explosões de foguetes. Bufões e bobos convulsionavam os traços de seus rostos queimados, encarquilhados por vento, chuva e sol; com o porte de atores seguros de seus efeitos, lançavam frases espirituosas e pilhérias de uma comicidade sólida e pesada como a de Molière. Os Hércules, orgulhosos da enormidade de seus membros, sem testa e sem crânio, como os orangotangos, emproavam-se majestosamente nas malhas lavadas na véspera para a ocasião. As dançarinas, belas como fadas ou princesas, saltavam e cabriolavam sob a luz dos lampiões que enchiam de centelhas suas saias.
Tudo era só luz, poeira, gritos, alegria, tumulto; uns gastavam, outros ganhavam, uns e outros igualmente alegres. As crianças agarravam-se às saias das mães para conseguir um bastão de açúcar ou subiam nas costas dos pais para melhor ver um mágico resplandecente como um deus. E por toda parte, dominando todos os perfumes, circulava um cheiro de fritura que era como o incenso dessa festa.
No final, na extremidade final da fileira de barracas, como se, envergonhado, ele próprio se houvesse exilado de todos esses esplendores, vi um pobre saltimbanco, arqueado, derreado, decrépito, uma ruína de homem, encostado num dos postes de seu barracão; um barracão mais miserável que o do selvagem mais embrutecido, e cuja penúria era ainda bem iluminada por dois tocos de velas derretendo-se e esfumeando.
Por toda parte, a alegria, o ganho, o desregramento; por toda parte a certeza do pão para os dias seguintes; por toda parte a explosão frenética de vitalidade. Aqui, a miséria absoluta, a miséria revestida, para cúmulo do horror, de andrajos cômicos, tendo sido o contraste criado bem mais pela necessidade do que pela arte. Ele não ria, o pobre coitado! Não chorava, não dançava, não gesticulava, não gritava; não cantava nenhuma canção, nem alegre nem infeliz, não implorava. Ficava mudo e imóvel. Havia renunciado, havia abdicado. Seu destino estava traçado.
Mas que olhar profundo, inesquecível, ele passeava por sobre a multidão e as luzes, cuja vaga em movimento se detinha a alguns passos de sua repulsiva miséria! Senti minha garganta apertada pela mão terrível da histeria, e pareceu-me que meus olhares estavam ofuscados por essas lágrimas rebeldes que não querem cair.
Que fazer? Para que perguntar ao desafortunado qual curiosidade, qual maravilha ele tinha para mostrar nessas trevas fétidas, por trás de sua cortina rota? Na verdade, eu não ousava perguntar; e, mesmo se a razão de minha timidez os faz rir, confessarei que temia humilhá-lo. Enfim, eu acabava de me decidir a depositar, ao passar, algum dinheiro numa de suas tábuas, esperando que ele percebesse minha intenção, quando um grande refluxo de pessoas, causado por não sei qual confusão, me arrastou para longe dele.
E, enquanto ia embora, obsedado por essa visão, procurei analisar minha súbita dor, e me disse: Acabo de ver a imagem do velho literato que sobreviveu à geração que ele tão brilhantemente entreteve; do velho poeta sem amigos, sem família, sem filhos, degradado por sua miséria e pela ingratidão pública, e em cuja barraca as pessoas, sem memória, não querem mais entrar!

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

22/02/2025

Faculdade hegemônica

Recorde-se que a faculdade hegemônica fica invencível e serena quando se retira para dentro. Não realiza nada que não tenha escolhido realizar, ainda que por mera obstinação. O que será dela quando julgar racional e deliberadamente, e não de modo obstinado?
Um entendimento livre de paixões é uma cidadela. Não há refúgio mais seguro e inexpugnável. Quem não compreende isso é ignorante. Quem compreende porém não se refugia é infeliz.

Marco Aurélio, em Meditações

Milton Nascimento e Criolo feat. Amaro Freitas | Não Existe Amor em SP

O rio da minha infância – II

Atravessei esse rio –
o rio da minha infância.
Escapei de várias mortes
nos remansos de suas águas
das corredeiras invernais.

A enchente adentrava
pelas partes dos baixios
para alegria da meninada
e desespero dos demais.

Passa boi, passa boiada,
passam cobras e garranchos
e as canoas singrando,
com mercadorias e gentes
de uma margem à outra.

A lua já não refletia
naquelas águas tão barrentas.

O mundo cabe num rio,
esse mundo que transborda.

O meu coração menino
projeta de novo essas águas
do rio da minha infância.

A saudade não se aperreia
quando visível
as águas do seu passado.

Elilson José Batista, em Alumbramentos

Melhor Não!

Níquel Náusea, de Fernando Gonsales

In Nomine Dei

Fim-de-semana em Fuerteventura. Mais árido, mais agreste do que esta ilha de Lanzarote, em cuja paisagem, se repararmos bem, é possível reconhecer alguma coisa de teatral, uma maquinaria de rompimentos e bambolinas que distrai o olhar e faz viajar o espírito, como se estivéssemos diante de um ciclorama em movimento. Fuerteventura é todo secura e brutidade, ao passo que Lanzarote, mesmo quando nos parece inquietante, ameaçador, mostra um certo ar de doçura feminina, o mesmo que, apesar de tudo, teria Lady Macbeth enquanto dormia. As montanhas de Lanzarote estão nuas, as de Fuerteventura foram esfoladas. E se, em Lanzarote, exceptuando as Montanhas do Fogo por serem parque nacional, as povoações se sucedem umas às outras, em Fuerteventura, que é três vezes maior, pode-se andar quilómetros e quilómetros sem encontrar vivalma, nem casas, nem sinais de cultivo. Fuerteventura dá a ideia de ser uma terra muito velha que chegou aos seus últimos dias. Os alemães estão por toda a parte, são pesados, maciços, ocupam, como coisa sua, os hotéis, as urbanizações turísticas, os restaurantes, as piscinas, as ruas. Habituaram-se a comportar-se como donos da ilha desde a Segunda Guerra Mundial, quando Fuerteventura esteve para ser base de submarinos da Alemanha, se outro tivesse sido o desfecho da batalha de El Alamein. Diz-se que, depois do fim da guerra, vieram cá esconder-se uns quantos nazis importantes. E que compraram, pelo preço da uva mijona, terras que são como latifúndios. Foi o tempo em que à entrada dos estabelecimentos propriedade de alemães se colocava um cartaz redigido nestes termos: «Proibida a entrada a cães e a canários.» Os canários em questão não eram as aves, que provavelmente estariam dentro animando os teutónicos ouvidos, mas os próprios habitantes das Canárias, por esta maneira (ironias do destino) emparceirados aos cães que deram o nome ao arquipélago. Ao longo da costa ainda se vêem casamatas arruinadas, ninhos de metralhadoras. Estão ali desde a guerra civil. Desde há muito mais tempo, talvez desde o século XV ou XVI, encontra-se, ao sul da capital, num aldeamento turístico chamado El Castillo, uma fortaleza atarracada, em forma de tronco de cone, de pedras negras, singularmente evocadora. Sobranceira ao mar, rodeiam-na as instalações de um clube de férias, com piscinas de diferentes tamanhos e feitios e uma coisa de plástico verde, a que se dá o nome de relva artificial. Por cima da porta, um cartaz avisa que só estão autorizados a entrar os possuidores do cartão do clube. Pobre torre. Ali, com as bombardas apontadas ao mar, e os piratas que atacaram pela retaguarda...
Entrevista do padre Vítor Melícias ao DN. Pergunta do jornalista: “Já leu o último livro de Saramago, In Nomine Dei?” Resposta: “Não. Mas, segundo julgo, é sobre o comportamento desumano para com outros homens com motivações ideológicas, nacionalistas, partidárias ou religiosas. Todas as injustiças que se façam em nome de um deus ou seja do que for têm efeitos negativos. Nesse sentido, o livro é sempre positivo.” Nova pergunta do jornalista: “E O Evangelho segundo Jesus Cristo?” Resposta: “Li metade e não tive paciência para ler o resto. Está bem escrito, o Saramago é um excelente escritor, só que os bons escritores podem fazê-lo bem, mas nem sempre escrevem o bom.” Não vou deter-me no exame da diferença entre fazê-lo bem e fazê-lo bom, que daria pano para mangas. O que sobretudo me impressiona é a cândida declaração do padre Melícias de que não teve paciência para ir além de metade do Evangelho. Não teve paciência porque a narrativa o estivesse enfastiando? Impossível. A um padre o Evangelho pode indignar, enfurecer, pode mesmo, no melhor dos casos, levá-lo a rezar pelo autor. Enfastiá-lo, nunca. Mas está escrito que o padre Melícias perdeu a paciência, o que significa, conforme mo está dizendo aqui o dicionário de José Pedro Machado, que ao digno sacerdote, ao chegar à página 222, lhe faltou subitamente a “virtude que faz suportar os males, as contrariedades, os infortúnios, etc., com moderação, com resignação e sem murmúrios ou queixas”. Espero que o grave desfalecimento tenha sido momentâneo, e que o padre Melícias, aliviado das 223 páginas que ficaram por ler, haja recuperado prontamente a paciência, virtude cristã por excelência, se em matéria de virtudes uma pode ser mais excelente que as outras. Em todo o caso, a recuperação não deve ter sido completa, uma vez que não chegou para levá-lo a ler In Nomine Dei. Ou muito me engano, ou anda aqui um gato que se escaldou e agora tem medo da água fria... E pensar eu que este padre Melícias ainda é dos melhores…

José Saramago, em Cadernos de Lanzarote

Canto II | Solar dos Príncipes


Quatro negros e uma negra pararam na frente deste prédio.
A primeira mensagem do porteiro foi: “Meu Deus!” A segunda: “O que vocês querem?” ou “Qual o apartamento?” Ou “Por que ainda não consertaram o elevador de serviço?”
“Estamos fazendo um filme”, respondemos.
Caroline argumentou: “Um documentário”. Sei lá o que é isso, sei lá, não sei. A gente mostra o documento de identidade de cada um e pronto.
“Estamos filmando.”
Filmando? Ladrão é assim quando quer sequestrar. Acompanha o dia-a-dia, costumes, a que horas a vítima sai para trabalhar. O prédio tem gerente de banco, médico, advogado. Menos o síndico. O síndico nunca está.
— De onde vocês são?
— Do Morro do Pavão.
— Viemos gravar um longa-metragem.
— Metra o quê?
Metralhadora, cano Longo, granada, os negros armados até as gengivas. Não disse? Vou correr. Nordestino é homem. Porteiro é homem ou não é homem? Caroline dialogou: “A ideia é entrar num apartamento do prédio, de supetão, e filmar, fazer uma entrevista com o morador.”
O porteiro: “Entrar num apartamento?”
O porteiro: “Não.”
O pensamento: “Tô fodido.”
A ideia foi minha, confesso. O pessoal vive subindo o morro para fazer filme. A gente abre as nossas portas, mostra as nossas panelas, merda.
Foi assim: comprei uma câmera de terceira mão, marcamos, ensaiamos uns dias. Imagens exclusivas, colhidas na vida da classe média.
Caroline: “Querido, por favor, meu amor.” Caroline mostrou o microfone, de longe. Acenou com o batom, não sei.
Vou bem levar paulada de microfone? O microfone veio emprestado de um pai-de-santo, que patrocinou.
O porteiro apertou o apartamento 101, 102, 108. Foi mexendo em tudo que é andar. Estou sendo assaltado, pressionado, liguem para o 190, sei lá.
A graça era ninguém ser avisado. Perde-se a espontaneidade do depoimento. O condômino falar como é viver com carros na garagem, saldo, piscina, computador interligado. Dinheiro e sucesso. Festival de Brasília. Festival de Gramado. A gente fazendo exibição no telão da escola, no salão de festas do prédio.
Não.
A gente não só ouve samba. Não só ouve bala. Esse porteiro nem parece preto, deixando a gente preso do lado de fora. O morro tá lá, aberto 24 horas. A gente dá as boas-vindas de peito aberto. Os malandrões entram, tocam no nosso passado. A gente se abre que nem passarinho manso. A gente desabafa que nem papagaio. A gente canta, rebola. A gente oferece a nossa coca-cola.
Não quer deixar a gente estrear a porra do porteiro. É foda. Domingo, hoje é domingo. A gente só quer saber como a família almoça. Se fazem a mesma festa que a nossa. Prato, feijoada, guardanapo. Caralho, não precisa o síndico. Escute só. A gente vai tirar a câmera do saco. A gente mostra que é da paz, que a gente só quer melhorar, assim, o nosso cartaz. Fazer cinema. Cinema. Veja Fernanda Montenegro, quase ganha o Oscar.
— Fernanda Montenegro não, aqui ela não mora.
E avisou: “Vou chamar a polícia.”
A gente: “Chamar a polícia?”
Não tem quem goste de polícia. A gente não quer esse tipo de notícia. O esquema foi todo montado num puta dum sacrifício. Nicholson deixou de ir vender churro. Caroline desistiu da boate. Eu deixei esposa, cadela e filho. Um longa não, é só um curta. Alegria de pobre é dura. Filma. O quê? Dei a ordem: filma.
Começamos a filmar tudo. Alguns moradores posando a cara na sacada. O trânsito que transita. A sirene da polícia. Hã? A sirene da polícia. Todo filme tem sirene de polícia. E tiro. Muito tiro.
Em câmera violenta. Porra, Johnattan pulou o portão de ferro fundido. O porteiro trancou-se no vidro. Assustador. Apareceu gente de todo tipo. E a ideia não era essa. Tivemos que improvisar.
Sem problema, tudo bem.
Na edição a gente manda cortar.

Marcelino Freire, em Contos Negreiros

21/02/2025

The Beauty Of Cinema Paradiso

Sonho infinito de Pao Yu

Pao Yu sonhou que estava em um jardim idêntico ao de sua casa. Será possível — disse — que haja um jardim idêntico ao meu?
Acercaram-se a ele umas donzelas. Pao Yu, atônito, disse a si mesmo: “Alguém terá donzelas iguais a Hsi-Yen, a Pin-Erh e a todas as da casa?” Uma das donzelas exclamou: “Aí está Pao Yu. Como terá chegado até aqui?” Pao Yu pensou que o haviam reconhecido. Adiantou-se e lhes disse: “Estava caminhando, e por casualidade cheguei até aqui.”
“Caminhemos um pouco”. As donzelas riram. “Que desatino! Te confundimos com Pao Yu, nosso amo, porém não és tão garboso como ele”. Eram donzelas de outro Pao Yu. “Queridas irmãs” — lhes disse — “eu sou Pao Yu. Quem é vosso amo?” “É Pao Yu” — responderam. “Seus pais lhe deram esse nome, composto dos caracteres Pao (precioso) e Yu (jade), para que sua vida fosse longa e feliz. Quem és tu para usurpar seu nome?” E se foram, rindo.
Pao Yu ficou abatido. “Nunca me trataram tão mal. Porque me detestaram estas donzelas? Existirá, de fato, um outro Pao Yu? Tenho que averiguar”. Movido por estes pensamentos, chegou até um pátio que lhe era familiar. Subiu a escada e entrou no seu quarto. Viu um jovem deitado; ao lado da cama, rindo, umas mocinhas faziam trabalhos domésticos. O jovem suspirava. Uma donzela lhe disse: “Que sonhas, Pao Yu? Estás aflito?”. “Tive um sonho muito esquisito. Sonhei que estava em um jardim e que vocês não me reconheciam e me deixavam só. Eu as segui até a casa e me encontrei com outro Pao Yu dormindo em minha cama”. Ao ouvir o diálogo, Pao Yu não se conteve e exclamou: “Vim em busca de um Pao Yu; és tu”. O jovem levantou-se e o abraçou, gritando: “Não era um sonho; tu és Pao Yu”. Do Jardim uma voz chamou: “Pao You!” Os dois Pao Yu estremeceram. O sonhado se foi; o outro dizia: “Volta logo, Pao Yu”. Pao Yu se despertou. Sua donzela Hsi-Yen lhe perguntou: “Que sonhavas, Pao Yu? Estás aflito?”. Tive um sonho muito esquisito. Sonhei que estava em um jardim e que vocês não me reconheciam..."

Tsao Hsue-qin, em Sonho do aposento vermelho (c. 1754), em Livro de Sonhos, de Jorge Luis Borges