29/12/2022

Um apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Machado de Assis, in Gazeta de Notícias, 1º de março de 1885

28/12/2022

Rollin' On from Jackie Venson Love Transcends Live in Austin

Riacho

Ninguém faz caso:
o riacho
que brota do coração de uma pequena fonte
tenciona ao mar.

Abbas Kiarostami, in Nuvens de algodão

Capítulo sete | Um Burro enigmático


Quando a terra se converte num altar, a vida se transforma numa reza.
Padre Nunes

Eu nunca imaginei quanto a ilha se tinha magoado com o naufrágio. Era como se todo o destino de Luar-do-Chão tivesse ficado coberto por essa mácula. Só entendi o peso daquela memória quando a Avó Dulcineusa me falou do burro que tínhamos encontrado em plena casa de Deus.
A presença do animal me tinha intrigado. Tanto que, de noite, o bicho tinha espreitado o meu sonho. Não fora um pesadelo. Olhar de burro está sempre acolchoado de um veludo afectuoso. Mas aqueles olhos eram mais do que isso. Possuíam humaníssima expressão e me convidavam para travessias que me inquietavam, bem para além da última curva do rio.
Acordo, estremunhado, apressado em esclarecer a estranheza que eu recolhera na visita ao Padre Nunes. Surpreendo a Avó na cozinha, em preparo de refeição. Pela janela escuto a sua lengalenga, monotónica. A Avó sempre recitava enquanto preparava a comida. Era uma reza invariavelmente repetida: semente na terra, pão no forno, a gota no ventre, este mundo está grávida e nunca mais é pai. Interrompo a cantilena e lhe atiro a pergunta mesmo antes dos bons-dias: – Avó, me explique esse burro, lá na igreja!
– O burro?
– Sim, como é que um burro vive numa igreja?
– Qual é o problema? Jesus não tinha um burro do lado do berço?
Está a fugir da resposta. Insisto tanto que ela se senta, suspirando fundo. Em seu rosto passa uma sombra tão espessa que até a voz lhe escurece. Diz que eu faço mal em querer saber. Como se naquele tristonho animal, assim tão hereticamente posto em lugar santo, estivesse o mistério de todo o universo. A avó molha o dedo indicador como fazem os contadores de dinheiros. Sempre que a conversa se adivinha longa, ela recorre àquele tique como se se preparasse para desfolhar um pesado livro.
– A história desse burro começa no dia do desastre.
Recordava-se de tudo o que ocorrera no dia da tragédia do barco. Naquela manhã ela fora ajudar o Padre Nunes a cuidar dos afazeres. O dia despertara aberto e claro. De súbito, porém, uma inesperada ventania chicoteou os céus. As nuvens se carregaram como se fossem cabides de roupas escuras penduradas junto às casas. Dulcineusa apressou o passo para se resguardar na casa de Deus. Encontrou o Padre Nunes sentado num degrau do altar. Absorto, o português escutava a chuva timbilando no tecto da igreja. Era uma bátega estranha, dessas que chegam sem anúncio e, num instante, fazem o céu dissolver-se todo inteiro.
Umas pancadas apressadas na porta não alteraram a meditação do sacerdote. Continuou olhando a vela no altar. A cera derretida demorava uma periclitância, como hesitante lágrima no topo da vela. Depois desabava, em súbito serpenteio, até perder o fôlego e se estancar sólida, alto-relevada. Com o dedo o padre remoldava a vela como se fosse um brinquedo por terminar.
Quando a porta já estrondeava, o padre chamou a Avó Dulcineusa. Que fosse ver quem era. A Avó pousou as flores que trazia sobraçadas. Como sempre fazia, ela substituía as flores verdadeiras por umas de plástico que lhe traziam da cidade. As flores silvestres com que o padre decorava o átrio eram lança das pela janela e trocadas por mal acabadas imitações. a plástico, dizia ela, é que é a eternidade. Não se pode, neste lugar, manter coisa perecível. Mesmos nós, as humildes criaturas, naquele recanto, nos tornávamos eternos.
– Quem é? – perguntou o padre.
A velha espreitou pela fresta e anunciou: – É João Loucomotiva.
O padre suspirou. João era um antigo guarda-freio emigrado lá na cidade e que enlouqueceu quando os comboios deixaram de circular. O homem regressou à ilha, mas uma parte dele ficou para sempre junto de uma estação ferroviária à espera do lento suspiro dos trens. Que pretendia o velho tresloucado àquela hora? Quando Dulcineusa abriu a porta, o padre, meio ofuscado pela claridade exterior, apenas vislumbrou um burro. Um jumento tão encharcado que as orelhas lhe tombavam, sob o peso. Só depois descortinou o vulto de João Loucomotiva.
– Entre, por amor de Deus.
O antigo ferroviário sacudiu as mangas do casaco e passou a mão, em concha, a recolher o molhado que lhe escorria pelo rosto.
– Entre, meu amigo. Mas entre sem o burro. Tarde de mais. O asno já se instalara no abrigo e recusava o uso da força para voltar a transpor a porta. O bicho empancara, cheio de testa, todo o corpo teso. João Loucomotiva desistiu de empurrar o animal. O padre acabou aceitando a desordem natural das coisas. O asno escoiceou no chão e o som do casco ressoou pelo recinto. Era a proclamação da sua tomada de posse.
– Mas que raio de burro é esse? O bicho é seu?
– Esse burro vinha no barco.
– Mas que barco?
– Já falo tudo, senhor padre.
– Então fale, homem de Deus!
– Eu venho porque me mandaram chamar o senhor.
– Mandaram-me chamar?
– Por causa do desastre.
O padre pensou em silêncio: pronto, lá me vem ele com o devaneio do desastre. Fazia parte do delírio de João escutar comboios descarrilando nos pântanos, despenhando-se das pontes e dissolvendo-se no escuro dos túneis. Nunes pediu a Deus que o abastecesse de paciência e abrigasse aquela descarrilada criatura como se a igreja fosse a estação de caminhos-de-ferro que o desvairado há tanto procurava. Abriu os braços em direcção a Loucomotiva e pensou: sou um espantalho, tão pobre e falhado que, em vez de afastar, acabo atraindo a passarada. E este que acabou de entrar é um pássaro, tão pássaro quanto os verdadeiros, de pena e asa.
– Não foi o comboio, senhor padre. Foi o barco, o barco que se afundou.
– O barco afundou? Quanda?
– Esta madrugada. Este burro vinha no barco, foi o único que se salvou.
A primeira coisa que o padre fez foi ajoelhar-se e benzer-se. O silêncio que se impôs enquanto ele rezava parecia ser respeitado até pelo burro que, olhos cheios, contemplava, imóvel, o português. E assim se ficou, tudo em divino silêncio até que o padre se ergueu e abriu as portadas. Parara de chover e uma estranha quietude pairava sobre a encosta. Foi então que se escutaram os lamentos, gritos e prantos vindos do rio. As mulheres hasteavam a sua tristeza, sinal que a morte já procedia à sua colheita. Dulcineusa soltou as flores e saiu correndo. O padre seguiu a Avó, repuxando a batina para andar mais célere. João Loucomotiva retirou-se, sem pressa, cuidando de confirmar se, entretanto, o quadrúpede não abandonava o templo.
No rio ainda havia buscas mas não restava esperança de encontrar sobreviventes. A tragédia acontecera nas primeiras horas da manhã. Os corpos se afundaram para sempre na corrente. O casco do barco, meio tombado, ainda flutuava. Sobre o fundo enferrujado, podia ler-se o nome da embarcação pintado a letras verdes: Vasco da Gama. Fazia ligação com a cidade e, como sempre, ia sobrecarregado de gente e mercadoria. A ambição dos novos propietários, todos reconheciam a meia voz, estava na origem do acidente. Sabia-se o nome dos culpados mas, ao contrário das letras verdes no casco, a identidade dessa gente permaneceria oculta por baixo do medo.
Agora se entendia a súbita alteração dos elementos, nas primeiras horas da manhã. Quando o barco foi engolido pelas águas, o céu da Ilha se transtornou. Um golpe roubou a luz e as nuvens se adensaram.
Um vento súbito se levantou e rondou pelo casario. Na torre da igreja o sino começou a soar sem que ninguém lhe tivesse tocado. As árvores todas se agitaram e, de repente, num só movimento, seus troncos rodaram e se viraram para o poente. Os deuses estavam rabiscando mágoas no fundo azul dos céus. Os habitantes se apercebiam que o que se passava não era apenas um acidente fluvial. Era muito mais que isso.
À medida que tomava conta da tragédia, o padre ia perdendo o esclarecimento, mais apalermado que o próprio João Loucomotiva. Retirou os óculos e atirou-os para o capim. Dulcineusa foi no seu encalço para lhe entregar o que ele havia deixado cair. Mas o religioso fez questão em negar. Preferia deixar de ver.
E assim, pitosguiando aos tropeções, o sacerdote começou a deambular sem destino, parecendo que, para ele, qualquer direcção lhe servia. Dulcineusa seguia-o à distância, pesarosa por estar a assistir ao desintegrar do espírito do seu guia religioso. Rezava baixinho para que fosse coisa passageira mas o padre não dava mostras de recuperar. Perto dos pântanos, por fim, ele se deteve frente à casa do feiticeiro Muana wa Nweti. Após uma hesitação entrou na obscuridade da palhota. Pediu ao feiticeiro: – Atire os búzios, Muana wa Nweti.
O adivinho, intrigado, levantou os olhos. O padre insistiu, encorajando: ele que atirasse os búzios que ele queria saber do seu destino, agora que os anjos o tinham deixado tombar, sem amparo, no vazio da incerteza.
– Deixe os búzios falarem.
Dulcineusa, por respeito, se retirou. Nunca chegou a saber que vaticínios o adivinho tinha detectado no futuro do português. Mas isso não a incomodava tanto quanto o clérigo ter aceitado sentar-se no pátio do adivinhão. A que ponto estava desorientado para sujeitar-se àquilo que sempre condenara? Quando o padre saiu da consulta ela, de novo, o foi seguindo enquanto insistia com doçura: – Padre, os seus óculos.
Nunes regressou à igreja e preparava-se para lá se fechar quando se virou para Dulcineusa e balbuciou qualquer coisa que ela não entendeu. A Avóaproveitou para sanar a curiosidade que lhe fervilhava por dentro: – Esse feiticeiro disse o quê, senhor padre? Nunes fitou-a com um ar tão embriagado que, por um momento, a velha Dulcineusa acreditou que Muana wa Nweti lhe tinha feito beber algo. Após uns segundos, o sacerdote falou: – Esse burro, Dona Dulcineusa. Prometa-me que vai tratar dele.
– Tratar dele? Nunca a Avó se esclareceu sobre os tratamentos a aplicar na besta. Nunes se enclausurou em estranho alheamento. Passaram-se dias sem que se rezasse missa em Luar-do-Chão. O sacerdote saía manhãcedo e só à noite regressava. O único fiel ocupante da igreja era o burro. O bicho, com sua silenciosa sapiência, nunca mais se iria retirar da igreja, mais praticante que um beato.
Durante esse tempo, o padre rezava sozinho na margem do Madzimi. A Avó passou a servir de uma espécie de sacristão de campanha. Para ali conduzia as flores de plástico e as espetava em redor da rocha onde o padre agora se ajoelhava.
Certa vez, quem compareceu nesse descampado foi Fulano Malta. Dulcineusa muito se admirou. O que faria ali esse seu arrevesado filho? Fulano se apresentou e disse que vinha conversar.
– Confessar? – perguntou o padre.
Confessar, podia ser, aceitou Fulano. Mas não conversou, nem confessou. Ficou calado, fazendo coro com o silêncio de Nunes. Sentados, os dois contemplaram o rio como se escutassem coisas só deles. Até que, por fim, meu pai decidiu falar: – Quem tinha razão era Mariavilhosa.
– Razão de quê?
– Precisamos plantar um embondeiro.
– Um embondeiro onde?
– No rio, padre. No fundo do rio. Se quisermos recuperar os náufragos temos que estancar a corrente.
Dulcineusa, atenta, aguardou a resposta do sacerdote. Queria confirmar se não estariam os dois loucos, afectados pelo acontecer e desacontecer em nossa Ilha. O padre nada respondeu. Ele sabia o que Fulano estava referindo. Nunes conhecia a sua história e de sua mulher Mariavilhosa. Sabia como o destino de ambos estava ligado ao rio Madzimi.
O padre ainda se recordava de como, há uma trintena de anos, tudo começara entre os dois apaixonados. Numa longínqua tarde, o ainda jovem Fulano se juntara à multidão para assistir à chegada do Vasco da Gama. Entre os marinheiros ele notou a presença de um homem belo, de olhos profundos. Fulano se prendeu nesses olhos. Estranhou aquele apego às feições de alguém tão macho quanto ele. Não era tanto os olhos mas o olhar que o outro lhe dedicou, furtivo e, contudo, cheio de intenção. Fulano se interrogou, amargurado perante aquela atracção. Estaria doente, seria doente? Contrariando os seus hábitos, Fulano Malta até se chegou a confessar. Nunes escutou em silêncio a admissão daquela paixão proibida. Meu pai estava obcecado: aquilo não podia estar sucedendo com ele.
– Padre, eu sou normal? De nada valeram as palavras tranquilizadoras do padre. A angústia, em meu pai, crescia com a irreprimível paixão. Certa vez, seguiu esse marinheiro e lhe pediu explicação de alguma nenhuma coisa. Apenas pretexto para tenção e intenção. O marinheiro respondeu evasivamente, e solicitou que nunca mais lhe fosse dirigi da palavra. Que ele era um fugitivo da outra margem, escapadiço de perseguições políticas. Lhe custava até falar. O rigor daquele serviço no barco agravara a fraqueza que a prisão lhe trouxera. Daí a sua aparência frágil, seus modos escassos.
Meu pai ficou de pé retaguardado. O estranho, com aquela desculpa, se rodeava de acrescido mistério. Fulano ainda mais preso ficou. O barco chegava, e ele ficava contemplando as manobras de atracagem. E se concentrava, embevencido, nos gestos dolentes e frágeis do marinheiro. Uma noite escura, ele seguiu o embarcadiço enquanto este enveredava por trilhos escuros. Foi dar a casa do Amílcar Mascarenha. O médico veio à porta, policiou os olhos pela rua e fez com que o marinheiro entrasse.
Fulano se emboscou, peneirando na penumbra. Dali podia testemunhar o que se passava no interior. O médico mandou o embarcadiço tirar o casaco de ganga. Notou-se, então, que uma ligadura lhe apertava o peito. Deveria ser ferimento extenso, tal era a dimensão da ligadura. Quando o pano, enfim, se desenrolou, o espanto não coube em Fulano Malta, pois se tornaram visíveis dois robustos seios. O marinheiro, o enigmático marinheiro era, afinal, uma mulher! Fulano Malta respirou fundo, tão fundo que não notou que irrompia pela casa de Mascarenha e surpreendia a bela mulher meia despida. A moça nem se tentou proteger. Rodou em volta da mesa, olhos nos olhos de Fulano, enfrentando-o como se uma alma nova lhe viesse. Depois, cobriu-se com uma capulana e saiu. Fulano Malta sentou-se, abalado por aquela descoberta.
O médico então lhe contou toda a história: aquela moça era Mariavilhosa. Vivia mais a montante, num recanto do rio que poucos visitavam. Há uns meses, a desgraça tinha vindo ao seu encontro: fora violada e engravidara. Para abortar, no segredo, Mariavilhosa fizera uso da raiz da palmeira Lala. Espetara-a no útero, tão fundo quanto fora capaz. Mascarenha encontrara-a num estado deplorável: as entranhas infectadas, sangue apodrecendo no ventre. Ele fez o que era possível. Mas a moça deveria prosseguir um tratamento continuado que só podia ser administrado na capital. Ora, naquele tempo, os negros estavam proibidos de viajar no barco. O Vasco da Gama era só para os brancos. Mariavilhosa o que fez? Disfarçou-se de tripulante. Os marinheiros eram os únicos negros autorizados a embarcar. Ela seria um deles, puxando corda, empurrando manivelas. Fulano se encontrara com esse marinheiro de água doce e o seu coração detectara, para além do disfarce, a mulher da sua vida.
A história teria aqui um fim não fossem as marcas que ficaram em Mariavilhosa. O ventre dessa mulher adoecera para sempre. E não havia cura de que a medicina fosse capaz. Das costuras e cicatrizes escorreria sangue sempre que na ilha nascesse uma criança.
Mariavilhosa tivera-me a mim, no meio de frustradas tentativas. Uma angústia, porém, permanecia como âncora, amarrando para sempre a capacidade de ser feliz. E isso me torturava. Me parecia que eu era um insuficiente filho, que não havia bastado como realização materna. Ainda hoje essa irresolúvel melancolia de Mariavilhosa me deixava abatido. Agora que minha Avó se recorda de tudo isto eu aproveito para tirar o assunto a limpo: – É verdade que minha mãe morreu afogada? Afogada era um modo de dizer. Ela suicidara-se, então? A Avó escolhe cuidadosamente as palavras. Não seria suicídio, também. O que ela fez, uma certa tarde, foi desatar a entrar pelo rio até desaparecer, engolida pela corrente. Morrera? Duvidava-se. Talvez se tivesse transformado nesses espíritos da água que, anos depois, reaparecem com poderes sobre os viventes. Até porque houve quem testemunhasse que, naquela derradeira tarde, à medida que ia submergindo, Mariavilhosa se ia convertendo em água. Quando entrou no rio seu corpo já era água. E nada mais senão água. Meu pai ainda se lançou no Madzimi a procurar a sua amada. Mergulhava e nadava para trás e para a frente como um golfinho enlouquecido. Mas sucedia algo extraordinário: assim que ele entrava na água perdia o sentido da visão. Nadava ao acaso, embatendo nos troncos e encalhando nas margens. Até que o fizeram desistir e aceitar a triste irrealidade.
Afinal, o Avô Mariano não estreava as dificuldades da nossa família com as cerimónias fúnebres. Quando se procedeu ao funeral de minha mãe também não havia corpo. Acabaram enterrando um vaso com água do rio.
– Água é o que ela era, meu neto. Sua mãe é o rio, está correndo por a_ nessas ondas.
Para encontrar seu original formato seria preciso estancar as águas, plantando embondeiros no leito fundo. E para esse serviço só com ajuda das mãos dos deuses. Assim se dizia em Luar-do-Chão.
O suspiro de Dulcineusa é como um ponto de final no longo relato. Ela esfrega os dedos uns nos outros como se mostrasse que acabara de folhear uma última página. Olha-me bem nos olhos e sorri: – Já viu? Tudo isso a propósito de um burro.
– E o pai sabe de toda esta história?
– O que Fulano nunca soube foi quem violou Mariavilhosa.
– E quem foi?
– Não lhe posso dizer.
– Diga-me, Avó, eu preciso saber.
Dulcineusa hesita. Recorro ao infalível estratagema de lhe pegar nas mãos e acariciar os dedos. – Precisa mesmo de saber, meu neto? – Eu sou aquele que vai continuar-vos, Avó.
Preciso saber tudo.
– Foi Frederico Lopes, esse seu padrinho que o recebeu na cidade.
Lopes? Esse homem tão cristão, tão marido, tão metido com as mulheres da sua raça? Deveria ser engano. A julgar pelo seu comportamento público ninguém poderia crer nessa culpa. Mas era certo. E sabido pelo Padre Nunes. No momento, algo se iluminou dentro de mim: a foto de minha mãe na cabeceira de Conceição Lopes! A portuguesa sabia do que acontecera entre o marido e Mariavilhosa. E castigava Frederico com a imposição da presença, mesmo junto ao leito conjugal, do rosto de minha mãe.
O Padre Nunes estava a par de tudo e não se perdoava a si mesmo absolver e reabsolver esse Lopes nas confissões de domingo. Como, entretanto, foi absolvendo outras mais novas excelências cheias de poses e posses mas de mãos sujas de crimes. Talvez fossem esses os cansaços que ele referira. A Avó remira os dedos dela entrelaçados nos meus e vai falando pausadamente: – É por isso que estou tratando desse jumento trazido pelas águas.
– Não entendo a ligação, Avó.
– Esse burro não é só um bicho.
– Ora, avó, o burro é um burro.
– Vou-lhe dizer, meu neto: em Luar-do-Chão precisamos de um anjo muito mas muito puro. Mas o anjo que aqui permanecesse perderia, no instante, toda a pureza. Talvez você, Marianito...
– Talvez eu o quê?
– Talvez você seja esse anjo.

Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

Calvin e Haroldo

 

Nomes são somente som e eco

Logo, muito em breve, você será cinzas ou um esqueleto. Um mero nome ou nem isso — nomes são somente som e eco. As coisas muito valorizadas em vida são vazias, podres e triviais. Cães mordendo uns aos outros. Crianças brigando, rindo e chorando. A lealdade, a modéstia, a verdade e a justiça “partiram da ampla terra rumo ao Olimpo”.
O que ainda mantém você aqui se os objetos do sentido são inconstantes e facilmente alterados? Se os órgãos da percepção são lentos e prontamente recebem falsas impressões? Se a pobre alma é uma exalação de sangue? Ambicionar uma boa reputação num mundo como este é algo vazio.
À vista disso, por que não se mantém tranquilo enquanto aguarda o seu final — seja a extinção ou a transmutação? Até lá, faça o que é suficiente: adore aos deuses e os abençoe; faça o bem aos seus vizinhos; pratique a tolerância e o autocontrole. Quanto a tudo que está além da pobre carne e sopro vital, relembre-se que nada disso lhe pertence ou está sob seu poder.

Marco Aurélio, in Meditações

Pra não dizer que não falei das flores (Caminhando) | Geraldo Vandré, 1968


Ele queria fazer uma canção direta, com poucos acordes, veículo para a mensagem que pretendia passar. E acertou em cheio. Na forma, no conteúdo e também na maneira como apresentou “Pra não dizer que não falei das flores” nas eliminatórias e na final do III Festival Internacional da Canção Popular, em setembro de 1968. Enquanto a maioria dos intérpretes subiam ao palco com grande orquestra, e tropicalistas ainda adicionavam guitarras e grupos de rock, Geraldo Vandré (1935) abriu mão de qualquer acompanhamento: apenas sua voz e seu violão.
Voz e violão que, a cada nova etapa do festival, passaram a ser amplificados pelo coro da plateia. Até a noite final, em 29 de setembro, para um Maracanãzinho lotado, quando “Caminhando” (como ficou conhecida a canção) perdeu o primeiro lugar para “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque. Esta, mais sofisticada musicalmente, também tinha uma letra política, falava do exílio e de um Brasil que se distanciava de muitos de seus encantos. Mas, no fla-flu que virou a disputa entre as duas, não havia lugar para sutilezas. A parcela mais esquerdista do público adotou a música do cantor e compositor paraibano como um hino de resistência ao regime, com versos como “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, “acreditam nas flores vencendo o canhão” e “há soldados armados, amados ou não, quase todos perdidos de armas na mão”.
A menção às Forças Armadas incomodou especialmente os militares, quando setores mais radicais passaram a pedir a cabeça de Geraldo Vandré. Após a decretação do Ato Institucional no 5, em 13 de dezembro de 1968, o cantor foi obrigado a sumir de cena. Por quase três meses ele se escondeu na casa de amigos, até sair clandestinamente do Brasil, em 1969, para um exílio que se prolongou por quatro anos.
“Caminhando”, é claro, caiu nas garras da Censura, os discos foram retirados das lojas e sua execução pública foi proibida. Até 1979, ano da Anistia, quando finalmente voltou às paradas, regravada pela cantora Simone. Já o compositor pôde retornar ao Brasil em 1973, no auge da ditadura, após muitas negociações sigilosas que selaram um acordo com o governo. Voltou mas não retomou a carreira artística. Desde então, foram raras suas aparições públicas e a única nova canção que lançou, “Fabiana”, era uma homenagem à Força Aérea Brasileira.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

Se Laura Palmer Morasse na Abolição…

Querido diário:
Hoje escutei no rádio mais de cinquenta e quatro vezes a dupla Leandro e Leonardo (esses caras não jogaram no Flamengo?) cantando aquela merda: “Pensa em mim, liga pra mim, não liga pra ele”. Será que a musa inspiradora desses infelizes também não encontra orelhão funcionando? Telefona logo pra esses pentelhos, querida, e acaba de vez com essa chatice. Meu ouvido não é penico.
Sinto que eu vou ser estuprada e morta. Não é histeria, não. Questão de estatística. Quatro colegas minhas já passaram pela happy hour do Instituto Médico Legal.
Todo mundo aqui na Abolição conhece o tarado assassino. É ele quem investiga as mortes.
Moreno, altão, ex-torturador, joga muito bem vôlei. Quando lhe perguntaram o segredo de sua potente cortada, não vacilou:
- Penso que tô descendo a mão na cara da minha noiva e pronto. Treino todo dia.
De segunda a quinta, com a bola. Sexta, sábado e domingo, com a noiva.
Vi o Collor na TV, cumprimentando as Tartarugas Ninja. O resultado é mais ou menos feito um desenho animado das ditas, com participação especial do Roger Rabbit... Tem horas que me dá um desespero, fico pensando: estudar pra quê?
Melhor pintar a cara feito piranha, comprar umas botas bem escrotas e ir com o Magri para Genebra. A Nancy Reagan deu pro Sinatra em plena Casa Branca e o ti-ti-ti foi bem menor, apesar daquela perua ter dedurado a muvuca na biografia da mocréia. Nossos políticos são medíocres até no escândalo. Como diria o Bóris Yeltsin: é uma ver-go-nha!
Bolei um slogan em defesa do telespectador inteligente: NA BRIGA ENTRE A GLOBO E O SBT, QUEM PERDE OS TAMPOS É VOCÊ ! Sonoro, bacaninha e verdadeiro.
A verdade é que tudo ficou bem mais triste sem a Zélia. Aquele clima de bolero, as brigas com os vilões do empresariado, era uma beleza. Tô com saudade, Zelita! Veja só, querido diário, o que sobrou pra nós: a vida sexual do Marcílio promete ser menos excitante que voyeur olhando pacote de Maizena. Falando em vilões do empresariado, minha irmã mais velha contou uma história ótima: durante o seqüestro de Abílio Diniz, seu filhinho de apenas cinco anos acompanhava as reportagens sem entender nada. Quando a polícia conseguiu finalmente libertar o refém, o garotinho perguntou: Ma-nhê, porque estão soltando o que tem mais pinta de bandido?
Arranjei um namorado novo que tem a estampa do Pavarotti e as idéias do Renato Gaúcho. Quando minhas amigas perguntam como é que eu consigo transar com a peça, respondo, bem sarcástica: imaginando o contrário.
Sem grana pra comprar pílula, bolei um novo método anticoncepcional que não falha. É o seguinte: tem que ficar bem relaxada e procurar gozar primeiro. Se der pra mais de uma vez, perfeito. Aí, é só se mostrar bem carinhosa e pedir pro parceiro não deixar de avisar o momento certinho da ejaculação. Quando ele gritar: já!, é preciso fechar bem os olhos e pensar com fé: se fecundar, vai sair escarrado a cara do Cláudio Humberto. Tiro e queda: O óvulo entra em pânico e se desintegra.
Até amanhã,
sua Laura Palmer.

Aldir Blanc, in Brasil passado a sujo

24/12/2022

Pato Fu e Orquestra Ouro Preto

Mensagem

Em marcha, heroico, alado pé de verso,
busca-me o gral onde sangrei meus deuses:
conta às suas relíquias, ontem de ouro,
hoje de obscura cinza, pó de tempo,
que ele os venera ainda, o jogral verde
que outrora celebrou seus milagres fecundos.

Dize a eles que vinham
tecer silentes minha eternidade
que a lava antiga é pura cal agora
e queima-lhes incenso, e rouba-me farrapos
de seus mantos desertos de oferendas
onde possa chorar meu disfarce ferido.

Dize a eles que tombam
como chuvas de sêmen sobre campos de sal
sem mancha, mas terríveis
que desçam sobre a urna deste olvido
e engendrem rosas rubras
do estrume em que tornei seus dons de trigo e vinho.
Segue, elegia, busca-me nos portos
e nas praias de Antanho, e nas rochas de Algures
os deuses que afoguei no mar absurdo
de um casto sacrifício.
Apanha estas palavras do chão túmido
onde as deixo cair, findo o dilúvio:
forma delas um palco, um absoluto
onde possa dançar de novo, nu
contra o peso do mundo e a pureza dos anjos,
até que a lucidez venha construir
um templo justo, exato, onde cantemos.

Mário Faustino, in O homem e sua hora

Sota e barla


Sei onde, em maio, em Minas, o céu se vê azul. Feio é, todo modo, passar-se do sertão uma boiada, estorvos e perigos dos dois lados, por espaço de setenta léguas. Doriano, de gibão e jaleco, havendo de repartido olhar, comandava dependuradamente aquilo. Destino às porteiras do patrão e dono, Seo Siqueira-assú, Fazenda Capiabas, movia para o sul o trem de vaqueiros lorpas patifes e semi-selvagens bois.
Marinheiro de primeira nem de última viagem, moço maltratado e honrado pela vida, não confiava nas passadas experiências. Só esmava três-metades os azares, em mente a noção geralista: Tudo, o que acontece, é contra a gente. Mas não queria errar de próprio querer.
E estava-se na marcha do quinto dia, tomado o vento da banda da mão esquerda. Tem o gado de ir demais moroso, respeitado, por não achacar, não afracar, não sentir. Vêm de propósito pelos espigões as estradas boiadeiras.
Doriano exigia de si, de redobramento, rédeas endurecidas. Fiava nem-menos no comum dos vaqueiros, rabujos; só, o tanto, no amistoso cozinheiro, Duque, e no esteira Seistavado, dos tristonhos. Desordeiro sarnava por exemplo um Rulimão, de pôr-lhe abrolhos; tão-tudo, diligente destro. Esses, quais, descareciam de apurar ramos de cruz, nem preferir real ou ceitil. Dá é na cabeça, a dor das coisas.
E havida segunda boiada, que também de Seo Siqueira-assú, à vara dum Drujo, porfiador, três vezes rival, desamigo; não se tendo ora estima de por onde andasse, de rebuço, senão que vinda navegando igual passo — atrás, adiante, a par — resvés.
Doriano pegara defluxo. O vento rebulia, frio, apesar do destempo de calor. O gado estranhava. Dali ainda a longe, etapas, rumo-a-rumo, ao vice e versa da estrada, viviam aquelas em que Doriano cuidava, as duas, amores contrários, que a esperarem seu resolver. A Aquina e a Bici.
Antes, aqui os tropeços se antojavam, um a um, o mau diário bastante. Forçoso sendo guiar-se frentemente a boiada, o possível, inteira e sã, até às Capiabas, currais de bem, casa edifícia. Doriano protelava o pensar, não devendo encurtar ânimo nem abusar com a sorte. Tudo consigo não falava. Sofria só a dificuldade: a de escolher.
Foi no noveno dia, faltava água. Em o Laranjado, o Buriti-de-Dentro, o Se-Mexido, as esperadas grotas se acharam secadas. Rixavam os vaqueiros, queixosos, grossa parda de poeira cada cara, só fora os vermelhos beiços. O gado berrava. Doriano, chefe, perrengue trotava, a de-cá a de-lá e da guia à culatra, nessa confusão e labirinto, sem certeza do melhor e pior.
Entupia-o o constipado, apertada a testa, de nulo espírito do que fazer. Se em esvio do direito roteiro se botava, desladeado, desta ou da outra parte — água aí sobejasse, avonde, no campo baixo. Mas, por porém: iria tortear caminhos, sem a certa conhecença, mais uma boiada pesada de vagarosa, desdobradamente, ao retraso transtornoso. À Capiabas com ela chegar, não depois da do Drujo, competente, virava o que valia, nem um boi perdido, adoecido ou estramalhado. O nenhum encalacro.
Trepou a um outeiro alto, constante a cavalo. Espiou o poente: nem nada. Erguido firmado nos estrivos, espiou o nascente. Por cima de cerradão, se enxergava bolo de poeira, suspendida, que o vento rebate e desairada se esfaz. Delatava boiada costumada, que orçasse, já a-de-longe. Fosse o Drujo, estando de fortuna? Doriano disse: — “Deus te e me leve!” Por enfrouxecido.
Temeu que também os vaqueiros vissem a poeireira, nem nuvem conforme abelhas enxames, lhe dando dúvida. Tão então, se isso dos outros receava, não era sinal de que devia somente continuar a seguir, por diante, aquela própria serra diretiva, como pelas apagadas linhas de um documento? Obedecendo a segredas coisas assim o espiritado da boiada — o balanceio.
Seus vaqueiros lhe vinham às costas, de enrufo, a xingos, reardendo. Malsinavam-se. Reinava o Rulimão, ladino no provocar o Seistavado, costaneiro-espontador. A quanto e quando moderar esses rebelamentos?
Mas, só até — de estupefa! — já à dôida melhoria. As grotas se topavam com água, no Buriti-Formoso, no Buriti-da-Cacimba. Os vaqueiros abriam a natureza, cantavam letrilhas. Doriano quis esquecer o Drujo, e se lembrar daquelas, demais, a Bici, a Aquina; no mastigar da carne-seca, que o Duque assava gordurenta.
Tinha de travar plano; e o coração não concordava. Aquina, ociosa meretriz, na Caçapa, banda da mão direita. A Bici, moça para ser nôiva, à beira da lagoa Itãs, do lado do outro lado. Ele espontâneo se gemeu, mediante pragalhão, que meio puxava pelo nariz. Decidir logo formava danada ação; as verdades da vida são sem prazos. E o Drujo, invejador, que essas, uma e outra, por garapa e mel, também cobiçava!
Doriano caçasse do fino do ar a resolução; na sela, no calor do dia. Só o vento zazaz e as tripas lhe doendo na barriga. A iazinha Bici, flor de rososo jardim, de brancura, palhacinho de lindeza, água em moringa. A feitiçosa Aquina, no sombreado, relembrada, xodó e chamego, uso vezo. E a gente sem folga sujeito ao que puxa, ombro e ombro, homem nunca tem a mente vazia.
Devia tomar sentido no do Drujo, tramoias. Ter mão no Rulimão. Buscar os duvidados pastos, para se estanciar, o pernoite. Estimava os bois, juntos, o mexente formato, que ajuda a não razoar. A boiada cruzava um aniquilo de paragens, sem o que quase comer, em nhenhenhenha cafundura.
Pois vieram, ao Buritis-Cortados, senão onde, de um fazendeiro Pantoja.
Aquele estava à porteira, muito alto magro, de colete sem paletó e chapéu aboso. Se tinha um pasto, não alugava: por promisso com outro, de pronto chegar. Dava de ser o Drujo! Doriano não se coçou. Tomou bom fôlego. Lhe disse: — “O sr. no seu se praz...” — e tem-te se arredou, para se ver acontecer. Fez o gesto de cansado; pensaram que era o de forte decisão. Saía, espirrando e cuspindo, como todo boiadeiro tem medo de gostar dos bois.
Porém o fazendeiro Pantoja se adiantou, segredado compondo: que possuía outro pasto, o reservo melhor, a quarto-de-légua, seja se a três tiros de espingarda. Falou: — “Se vê, o sr. não precisa de ninguém. Por isso, merece e convém ter ajuda!” — assim ele desempatava.
Toque.
Vezes outras jornadas, o rumo no chão, gado e gente, nem tanto à várzea nem tanto à serra. Doriano o mole pensava. Aí embora até ao não delongável; da véspera para o dia. Iam pousar onde, de onde, as duas diversas moravam, banda a banda. Socapo, leleixento, não havia o Drujo de, de tresnoitação, tretear e caçar de se tremeter com a alguma delas, a qual? — em brio ele temeu. E viu, tangendo o cargueiro, o Duque, amigo. Disse-se: — “Tudo tem capacidade...”
Tranqueou o cavalo. Mandou. Ir o Rulimão fosse, mão direita, à Aquina, à Caçapa, com dinheiro, o alforrio; quisesse, lá ficasse, os três tempos, por espalhar o bofe, dias e mais — e desmoderado brabo renhir qualquer vindiço... Sorriu, com boa maldade.
Mas, empunhando arma contra quem intruso ali aparecesse, ir o Seistavado à Itãs, mão canhota, com a sua palavra de homem: de que, breve, ele Doriano, nas praxes, visitava a Bici moça e a Mãe e Pai, pelo pedido, finitivo. Tudo desvirava do incerto, remoído bem, depois das núncias e arras.
Tão o primeiro, quite, trouxe a boiada conduzida, ao Seo Siqueira-assú, afinal, em Capiabas, sem arribada, sem dano. Tossisse, a barba grada, no empoeiramento, condenado nisso, mais uns vaqueiros esfalfados. E já de noite: enchida a lua. Então, apalpou de repente no coração a Bici, que notou que amava; que o amor menos é um gosto para se morder que um perfume, de respirar. Tinha o nome dela, levantado sozinho, feito prendida no tope do chapéu branquinha flor.
Desapeava e olhando para trás em frente olhava, Doriano e tal, somenos espantado — do vão do sertão donde viera, a rota nada ou pouco entendida — nem sabendo o que a acontecer. Tendo a perfeita certeza.

Guimarães Rosa, in Tutameia

Conto erótico

— Às suas ordens.
— Que-quem é?
— Às suas ordens.
— Acho que apertei o botão errado. Ainda não me acostumei com o painel deste novo sistema. Como é que eu faço para conseguir uma linha direta?
— Linha direta: comprima o botão vermelho no canto direito inferior do painel. Aguarde. Se não der sinal de linha, comprima o botão marrom, depois o vermelho novamente. Repita a operação até conseguir a linha.
— Obrigado, senhorita...
— De nada. Desligo.
— Escute!
— Às suas ordens.
— Olhe. Por favor, não pense que eu estou sendo indiscreto, mas é que não reconheci a sua voz. Você é nova no escritório? Alô?
— Às suas ordens.
— Eu só queria esta informação...
— Informação: comprima o “zero” no painel. Aguarde. Quando ouvir o sinal eletrônico, declare a informação desejada. Fale pausadamente.
— Não, não. Eu só queria saber... Em primeiro lugar, o que é que você está fazendo aqui até esta hora? Todo mundo já foi para casa. Já sei, é seu primeiro dia, você ainda está desambientada. Mas não precisa exagerar. Ninguém me disse que iam contratar uma nova telefonista. Aliás, me disseram que com este novo sistema, não precisava de telefonista. Você não responde?
— Às suas ordens.
— Só me diga seu nome. Olhe, não sei o que lhe disseram a meu respeito, mas eu não sou um patrão duro, não. Só fico até esta hora no escritório porque, francamente, este é o lugar onde me sinto melhor. Minha mulher nem fala mais comigo. Me sinto muito melhor aqui, na minha mesa, na minha poltrona giratória, as minhas coisas, agora este novo telefone... Entendeu? Não sei por que estou contando tudo isto para você. Ah, é para você não ter medo de conversar comigo. Sou absolutamente inofensivo. As funcionárias deste escritório, para mim, fazem parte da mobília, entende? Jamais faltei com o respeito com nenhuma delas. Aliás, jamais faltei com o respeito com mulher nenhuma, ouviu? Você não tem nada para me dizer?
— Não há mensagens.
— O quê?
— Às suas ordens.
— Mas eu sou um animal. Você é uma gravação! Agora entendi. E eu aqui falando sozinho... Mas sabe que você tem uma voz linda?
— Às suas ordens.
— Quero fazer amor com você. Agora. Aqui. Em cima da mesa. Com a sua cabeça atirada para trás, por cima do calendário eletrônico. Com o jogo de canetas de acrílico espetando as suas costas. E você rindo, selvagemente, de prazer e de dor. Depois rolaremos pelo carpete como dois loucos. Como duas feras. Derrubaremos a mesa do café.
— Café: comprima o botão rosa.
— Ahn. Diz de novo. Comprima o botão rosa. Diz. Café.
— Café: comprima o botão rosa.
— Meu amor, minha paixão. Café.
— Café: comprima o botão rosa.
— Quero passar o resto da minha vida ouvindo a sua voz e comprimindo o seu botão rosa. Nunca mais preciso sair do escritório. Só nós dois. Quero fazer tudo com você. Tudo! Você deixa?
— Às suas ordens.

Luís Fernando Veríssimo, in Sexo na cabeça

Musa natalina

O ano, propriamente, se compõe de onze meses. Dezembro não conta: é só para desejar que os restantes sejam propícios. Parece que o sistema está longe da perfeição; chegaríamos a ela num calendário que abrangesse onze meses de bons augúrios e um de execução deles. Como está, os trinta e um dias não chegam para imaginarmos tudo de ótimo em benefício de todo mundo. Fica sempre uma fração larga de mundo a que não atingem os nossos desejos fraternos. China, Costa do Ouro, Oceania… Mas não é preciso ir tão longe. Mesmo perto de nós, mesmo dentro de nós, as lembranças costumam esquivar-se à apresentação espontânea, e até à convocação formal. Julgamos ter no coração um canteiro de afetos; contudo, uma grande área, nele, permanece inculta e cheia de ervas, não direi daninhas, mas ervas. O que admira não é a quantidade de pessoas a quem dedicamos um pensamento amigo, mas a multidão, o número realmente infinito, de outras em cuja existência nem sequer reparamos.
Foi para suavizar as lacunas da memória sentimental que se inventaram mensagens de boas-festas, e entre elas esses cartõezinhos onde há a vinheta de um pássaro, saltitando sobre versos, que começam a aparecer-nos por baixo da porta:

Este canarinho que canta
com tanta melodia
tantas saudades revela
perante este dia.

Desejo-lhe felicidades.
Aqui lhe venho saudar.
Se de mim tiverem queixa,
pois queiram me desculpar.

Numa terceira quadra, a assinatura: “Do vosso fiel lixeiro”. Este ano, passou a ser “vosso efetivo lixeiro”, porque até nesse ofício a concorrência se torna feroz.
E lá também “o vosso humilde leiteiro”, realmente tão humilde que o atual, de nossa rua, chegado há pouco da Paraíba, nem sequer sabia da existência desses cartões, e quando alguém lhe falou em festas, perguntou, espantado: “Festas? Que é festas? Vou conversar com o meu colega”. Os carteiros costumam exprimir-se em prosa, mas o entregador da tinturaria e o varredor de rua utilizam a nobre arte do verso, que abre picada até o sentimento burguês.
Contudo, seria desejável que as saudações de Natal oferecessem maior variedade, ou pelo menos exprimissem anseios mais concretos, definindo a situação particular de cada classe ou componente dela, e não apenas um vago ideal de felicidade. Penso que cada homem tem direito de pedir determinada coisa a seu semelhante.
É também o parecer de João Brandão, poeta “nas horas vagas porém”, que aqui ao lado propõe estas novas mensagens natalinas:

Do carteiro:

Votos mentais, apenas,
formule ao mundo inteiro.
Não multiplique as penas
do seu velho carteiro.

Do gari:

Pertence-lhe o apartamento?
E joga cascas na rua?
A vassourinha (um momento)
dou-lhe de festas. É sua.

Do lixeiro:

Posso, ilustre morador,
pedir-lhe, neste Natal,
que o seu lixo, por favor,
cheire um pouco menos mal?

Do leiteiro:

Meio litro, nesta semana,
ofereça, caro banqueiro,
do leite da bondade humana
a este seu humilde leiteiro.

Aí ficam as sugestões. Boas-festas a todos. E agora, amigos, meto a viola no saco, dizendo como frei Vicente do Salvador, ao terminar sua História do Brasil: “E darei fim a esta história, porque sou de sessenta e três anos, e já é tempo de tratar só da minha vida, e não das alheias”.

Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira

Hagar, o Horrível

Às duas horas da tarde de domingo

No meio de muita aflição e tristeza houve um momento, lembras-te? Foi por acaso, foi de repente, foi roubado, e se alguém tivesse tido a mais leve suspeita então seria a ignomínia total. Mas houve um momento; e dentro desse momento houve silêncio e beleza.
Seria impossível descrever o ambiente, estranho a nós ambos; e não havia nem cantos de pássaro nem murmúrio de mar. Talvez um ruído de elevador, uma campainha tocando no interior de outro apartamento, o fragor de um bonde lá fora, sons de um rádio distante, vagas vozes — e, me lembro, havia um feixe de luz oblíquo dando no chão e na parte de baixo de uma porta, recordo vagamente a cor rósea da parede.
Serão lembranças verdadeiras? Como voltar àquele apartamento, reconstituir aquelas duas horas da tarde, lembrar a data, verificar a posição dos móveis e o ângulo de incidência do sol? Do chão ou da porta do banheiro — creio que do chão — ele iluminava teus olhos claros que me fitavam quietos. O edifício, eu sei qual é. Seria possível procurar aquele vago casal amigo que encontramos na praia aquele dia e perguntar qual o número do apartamento em que então moravam?
Conseguiríamos licença do atual morador ou quem sabe penetraríamos sorrateiramente no apartamento, e então a mulher daquele vago casal nos diria aqui era o quarto, aqui o armário, a cama, além ficava o espelho...
Ah, haveria menos rumor na rua naquele tempo; menos automóveis estariam passando lá fora; mas certamente nas mesmas duas1 da tarde de domingo, embora não haja mais bondes, haveria algum rádio ligado esperando o começo de algum jogo de futebol, e o sol entraria no mesmo ângulo pela mesma janela. Pesquisaríamos os móveis antigos, iríamos comprá-los onde estivessem hoje, decerto a antiga dona se lembra a quem os vendeu e como eram — não creio que ainda sejam seus. Lembro-me que eram móveis banais; nós os colocaríamos no mesmo lugar e disposição...
Houve um momento. Talvez a pintura da parede hoje seja diferente; creio que era rosa. Tua roupa de banho era preta, tinha alça, lembro as marcas das alças. Foi subitamente, havia várias pessoas juntas, faltou água na casa de alguém, telefonou-se para dizer que não esperassem para o almoço, houve desencontros na praia, apareceu o casal — e então, por milagre, tudo o que era contra nós, as circunstâncias, os olhares, os horários, os esquemas da vida civil, as famílias com seus rádios, suas feijoadas dominicais, os encontros de esquina, as conveniências e os medos, tudo o que nos separava subitamente falhou, o casal desculpou-se e partiu, iam almoçar com a mãe dela, a empregada sumiu, eu tinha saído e por acaso tive de voltar — na verdade eu não poderia reconstituir os detalhes tediosos e vulgares; a lembrança que ficou é de um momento em que boiamos no bojo de uma nuvem, longe da cidade e do mundo, e todos os ruídos se distanciaram e se apagaram, ainda estavas toda salgada do mar, teus olhos me miravam quietos, sérios, teus olhos sempre de menina, teus cabelos molhados, teu grande corpo de um dourado pálido.
Houve um momento, aquele momento em que a carne se faz alma; e depois, muito depois, me disseste a mesma coisa que eu sentira, aquele momento suspenso no ar como uma flor, o estranho silêncio, sim, te lembras!
E depois as coisas banais em que a vida nos tornou, os caminhos complicados que cada um teve de fazer pela vida. Mas o pior não aconteceu. Nada, ninguém nos destruiu aquele momento, nem voz, nem porta batendo, nem telefone; o momento foi acaso e loucura, mas dentro dele houve um instante de serenidade pura e infinita beleza.
Ah, não me podes responder. Falo sozinho. Estás longe demais; e talvez tivesse de olhar duas vezes para reconhecer neste homem de cabelos brancos e de cara marcada pela vida aquele que fui um dia, o que te fez sofrer, e sofreu; mas quero que saibas que te vejo apenas como eras naquele momento, teu corpo ainda molhado do mar às duas horas da tarde; e milhares, milhões de relógios eternamente trabalhando contra nós nos bolsos, nos pulsos, nas paredes, todos cessaram de se mover porque naquele momento eras bela e pura como uma deusa e eras minha eternamente; eternamente. Naquele edifício daquela rua, naquele apartamento, entre aquelas paredes e aquele feixe de sol, eternamente. Além das nuvens, além dos mares, eternamente, às duas horas da tarde de domingo, eternamente.

Rubem Braga, in A traição das elegantes

23/12/2022

Cosmogonia

B

O hotel aqui não é grande coisa, mas tem uma privada de primeira. Defequei esplendidamente, como não o fazia há muito tempo — depois, acendi um charuto e saí a rodar discretamente pelo bairro, para tomar posição e ver se descobria em que país afinal me encontro, já que não me ficaria bem perguntar essas coisas ao dono do hotel ou ao primeiro transeunte que encontrasse. A língua oficial, ao que tudo indica, é a língua portuguesa, mas isso não adianta grande coisa na solução do mistério, pois tanto posso estar em Portugal como no Brasil, para não dizer nas ilhas dos Açores ou numa das muitas possessões que Portugal mantém na África ou na Ásia, se é que ainda as mantém. Ouvi também um pouco de espanhol — mas foi num rádio do bar da esquina, e pode ser que se tratasse apenas de um programa de boleros ou de tangos, como os que se ouvem em qualquer cidade da China ou na Bessarábia. A solução será mesmo comprar um jornal da tarde e ler no cabeçalho o nome da cidade em que é editado, pois não é admissível que os jornais aqui venham de outra cidade ou deixem de lembrar diariamente aos seus leitores que o nome da sua capital é X e não Y, como lhes lembra que hoje é quinta-feira e não sexta e que estamos nos meados do século XX e não do XIX.
Mas, enquanto persiste o mistério, sento-me à mesa de um bar e peço de uma vez oito copos de cerveja gelada, que vou emborcando silenciosamente sob o olhar atento de um menino maltrapilho, que certamente nunca viu ninguém tão rico quanto eu. (E se eu lhe perguntasse pelo nome da cidade, será que ele não perderia o respeito por mim, o grande respeito que advém dos oito copos de cerveja formados em fila indiana e que vou sorvendo com a calma sabedoria de um Buda?) Deixo-o fitar-me enquanto me embebedo, e, uma vez bêbado, atiro-lhe com um copo na cara e ameaço corrê-lo a pontapés, o que provoca a intromissão indébita do meu truculento vizinho da esquerda, que a viva força quer expulsar-me do bar e talvez do país.
Serenados os ânimos, não sem uma polpuda esmola de minha parte ao pequeno maltrapilho, dirijo-me em alemão ao meu vizinho da esquerda e, em tom amabilíssimo, cheio de sorrisos, mando-o para o inferno e para outros lugares ainda menos recomendáveis, o que provoca de sua parte um gesto amigável e algumas palavras, em português, do mais puro reconhecimento.
Quando dou por mim, muito tempo depois, estou sentado num banco de praça, ao lado de uma mulher gorda que não sei se ali está levada por mim ou se por conta própria, pois de fato não me lembro bem nem do meu nome nem do país ou do planeta em que estou, de tal forma me gira a cabeça e com ela todo o resto do corpo. A mulher gorda, seja ou não minha amante, não me dá a mínima importância e continua a fitar o vácuo à sua frente com o ar mais hierático deste mundo, como se fora um boneco de cera ou a própria estátua da Prostituta Desconhecida.
Afinal, após um vômito breve, consigo levantar-me com relativa facilidade — e, já senhor do meu pensamento, convido a respeitável matrona a passar comigo aquela noite, mostrando-lhe uma nota de mil francos e por conseguinte minhas boas intenções a seu respeito. A caminho do hotel, percebo que a mulher manca horrivelmente da perna esquerda e que é muito mais feia do que eu pensava, além de ter um hálito capaz de provocar verdadeira guerra bacteriológica num raio de dez quilômetros. Mas, como estou lírico e ainda não tenha vomitado toda a minha alma, levo-a assim mesmo para o quarto e ali a possuo por três vezes seguidas — duas por minha conta e uma em nome do meu irmão gêmeo e sepulto em mim — o que a faz lamentar ser tão pequena a minha família e tão avaro o meu espírito de fraternidade.
Finda a bacanal bacteriológica, levo o meu monstro coxo até um restaurante próximo, onde jantamos furiosamente e, entre uma garfada e outra, nos tratamos pelos nomes mais carinhosos possíveis, sob o espanto visível do garçom vesgo que nos serve. Quando ganhamos a rua já passa da meia-noite (pelo relógio do enforcado) e, após acordar toda a vizinhança com os nossos gritos obscenos, despedimo-nos como dois líricos namorados, não sem antes copularmos mais uma vez, em plena rua, ao som da uma valsa vienense que vem de dentro de um palacete feericamente iluminado.
Chegado ao hotel, verifico com espanto que fui roubado em minha carteira pela infame megera, certamente por ocasião da última cópula ao som do Danúbio Azul, o que me faz sair às pressas em busca do meu prestimoso enforcado, a ver se consigo arrancar-lhe a roupa, os sapatos e algum outro bem que porventura me tenha escapado por ocasião do primeiro saque. Na rua da Liberdade, porém, a madrugada reina impassível e sem fantasmas, e o corpo do meu amigo já não balouça mais como uma lanterna chinesa à luz fosca do lampião, certamente por já ter sido descoberto pela polícia e pela família inconsolável. Sento-me no meio-fio e, como um desesperado, choro pela madrugada adentro, tendo por única companhia a lua cheia sobre a cabeça e a sombra do meu irmão refletida numa poça d’água sob os meus pés.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua vem da Ásia