14/10/2022

Armandinho

Meu ideal seria escrever...

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse — “ai meu Deus, que história mais engraçada!” E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria — “mas essa história é mesmo muito engraçada!”
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse — e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse — “por favor, se comportem, que diabo! eu não gosto de prender ninguém!” E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago — mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina.”
E quando todos me perguntassem — “mas de onde é que você tirou essa história?” — eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...”
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

Rubem Braga, in A traição das elegantes

A Vida no Céu | Décimo quinto capítulo


(Liberdade: condição de um ser não sujeito ao constrangimento de limites físicos ou de pensamento. A possibilidade de correr sem tropeçar em muros ou paredes, ou sem cair no vazio. O capim crescendo para o céu. O destino de todos os perfumes, em particular do cheiro da terra molhada.)

Luan trazia uma mochila de couro a tiracolo. Retirou do interior da mochila uma pequena caixa de madeira. Abriu-a, num gesto teatral, como um mágico dos tempos antigos, e deu-nos a ver quatro bolinhas, rugosas como pedras, de um vermelho intenso e luminoso.
– Tirem uma. Comam.
– O que é isso?
– Faz o que te digo.
Estendeu a caixa a Aimée. Ao contrário de mim, ela não hesitou. Agarrou numa das bolinhas e colocou-a na boca:
– Humm, gostei. Meio ácida, meio doce.
Imitei-a. A textura lembrava a do gengibre. O sabor, acre e doce, com um leve travo a terra, não tinha paralelo com nada do que eu provara até então. Deixava na boca um rasto de luz.
– Vais dizer-nos o que é isto?
Luan sorriu. Sempre invejei o sorriso dele. Na pior refrega basta-lhe sorrir – sorrir daquela forma – para desarmar os oponentes.
– Após o regresso do teu pai a Luanda começaram a acontecer coisas – contou. – Coisas estranhas e velozes.
Assim que regressou a Luanda, Júlio reuniu-se com os responsáveis da aldeia. Contou o que se passara com ele, depois que caíra numa das redes de proteção do Paris, embora, por essa altura, ainda se sentisse muito confuso e de pouco se lembrasse. Luanda enviou uma mensagem ao governo francês, acusando Boniface de sequestro de um dos seus cidadãos e pedindo uma satisfação. Antes de receberem qualquer resposta, porém, chegou a notícia de que os piratas haviam tomado o Paris. Foi um enorme choque.
Júlio, pessoa habitualmente calma e aberta, não conseguia conter a inquietação. Passava muito tempo na biblioteca central, estudando velhos papéis, ou fechava-se com dois ou três amigos na biblioteca da Mutamba, a balsa do meu tio Ismael, para onde se mudara, juntamente com a minha mãe. Uma noite, ao entrar na sala de jantar, Luan surpreendeu uma conversa entre os dois casais.
– Não são sonhos – afirmava o meu pai. – Sei que não são sonhos. São recordações. Pouco a pouco, me vou recordando de tudo. Eles me davam alguma coisa para beber. Um chá. Aquilo me provocava uma soneira. Nesse estado, meio dormindo, me faziam perguntas. Sempre as mesmas perguntas. Queriam saber se era verdade, como constava no meu passaporte, que eu nascera na amazónia brasileira, e porque me chamava Tucano. Expliquei-lhes que era o nome de uma tribo de índios da região onde nasci. Havia esse costume de as pessoas tomarem o nome da sua tribo. Boniface conhecia os Tucanos. Não sei como. Parecia saber mais sobre os Tucanos do que eu próprio. Meu pai era tucano. Meu avô foi pajé. Boniface me perguntou por uma raiz chamada itapiranga. Esse nome me recorda alguma coisa. Contudo não sei o que seja. Talvez algum brasileiro me possa ajudar.
Uma tarde viram aproximar-se um balão pequeno, pintado de branco, azul e vermelho. Ismael foi buscar os binóculos e leu alto o nome: La Rochelle.
O meu pai assustou-se:
– Uma balsa francesa?!
A balsa pediu autorização para atracar. O capitão explicou que fugira do Paris e necessitava de água e mantimentos. A população começou a juntar-se ao redor da torre de atracagem, para assistir ao desembarque dos franceses e escutar, em primeira mão, notícias da Cidade-Luz. Júlio, contudo, desconfiou da intenção dos visitantes. Eram três homens. Um deles pareceu-lhe familiar.
Enquanto os refugiados se reuniam com o governador de Luanda e outros notáveis da aldeia, Júlio e Ismael subiram furtivamente pela escada de corda que dava para a La Rochelle. Arrombaram a porta da cabina de comando e, numa vistoria rápida, confirmaram as suspeitas de Júlio. Encontraram uma metralhadora, duas pistolas e diversas fotografias do meu pai. Juntaram tudo aquilo, e dirigiram-se ao jango, interrompendo a reunião. Os três homens foram logo presos. Um deles, um colombiano barbudo, chamado Mallo, aceitou falar, na condição de que o deixassem partir na La Rochelle, não de volta ao Paris, porque Boniface nunca o perdoaria, talvez até o mandasse matar, mas para recomeçar uma vida nova no vasto céu. Vinham, confessou, com a missão de sequestrar O Voador. Boniface parecia acreditar que O Voador o poderia conduzir até uma ilha verde, um local conhecido antes do Dilúvio por Pico da Neblina, no qual, segundo a lenda, persistiria uma população indígena. Estes índios, os Tucanos, cultivariam uma raiz, um tubérculo, ou uma fruta, capaz de abrandar o ritmo cardíaco, desacelerando todo o metabolismo. O consumo regular de tal raiz permitiria resistir indefinidamente, e sem grande desconforto, às altas temperaturas.
– Um momento, um momento! – Aimée interrompeu-o, atordoada. – Aquilo que nos ofereceste a provar, aquelas raízes...
– São frutos...
– Ou isso...
– Não te sentes melhor?
Aimée riu-se. Ri-me com ela. Talvez fosse ilusão, talvez fosse apenas porque uma leve brisa ascendia da floresta, refrescando-nos a pele, mas a verdade é que me sentia, de repente, muitíssimo melhor. Respirava sem esforço. Era como se estivesse lá em cima, estendido numa rede, a ler um livro, no convés da Maianga, ou, ainda mais alto, na varanda do meu pequeno apartamento, no Paris.
– Que coisa incrível – suspirou Aimée. – E o que aconteceu a seguir? Como é que tu vieste aqui parar?
Luan retomou a sua história. Contou como, receosos de uma nova investida dos homens de Boniface, dessa vez com meios mais poderosos, a população de Luanda optara por cortar todas as comunicações com o exterior. A aldeia desapareceu dos mapas. Nos dias seguintes, Júlio foi ficando cada vez mais inquieto. Por um lado, estava preocupado comigo. Por outro, começara a acreditar na lenda da Ilha Verde. Tomou então a decisão de partir na La Rochelle. Mallo aceitou acompanhá-lo na condição de que, caso não me encontrassem, nem à ilha, no prazo de dois meses, retornariam a Luanda, e, de lá, após Júlio desembarcar, poderia prosseguir viagem. Encontrando a ilha, poderia também partir, se assim o desejasse. Luan pediu para os acompanhar. Argumentou que o pirata, ou ex-pirata, era bem capaz de aproveitar um momento de distração de Júlio (por exemplo, enquanto este dormia) para o neutralizar, entregando-o depois, conforme o plano original, nas mãos de Boniface, no Paris. Era um argumento tão forte que o meu pai se deixou convencer.
Foi assim que os três se fizeram ao céu. Dispunham de bons mapas, dos tempos antigos, levados de empréstimo dos arquivos de Luanda, mas o sistema de navegação da balsa era bastante rudimentar. Júlio não desanimou. Deixou-se guiar pela intuição. Ri-me. Deixar-se guiar pela intuição é algo que o meu pai faz muitíssimo bem. Hoje, olhando para trás, percebo que sempre partilhou esse obscuro talento com Sibongile. “Quem tem um coração nunca se perde”, costuma repetir. “Só o coração é capaz de encontrar o que a razão perdeu.” Acredito que terá herdado tal habilidade do meu avô, o velho Lucas, pajé dos Tucanos. Talvez eu próprio a possua, escondida, ou atrofiada, e precise apenas de a exercitar.
Guiado pelo coração, Júlio contornou tempestades, e iludiu as correntezas do céu. A determinada altura, avistaram, muito ao longe, a silhueta dourada do Paris. O imenso dirigível convergia, é claro, para o mesmo destino, embora com a lentidão e a errância de um mastodonte cego. A La Rochelle, pelo contrário, seguia, determinada e firme, em linha reta. Em poucos dias, acharam a ilha. O meu pai preparou duas mochilas, enchendo-as de cantis com água, pacotes de peixe seco e meia dúzia de instrumentos de sobrevivência, como canivetes e fósforos, e desceu, seguido de Luan. Assim que se viu sozinho, o pirata, ou ex-pirata, ergueu âncora e desapareceu.
– Não compreendo – protestei. – Porque o deixaram sozinho?
– O teu pai estava ansioso por descer, pois o Paris podia chegar a qualquer instante. Não me queria deixar sozinho com o Mallo. Além disso nunca duvidou de que tu virias.
Era uma manhã de céu sereno e transparente, dois de fevereiro. O sol brilhava sobre as rochas. Júlio soltou o cabo, ajoelhou-se e beijou as rochas. Luan não sabia o que fazer. Ficaram os dois ali, como nós depois deles, mudos de espanto. A floresta parecia avançar, cercando-os, vinda da bruma. Então, um canto irrompeu a toda a volta, muito suavemente, como no interior de um sonho o rumor de um rio. Pouco a pouco afirmou-se e veio subindo. Júlio sacudiu a cabeça, incrédulo:
– Eu conheço isto – murmurou. – Conheço esta canção.
Luan apurou o ouvido. Conseguiu distinguir algumas palavras, frases soltas:

... águas...
... no fundo do mar...
... como se saúda a Rainha do Mar?...

Quem quer que estivesse ali, para além das espessas ramadas, cantava em português. Júlio ergueu-se, batendo palmas ao ritmo da música, e começou a dançar, ao mesmo tempo que juntava a sua voz ao coro que crescia. Luan viu que surgiam figuras humanas na orla da floresta. Era difícil distingui-las da folhagem em redor, pois traziam o corpo pintado de vários tons de verde e moviam-se como se movem as árvores tocadas pela brisa.
– O meu pai não dança – contestei, incrédulo. – Nunca o vi dançar. Não sabe dançar.
Luan riu-se:
– E no entanto dançou. Deve ter dançado bem, deve ter cantado ainda melhor, porque em pouco tempo toda aquela gente nos rodeava, oferecendo-nos frutas, frutas incríveis, que eu nunca vira antes, e água fresca. Entre os frutos que eu nunca vira antes estavam esses que vocês comeram há pouco.
– E depois?
– Levaram-nos para a floresta. Eles vivem em grandes casas redondas, feitas de bambu, numa aldeia entalada entre dois enormes penedos. Um rio corre ali perto. Nessa noite dormimos lá. Na manhã seguinte, acordámos com os tiros. Os piratas tinham entrado na aldeia.
Luan foi arrastado para a floresta por três rapazes. Ainda viu Boniface, à frente de um grupo de piratas, todos eles dobrados pelo peso do calor e do cansaço, gritando e disparando para o ar. Os rapazes moviam-se através da floresta com a desenvoltura de aves no céu. Riam-se diante da inépcia do meu primo que tropeçava a cada passo nas raízes expostas ou se arranhava ao tentar segurar-se a um tronco coberto de espinhos. Um dos rapazes, chamado Marco, ofereceu-lhe um dos frutos vermelhos:
– Você vai se sentir melhor.
Horas mais tarde encontraram um outro grupo. Logo a seguir outro, e depois outro. Júlio não estava em nenhum deles. Um velho alto, de rosto anguloso, que parecia ter sido cinzelado em madeira por um escultor apressado, tranquilizou Luan:
– Seu tio está seguro. Todo o mundo fugiu. Ninguém ficou ferido. Só temos de esperar um dia ou dois...
– Esperar o quê?
– Esperar que a floresta os coma...
Luan olhou-o, horrorizado:
– O quê?!
– A floresta devora o mal. A natureza erra, mas, cedo ou tarde, sempre se liberta do erro.
O meu primo levou algum tempo a compreender a observação do velho. Escondidos entre as árvores viram os piratas virar e revirar a aldeia, impacientes, à procura dos tubérculos vermelhos. Mal o sol começou a declinar chegaram os mosquitos. Uma mulher esfregou o corpo de Luan com um óleo macio, cujo perfume, levemente ácido, mantém os insetos à distância. Boniface e os seus homens, porém, não estavam preparados para mais aquele infortúnio. Giravam, exaustos, davam grandes palmadas no próprio corpo, tentando escapar às ávidas nuvens cinzentas que lhes caíam em cima. Por fim despiram-se, maldizendo a ilha e as suas armadilhas, e lançaram-se às águas do rio:
– Péssima ideia – comentou Marco. – O rio, naquele troço, tá cheio de jacarés.
Minutos depois, um dos piratas saltava para a margem, aos gritos, coxeando, sangrando muito do pé direito. Os outros correram também para terra. Boniface, começou a cobrir o corpo com lama, para aplacar as ferroadas, no que foi imitado pelos restantes. O homem ferido caiu, chorando e lamentando-se, sem que os companheiros se incomodassem com ele. Pareciam seres de um outro planeta, e, de certa forma, eram. Vultos escuros rodopiando no charco da noite.
Quando amanheceu, todos os piratas jaziam de borco.
– Naquele estado – continuou Luan –, assim imóveis e cobertos de lama, era como se fizessem parte do chão. Ou melhor, era como se a terra estivesse a engoli-los.
– Temos de os ajudar! – pediu Luan. – Aqueles homens vão morrer.
O velho encolheu os ombros:
– Não são homens bons.
– Bons ou maus, não os podemos deixar morrer.
– Podemos sim. Claro que podemos. Mas não se preocupe que a decisão não será sua. Jerónimo decidirá.
Um sujeito minúsculo, de pele muito negra e reluzente, vestido apenas com uma velha bermuda amarela, irrompeu da floresta, aos saltos, como um esquilo. Aproximou-se do terreiro, no qual estavam estendidos os dez piratas, e ficou um momento a observá-los. Voltou-se para trás, ergueu o braço direito, e logo surgiu um outro homem. Era Júlio. O velho riu-se. Mostrou-o a Luan:
– Veja! Seu tio está com Jerónimo.
Os dois homens ajoelharam-se junto a Boniface. Júlio tirou um cantil da mochila e, erguendo a cabeça do chefe dos piratas, deu-lhe a beber um bom trago. A seguir Jerónimo tirou uma das milagrosas bolinhas vermelhas do bolso da bermuda e enfiou-a na boca de Boniface. Fizeram o mesmo com os outros piratas. O que fora mordido por um jacaré, porém, não deu sinais de vida. Júlio soltou-o, num gesto de desânimo. Aquele, já a floresta comera.
– E os outros piratas? – perguntei. – O que fizeram com eles?
– Nada. Jerónimo deixou-os soltos. Limitou-se a destruir as armas. Boniface e mais dois fugiram para a floresta. Os outros seis continuam lá, na aldeia. Ajudam nas lavras. O teu pai acha que talvez se integrem. Só depende deles. Seja como for, nunca mais poderão regressar ao céu. Esta gente não confia neles.
– É natural. Tu confias?
– Não. Não confio. Mas concordo com o teu pai. Temos de lhes dar uma oportunidade.
– Nós vimos Boniface – contou Aimée. – Não parecia muito bem.
– Acho improvável que esses três consigam sobreviver, sozinhos, na floresta. Ou voltam à aldeia ou morrem todos. – Luan disse isto e pôs-se de pé num salto. – Agora vocês já sabem tudo. Vamos!
– Ainda não sabemos tudo – contestei. – Por exemplo, o que fazias aqui? Estavas à nossa espera?
– Sim. Vimos chegar a vossa pequena frota. Júlio calculou que fossem saltar aqui e mandou-me à frente.
– Sozinho?
– Não. Sozinho perdia-me em dois minutos. Vim com dois amigos, mas eles ficaram à espera, na floresta. Não gostam de espaços tão abertos. Acho que têm medo de que o céu lhes caia na cabeça. Agora vamos.
Descemos com ele. Dois rapazes esperavam por nós estendidos numa rede, presa aos troncos de duas árvores. Reconheci facilmente uma delas, um pau-mulato (Calycophyllum spruceanum), devido ao tronco, muito direito, liso e brilhante, e de uma espantosa cor de cobre. Não fui capaz de identificar a segunda árvore. Lamentei não ter trazido um bom guia de árvores tropicais.
Luan apresentou-nos aos rapazes:
– Este é Marco, de quem já vos falei. E este é Óscar.
Marco e Óscar cumprimentaram-nos com um tímido aperto de mão. Enrolaram a rede e guardaram-na num belo cesto de vime trançado. A seguir mergulharam na bruma, e nós fomos atrás. Era como respirar o ar de uma outra boca. Suponho que seguimos uma trilha, mas para mim, para Aimée, para Luan, aquilo assemelhava-se a um labirinto verde, infinito e idêntico. Nunca pensei que pudessem existir tantos tons de verde. Até àquele dia o mundo, para mim, estava pintado de azul e branco, e de todas as misturas entre o azul e o branco. Caminhámos mais de duas horas. Por fim, detivemo-nos numa minúscula clareira, para repousar, beber água e contemplar o céu. Quis saber se ainda faltava muito. Marco apontou para ocidente.
– Está perto.
Luan riu-se:
– Para eles, tudo está perto. Isto é um pequeno passeio.
Descalcei-me. Doíam-me os pés. Aimée queixou-se do mesmo. Marco debruçou-se sobre mim:
– É bonito, o céu?
– Sim, o céu é bonito.
– Mais bonito do que a terra?
Não respondi logo. Pensei um momento:
– Há coisas que só começo a compreender agora. Por exemplo, que o céu é mais bonito havendo o mar e havendo terra. Que uma terra sem céu também não seria bonita.
Aimée interveio, curiosa:
– Estão a falar de quê, nessa vossa língua misteriosa?!
Debatíamos, expliquei-lhe, a beleza do céu e da terra. O que pensava ela? Aimée lembrou o que repetiam os velhos. Na terra, diziam eles, não havia paredes. Contudo, ali, naquela floresta, tudo eram paredes. Caminhando entre as árvores imensas, que mal deixavam passar a luz do sol; sobre o chão húmido e poroso, coberto de folhas, ela sentia-se, como o profeta Jonas, a ser engolida por uma baleia.
– Ui, que imagem terrível! Não pareces muito entusiasmada...
Ao contrário, protestou Aimée. A terra, ao menos ali, não se assemelhava ao que imaginara. Era muito mais bonita, de uma forma insólita, imprevisível e não domesticável:
– E se estamos a falar de beleza, acho que esta é a verdadeira beleza. A verdadeira beleza não se deixa subjugar.
– Como o céu?
– Sim. Como o céu.
Colocámos as mochilas às costas e mergulhámos de novo no denso arvoredo (no ventre da baleia). Caminhámos mais três horas. Então, de repente, a floresta abriu-se, como se abre um livro, e vimos, diante de nós, as duas grandes pedras de que Luan nos falara. Escutei, pela primeira vez, o som macio da água correndo entre a folhagem – sim, era um rio!
Até então eu vira a água em muitas outras formas. Vira-a desenhando nuvens. Vira-a cair do céu, em rajadas bruscas, e, por vezes, transformada em duras pedras de gelo. Vira-a, lá muito em baixo, brilhando entre as nuvens. Contudo, nunca a vira assim, uma corrente escura, saltando sobre o verde e sobre as rochas.
Nesse momento alguém gritou o meu nome. Era o meu pai. Estava ocupado a desenhar alguma coisa, com uma comprida vara, na areia do terreiro. Diante dele encontrava-se um homem minúsculo que logo adivinhei ser Jerónimo. Havia ainda três outros sujeitos e duas mulheres. Júlio largou a vara e correu para mim de braços abertos:
– Carlos! Sabia que virias...
– Pai, devias ter-me acompanhado.
– Lamento. Na altura não acreditei na história da Ilha Verde. Pensei que te faria bem a experiência, por isso te deixei partir...
– Fez-me bem.
Abraçámo-nos. Mais tarde mostrou-me a aldeia. As pessoas que ali vivem vieram de diferentes pontos do Brasil. Há vários estrangeiros, entre os quais uma dúzia de filhos do céu. Alguns chegaram ali por acaso. Outros, após muito procurarem, depois de também eles terem escutado a lenda da Ilha Verde. Não é um mundo perfeito. Em todos os paraísos há serpentes. Ou, como diz o meu pai, cada homem é o seu próprio paraíso e o seu próprio inferno.
Não encontrámos na ilha nenhum familiar, ainda que remoto. Jerónimo afirma lembrar-se do velho Lucas, meu bisavô, pajé dos Tucanos. A família mudou-se para São Paulo anos antes do Dilúvio.
Na República da Neblina – é assim que os respetivos habitantes chamam à ilha – encontrei, como no céu, pessoas infetadas pela inveja, pelo ciúme, pelo rancor, e por tantas outras doenças que, desde sempre, afligem a humanidade. Contudo, encontrei também corações generosos e uma vontade coletiva de corrigir os erros do passado.
Sibongile e Mang ficaram lá. Jerónimo reconheceu Mang assim que o viu:
– Este chegou aqui há muitos anos, em péssimo estado. Devolvemo-lo ao céu. Uma vez que voltou, pode ficar. Gosto de pessoas teimosas.
Termino de escrever este relato, sentado a uma mesa, na varanda do meu pequeno apartamento, no Paris. Tenciono entregá-lo, amanhã, ao governo da cidade. Escrevi-o a pedido de Jerónimo e dos habitantes da República da Neblina.
Conscientes de que não poderão continuar a esconder-se, os cidadãos da República da Neblina requerem a proteção das grandes nações, de forma a preservar o pouco que subsiste das grandes florestas. Aceitam receber grupos restritos de visitantes, na condição de que estes respeitem as leis do território e não perturbem a frágil ecologia da ilha.
Aimée, sentada diante de mim, estuda velhos mapas da terra. Há pouco mostrou-me o Aconcágua, o ponto mais elevado das Américas, de todo o hemisfério sul e o mais alto fora da Ásia. Aconcágua, em língua aimara, significa algo como “sentinela branca”. Aimée quer procurar o Aconcágua.
Porque não?
O melhor da viagem é o sonho.

Utrecht, 28 de abril de 2013

José Eduardo Agualusa, in A Vida no Céu

Mas que nada | Jorge Ben Jor, 1963


Apresentando-se como um “misto de maracatu”, este “samba de preto velho” promoveu uma revolução pacífica e festiva na canção brasileira. Lançado em 1963, inicialmente num 78 rpm com “Por causa de você, menina” no lado B, logo este samba diferente virou um sucesso em todo o Brasil, apesar de tachado de primitivo e infantil por boa parte da crítica. Com seu balanço original e seu vigoroso violão percussivo de sotaque afro, não dedilhado como na bossa nova, mas tocado com palheta como entre rockers e bluesmen, Jorge Ben Jor (na época ainda Jorge Ben) abriu novos caminhos para a música popular, num momento em que a bossa nova já dava sinais de esgotamento no Brasil. Uma volta às raízes que apontava para o futuro.
Ainda em 1963, “Mas que nada” também foi a faixa escolhida para abrir o álbum de estreia do cantor, Samba esquema novo, produzido por Armando Pittigliani e acompanhado pelo grupo de samba-jazz Os Copa 5, liderado pelo saxofonista e arranjador J.T. Meirelles.
Hoje considerado um clássico da MPB, o álbum também inclui sucessos como “Chove, chuva”, “Rosa, menina rosa”, “Vem, morena, vem” e “Balança pema”. Mas foi “Mas que nada” que melhor sintetizou o esquema novo de Jorge Ben Jor, com o apelo irresistível de sua levada e de sua letra rítmica e sonora, e começou a rodar o mundo. Com a espetacular versão de Sérgio Mendes & Brasil 66, tornou-se um big hit nos Estados Unidos e uma das músicas brasileiras mais regravadas no mundo. Da diva do jazz Ella Fitzgerald ao grupo de hip-hop Black Eyed Peas em 2006.
O tijucano Jorge Ben Jor (Jorge Duílio Lima Menezes, 1942), de remota origem etíope, cresceu ouvindo samba e também rock and roll, que seriam amalgamados em seu estilo. No início da carreira, tanto se apresentava no Beco das Garrafas, em Copacabana, reduto da bossa nova e do samba-jazz, quanto em bailes de rock nos subúrbios do Rio. Criticado pela MPB, a partir de 1965 teve lugar cativo no palco da Jovem Guarda, ao lado de Roberto Carlos, Erasmo e Wanderléa, e, em seguida, foi abraçado pela Tropicália, que viu nele um instintivo pioneiro que realizava na prática a síntese musical que eles propunham e tentavam fazer na teoria.
Apesar de se dizer “misto de maracatu”, o gênero criado por Jorge se popularizou, mais apropriadamente, como samba-rock.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

13/10/2022

Zeca Bunéu e outros | 2.

Quando o pai do Nanito chegou para morar ali no musseque, a casa de pau-a-pique que alugou não tinha quintal mas, atrás, tinha muitas árvores, goiabeiras, mangueiras e até mamoeiros, onde os meninos brincavam. Era uma casa grande, de três quartos, coberta de zinco novo, do mesmo feitio de todas que cresciam por ali, duas janelas e uma porta na frente, duas janelas e uma porta para trás e ficava mesmo perto de don’Ana e da mãe do Zito. Nesse dia que apareceu, era sábado de tarde, toda a gente ficou a espreitar a velha carrinha da PSP com os dois cipaios carregando as cadeiras e a mobília. Não era gente de esteira e cadeira de bordão, via-se logo. Sô Luís, polícia, não adiantou falar para ninguém, passou muito esticado, farda de caqui bem engomada, dando berros nos cipaios, ameaçando com o chicote cavalmarinho que usava. Quem lhe visse e não lhe conhecesse, pensava logo era um chefe.
Com essas manias do pai e as conversas da mãe sempre gabando suas amigas da cantina, o bairro antigo, suas amigas da Baixa praqui e prali, quando brincavam com Nanito era para lhe encherem de partidas. No princípio ele aguentava, ria; mas depois começou queixar no pai e sô Luís vinha logo ameaçar de cavalmarinho, na porta da casa.
Um domingo, manhã cedinho, o polícia começou desmanchar uns barris descarregados no sábado e adiantou construir um quintal de aduelas. As pancadas do martelo acordaram as pessoas dos seus biscates e muitas vieram espreitar o que estava passar. Murmurando uns nos outros, criticavam:
— Ngueta camuelo! Esses brancos são assim. Olha só! Chegou dois dias e pronto! Começa já a dizer aquilo é dele.
Não é que um quintal fosse coisa para todos falarem, as cubatas do capitão, don’Ana e vavó Xica também tinham; mas, ali, no terreno atrás da cubata do polícia, os paus de manga e de goiaba cresciam e eram de todo o musseque, ninguém que tirava mais que queria e até mesmo os meninos lhes respeitavam. Goiaba, mamão, manga, só madurinha para comer. Mesmo no fim do dia, quando o povo passava mais para cima e pedia de alguém nas portas licença para tirar a goiaba para o mona ou levar o mamão, a resposta era que os paus eram de todos, não precisava pedir.
Pregando as aduelas, as marteladas de sô Luís doeram no coração dos miúdos: sentiam que lhes roubavam, já não podiam ir mais brincar, descansar nas sombras, espreitar os pássaros. Disparatavam a construção, culpando o Nanito:
— Foi ele, o sacrista! Pediu no pai!
— Vais ver! Te agarramos, te fazemos uma barrela mesmo. Julgas com a gente torras farinha?
Zeca Bunéu estava muito triste. Ele mesmo é que sofria mais, ouvindo o pai concordar com o cercado, falar para sô Luís que assim é que era, ou aquilo ali era a casa de todos, caminho de negros?
Quietos, Biquinho, Xoxombo e suas irmãs ficaram quase toda a manhã olhando o quintal a crescer, sô Luís pregando os pregos que o Nanito, vaidoso, tirava da lata. Dona Eva, aproveitando as mães dentro das cubatas, chegou uma vez na porta para lhes dizer:
— Acabou-se! Pensavam que isto era vosso, não é?
Biquinho fez uma asneira nos dedos e todos riram. Tunica troçou:
— Viococo! Viococo!
Os dias passaram.
As semanas passaram com dona Eva sempre arreganhando suas vizinhas, fazendo pouco, e as mães e os miúdos entregando ao desprezo e aos ditos do musseque aquela gente. Só Xoxombo, como a escola era a mesma, falava com Nanito quando ele aparecia, vestindo quedes, de espingarda de chumbo, com a mania que matava mais gungos que todos. Mas ninguém que lhe ligava e o miúdo ia embora outra vez, ouvia-se o pai a ralhar da mania de ir brincar com aqueles vadios pretos e mulatos.
Com as pessoas assim no musseque, um lado a família do capitão e os amigos, o outro sô Luís e o pai do Antoninho, e dona Branca no meio, ninguém que se admirou aquela manhã da confusão da Albertina. Quando saiu às oito horas, chicote batendo na perna magra, sô Luís falou alto, para todos ouvirem:
— Hoje é que eu faço a cama àquela puta. Vão ver! Este musseque tem de ser um bairro decente!...
Don’Ana muxoxou, insultando-lhe mesmo em quimbundo e, com sá Domingas e as vizinhas, começou lamentar a Albertina, mulher de todos é verdade, mas educada, respeitadora como ela não tinha ali. E boa para os miúdos, deixa só! Bolo que ela tinha, cadavez, só comia migalha!
Essa manhã passou devagar.
Os barulhos dos carros traziam as pessoas nas portas, julgando já era a Albertina de volta, mas nada, não veio. E os meninos, agarrados também por aquele silêncio zangado das mães, ficaram por ali zunindo pedradas à toa, debaixo da gajajeira falando o acontecido. Só dez horas já passavam é que seguiram pelos caminhos conhecidos, para derrotarem os bandos de gungos que voavam mais longe, no sítio onde não tinha cubatas.
Neste caso do quintal, o Zeca chorava mais eram as pitangas. Menino guloso de pitangas como ele, não tinha. Começava a comer nas verdes mesmo e ia tudo, derrotava uma pitangueira num instante. Mas também, às vezes, certas tardes, ficava diferente. Não era mais aquele miúdo malandro com fama no musseque, não. Sentava no largo e alto passeio balouçando as pernas e falava sozinho, não queria ir na brincadeira. Mirava os paus de goiaba, via o ventinho da tarde xaxualhar nas folhas, sentia o cheiro da areia suando o sol da manhã e gostava mesmo ficar a olhar o povo passando apressado.
Nessas horas ninguém que lhe xingava, o Zeca ficava zangado. A gente percebia que ele gostava ver muita gente, gostava mesmo dos paus da fruta, de chuva grossa na areia e no zinco, dos morcegos à tardinha debicando as goiabas amarelas e os mamões ou deitar de barriga para cima, sete horas, oito horas já, a mirar as estrelas. Por isso ele é que sofreu mesmo com a história do quintal. Então saudades da pitangueira, nem se fala. Nessas tardes dele, a gente via o Zeca passar as mãos nas folhas macias, limpar as pitangas amarelinhas, mas não lhes comia, nós ficávamos burros, ninguém que percebia, ele só andava por baixo das árvores, falando à toa, atirando pedras pelo areal adiante, mais nada. Outras vezes, seis horas já, as pessoas que vinham da Baixa começavam passar, gostava sentar debaixo dum pau e olhar as mães com os monas nas costas, apanhando as goiabas, sacudindo os mamões. E nem xingava mesmo os miúdos atrevidos que arrancavam as pitangas. Não refilava, sorria só. Com a gente, não: quem tirasse as pitangas, passava peleja. Tanto que o Biquinho e o Xoxombo, com o acordo do Zito, nosso mais-velho, já tinham combinado: a pitangueira era do Zeca Bunéu.
Os casos passaram no fim do almoço.
Nessa hora que o calor convida a deitar debaixo das frescas mulembas ou mandioqueiras do quintal, o Xoxombo saiu para dar encontro o Zeca que estava assobiar muito tempo já. Os outros andavam lá em cima, no imbondeiro, pondo fisgadas nos cornos das cabras e nas múcuas e o Zeca Bunéu tinha ficado, era só para combinar a partida que eles queriam pôr no Nanito. Passando o braço no ombro magro do filho do capitão Abano, foi falando com voz baixa, arrastando o menor:
— Xoxombo! A gente tem que se vingar desse gajo do Nanito. Sukuama! Essa partida do abacate é de mestre!
— Mas como então, Zeca? Diz já, eu faço.
— Calma! Deixa ainda a mãe dele dormir! Quando ele estiver no quintal, a gente ataca. Já pensei tudo!
Sentados no passeio alto da frente da casa do Zeca ficaram muito tempo conversando o plano. De longe, os assobios chamavam-lhes para a brincadeira, mas não ligavam. Esperavam, com os olhos no quarto de dona Eva, ela ia aparecer, como todas as tardes, para fechar a rede da janela. Estavam impacientes, ouviam muito tempo já o barulho do Nanito a brincar no quintal, mas só três horas quase Zeca Bunéu e Xoxombo viram a mãe de Nanito espreitar e fechar a rede. Deixaram correr o tempo, o silêncio tomar bem conta das cubatas, nem o vento que falava nas folhas. Só então, nessa hora, sem barulho, avançaram.
O Nanito estava lá debaixo do pau de goiabas, brincando com os brinquedos dele. Espreitando nas aduelas Zeca pôs a mão na boca de Xoxombo, pediu silêncio. Os olhos malandros riram: pópilas, sorte! Dando sinal a Xoxombo para esperar, começou trepar nas aduelas, com jeito, parecia onça a ir nos cabritos. Nanito nem deu conta. Acordou com pescoço já na capanga do Zeca, uma mão a lhe tapar na boca. Xoxombo saltou depressa e, com a corda da roupa, amarrou-lhe os braços e as pernas. O miúdo fazia força para gritar mas não podia: o Zeca, mesmo magrinho, aguentava. E com o lenço do Xoxombo bem apertado para não falar, amarraram-lhe na goiabeira do meio do quintal. Nanito olhava furioso, torcia-se, se viam veias dele inchadas pareciam iam rebentar, mas nada que conseguia, Xoxombo tinha aprendido aqueles nós com o velho capitão. Então amansou, desatou chorar mas os meninos não lhe ligaram, parecia ali não tinha ninguém, tiravam as pitangas amarelas, comiam gulosos. Comeram, comeram, não deixaram nem uma. Verdes, maduras, tudo. Zeca olhava o Nanito a chorar, amarrado, e quando acabou comer falou no Xoxombo:
— Ai, Xoxombo! Esse coitado assim não come nada? Ená! É preciso não ser camuelo como ele... Lhe deixamos a comida!
Sempre a olhar no caramanchão, dona Eva podia aparecer de repente, Zeca Bunéu baixou os calções e cagou mesmo aos pés do Nanito. Cheio de medo, brincadeira assim ele não gostava, Xoxombo correu para as aduelas e fugiu. O pobre do Nanito deixava sair as lágrimas, chorava raiva e vergonha no lenço amarrado na boca, queria fugir nas cordas, queria gritar, mas nada que podia fazer. Vendo o Zeca fugir pelo capim, atrás do Xoxombo, caminho do imbondeiro, desistiu de lutar, deixou cair a cabeça e chorou só, com muitos soluços, um choro de miúdo feito pouco daquela maneira e raivoso de não poder se vingar.
O fim da tarde prometia chuva de noite. Já muitas vezes um vento maluco tinha corrido às cambalhotas pelo areal, levantando árvores de pó com folhas de papel dos montes de lixo escondidos pelo capim. As portas e janelas se fechavam na cara desse vento que traz desgraça e os olhos interrogavam, dos quintais, as nuvens cinzentas crescendo sobre a cidade. Mas o vento tinha fugido, só as nuvens ficaram a pesar sobre as pessoas e o sol virara calor abafado e uma luz de obrigar a gente a encolher os olhos se queremos ver muito longe.
Debaixo do imbondeiro, com as grandes gargalhadas de todos e as mães, em casa, fingindo não saber de nada, tudo teria sido bom, uma grande partida do Zeca, se sô Luís não tivesse chegado mais cedo naquele dia. Ninguém que lhe viu chegar, só deram conta já o polícia junto com Nanito, e arreganhando o cavalmarinho, entrava pela oficina do pai do Zeca, reclamando o miúdo. Os oficiais, assustados, chamaram o sô mestre e ele veio espantado, com a faca da sola na mão. Dona Eva, atrás do homem dela, começou gritar que o sapateiro queria pôr faca; dona Branca apareceu então, se benzendo e insultando a mãe do Nanito. E a maior confusão começou. Sô Luís queria o Zeca para lhe levar na esquadra, o que o miúdo tinha feito era de mais, não havia direito. Os oficiais seguravam o mestre, nervoso, berrando:
— Quem dá educação no meu filho sou eu! Ponha-se lá fora, seu polícia de copos!
Dona Branca com feitio dela, tudo ia se resolver, é preciso é conversar, recomendava calma e chegou na porta, chamar o Zeca. Os miúdos estavam perto, espreitando o barulho e o Zeca adiantou devagar, coçando a cabeça. Mas nem mesmo a entrada do Zeca Bunéu, muito homem, mas tremendo no coração, acalmou o caso. Ele veio homem é verdade, e queria ir mesmo na esquadra, mas não lhe deixaram. O pai agarrou-lhe no braço e pôs-lhe logo duas surras; o polícia puxava no outro braço, queria-lhe levar. Cá fora, com olhos malandros, don’Ana, sá Domingas e outras mães e filhas comentavam:
— Deixa só! Confusão de branco, é branco que resolve!
Sorriam dessa partida do Zeca naqueles cangundos camuelos e, dentro da oficina, também Jacinto João falava para os outros oficiais e aprendizes os casos, em quimbundo. Mas não eram casos de cansar depressa. Discussão, berros, ameaças, insultos e sô Luís, enchendo o peito pequeno, não queria perder: o Zeca tinha de dormir na esquadra. De nada valiam os pedidos das mulheres, já mais calmas, tentando pazes. Tinha de dormir na esquadra, nem que era uma hora só, não fazia mal, mas tinha de lhe levar, questão de honra.
Só que o Nanito estragou tudo.
Na hora que o pai lhe largou para segurar no Zeca, aproveitando a confusão, correu na casa dele. E nem Biquinho, nem Xoxombo, espreitando as macas, viram o miúdo aproximar, escondendo a espingarda de chumbo. O caso já estava quase arrumado, sô Luís quase convencido a deixar o Zeca, o rapaz já tinha levado umas surras e o mestre, a desculpar com brincadeiras de rapazes, quando entrou o Nanito. O grito de Jacinto João não salvou o Zeca: o miúdo descarregou-lhe mesmo o tiro de chumbo no mataco!
Todas as pessoas gritaram e correram no Zeca que caiu, a gemer, em cima do rolo da sola. O boato que o filho do polícia tinha posto chumbo no Zeca Bunéu, que o menino ia morrer, saiu logo pelo musseque, fez ainda chegar toda a gente na frente da casa do mestre, perguntando, lamentando esses miúdos assim, ninguém que sabe mesmo para que serve a escola, só fazem essas coisas de bandidos, matar pessoa já se viu.
Mas não, foi só o susto e o sangue.
E, voltando devagar para suas casas, conversando o assunto, as mães ainda chamaram os monas e deram-lhes surras para aliviar o medo dos corações. A tarde acabou assim; a chuva tinha fugido para longe, nem mesmo pingos tinham caído e o musseque gozou um vento fresco que adiantou chegar com a escuridão.
O Zeca saiu no hospital, tinham-lhe rasgado o mataco e tiraram o chumbo. Era coisa sem importância, mas doía muito. Só mais à noite, nove horas já, com a promessa de que não iam lhe bater mais, Nanito voltou do capim. E, nesse fim do jantar, toda a gente evitou sair para gozar o fresco ou sunguilar um bocado, porque o dia tinha sido de muita confusão.

*

Dia de azar, tinha falado o Biquinho.
Era bem verdade. A Albertina no hospital, falavam ia ficar lá um mês e depois nunca mais que podia ter os filhos; o Zeca Bunéu, de mataco assim aleijado, não podia brincar bem; dona Eva e seu homem, desde esse dia, não falavam mais para ninguém do musseque, conversa só mesmo com mestre sapateiro e sô Antunes. O pior foi para o Nanito, lhe proibiram sair para brincar com os outros e o menino se aborrecia no quintal.
Zeca Bunéu andou uns tempos não podia sentar. Tinha mais uma história e nem passou uma semana, mesmo com os amigos no lado, contou para o primo dele, do Kinaxixi, já doutra maneira. Mas nunca mostrou para ninguém a marca no mataco.

José Luandino Vieira, in Nosso Mussuque

Benito Di Paula | Retalhos de Cetim

Reservistas Morais

É a lama, é a lama.
Tom Jobim é profeta mesmo. Sua simplicidade, charuto, chopinho e chapéu de palha lavam nossa alma. Chega de gnomos, duendes, magos, bruxos, parafernália fascista, capuzes da KKK e outras babaquices que acabam em assassinatos de crianças.
Em matéria da fantasia de mau gosto, sou muito mais o Clóvis Bornay: admite que isso é coisa de viado e não perde o humor.
Tentando manter a cabeça fora do oceano de dejetos que ameaça nos engolfar, procuro descobrir nossas verdadeiras reservas morais.
A “revolução” de 64 extrapolou em declaratrolhas moralizantes de generais esclerosados. Deu no que deu: torturas nos porões, contrabando, tráfico, contravenção, mamatas e assassinatos – um regime que caiu de podre.
Na zona mística, temos Frei Damião, Irmã Dulce, Padim Ciço e Enoli Lara.
De repente me ocorre a existência de um último baluarte, pelo rigor de suas convicções, pela batalha quase diária para não ceder às tentações avassaladoras, pelo sofrimento atroz gerado por sua probidade. Refiro-me ao massagista de Vera Fischer.
O atual é Odirley Matsubara, nipo-madureirense e asceta. Sim, porque pra dar massagem em Vera Fischer ou o sujeito é asceta ou tem uma crise convulsiva.
Por meio de meu amigo Baiano, que bebe num pé-sujo com Filipe Camargo, descobri o telefone desse herói do nosso tempo. Depois de engolir um Lorax, marquei sessão de massagem, pretextando o acidente que sofri em 1992.
Quando vi Odirley no olho mágico, sem sacanagem, quase chorei. Um santo. Aquela resignação, olhos macerados por noites mal dormidas, a profusão de tiques. Céus, tudo indicava um homem submetido a pressões quase insuportáveis.
Falei do tempo, das CPIs, dos CPFs falsos, de suborno, corrupção, propinas – do trivial variado em nossa pátria. Quando o suburjapa abriu a guarda, sibilei:
– Você também é massagista da Vera.
O cara começou a trepidar como se a falha de Santo Andreas tivesse chegado à Tijuca. Seus olhos se encheram de lágrimas e ouvi o mais doloroso suspiro de todos os tempos. Nem Collor, quando sentiu a recueta da cunhada, suspirou assim.
Contei a Odirley minha vida sexual, chorei, gemi, implorei. Eu queria ver uma vezinha só. Minha exaltação fez com que ele compreendesse o essencial: estávamos ligados por carma semelhante; éramos almas torturadas pelo mesmo drama.
Na massagem seguinte, eu e o Bara nos sentíamos como amigos de infância. Ele telefonou pra Vera, disse que estava gripado mas que fazia questão de recomendar um substituto de toda a confiança: Seishonoêi Blanc.
Daquele dia fatídico, só me lembro do momento em que me vi a sós com Vera Fischer: Vera, védica, vereda, o Grande Canyon de bruços, coberto por uma toalhinha exígua. Ela me olhou, muito séria, e disse: “Oi”.
Acordei na UTI do Miguel Couto.
Hoje, eu e meu amigo formamos a dupla sertaneja Matsubara e Sheishonoêi. Estamos em fase de ensaios. Restringimos nossas apresentações à Aemvefa (Associação de Ex-Massagistas da Vera Fischer Anônimos). Ficamos lá, cantando, entoando preces, dando força aos outros quase dois mil sócios que tentam vencer a atração fatal. De tardinha, dirigimo-nos em fila indiana para a sede de outra agremiação, a Paquifica (Palhaços Que Invejam Filipe Camargo). É pertinho.

Aldir Blanc, in Brasil passado a sujo

Os três homens e o boi dos três homens que inventaram um boi

Ponha-se que estivessem, à barra do campo, de tarde, para descanso. E eram o Jerevo, Nhoé e Jelázio, vaqueiros dos mais lustrosos. Sentados vis-a-visantes acocorados, dois; o tércio, Nhoé, ocultado por moita de rasga-gibão ou casca-branca. Só apreciavam os se-espiritar da aragem vinda de em árvores repassar-se, sábios com essa tranquilidade.
Então que, um quebrou o ovo do silêncio: — “Boi...” — certo por ordem da hora citava caso de sua infância, do mundo das inventações; mas o mote se encorpou, raro pela subiteza.
— “Sumido...” — outro disse, de rês semi-existida diferente. — “O maior” — segundo o primeiro. — “... erado de sete anos...” — o segundo recomeçou; ainda falavam separadamente. Porém: — “Como que?” — de detrás do ramame de sacutiaba Nhoé precisou de saber.
— “Um pardo!” — definiu Jelázio. — “... porcelano” — o Jerevo ripostou. Variava cores. Entanto, por arte de logo, concordaram em verdade: seria quase esverdeado com curvas escuras rajas, araçá conforme Jelázio, corujo para o Jerevo, pernambucano. Dispararam a rir, depois se ouvia o ruidozinho da pressa dos lagartos.
— “Que mais?” — distraía-os o fingir, de graça, no seguir da ideia, nhenganhenga. De toque em toque, as partes se emendavam: era peludo, de desferidos olhos, chifres descidos; o berro vasto, quando arruava — mongoava; e que nem cabendo nestes pastos...
Assim o boi se compôs, ant’olhava-os. Nhoé quis que se fossem dali — por susto do real, ciente de que com a mulher do Jerevo Jelázio vadiava — ele houve um pensamento mau, do burro da noite.
De em diante, no campeio, entre os muitos demais, nem deviam de lembrar a fiada conversa. Senão que, reunidos, arrumavam prosa de gabanças e proezas, em folga de rodeio vaquejado; então por vantagem o Jerevo e Jelázio afirmaram: de vero boi, recente, singular, descrito e desafiado só pelos três.
Se alguém ouviu o visto, ninguém viu o ouvido — tinham de desacreditar o que peta, patranha, para se rir e rir mais — o reconto não fez rumor. Mas o Nhoé se presenciava, certificativo homem, de severossimilhanças; até tristonho; porque também tencionava se recasar, e agora duvidava, em vista do que com casados às vezes se dá, dissabôres.
Ante ele, mudaram de dispor, algum introduzindo que quiçás se aviesse de coisa esperta, bicho duende, sombração; nisso podiam crer, o vento no ermo a todos concerne. O Boi tomava vulto de fato, vice-avesso. Nhoé porém mexeu ombros, repelia o dito. Não achava cautela em dar fiança àquela pública notícia, lá, na que de riquíssimo fazendeiro Queiroz — fazenda Pintassilga — no Urucuia Superior.
De feito, se aviavam mais em crédito e fé os três, amigos. De bandeados lidar ou pousar buscavam toda maneira, nesse meio-mundo, por secas e tempos-das-águas. O Jerevo tinha casa, a mulher dele cozia arroz-com-pequi, ela era de simpatia e singeleza sem beleza, rematava pelo meio dos cabelos o vermelho do lenço, instruía-os de estroinas novidades: que, por aí, reinava uma guerra, drede iam remeter para lá a mocidade, o mar, em navio. De tudo Nhoé delongava opinião, pontual no receio; ainda bem que o escrúpulo da gente regra as quentes falsidades.
— “Sai, boi!” — ela troçava mistério deles, do que fino se bosquejava. O Boi bobo — de estatura. Vai, caprichou Jelázio de arrenegar essa lembrança, joça. Sisudos, os outros dois se olhavam, comunheiros, por censuração. Mas depois o Jerevo e Jelázio falavam de suas mães e meninices e terras, daquilo Nhoé ouvindo mais o modo que a parla. No de-dentro, as criaturas todas eram igualadas; no de-fora, só por não perceberem uns dos outros o escondido é que venciam conviver com afetos de concórdia.
Por maneira que de febres a mulher do Jerevo faleceu, eles retornavam do enterro, em conta a tarde chovida de feia, em caminho bastante se enlameavam, esmoreceram, para beber e esperar. Então, podiam só indagar o que do Boi, repassado com a memória. Não daquele, bem. Mas, da outrora ocasião, sem destaque de acontecer, senão que aprazível tão quieta, reperfeita, em beira de um campo, quando a informação do Boi tinha sobrevindo, de nada, na mais rasa conversa, de felicidade. Daí, mencionavam mais nunca o referido urdido — como não se remexe em restos.
De certo modo. Mais para diante, o Jelázio morreu, com efeito, inchado dos rins, o espírito vertido. — “Só a palma do casco...” — e riu, sem as recorridas palavras. Nhoé e o Jerevo se riam também, desses altos rastros do Boi, em ponto de pesares. Outras coisas eram boas; outras, de nem não nem sim, mas sendo.
Demais, quando foi da peste no gado de todas as partes, o Jerevo avisou decisão: que se removia, para afastado canto, onde homem cobrava melhores pagas. Nhoé rejeitou ir junto, nem pertencia a outros lados diversos — saudoso somente daquele dia de enterro, dela, os três, a chuva, a lama, à congraça, em entremeio de sofrimento.
Tão cedo aqui as coisas arrancavam as barbas. O fazendeiro ensandecendo, diligenciou em vão de matar filhos e mulher, cachorros, gatos. Nem era rico, nenhum, se soube. O povo depôs que a extravagância dele procedia do sol, do solcris eclipse, que se deu, mediante que vindo até desconhecidos estrangeiros, para ver, da banda de Bocaiúva. Somenos as mulheres, de luto, agora ali regiam, prosseguidamente, na fazenda Pintassilga.
Nhoé demudava a cabeça, sem desmazelar, por bambeio, desagradado. Recurvado. Perfazia tenção em gestos. Tanto não sendo. Sem poder — nas mãos e calos do laço. Que é que faz da velhice um vaqueiro? Tirava os olhos das muitas fumaças. Todo o mundo tem onde cair morto. Achou de bom ir embora.
Voltava para conturva distância, pedindo perdão aos lugares. Será que lá ainda com parentes, ele se penava de pobre de esmolas. Chegou a uma estranhada fazenda, era ao enoitecer, vaqueiros repartidos entre folhagens de árvores. — “O senhor que mal pergunte...” — queriam que ao rol deles entrasse. — “A verdade que diga...” — vozes pretas, vozes verdes, animados de tudo contavam. Dava nova saudade. Ali, às horas, ao bom pé do fogo, escutava... Estava já nas cantiguinhas do cochilo.
Refalavam de um boi, instantâneo. Listrado riscado, babante, façanhiceiro! — que em várzeas e glória se alçara, mal tantas malasartimanhas — havia tempos fora. Nhoé disse nada. O que nascido de chifres dourados ou transparentes, redondo o berro, a cor de cavalo. Ninguém podia com ele — o Boi Mongoavo. Só três propostos vaqueiros o tinham em fim sumetido...
Tossiu firme o velho Nhoé, suspirou se esvaziando, repuxou sujigola e cintura. Se prazia — o mundo era enorme. Inda que para o mister mais rasteiro, ali ficava, com socorro, parava naquele certo lugar em ermo notável.

Guimarães Rosa, in Tutameia

11/10/2022

Hagar, o Horrível

 

Indicações

Talvez uma sensibilidade maior ao frio,
desejo de voltar mais cedo para casa.
Certa demora em abrir o pacote de livros
esperado, que trouxe o correio.
Indecisão: irei ao cinema?
Dos três empregos de tua noite escolherás: nenhum.
Talvez certo olhar, mais sério, não ardente,
que pousas nas coisas, e elas compreendem.

Ou pelo menos supões que sim. São fiéis, as coisas
de teu escritório. A caneta velha. Recusas-te a trocá-la
pela que encerra o último segredo químico, a tinta imortal.
Certas manchas na mesa, que não sabes se o tempo,
se a madeira, se o pó trouxeram consigo.
Bem a conheces, tua mesa. Cartas, artigos, poemas
saíram dela, de ti. Da dura substância,
do calmo, da floresta partida elas vieram,
as palavras que achaste e juntaste, distribuindo-as.

A mão passa
na aspereza. O verniz que se foi. Não. É a árvore
que regressa. A estrada voltando. Minas que espreita,
e espera, longamente espera tua volta sem som.
A mesa se torna leve, e nela viajas
em ares de paciência, acordo, resignação.
Olhai a mesa que foge, não a toqueis. É a mesa volante,
de suas gavetas saltam papéis escuros, enfim os libertados segredos
sobre a terra metálica se espalham, se amortalham e calam-se.

De novo aqui, miúdo território
civil, sem sonhos. Como pressentindo
que um dia se esvaziam os quartos, se limpam as paredes,
e para um caminhão e descem carregadores,
e no livro municipal se cancela um registro,
olhas fundamente o risco de cada
coisa, a cor
de cada face dos objetos familiares.
A família é pois uma arrumação de móveis, soma
de linhas, volumes, superfícies. E são portas,
chaves, pratos, camas, embrulhos esquecidos,
também um corredor, e o espaço
entre o armário e a parede
onde se deposita certa porção de silêncio, traças e poeira
que de longe em longe se remove… e insiste.

Certamente faltam muitas explicações, seria difícil
compreender, mesmo ao cabo de longo tempo, por que um gesto
se abriu, outro se frustrou, tantos esboçados,
como seria impossível guardar todas as vozes
ouvidas ao almoço, ao jantar, na pausa da noite,
um ano, depois outro, e outros e outros,
todas as vozes ouvidas na casa durante quinze anos.
Entretanto, devem estar em alguma parte: acumularam-se,
embeberam degraus, invadiram canos,
informaram velhos papéis, perderam a força, o calor,
existem hoje em subterrâneos, umas na memória, outras na argila do sono.

Como saber? A princípio parece deserto,
como se nada ficasse, e um rio corresse
por tua casa, tudo absorvendo.
Lençóis amarelecem, gravatas puem,
a barba cresce, cai, os dentes caem,
os braços caem,
caem partículas de comida de um garfo hesitante,
as coisas caem, caem, caem,
e o chão está limpo, é liso.
Pessoas deitam-se, são transportadas, desaparecem,
e tudo é liso, salvo teu rosto
sobre a mesa curvado; e tudo imóvel.

Carlos Drummond de Andrade, in A Rosa do Povo