21/02/2022

Construção

... o dia exato alinha os seus cubos de vidro…

Mário Quintana, in Sapato florido

O Impressionismo de Monet

Jardim do Artista em Vétheuil (1880), de Claude Monet

Sabedoria das eras

Percebemos e interpretamos as emoções usando comunicação, empatia, coordenação e, em especial, lendo a linguagem corporal. Uma vez que é quase impossível para os pesquisadores estudarem como as pessoas percebem as emoções apenas pela observação, eles obtêm mais conhecimento a partir de experiências, geralmente aquelas que apresentam imagens em uma tela sensível ao toque. Os seres humanos são testados dessa maneira o tempo todo, mas isso é feito também com outras espécies.
Nossos chimpanzés ficam muito empolgados com esses estudos, talvez por causa do fascínio pelo feedback imediato da tela sensível ao toque, do mesmo modo como as crianças são atraídas pelos celulares. A maneira mais rápida de fazer com que os chimpanzés entrem no Prédio da Cognição em Yerkes, o que eles fazem de forma voluntária, é passar pelo recinto ao ar livre deles com um carrinho de serviço carregando um computador. Os chimpanzés explodem em guinchos e correm para as portas do prédio onde realizamos o teste, fazendo fila para entrar, ansiosos para passar uma hora no que para eles são diversão e jogos e para nós, testes cognitivos. Nem precisamos recompensá-los pelo desempenho: para eles, tocar imagens e solucionar quebra-cabeças é divertido por si só. Alguns chimpanzés se tornam competitivos: eles ouvem pelo som do monitor como estão se saindo (a solução correta produz um som mais feliz que o erro) e ficam aborrecidos quando ouvem um companheiro próximo se sair melhor que eles. É a melhor maneira de fazer com que se concentrem!
Eu gosto de experimentos que sejam agradáveis tanto para os cientistas quanto para os animais. O truque é criar tarefas interessantes. Por exemplo, durante muito tempo testamos o reconhecimento facial mostrando rostos de primatas humanos; então, diante de um desempenho ruim, concluímos que apenas nós humanos reconhecemos os rostos. Alguns cientistas chegaram ao ponto de alegar a existência de um módulo especial de reconhecimento facial no cérebro humano que evoluiu exclusivamente em nossa linhagem. Mas então os chimpanzés foram testados com faces de sua própria espécie, e prestaram mais atenção e se revelaram tão bons quanto os humanos nessa tarefa.
Eles até mostraram sinais de percepção holística. Nós, humanos, não reconhecemos rostos pelo tamanho do nariz ou pela distância entre os olhos; em vez disso, captamos a configuração geral, percebendo o rosto como um todo. O mesmo acontece com outros primatas, desde que sejam testados sobre sua própria espécie. Até os cães — animais domésticos criados especificamente para se dar bem conosco — reconhecem melhor as emoções dos cães que as dos humanos. Nada disso é terrivelmente surpreendente, mas por demasiado tempo testamos os animais da forma incorreta, baseados na suposição de que nossos rostos devem ser os mais distintos do mundo. Claramente, nem símios nem cães são tão apaixonados por nós como gostaríamos que fossem.
E o que dizer das expressões emocionais? Aqui a coisa complica, pois não podemos perguntar aos animais o que significam suas expressões. Não podemos dar-lhes uma lista de adjetivos como “feliz”, “triste” e assim por diante, como Ekman fez. Lisa Parr, então minha aluna, encontrou uma solução engenhosa usando dados fisiológicos. A fisiologia nos diz como o corpo reage, o que é fundamental, porque as emoções pertencem tanto ao corpo quanto à mente. A palavra moderna inglesa “emotion” deriva do verbo francês “émouvoir”, que significa mover, comover, ou excitar; o latim “emovere” significa agitar. Em outras palavras, as emoções não podem nos deixar em paz. São estados mentais que fazem nosso coração bater mais depressa, nossa pele ganhar cor, nosso rosto tremer, nosso peito se contrair, nossa voz se elevar, nossas lágrimas correrem, nosso estômago se revolver e assim por diante.
Não só as emoções afetam o corpo, como o inverso é igualmente verdadeiro. As emoções são fortemente influenciadas por hormônios (como os do ciclo menstrual), excitação sexual, insônia, fome, exaustão, doença e outros estados corporais. Associamos diferentes emoções a locais específicos do corpo, e o corpo, por sua vez, afeta o que sentimos. Por exemplo, o sistema nervoso entérico — uma rede de milhões de neurônios embutidos no revestimento do trato digestivo — pode nos dar um frio na barriga, ou ansiedade na boca do estômago, o que, por sua vez, diz ao nosso cérebro o que sentimos. Por causa da autonomia do sistema entérico, ele é também chamado de nosso “segundo cérebro”.
O fato de as emoções estarem enraizadas no corpo explica por que a ciência ocidental levou tanto tempo para valorizá-las. No Ocidente, amamos a mente, dando pouca atenção ao corpo. A mente é nobre, enquanto o corpo nos arrasta para baixo. Dizemos que a mente é forte enquanto a carne é fraca, e associamos emoções a decisões ilógicas e absurdas. “Não se deixe levar pelas emoções!”, alertamos. Até recentemente, as emoções eram em grande parte ignoradas, vistas como quase abaixo da dignidade humana.
Em geral, as emoções sabem melhor do que nós o que é bom para nós, mesmo que nem todos estejamos preparados para ouvir. Quando estava tentando decidir se pediria a prima Emma Wedgwood em casamento, Charles Darwin elaborou uma longa lista de argumentos a favor (“Objeto para amar e brincar — melhor que um cão, de todo modo”) e contra (“Não ser forçado a visitar parentes e se dobrar por qualquer ninharia”). Dessa maneira, ele esperava chegar a uma decisão perfeitamente racional, mas duvido muito que sua lista o tenha influenciado para um lado ou para o outro. Ele até esqueceu os dois itens em favor do casamento que muitos de nós colocaríamos no topo da lista: amor e atração física. Ao concluir com um firme CQD (quod erat demonstrandum, “como se queria demonstrar”) que favorecia a proposta a Emma, Darwin agiu como se tivesse produzido algum tipo de prova matemática, mas obviamente sua matemática era ilusória. Sempre nos inclinamos para um lado ou para outro quando temos de tomar uma decisão importante, e raramente é a cabeça que comanda a inclinação. No fraseado elegante de Blaise Pascal, filósofo francês do século XVII, “o coração tem razões que a razão desconhece”.
As emoções nos ajudam a abrir caminho num mundo complexo que não compreendemos totalmente. Elas são o jeito de nosso corpo garantir que façamos o melhor para nós. Além disso, somente o corpo pode realizar as ações necessárias. As mentes sozinhas são inúteis: elas precisam de corpos para se envolver com o mundo. As emoções estão na interface de três coisas: mente, corpo e meio ambiente. Elas também são chamadas de afetos, mas, como esse termo tem definições conflitantes, fico com emoções, definidas da seguinte forma:

Uma emoção é um estado temporário produzido por estímulos externos relevantes para o organismo. Ela é marcada por mudanças específicas no corpo e na mente — cérebro, hormônios, músculos, vísceras, coração, estado de alerta etc. Pode-se inferir qual emoção está sendo desencadeada pelo estado em que o organismo se encontra, bem como por suas mudanças e expressões comportamentais. Em vez de uma relação exclusiva entre uma emoção e o comportamento subsequente, as emoções combinam a experiência individual com a avaliação do ambiente a fim de preparar o organismo para a resposta ideal.

Vamos considerar a emoção do medo. Assim que vê uma cobra, um macaco fica terrivelmente amedrontado. Da mesma forma, você será tomado pelo medo se descer da calçada para a rua e um ônibus passar a centímetros de seu rosto. O medo faz o corpo congelar e tremer enquanto a frequência cardíaca aumenta, a respiração fica mais rápida, os músculos ficam tensos, os pelos ou as penas se arrepiam, e tem-se uma descarga de adrenalina. Tudo isso envia oxigênio ao cérebro e aos músculos para que se possa lidar melhor com o perigo percebido. O macaco precisa decidir se a cobra é perigosa ou inofensiva, e se o melhor que tem a fazer é escalar uma árvore, recuar, fugir ou lutar. Após ver o ônibus, você vai verificar o tráfego e decidir se é seguro atravessar ou se é melhor procurar a faixa de pedestre. As emoções têm sobre os instintos a grande vantagem de não ditarem comportamentos específicos. Os instintos são rígidos e semelhantes a reflexos, o que não é como a maioria dos animais funciona. Em contraste, as emoções concentram a mente e preparam o corpo, enquanto deixam espaço para experimentar e julgar. Elas constituem um sistema de resposta flexível, muito superior aos instintos. Com base em milhões de anos de evolução, as emoções “sabem” coisas sobre o ambiente que nós, como indivíduos, nem sempre sabemos conscientemente. É por isso que se diz que as emoções refletem a sabedoria das eras.
Voltando a Lisa Parr, ela decidiu medir a temperatura dos chimpanzés enquanto os testava. Ensinou-lhes pacientemente a esticar um dedo enquanto punha uma tira em torno dele e media a temperatura da pele. Em nossa espécie, durante a excitação negativa — como quando vemos coisas que nos incomodam ou nos amedrontam —, a temperatura da nossa pele diminui. Uma reação do tipo “lutar ou fugir” nos deixa com os pés frios, pois o sangue é retirado das extremidades. Em um episódio do programa de televisão Caçadores de mitos, sensores de calor foram colocados nos pés de pessoas que se deparavam com tarântulas rastejando na direção delas, ou que faziam um passeio assustador num avião de acrobacia. As quedas de temperatura foram espantosas. Nossos pés congelam quando estamos com medo, reação que compartilhamos com ratos assustados, que ficam com o rabo e as patas frias.
Lisa se perguntou se os símios mostrariam a mesma queda de temperatura. Primeiro, ela passou um pequeno vídeo na tela. Mostrava uma cena feliz, como tratadores de animais se aproximando com baldes cheios de frutas, ou então uma cena desagradável, como um veterinário vindo com uma arma de dardos — o mais perto que ela podia chegar de um predador. Depois de assistir a um ou outro vídeo, os símios deviam escolher entre duas faces na tela: uma com a expressão risonha feliz de sua espécie, a outra com um sorriso nervoso. O objetivo era ver qual face associariam espontaneamente à cena. Eles nunca haviam sido treinados com essas imagens. No primeiro teste, escolheram o rosto risonho para acompanhar a cena feliz e o sorriso angustiado para acompanhar a cena desagradável. Enquanto viam a última cena, a temperatura da pele caiu como nos seres humanos e ratos que enfrentam uma situação desagradável.
Acho difícil explicar esse resultado sem inferir experiências subjetivas. Não se trata mais apenas de emoções, que podem ser deflagradas automaticamente, mas também de sentimentos. Os sentimentos surgem quando as emoções penetram em nossa consciência e nos tornamos conscientes deles. Sabemos que estamos zangados ou apaixonados porque sentimos isso. Podemos dizer que sentimos isso em nossa “barriga”, mas na verdade detectamos mudanças em todo o corpo. Como os símios da experiência de Lisa poderiam selecionar a expressão facial correta, a menos que sentissem alguma coisa? É muito provável que eles tenham se sentido bem ou mal ao ver os vídeos, o que os ajudou a decidir que cara combinaria com o que viram. As medições de temperatura de Lisa confirmaram que eles resolviam a tarefa emocionalmente, e não intelectualmente. O experimento dela nos deixou com a intrigante possibilidade de que os símios sejam tão conscientes de seus sentimentos quanto nós.
Na maioria das vezes, no entanto, os sentimentos dos animais são desconhecidos para nós, e tudo o que podemos fazer é testar suas reações. Experimentos nos ensinaram que macacos e grandes primatas são especialistas em suas próprias expressões faciais. Eles são incrivelmente rápidos e precisos em detectar semelhanças e diferenças, do mesmo modo como podemos instantaneamente diferenciar um sorriso de uma carranca. Quando mostramos aos macacos-prego uma tela com fotos de diferentes objetos — flores, animais, carros, frutas, faces humanas, faces de macacos —, descobrimos que o que eles reconheciam com mais rapidez eram as expressões emocionais de sua própria espécie. Essas imagens eram uma categoria à parte, porque as expressões não são apenas significativas, mas também envolventes. De início, os macacos até reagiam a elas, recusando-se, por exemplo, a tocar a imagem de uma face ameaçadora, ou estalando os lábios diante de um movimento amistoso de sobrancelha. As expressões provocam emoções, ou empatia. Na verdade, é difícil ter empatia sem conexão facial.
O psicólogo sueco Ulf Dimberg identificou a conexão empática em nossa própria espécie na década de 1990, quando colou eletrodos em rostos humanos que lhe permitiram registrar até as menores contrações musculares. Ele descobriu que as pessoas imitam automaticamente as expressões exibidas em um monitor. O mais notável é que elas nem precisam saber o que estão vendo. As imagens de rostos podem ser exibidas subliminarmente (apenas por uma fração de segundo) entre fotos de paisagens, e ainda assim as pessoas as imitarão. Elas acham que estão olhando somente para belas paisagens, sem saber dos rostos na tela, mas depois se sentem bem ou mal, conforme tenham sido expostas a sorrisos ou carrancas. Ver sorrisos nos torna felizes, ao passo que ver carrancas nos deixa zangados ou tristes. Inconscientemente, nossos músculos faciais copiam esses rostos, que então repercutem no modo como nos sentimos.
Na vida real, então, não podemos deixar de ser afetados emocionalmente pelos outros. Nossa conexão empática com os outros é como um aperto de mão por debaixo da mesa entre corpos, percebido como uma “vibração”, que pode ser positiva e inspiradora, ou tóxica, minando nossa energia. Demora-se para perceber isso, porque esses processos podem ocorrer fora de nossas mentes conscientes. Embora fornecesse insights maravilhosos sobre o mundo dos seres humanos, a pesquisa de Dimberg infelizmente encontrou enorme resistência e foi ridicularizada. Por um tempo, sua obra inovadora continuou inédita porque dava prioridade ao corpo, enquanto no Ocidente preferimos que a mente esteja no comando. Gostamos de nos ver sobretudo como seres racionais, como Darwin elaborando sua lista tola de prós e contras do casamento. Podemos camuflar nossas decisões emocionais com racionalizações, dizendo que precisamos daquele carro esportivo para vencer o tráfego, ou daquele chocolate por causa dos antioxidantes. Pela mesma razão, a ciência elevou a empatia a um processo cognitivo. Deixá-la como uma questão de emoções e processos corporais simplesmente não era aceitável, por isso se dizia que empatia significava colocar-se deliberadamente no lugar do outro. Afirmava-se que entendemos os outros com base num “salto de imaginação para dentro do espaço mental da outra pessoa”, ou simulando conscientemente a situação dela. O corpo não fazia parte dessas teorias.
Nos últimos anos, no entanto, a ciência foi forçada a mudar. O corpo está agora na frente e no centro de qualquer consideração sobre a empatia. Novos estudos de imagem cerebral apoiam o processo físico involuntário proposto por Dimberg. E pesquisas descobriram que a empatia é prejudicada quando o mimetismo facial é bloqueado, como quando os seres humanos seguram um lápis entre os dentes, para que os músculos da bochecha não se movam. Nossos rostos têm muito mais mobilidade do que pensamos, o que nos ajuda a nos conectar com os outros, imitando seus movimentos. Isso se tornou um problema para as pessoas em cujo rosto se injetou Botox. O relaxamento muscular as impossibilita de espelhar o rosto dos outros, o que as impede de sentir o que os outros sentem. Pessoas com Botox podem parecer maravilhosas, mas elas têm dificuldade com a empatia. E o problema não está apenas em como elas se relacionam com os outros, mas em como os outros se relacionam com elas. Rostos com Botox parecem congelados e perdem o fluxo de microexpressões utilizadas nas interações diárias. A falta de resposta facial faz com que os outros se sintam isolados, rejeitados até.
O ceticismo inicial da ciência sobre esses processos corporais agora nos parece estranho. Quem não chorou quando os outros choraram, riu quando os outros riram ou pulou de alegria quando os outros pularam? Sentimos o que os outros sentem ao tornar nossas as posturas, os movimentos e as expressões deles. A empatia salta de corpo para corpo.

Frans Waal, in O último abraço da matriarca

Carinhoso | Pixinguinha e João de Barro, 1937


Esta é daquelas que parecem ter sempre existido no coração de brasileiros de diversas gerações. Mas até chegar a esse status permaneceu por duas décadas ignorada. Inicialmente sem letra, foi escondida pelo próprio compositor, Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Filho, 1897-1973), que tinha 20 anos quando, em 1917, criou a melodia. Inseguro pelo fato de aquele ser um choro fora dos padrões habituais do gênero, com apenas duas partes quando o normal eram três, ele deixou a partitura guardada na estante. Só em 1928, o também flautista, saxofonista, arranjador e maestro finalmente decidiu gravar “Carinhoso”, em disco de 78 rpm lançado pela Orquestra Típica Pixinguinha-Donga. Dois outros registros instrumentais foram feitos, em 1929 e 1934, mas sem muita repercussão.
A história de sucesso sem fim de “Carinhoso” só iria começar em 1937, quando a canção foi lançada em disco por Orlando Silva, um dos grandes cantores da época, já com os versos feitos por João de Barro, ou Braguinha, como também ficou conhecido Carlos Alberto Ferreira Braga (1907-2006). Carioca de classe média, Braguinha trocou a faculdade de Arquitetura pela música popular após ter participado do Bando dos Tangarás, ao lado de Noel Rosa e Almirante.
Com letra simples, uma cantada escancarada e direta na melhor tradição romântica brasileira, “Carinhoso” foi esnobada por dois outros grandes cantores da época, Francisco Alves (1898-1952) e Carlos Galhardo (1913-1985), ambos com mais prestígio do que Orlando Silva. Este, já no auge de sua técnica vocal e pronto para se tornar o Cantor das Multidões, aceitou a missão e não se arrependeu. Lançado num 78 rpm que vinha acompanhado de “Rosa”, outro clássico de Pixinguinha, o samba-choro virou um sucesso instantâneo e foi adotado como o prefixo musical do cantor. O que não impediu que, a partir daí, “Carinhoso” também entrasse no repertório de todos os grandes intérpretes brasileiros, regravado por Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Sílvio Caldas, Dalva de Oliveira, Elis Regina, Maria Bethânia e muitos outros.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil

Blue avança pela luz amena antes da aurora e procura algum sinal

Seu trabalho ali é lento, mas nunca tedioso; uma das virtudes de Blue como agente é sua meticulosidade em cada vida. Seu marido vai ser importante para a filha do amigo de um rival, e as conversas que Blue tem com ele, os presentes que faz para ele, os sonhos para os quais o embala na cama vão espalhar tentáculos de possibilidade desse fio para outros, enviar tremores para mudar e sacudir os ramos do futuro na direção de Jardim.
É um presente de Jardim que seu papel ali requeira uma atenção tão deliberada e minuciosa; que vagar na floresta e pensar em pássaros e árvores e cores seja o esperado dela, um ponto crítico da missão. Blue ama cidades — seu anonimato, seus cheiros e sons —, mas também ama florestas, lugares que outras pessoas chamam de quietos, mas que são tudo menos isso. Blue escuta os gaios, os pica-paus, quíscalos, ri dos beija-flores brigando com as asas. Ela estende as mãos para trepadeiras-azuis e chapins, rouxinóis preto e brancos, e eles voam até ela, fazem de seus dedos galhos. Ela acaricia as cristas dos pica-paus sem nomear a cor, faz uma agulha e um fio com a emoção que sente ao tocá-la e costura a alegria que Jardim espera que ela sinta na floresta.

Há uma cicatriz em seu ombro agora, não importa que forma ela tome, o franzido arabesco de um ferimento. Lobos se esquivam dela, amam-na à distância.
Porque é esperado que ela tome essa direção, é relativamente fácil disfarçar sua busca; como ela vem colhendo folhas da última estação, colecionando crânios de corvos, o pelo seco e aveludado de cervos, dentes de raposa, não é digno de nota que ela fique imóvel como uma presa ao ver uma enorme coruja cinza, seu rosto de maga inclinado para ela, o brilho de suas penas desgrenhadas da cor de um fim de noite.
A coruja está parada, serena e digna, no oco de um carvalho, e olha para ela.
Então golfa uma pequena pelota, se agita, e voa para longe.
Blue ri — súbita e agudamente — e se inclina para pegar a pelota e enfiar no bolso. Ela a rola pelos dedos de uma das mãos sem olhar, mais uma curiosidade para sua coleção. Ela não tira a mão do bolso até chegar em casa; espera até o pôr do sol, quando pode olhar o céu ficando escarlate enquanto corta cuidadosamente a pelota e encontra ali dentro algo para ler.
Anos depois, uma rastreadora esquadrinha a área, só um pouco abaixo da velocidade do som, aparece e some de vista, e carrega minúsculos fragmentos de osso de volta para a trança.

Amal El-Mohtar e Max Gladstone, in É assim que se perde a guerra do tempo

20/02/2022

A cantiga

“Ai cigana, ciganinha,
ciganinha, meu amor.”
Quando escutei essa cantiga
era hora do almoço, há muitos anos.
A voz da mulher cantando vinha de uma cozinha,
ai ciganinha, a voz de bambu rachado
continua tinindo, esganiçada, linda,
viaja pra dentro de mim, o meu ouvido cada vez melhor.
Canta, canta, mulher, vai polindo o cristal,
canta mais, canta que eu acho minha mãe,
meu vestido estampado, meu pai tirando bóia da panela,
canta que eu acho minha vida.

Adélia Prado, in Bagagem

Armandinho

 

Entrevista-relâmpago com Pablo Neruda (final)

– Escrever melhora a angústia de viver?
– Sim, naturalmente. Trabalhar em teu ofício, se amas teu ofício, é celestial. Senão é infernal.
– Quem é Deus?
– Todos algumas vezes. Nada, sempre.
– Como é que você descreve um ser humano o mais completo possível?
– Político, poético. Físico.
– Como é uma mulher bonita para você?
– Feita de muitas mulheres.
– Escreva aqui o seu poema predileto, pelo menos predileto neste exato momento.
– Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?
– Em que lugar gostaria de viver, se não vivesse no Chile?
– Acredite-me tolo ou patriótico, mas eu há algum tempo escrevi em um poema:

Se tivesse que nascer mil vezes Ali quero nascer.
Se tivesse que morrer mil vezes
Ali quero morrer...

– Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever?
– Ler minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros do Norte do Chile, no Estreito de Magalhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.
– Em você o que precede a criação, é a angústia ou um estado de graça?
– Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia insensível.
– Diga alguma coisa que me surpreenda.
– 748.
(E eu realmente surpreendi-me, não esperava uma harmonia de números.)
– Você está a par da poesia brasileira? Quem é que você prefere na nossa poesia?
– Admiro Drummond, Vinícius e aquele grande poeta católico, claudelino, Jorge de Lima. Não conheço os mais jovens e só chego a Paulo Mendes Campos e Geir Campos. O poema que me agrada é o “Defunto”, de Pedro Nava. Sempre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares.
– Que acha da literatura engajada?
– Toda literatura é engajada.
– Qual de seus livros você mais gosta?
– O próximo.
– A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o “vulcão da América Latina”?
– Não sabia disso, talvez eles não conheçam os vulcões.
– Qual é o seu poema mais recente?
– “Fim do mundo”. Trata do século XX.
– Como se processa em você a criação?
– Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.
– A crítica constrói?
– Para os outros, não para o criador.
– Você já fez algum poema de encomenda? Se o fez faça um agora, mesmo que seja bem curto.
– Muitos. São os melhores. Este é um poema.
– O nome Neruda foi casual ou inspirado em Jan Neruda, poeta da liberdade tcheca?
– Ninguém conseguiu até agora averiguá-lo.
– Qual é a coisa mais importante no mundo?
– Tratar de que o mundo seja digno para todas as vidas humanas, não só para algumas.
– O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo?
– Depende da hora do dia.
– O que é amor? Qualquer tipo de amor.
– A melhor definição seria: o amor é o amor.
– Você já sofreu muito por amor?
– Estou disposto a sofrer mais.
– Quanto tempo gostaria você de ficar no Brasil?
– Um ano, mas dependo de meus trabalhos.
E assim terminou uma entrevista com Pablo Neruda. Antes falasse ele mais. Eu poderia prolongá-la quase que indefinidamente, mesmo recebendo como resposta uma única seta de resposta. Mas era a primeira entrevista que ele dava no dia seguinte à sua chegada, e sei quanto uma entrevista pode ser cansativa. Espontaneamente, deu-me um livro, Cem sonetos de amor. E depois de meu nome, na dedicatória, assinou: “De seu amigo Pablo.” Eu também sinto que ele poderia se tornar meu amigo, se as circunstâncias facilitassem. Na contracapa do livro diz: “Um todo manifestado com uma espécie de sensualidade casta e pagã: o amor como uma vocação do homem e a poesia como sua tarefa.”
Eis um retrato de corpo inteiro de Pablo Neruda nestas últimas frases.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

O chato

O que molda um chato? É de nascença ou uma deficiência adquirida? É o ambiente que o faz? É genético? A culpa é das más companhias? São as desilusões existenciais que transformam um sujeito comum num chato? O fim das utopias interfere no grau de chatura?
Tem chato que, de longe, se vê que é um chato. Monoteístas diriam que Deus olhou para Romário e disse: “Esse é o cara...” Então, reparou no bebê ao lado e disse: “Esse vai ser chato.” É aquele para quem os mendigos não pedem esmolas.
Há três categorias de sujeitos que podemos considerar chatos, também conhecidos como malas, inconvenientes, maçantes: o chatinho, o chato para algumas coisas e o insuportável.
Geralmente, os insuportáveis têm elementos em comum: não mentem. Por serem sinceros, é que são chatos. Costumam pegar no ponto fraco do interlocutor. “Como você está gorda”, é uma das formas que começam uma conversa. Há variações. “Seu canino está sujo.” “Quanta caspa...” “É duro envelhecer, não?”
Chato que é chato vive convidando conhecidos para a sua casa. Inventa muitas atividades para travar amizade. Constrói uma intimidade que não existe. Afirma que você precisa conhecer os pais, cachorros e plantas dele. Além disso:
1) Um chato é sempre insistente na sua chatice. E fala demais.
2) Ele é uma unanimidade: se é chato para um, o é para todos.
3) Uma vez chato, sempre chato.
4) O chato é chato no berçário, na escola e no colegial. Destaca-se na faculdade.
5) Ele continua chato no trabalho. Aliás, em toda empresa, é preciso ter um chato, para descarregarem as tensões. E se o chato muda de empresa, passará a ser chato no novo trabalho.
6) O chato sabe de cor os nomes de todos.
7) Nunca esquece um aniversário.
8) Usa expressões em outra língua, esforçando-se para falar com o sotaque correto.
9) Corrige os erros de português de outros no meio da conversa.
10) E, agora, na versão on-line, corrige os erros de ortografia no começo da resposta.
11) Conhece todas as regras da empresa e o organograma.
12) Sabe a causa de todos os feriados que estão por vir.
Mas, no íntimo, chato que é chato detesta Natal, Réveillon e especialmente o Carnaval, datas em que não entende como podem estar todos tão felizes, trocar presentes e cumprimentos, se ele não tem companhia. Eis o paradoxo: o chato é chato porque é triste ou é triste porque sabe que é chato?
Eu me encaixo na classificação chato para algumas coisas. Com quantos travesseiros você dorme? Eu durmo com cinco. E de densidades diferentes: um duro para a perna direita, um fino para a nuca, outro mole para ficar ao lado da orelha, outro enrolado no calcanhar esquerdo, e um mediano para ficar de stand-by, caso algum caia da cama. Sim, o chato para algumas coisas é um cara prevenido.
Talvez eu seja o único sujeito do bairro que tem vontade de metralhar todos os pássaros que cantam ao amanhecer. Especialmente a sabiá insone e gorda como uma galinha que começa a cantar às 2h.
Em literatura, muita coisa me irrita. Quando abro um livro, e o sujeito começa “fui envolto pela sensação de...”, não termino a frase e o jogo no lixo.
Sou tão chato que livro com mais de 500 páginas raramente leio. Considero o autor excessivamente narcisista, por achar que sua história merece tanto papel. Livro de menos de 100 páginas também não leio. Considero o escritor negligente e preguiçoso. Orelha de livro? Não leio. Prefácio? Pulo. Epígrafe? Detesto. Contracapa? Evito.
Quando um autor iniciante tem a “brilhante ideia” de me convidar para escrever o prefácio ou a orelha do seu livro, eu penso nas desculpas mais esfarrapadas, mas, na hora agá, não me contenho e pergunto: “Você acha que eu não tenho mais o que fazer? Acha que eu fico ligando para escritores, para pedir para parar o que estão fazendo para escrever elogios sobre a minha literatura? Algum livro meu tem prefácio? E alguém lê prefácio? Você lê? E orelha?”
Sou tão chato que, se o envelope da correspondência que recebo for muito bem lacrado, fico com preguiça de abrir e jogo fora. Se o elevador demora para chegar, dou meia-volta e desisto. E se a avenida estiver congestionada, volto para casa.
Se vou de metrô, e o trem não para de forma que a porta fique à minha frente, não entro. Se há alguém no lugar exclusivo de deficientes, olho com cara feia. Se alguém na plataforma tentar entrar no carro antes de eu sair, atropelo. E se alguém ficar me olhando muito, sou capaz de dizer: “Está olhando o quê?”
Sou tão chato, que já usei a expressão “cara feia pra mim é fome”.
Pessoas que o chato detesta, pela ordem de detestação:
1) Todos os protagonistas de comercial de cerveja. Até os figurantes, com caras alegres, em praias paradisíacas. Um chato inveja pessoas felizes.
2) Todos os cantores que cantam em dupla. Um chato inveja pessoas que têm parceiros.
3) Apresentadores de tevê casados que apresentam o mesmo telejornal. Um chato não conseguiria trabalhar com a mulher.
4) Atores de tevê casados que protagonizam o mesmo filme ou novela. Sem comentários.

Marcelo Rubens Paiva, in Crônicas para ler na Escola

Capítulo oito | O cadáver de todas as coisas está na língua


Adormeceu no areal e, em seus medos e ignorâncias, as palavras brancas surgiram como se guerreassem com as puras abaeté. Era uma guerra vocabular em que sua mesma voz entoava de um modo e de outro e alguma coisa parecia obrigar a que escolhesse um dos lados, escutasse o som para decidir de beleza, de força, da capacidade maior ou menor de coagular um grande sentido, oferecer à mata uma fortuna, um sustento. Honra surpreendia-se agora com o susto de mais ocupar sua existência com a ferida branca. Se seu corpo já era ocupação branca, ocupação inimiga, capturar na toca do espírito o vocábulo sujo do inimigo poderia ser condenar-se por completo. Sucumbir inteiro, restar mais nada. E ele sabia das advertências insistentes dos guerreiros tardios que o educavam para uma vingança fundamental. Mas era mais do que o medo que movia Honra naqueles pesadelos. Era a fúria. E ele seguia mudando em seus sonhos as palavras brancas e inventando sangue, sangue que pudessem verter à sua pronúncia porque queria deter Pé de Urutago, o inexplicado que tivera a emoção de lhe prometer a morte. Estava emocionado, pensava o feio uma e outra vez. Deveria ser junto a Nada Bom e Nada Azul. Deveria ser chefiado para exclusão dos aptos à lucidez. O guerreiro branco, em seu tormento não desperto, deambulando de pesadelo em pesadelo, buscava nas palavras inimigas alguma mais feroz que caçasse impiedosamente e, sem falhar, garantisse que a dignidade abaeté ficasse intacta, protegida como uma evidência pela qual tinham de dar tudo. Subitamente, percorrendo o discurso branco que assomava à sua cabeça, Honra teve a impressão de estar dentro de uma identidade distinta que, talvez por esperança, poderia conferir-lhe uma robustez que não tinha ainda no discurso abaeté. Honra sentiu uma vertigem estranha. Uma tentação. Voltou a buscar entendimento para isso que sentia. Julgou adentrar o discurso branco como se adentrasse uma nova identidade à qual pudesse deitar mão para ser muito mais forte. Se o discurso branco pudesse ferir com maior violência, talvez Honra devesse tomá-lo naquele instante e entoar na direcção de Pé de Urutago a palavra de caça. O feio despertou. Era torto. O tremendo animal líquido resfolegava e o guerreiro branco sabia que se tentara pela malignidade de capturar em sua boca a onça vocabular do inimigo. Sentiu-se em perigo. Sentiu que única forma de maturar dali seria cantar por um tempo. Cantar as límpidas sabedorias abaeté que, por eternidades, salvavam os espíritos puros que pertenciam à Verdadeiríssima Divindade. Cantou e esperou que chegasse o sol para menos temer e mais acreditar.
O cadáver de todas as coisas está na língua. Naquilo que se pronuncia sobra tudo quanto foi, e a existência não se livra do cúmulo do que já passou. Para que cada palavra seja criadora, é também inevitável que saiba que sepulta dentro de si mesma. Quando entoas, nem que à deriva sem muito domínio ou consciência, o tempo todo e o espaço inteiro podem comparecer e qualquer palavra é infinitamente de maior tamanho do que o teu. Em cada modo de fala há uma identidade. Em cada língua um mesmo guerreiro encontra nova identidade. Usar outra língua implica atenção para haver modo de regresso. Sob pena de ser impossível voltar. Sob pena de ser impossível a paz no instante de voltar. Nossa língua é nosso comportamento. Ela dirá sobre o que fazes, dirá sobre o que és e sobre a inteligência de seguir uma conduta gentil. Nossa língua é gentil. Gentileza é tua obrigação.
Assim lhe explicaram os guerreiros tardios e o descansaram. A entoação inimiga procurava dominar sua boca, avassalar sua toca do espírito. Era de esperar que isso acontecesse. E Honra, calando sobre ter visto o guerreiro de vocação alada, queria acusar mas algo advertia a não o fazer. Era melhor deixar que o voltasse a encontrar, no terreiro, nas tarefas comuns, na esperança de que houvesse um arrependimento, uma súplica para que suas sagradas dignidades se pudessem tolerar novamente.
Descido à aldeia litoral, Honra buscou Pai Todo e o cumprimentou submisso, mas o santo dirigia-se ao coto da figueira e logo o subiu. A comunidade noticiou entre si que haveria chefia, alguma intuição que chegaria agora ao conhecimento de todos. E quando se silenciaram e prepararam para escutar, o guerreiro mais lúcido entoou:
vai abeirar a aldeia um curumim negro. Um negro. Conheci que será um pouco decorpo nocturno assustado e com fome. Conheci que seu desespero pede aos abaeté piedade. A voz coral chefia piedade. Chefia perante todos.
Os ancestrais explicaram que seria um pouco de corpo nocturno. A comunidade repetiu.
O feio observou em seu redor, estranho e desconfiado. Escutava o conhecimento de Pai Todo e desconfiava de o escutar. Imediato teve a impressão de haver uma companhia tangendo sua pele. Era ninguém. Mas o guerreiro ocupado quase juraria haver sido tocado. Ele moveu-se de um lado para o outro. O santo declarava e o guerreiro branco fugia de sentir o encosto de algum corpo impossível de se ver.
Incomodado, Honra chegou a esfregar sua pele. Talvez fosse algum insecto pousando, algum pequeno bicho procurando subir por sua perna. Esfregava repentino, num certo arrepio, e aquietava. Depois, voltava a sentir que era tocado e mais olhava em redor e não havia ninguém. Era, talvez, de sua cabeça despreparada.
O negro era um animal manso, desiluminado. Existia assimétrico nas preguiças e abusos do branco. Fazia pelo branco e morria sumário, tantas vezes sem razão e muito raro sonho. O negro era um animal sem guerra e defendia nada. A comunidade abaeté desperdiçava os negros. Passavam rarissimamente nas ilhas do órgão vital, mal orientados para encontrar um mocambo que juravam haver muito depois do quarto mar. Para os abaeté, depois do quarto mar era fim do mundo, queda das pedras, vegetação imatura em acordos ainda primitivos. O que habitasse para lá do quarto mar teria vocação de breve ou nenhuma vida. Sopraria apenas na poeira do vento.
Estava na memória dos antigos uma fera maior do que as árvores, um jacaré do tamanho de cem jacarés, e essa besta ia nas ilhas seguintes, incapaz de sair por ser tão gorda e afogar se tentasse atonar pelo tremendo animal líquido. Os negros que passavam adiante do quarto mar iam na direcção daquela fome. Eram refeição daquele horror. Os abaeté lembravam para nunca mais se atreverem a navegar naquelas águas, naquele fim.
O primeiro negro que aparecera nas ilhas os guerreiros mataram. Movera no escuro, parecia a ausência num pé, tombou em seu gemido animal. Foi levado para o coto da figueira e descansado perante a perplexidade de todos. Era um apagão sem mais mover. Alguns entoaram que fosse talvez já morto. Um animal que se movia na morte, como um encantado que busca um corpo de qualquer jeito. Outros mediram semelhanças com onça e podia ser que houvesse nascido de feminina dada em dupla para uma fera. Seria fruto de uma esperança de paz. Pobre negro. Nesse muito antigamente, perante esse primeiro escuro que fora abatido na noite igual a um tapir para ser comido, as aldeias suplicaram que fosse recebido pela encantaria para junto dos bichos amigados. E o espírito do negro, confuso, reviveu numa arara azul que sobrevoou a tatajuba central do terreiro e ficou observando. Os abaeté acreditam que foi essa primeira arara enternecida que levou maior consciência às araras que rondavam o terreiro, até que se fizesse a Arara Mais Consciente, animal observador em que Pai Todo lia com bastante precisão as intuições abençoadas que abundavam dos ancestrais.

Valter Hugo Mãe, in As doenças do Brasil

Lenine | Se não for amor, eu cegue

19/02/2022

Despalavra

Hoje eu atingi o reino das imagens, o reino da
despalavra.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades
humanas.
Daqui vem que todas as coisas podem ter qualidades
de pássaros.
Daqui vem que todas as pedras podem ter qualidades
de sapo.
Daqui vem que todos os poetas podem ter qualidades
de árvore.
Daqui vem que os poetas podem arborizar os pássaros.
Daqui vem que todos os poetas podem humanizar
as águas.
Daqui vem que os poetas devem aumentar o mundo
com as suas metáforas.
Que os poetas podem ser pré-coisas, pré-vermes,
podem ser pré-musgos.
Daqui vem que os poetas podem compreender
o mundo sem conceitos.
Que os poetas podem refazer o mundo por imagens,
por eflúvios, por afeto.

Manoel de Barros, in Meu quintal é maior do que o mundo

O maior dos prêmios

 “Não espero ganhos, nem fama por meus escritos; e me considero amplamente recompensado sem ambos. A poesia tem sido para mim e por si o maior dos prêmios; ela me amparou em minhas aflições; ela multiplicou e refinou minhas alegrias; ela tornou mais leve o fardo da solidão; e ela me deu o hábito de desejar a descoberta do bom e do belo em tudo que encontro e que me cerca”.

Samuel Taylor Coleridge, in prefácio a seus Juvenile Poems

Calvin e Haroldo

 

A manhã daquela rua | Capítulo Terceiro

Diziam, isso diziam, que Dona Maria José tinha hálito de jacaré. Por ela, Ananias sabia de todas as histórias trágicas que vendem jornal. Estava o dia inteiro enferrujando as mãos no tanque. Só dava uma folga quando a preta Bangu pedia um pouco o tanque da rua emprestado. Mas enquanto Bangu não chegava, lá ia ela com um pano no cabelo, se sacudindo toda, passando os vincos do rosto a sol, com os seios grandes, mais ou menos polimorfos e quase líquidos, lembrando balões vazios ou garrafões de vinho.
E assim mergulhando em montes de espuma, com a saia arregaçada deixando à vista as pernas finas e arqueadas, limpava o cocô das fraldas dos meninos, clareando marrons das cuecas e o amarelo do pijama do farmacêutico.
Do outro lado do valão, Dona Cordélia, também utilizando o seu tanque, ficava esperando o momento de Dona Maria José contar o pedaço da radionovela da Nacional, que perdia sempre porque o marido e os filhos não davam tempo de nada. E mesmo que quisesse, a verdade escondia que ela não possuía aparelho de rádio.
Foi quando Dona Maria José resolveu não contar ainda o capítulo da radionovela e sim outra coisa que a impressionara muito.
– Foi sim. Deu dezessete facada nela. Imagine que monstro, Dona Cordélia. E ela não tinha nada com o tal do Francisquinho. Era uma santa. Ele, Marcolino Mendonça, que já tinha sido cabo de puliça, portanto otoridade, devendo de dar o exemplo, foi lá na hora e pronto... Cringue-cringue-cringue. O sangue tingiu o chão. Ela, Mariazinha, tinha jurado de pé junto que não tinha nada... nad... na... n... e o demonho não acreditou, puxou a faca, enfiou a faca, puxou a faca, enfiou a faca. Ela, tão linda no retrato do jornal. Ele, com aquela cara de assassino papa-figo. Cordeiro conhecia ela.
Cordeiro, o marido de Dona Maria José, conhecia todo mundo. Dona Cordélia, que não sabia ler e que, quando tinha tempo via figura de revistas, ficava excitadíssima do outro lado do valão enfiando as mãos no tanque; espremia a roupa com força, espremia estranguladoramente o sabão, como se defendesse todas as mulheres assassinadas, injuriadas, violentadas. Só tinha tempo de dizer antes que o suor corresse frio pela espinha: que coisa, mas não é?
Ananias não lia jornal, mas se deitava na sombra, ao lado de Sulamita, grudando-se em Tricolinete, espiando o capinzal queimado, sem querer apanhar o sol, mas doido para escutar tudo. Isso, quando era dia de folga. Uma manhã, Antão dava aula para os filhos de Dona Bárbara e outros meninos que apareciam e, na outra, era ele. Porém, Antão estava ficando santo demais. Começara aos poucos a empurrar tudo para cima dele e enfiar-se no mundo estranho dos seus pensamentos. Muitas vezes, Antão o descobria naquela posição e o botava para dentro, só mandando com os olhos.
Porque fora pensar naquilo. Seus ouvidos habituados descobriram o som dos passos de Antão do outro lado da casa. Esqueceu-se de que era um anjo de 86 anos e correu pressuroso para o lado contrário. Viu que o irmão caminhava lentamente para o portão. Na certa o procurava para ver se ele se encontrava brincando com a criançada.
Ananias olhou o portão e se postou mansamente ao lado de Antão. Os dois espiavam o avançar da luz.
A rua branca do subúrbio se perdia igual, indiferente, imutável. Todas as casinhas se projetavam dentro de uma cerca de crótons ou outro arbusto semelhante. Os pés de jamelão eram quase infalíveis em cada quintal. Os de tamarindos, apesar de muitos, apesar de grandes e velhos, rareavam mais.
Gente passava levando marmitas em direção à fábrica. Os homens da pedreira se encaminhavam para o Murundu.
O peixeiro aparecia perto com o cesto na cabeça e uma porção de gatos fazendo miau atrás. Parava e os gatos paravam. Andava e os gatos repetiam o miau.
Mulheres malvestidas, despenteadas coçando a cabeça, dando cafuné nos piolhos, vinham olhar a rua e gritar por qualquer coisa. Ou chamar um filho ou brigar com as vizinhas. Meninos barrigudos com o pipiu de fora, remelentos, seguravam nas saias da mãe e olhavam a rua sem compreender ainda o seu significado.
Seu Edmundo passou lento, lento na caminhada igual de todos os dias. Ia comprar o jornal, jogar no bicho e trazer o pão. Essas coisas, essas três coisas, sobretudo o bicho, ele pagava. O resto, não, porque a aposentadoria não chegava pra nada.
Gente fazia grupinhos, se cumprimentava e falava de doenças longes. A Nega Eugênia, que praticava pequenas sessões de macumba, era casada com seu Benedito Carpinteiro, que por sinal era branco, surdo e morfético e ainda fazia linguiça para vender, veio de lá fazendo arrepios nos meninos-remelas. Olhou os santos sem malquerença ou inveja e também não deu bom-dia. Mas eles nem notaram.
O prestamista Jacob tinha que surgir num dia bonito desses. Pois se ele aparecia nos dias feios de chuva, quanto mais hoje. Jacob tinha boca de ouro, riso pregado, calças de listas e paletó de casimira, engraxado de tanto suor. O suor fazia ilhas nas costas, escorregava pelas pernas, pingava nas botinas e criava grudes de poeira nelas. Batia nos portões e ouvia: hoje não tem. Saía. Batia noutro e: hoje tem. Diminuía mil-réis na conta. Quando essa conta fosse acabando, ele venderia para o São João. Quando a do São João ficasse magra, ele engordava a do Natal. Jacob foi batendo e sumindo.
Também Fiote passou, gordo, grande e vermelho com os olhos inchados contornando espirais na poeira da rua. De noite ele voltaria grande, gordo e mais bêbado, com os olhos mais vermelhos ainda.
Tudo passava no começo do dia. Tudo passava no começo da noite. No meio, então, estagnava. Aquilo era a rua. E quando a rua parava, meninos jogavam bola de meia, bolas de gude, rodavam arcos, levavam surras das mães, soltavam papagaios, laçavam pipas, atiravam marimbaus que muitas vezes erravam o alvo e vinham achatar-se na cabeça de um infeliz passante. A rua pertencia a todos. Os fios da Light se enchiam de caveiras de papagaios e arraias. Vinha o carro da Light e fazia um escarcéu dos diabos; retiravam os bambus balouçantes, endireitavam os fios, faziam ameaças, se pegassem o autor, capavam, multavam e etc...
Entretanto, a molecada era coletiva. Ninguém traía ninguém, porque a rua era deles. Aquela confusão de rua, com brinquedos coloridos simples.
Os palavrões sobravam. Surgiam precocemente nas menores idades e chegavam a ser bonitos, tal a ingenuidade da força com que eram ditos.
Uma vez Dona Bárbara agarrou um pelas orelhas e perguntou se sabia o que era filho da... então ela se vestiu de ternura e explicou que ele estava xingando a mãe do outro e que a mãe não tinha culpa de nada. O menino ficou sabendo e xingava agora com mais vontade, porque sabia o que atingia no palavrão. Era muito melhor.
A rua era aquilo. O sol se espojando no verão. Tricolinete fuçando rapidinha alguma poça de lama em volta de algum cano rebentado. A amarela Sulamita, magra, comprida, gata-cauda, dormindo com uma réstia de olho amarelo aparecendo, se esticava no meio da areia. Raça Dura não dava bola para ela e ficava, no máximo, no portão, enquanto Antão permanecia, depois acompanhava-o para pensar e endurecer-se.
A poeira aumentava na rua quando vinha um jogo de bola de borracha, quando vinha carroça, quando vinha a tropa de mulas carregadas em busca do mercado; os burros faziam aquele barulho e deixavam escapar bolotas verdes rolando nos caminhos e atulhando o chão. De tarde o sol teria secado tudo. Carros de rodas de borracha, só o da Light. Mais raro, o doutor no carro dele. Uma vez a cada século a assistência plequeteava o sino. Aí a rua se alvoroçava em peso e todo mundo corria para saber. Dona Maria José abandonava o tanque e chegava ao destino antes da assistência. Adivinhava o local por instinto e servia na certa de mestre de cerimônias para o estudante de medicina e dava uma mãozinha para os enfermeiros. Os portões se apinhavam de gente querendo saber o que era o que não era. A molecada disparava atrás da assistência, cujo sininho fazia piedosamente pelec-pelec.
A linguagem da curiosidade ligava a rua e o que foi e o que não foi habitava os olhares ansiosos. Os boatos surgiam e se apagavam como luz de farol. Já Dona Cordélia se sentiria doente espiritualmente e lavaria a roupa devagar, suavemente, como se fosse feita da fragilidade da espuma do sabão...
Agora não havia ninguém doente. A rua vivia a manhã calma. Os meninos voltariam a reinar. Estragariam novamente os fios da Light e pintariam o céu de quadradinhos de todas as cores, quadradinhos que ondulariam no vento. O peixeiro gritando, sem a sua sombra, que os gatos comiam desapareceria ao longe.
A areia branca, as cercas mais verdes com a luz do sol. Rosinea de cabelos esticados saiu atrasada. Andou apressada com o cinto estrangulando a cintura como sempre. Bateu o portão, deu bom-dia para os santos e lá se foi equilibrando a caixa do violino.
Pedrinho saiu em busca dos caminhos dos espinheiros com a gaiola e o alçapão. Pegava coleiros para vender na feira.
Ananias sentiu uma tristeza nos olhos vendo o menino se afastar. Pronto, ele não ia à aula hoje, e sem Pedrinho a aula não tinha encantamento. Conhecia Pedrinho desde pequenininho. Pedrinho fora uma criança tão fortinha, que fazia pulseirinha nos braços... também. Lá ia ele se afastando, vivo como a doçura da manhã. Levado, mas sem infância ruim... A rua era aquilo tudo…

José Mauro de Vasconcelos, in Rua Descalça

Corrupção e lei

Corruptissima re publica plurimae leges. [Quanto mais corrupta é uma república, mais leis possui].

Sidney Vieira, in 500 Provérbios em Latim

Eu te amo


Com o passar do tempo, todos os sonhos dele poderiam ter se realizado e ele poderia ter se unido à mulher amada, mas o caminho era longo e não levou a nada. A única coisa que o acompanhou por todo aquele caminho longo e estéril foi uma imagem de revista com a fotografia da mulher amada, e ainda por cima no trabalho dele só algumas pessoas sabiam quem era ela — um par de pernas, e só isso, bem roliças, sem meias, com sandálias de salto alto; ela mesma havia se reconhecido na hora, sua bolsinha e a barra do vestido. Como ela adivinhou que haviam fotografado sua metade inferior? O fotógrafo havia corrido na rua e clicado uma vez, outra, depois publicou só a saia e as pernas dela. Ele, a pessoa de quem estou falando, guardava essa foto em casa sobre a mesa, presa com tachinhas, e a esposa não o contradizia em nada, ainda que fosse uma mulher severa e mandasse em toda a família, até na mãe, e depois nos filhos, sem falar nos parentes distantes e nos alunos. Porém, era uma dona de casa boa, acolhedora, generosa, só que não dava sossego aos filhos, e a mãe vivia tranquila com ela, deitava na caminha, lia para os netinhos enquanto podia, aproveitava o calor, a calma, a televisão. Depois, passou muito tempo morrendo resignadamente, já quase não mexia a cabeça, e um dia se foi em silêncio.
Quanto a ele, depois de enterrar a sogra, ficou pacientemente esperando que a mulher morresse. Por algum motivo ele sabia que ela morreria e o libertaria, e ele se preparava para isso de forma muito ativa: levava uma vida esportiva e saudável, corria de manhã, até brincava com halteres, mantinha uma dieta rigorosa e com isso conseguia trabalhar muito e chegou a ser chefe do departamento, viajava para o exterior — e esperava. Sua escolhida, uma loira bonitinha e roliça, era o sonho de todos os homens e quase uma Marilyn Monroe, trabalhava bem ao lado dele e às vezes o acompanhava nas viagens a trabalho — e ali começava a verdadeira vida: restaurantes, hotéis, passeios e compras, simpósios e excursões. Que saudade ele sentia todas as noites, ao voltar do paraíso para o inferno, para o ninho pobre e quente onde turbilhonava a vida em família, atravancada, pesada, em que as crianças adoeciam, enlouquecidas e enfurecidas, atrapalhando a concentração, e eles precisavam acalmá-las; a situação chegava a ponto de ter que recorrer ao cinto, e depois o pai se sentia ainda mais humilhado e ofendido. A própria esposa gritava com as crianças, a esposa não tinha tempo para nada, mal conseguia dar a volta na casa inteira. Como em toda família que se preze, ali também moravam uma gata e um cachorro, e a gata dava miados roucos a noite toda quando estava no cio, e o cachorrinho latia cada vez que chegava o elevador, e justamente à noite aquela família era especialmente desagradável para o pai: ele ficava deitado na cama e, submergindo em sonhos saudosos, ansiava pelo corpo, pela tranquilidade, pelos encantos que emanavam daquela amiga ilícita durante as viagens. Quando não estavam juntos, a loira também era perseguida pela vida: o marido e a sogra subiam no pescoço dela, a sogra a obrigava a esfregar o apartamento inteiro aos sábados, a ponto de limpar os azulejos do banheiro com amônia! O marido bebia demais e não deixava a coitada ir às festas do trabalho, aniversários etc., sempre fazia escândalo antes das viagens a trabalho, desconfiava, ele e a sogra a pressionavam, como Cila e Caríbdis; além disso, eles ainda faziam escândalos entre si, o marido e a mãe. A sogra importunava a pobre loira, perguntava por que o marido dela nunca beliscava alguma coisa quando bebia, e comia pouco em geral, até disso ela era culpada! No trabalho a loira reclamava muito pouco, era discreta e não desabafava com ele diretamente, como fazia a esposa. Existem mulheres assim, ele pensava, esparramado na cama, o marido solitário, e atrás da parede choravam e se esgoelavam os filhos dele dormindo, um menino e uma menina, e a esposa cardíaca roncava, cada vez mais velha e cada vez mais amorosa. Para a mente é inconcebível que ela, uma velha de quarenta e tantos anos, o amasse e cuidasse tanto dele! Parece que ela nunca acreditou que ele a amava, que aquele homem chique, com as têmporas grisalhas, fosse marido dela, e sempre se apagava e se recusava a ir com ele para qualquer lugar. Ela costurava vestidos para si mesma, sempre com o mesmo corte simples, longos e folgados, para esconder a gordura e os remendos nas meias, para as quais sempre faltava dinheiro. Na língua dos inúmeros convidados e parentes, isso se chamava “vestir-se com bom gosto e discrição”; os convidados vinham em multidões em todas as festas, adoravam os salgadinhos dela, os pãezinhos e as saladas — eram todos convidados dela, amigos de escola, da mesma idade, parentes — eles se lembravam dela jovem, bonita, com covinhas, com uma trança grossa, e não reparavam que ela já não era mais a mesma, já tinha se apagado.
Na verdade, ela já havia descartado a trança e as covinhas fazia muito tempo, cuidava do marido e da mãe, tomava conta dos filhos, corria para comprar alimentos frescos na feira para ele, senhor da sua vida, e não tinha tempo de ir a lugar nenhum, mas por algum milagre sempre chegava na hora em todos os lugares, e assim tentava viver em ordem — e, naturalmente, à noite ficava muito tempo com os livros na cozinha, depois de pôr a família inteira para dormir, fazendo algum trabalho extra naquelas mesmas noites, na mesma cozinha, ou preparando as aulas. Ao chegar do trabalho, ela contava histórias sobre seus alunos e às vezes cozinhava um balde de almôndegas e um balde de mingau, e os alunos vinham visitá-la, traziam flores, faziam um barulho tímido, comiam tudo o que houvesse e distraíam a professora com canções absurdas e coletivas. Mas isso acontecia quando o senhor estava fora em suas viagens a trabalho, e só nessas horas.
Quando os filhos nasceram, o menino e a menina, o primeiro pensamento dela foi o marido: levá-lo ao trabalho depois do café da manhã, recebê-lo com jantar na mesa quando chegava do trabalho, escutar tudo o que ele queria dizer. Houve só um intervalo, quando a mãe dela começou a morrer e no curso de três anos morreu; nesse momento ela abandonou tudo, e as coisas de alguma forma andaram, não se sabe como, e o pai da família, no café da manhã, comia sozinho o que havia na mesa, e também jantava sozinho, ele mesmo ajeitava algo e ia para o quarto carrancudo, mas mesmo assim foi o primeiro a carregar o caixão, e não se diferenciava do resto em sua tristeza genuína. Depois do enterro o quarto da mãe ficou vazio, fechado, não havia forças e também a dona da casa em silêncio resistia, dormia na sala com os filhos, ou melhor, ficava sempre sentada do mesmo jeito na cozinha — tinha perdido o sono.
Para o marido também foi um período difícil; seu amor começara a se queixar e a exigir uma vida familiar completa, independente, recusava-se a se trancar com ele no apartamento vazio de conhecidos, como já se acostumara a levá-la no intervalo do almoço, e até ia mais longe: ela estava flertando nos escritórios vizinhos e no bufê, e os homens, farejando uma “defesa enfraquecida”, na expressão dos colegas, abriram uma trilha para o escritório dela, e o telefone tocava, e alguém passava para dar uma carona e por aí vai. Nosso marido estava comendo o pão que o diabo amassou, estava roído de amor e dívidas, e adotou uma postura inflexível e obstinada no tratamento de sua amiga, apesar de às vezes chorar aliviado no ombro dela, se conseguisse. O que podia fazer? A esposa, em todo o seu desespero, notava que o marido havia murchado, que seu olhar estava perdido e que ele parecia totalmente fora do ar. A esposa voltou a si, rapidamente fez uma reforminha no quarto da mãe e lá se instalou com os filhos, e a sala voltou a ser um lugar de encontro, conversas e pequenas festas, e para os convidados o marido parecia um pai de crianças maravilhosas e chefe da casa (e não um cachorro abandonado e sem lar), e amado, um marido idolatrado como um semideus (e não o antepenúltimo pretendente na fila de uma mulher sem dono). Agora davam o café da manhã a ele antes de todos, de repente até foram costurados alguns vestidos novos de lã barata, aos domingos a esposa começou a levar os filhos para longos passeios, às vezes no parque, às vezes no circo, às vezes no planetário. Mas no quarto do marido, sobre a mesa, ainda estavam penduradas as perninhas nuas roliças sob a saia, e de saltos: ele não se rendia.
Por fim ouviu-se um trovão, e o marido da loira — “nosso marido”, como o casal clandestino o chamava — perdeu as estribeiras, enfureceu-se, perseguiu a loira com um machado, ela se trancou no banheiro até a noite, de noite deu um jeito de escapar de casa, ligou para o nosso herói de um telefone público, ele foi correndo encontrar com ela, voltou quase de manhã, e de manhã novamente foi tirado da cama por uma ligação terrível, como sempre são as ligações ao amanhecer: o marido havia sido encontrado enforcado na porta pela mãe. Claro que a pobre viúva recente passou o mês seguinte com uma espécie de família de amigos condoída; nosso herói mesmo assim não tomava a decisão de propor casamento, e ali, naquela família amigável, a anfitriã de alguma forma reuniu forças e expulsou a triste loira, bonitinha demais com sua palidez de luto, o que era insuportável observar pelos cantos, ainda mais porque o dono da casa começou a experimentar sentimentos platônicos de amizade e compaixão pela loira, o que era bem mais perigoso do que uma simples sujeira humana, entra e sai e pronto.
Não foi logo, mas tudo se acalmou. A loira ganhou seu próprio apartamento, alguém gostou do apartamento devastado da velha sogra, convenceram-na a trocar aquele lugar terrível por algo perto da sobrinha. A loira ganhou um apartamento mais distante e pior, mas só dela, e então nosso marido, nosso herói, precisava tomar uma decisão definitiva, sim ou não, e começar a reforma — móveis, instalação elétrica, vedação das janelas — no novíssimo apartamento de sua escolhida. Em vez disso ele começou a trabalhar com muito empenho em sua própria casa, colou papel de parede na sala com os filhos, retomou os exercícios físicos, ducha e corrida, passou a mostrar uma dedicação redobrada pelas crianças e a discipliná-las, porque sua descendência tinha crescido um pouco e começava a atrapalhar, era essa a questão. Com a loira ele permaneceu no papel de conselheiro e visitante, ela cuidou de tudo sozinha, aquilo a ocupava, ela se aconselhava, mostrava uns projetos, e já havia alguém que levava para ela, de carro, os azulejos de Mettlach para o banheiro e os móveis da cozinha. A loira estava avaliando bem a situação e não perdia ninguém de vista, pois tinha diante de si a perspectiva da solidão.
A foto estava sobre a mesa como antes, e o marido tinha até um dia fixo para visitar a loira — aliás, ele agora havia sido transferido para outro instituto onde recebia um bom salário, e a relação com o antigo local de trabalho tinha se complicado muito quando a loira precisou ser promovida, e receberia um aumento, mas não recebeu por causa da raiva geral. Ele saiu em sinal de protesto e prometeu levá-la para o seu trabalho com o tempo; a esposa não entendeu nada e ficou radiante de alívio, e na casa houve uma festa, assaram salgadinhos porque finalmente o marido tinha largado Aquela. Mas a foto ainda estava pendurada.
Ele saiu e se instalou bem no novo local de trabalho, as crianças estavam crescendo, esportivas, disciplinadas, adestradas, como acontece quando a família é estável e se assenta no culto ao pai com uma adoração reforçada e na submissão voluntária da mãe abnegada. A palavra do pai era a lei, e eles andavam seguindo uma ordem: o pai na frente, as crianças lado a lado, e atrás a mãe, acabada, chefiando a família à distância. Era uma alegria olhar para eles, mas a fotografia das perninhas ainda assim estava presente.
A mãe da família esperou até que o menino, o mais novo, entrasse na faculdade, e então se rendeu por completo, como a mãe dela havia feito. De pé na cozinha, ela desabou diante de todos um dia, começou a agonizar e assim continuou por três dias no hospital. A família, disciplinada e trabalhadora, se reagrupou, estabeleceu um sistema de turnos e foram contatados velhos amigos e parentes, alunos antigos e ainda devotados, e o marido arrancou sua esposa da beira da cova, da morte e do esquecimento. Quando a levaram para casa, ela já era uma velhinha miúda, só mexia a mão direita um pouco, não se entendia o que falava, e volta e meia seus olhos vertiam lágrimas. Ela parecia se desculpar por sua aparência naquela situação, se desculpava por toda a vida passada, por não poder criar nada para o seu semideus e no fim das contas cair naquela história de paralisia e arrastá-lo. Com o passar do tempo os moradores da casa se acostumaram àquele peso, ainda que às vezes se irritassem e gritassem um pouco uns com os outros: mesmo com todas aquelas comadres, com as limpezas diárias, as escaras e os pensamentos involuntários, por quantos anos iria se estender aquele estado animalesco ou vegetativo — esses pensamentos os atormentavam. O pai pareceu se tranquilizar de repente, a alma dele estava como que estacionada, todos os movimentos dele em volta da esposa eram fluidos, pacientes, a voz era suave. Os filhos ainda gritavam um pouco uns com os outros e com a mãe, eles tinham seus momentos de instabilidade, sentiam-se destituídos de mãe, ou seja, de uma base e suporte, e se tornaram pais inexperientes da própria mãe, ainda fracos, sentiam que algo ali não estava certo, não havia perspectiva; ou melhor, havia, mas era terrível. Os filhos acusavam um ao outro, lavavam a roupa suja, que lástima, na frente da mãe! Mas o zelo deles não afrouxou, e a paciente continuava limpa, fresca, punham um radinho debaixo do ouvido e às vezes liam em voz alta para ela; mas mesmo assim ela sempre chorava e tentava dizer algo só com os sons das vogais, sem a língua.
Na noite em que ela morreu e foi levada, o marido caiu na cama e adormeceu, e de repente ouviu que ela estava ali, deitada com a cabeça junto à dele no travesseiro, e disse: “Eu te amo”. Ele dormiu mais, teve um sono feliz e estava tranquilo e orgulhoso no enterro, apesar de ter emagrecido muito, e era honesto e firme, e no memorial, já em casa, diante de todas as pessoas reunidas, disse a todos que ela havia dito a ele “Eu te amo”. Todos congelaram porque sabiam que era a pura verdade — e a foto já não estava lá. A foto havia desaparecido da vida dele, havia desabado, perdera o interesse naquele momento, e ele, inesperadamente, ali à mesa, começou a mostrar a todos pequenas fotos de família apagadas, da esposa e dos filhos — todos aqueles passeios dos quais ele não havia participado, todas aquelas distrações, pobres mas felizes, pelos parques e planetários que ela organizava para as crianças, todas as tentativas dela de construir uma vida no pouco que havia restado para ela, naquela ilhazinha onde mantinha os filhos protegidos e onde precisava sempre se interpor no espaço à frente de todos, para encobrir a maldita foto da revista — mas ela havia ido embora, tudo havia acabado bem, e ela de todo jeito tinha conseguido dizer para ele a frase “Eu te amo”: sem palavras, já morta, mas tinha conseguido.

Liudmila Petruchévskaia, in Era uma vez uma mulher que tentou matar o bebê da vizinha: Histórias e contos de fadas assustadores