27/10/2020

Pudim

          Toda esta história com Avishai Abudi deveria, na minha opinião, ativar um sinal de alarme em todos nós. Afinal de contas, ele é um homem honesto, comum, não anda por aí chutando latas de lixo nem provocando brigas em bares. Na realidade, nunca faz nada para atrair atenção para si. Então um dia, do nada, dois bandidos batem à sua porta. Arrastam-no pela escada, colocam-no na parte de trás de uma van e o levam para a casa dos pais.
Quem são vocês? – Avishai grita assustado. – O que é que vocês querem?
Isto não é exatamente o que você deveria estar perguntando – diz o motorista, e o brutamontes a seu lado concorda com a cabeça. – O que deveria dizer é: quem sou eu e o que eu quero? – E então os dois começam a rir, como se Avishai tivesse acabado de contar a melhor piada do mundo.
Sou Avishai Abudi – diz Avishai em um tom que tenta soar ameaçador –, e quero falar com os seus superiores. Estão me ouvindo? – Os dois homens estacionam a van diante do prédio onde moram os pais de Avishai e se voltam para ele. Avishai tem certeza de que vão bater nele, e que não merece tudo isso. De verdade, não merece. – Vocês estão se metendo em encrenca – ele lhes diz, protegendo o rosto, quando o arrancam do veículo.
Mas a verdade é que eles nem batem nele. Avishai não pode ver o que estão fazendo, mas ele sente. E o que sente é que eles o estão despindo, mas não de um modo sexual. É tudo muito correto. Depois que terminam de tornar a vesti-lo, colocam-lhe nas costas uma sacola pesada e dizem, “Yala, agora corra para casa, para papai e mamãe. E não se atrase.” E Avishai corre, tão rápido quanto consegue. Sobe as escadas de três em três degraus, até chegar à porta marrom de madeira do apartamento dos pais. Ele bate, sem fôlego, e quando a mãe abre, ele entra rápido, fecha a porta atrás de si e dá duas voltas na chave.
O que aconteceu com você? – pergunta a mãe. – Por que está suando assim?
Subi correndo – disse Avishai ofegante. – Há pessoas. Nas escadas. Não abra.
Não estou entendendo nada – diz a mãe –, mas não tem importância. Largue a sacola e vá lavar o rosto e as mãos. A comida já está pronta. – Avishai larga a sacola, vai ao banheiro e lava o rosto. No espelho acima da pia vê que está usando o uniforme da escola. Quando abre a sacola na sala, descobre cadernos e livros encapados com papel florido. Um livro de matemática, uma caixa de lápis de cor e um pequeno compasso de metal com uma borracha na ponta. – Deixe de lado as lições – a mãe o repreende. – Venha comer primeiro, rápido antes que todas as vitaminas desapareçam da salada – a mãe o pressiona. Avishai senta-se à mesa e come em silêncio. A comida é saborosa. Há tantos anos que ele come de “quentinha”, ou em restaurantes baratos, que não conseguia lembrar que a comida pode ter tal gosto. – Papai lhe deixou dinheiro para o curso da tarde – a mãe aponta para um envelope branco fechado deixado sobre a mesinha do hall, ao lado do telefone. – Mas repito, Avi, se você mudar de ideia, como fez com os aeromodelos, que se arrependeu depois da primeira aula, é melhor nos dizer isso logo. Antes de pagarmos.
Avishai pensa: É apenas um sonho. E depois diz: “Sim, mamãe” porque, mesmo que seja apenas um sonho, não é razão para não ser educado. E pensa “É só eu querer e posso acordar a qualquer momento”. Não que ele saiba o que é preciso para acordar no meio de um sonho. Você pode se beliscar, mas em geral se faz isto na situação oposta. Beliscar-se é algo que você faz para provar que está acordado. Talvez ele pudesse prender a respiração, ou dizer para si mesmo: “Acorde, acorde!” Ou até mesmo se recusar a aceitar o que o rodeia, colocar em dúvida. Tudo se dissipará de repente. O que quer que seja, não há pressa. Ele pode primeiro acabar de comer. Sim, depois do almoço é um momento excelente para despertar. Mesmo depois da refeição, pensando bem, isto não é realmente urgente. Ele pode ir primeiro para o curso – está curioso para saber que curso é – e então, se ainda estiver claro, jogar um pouco de futebol no campo da escola. E só quando o pai chegar em casa, só então, acordar. Ou até continuar por mais um dia ou dois, até a véspera de alguma prova particularmente difícil.
O que você anda sonhando todo o tempo? – A mãe acaricia a cabeça dele que está ficando calva. – Há tantos pensamentos correndo por trás de seus olhos redondos que só de olhar para eles eu fico cansada.
Eu estava pensando na sobremesa – Avishai mente. – Se tem gelatina ou pudim.
O que você gostaria que tivesse? – a mãe pergunta.
Pudim – Avishai diz, brincalhão.
Então já tem pronto – diz a mãe alegremente e abre a geladeira. – Mas se mudar de ideia, posso fazer gelatina. Só leva alguns minutos.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

A brasilidade no traço de Portinari

Fauna e flora brasileiras, de Cândido Portinari

Jantar

quando minha mãe abre a boca
para conversar durante o jantar
meu pai enfia a palavra silêncio
nos seus lábios e diz que ela
nunca deve falar com a boca cheia
foi assim que as mulheres da minha família
aprenderam a viver com a boca fechada

Rupi Kaur


Ilustração: Rupi Kaur

Um par de bêbados

      Eu estava na casa dos vinte anos e, embora estivesse bebendo muito e sem comer, ainda era forte. Quero dizer, fisicamente, e isso é uma sorte quando todo o resto não está indo bem. Minha mente estava amotinada contra o meu destino e a minha vida, e a única maneira de acalmá-la era beber e beber e beber. Estava caminhando pela estrada, empoeirada e suja e quente, e creio que era o estado da Califórnia, mas não tenho mais certeza. Era uma região desértica. Estava caminhando ao longo da estrada, minhas meias duras e apodrecidas e fedorentas, os pregos estavam atravessando a sola dos meus sapatos e para dentro dos meus pés e eu colocava papelão nos sapatos: papelão, jornal, qualquer coisa que encontrasse. Os pregos passavam mesmo assim e, ou você arranjava mais papel, ou virava a coisa do outro lado, ou de cabeça para baixo, ou mudava o seu formato.
Um caminhão parou ao meu lado. Ignorei-o e continuei caminhando. O caminhão arrancou e novamente o sujeito dirigia ao meu lado.
Garoto – o sujeito disse –, você quer um emprego?
Quem tenho que matar? – perguntei.
Ninguém – disse o sujeito –, venha, entre.
Dei a volta até o outro lado e quando cheguei lá a porta estava aberta. Pisei no estribo, entrei, fechei a porta e me recostei no assento de couro. Estava fora do sol.
Quer me chupar? – o sujeito disse. – Ganha cinco pratas.
Dei-lhe um golpe com a direita no estômago, a esquerda em algum lugar entre a orelha e o pescoço, soltei mais uma de direita em direção à boca, e o caminhão saiu da estrada. Agarrei o volante e o coloquei de volta na pista. Então desliguei o motor e freei. Desci e continuei a caminhar pela estrada. Aproximadamente cinco minutos depois o caminhão estava novamente ao meu lado.
Garoto – disse o sujeito –, me desculpe. Não quis dizer isso. Não quis dizer que você é veado. Quero dizer, embora você meio que pareça um. Há algo errado em ser gay?
Acho que se você é um, não há problema.
Venha – disse o sujeito –, entre. Tenho um emprego realmente honesto para você. Pode conseguir algum dinheiro, mudar de vida.
Subi novamente. Partimos.
Me desculpe – ele disse –, você tem cara de durão, mas olhe as suas mãos. Mãos de moça.
Não se preocupe com as minhas mãos – eu disse.
Bem, é um trabalho duro. Carregando vigas. Já carregou vigas?
Não.
É um trabalho duro.
Já peguei vários desses na vida.
Ok – disse o sujeito.
Ok.
Seguimos dirigindo sem conversar, o caminhão balançava pra lá e pra cá. Não havia nada além de poeira, poeira e deserto. O sujeito não tinha muita cabeça, não tinha muito de nada. Mas às vezes pessoas insignificantes que permaneciam no mesmo lugar por um longo tempo conseguiam um pequeno prestígio e poder. Ele tinha o caminhão e estava contratando. Às vezes é preciso aguentar essas coisas.
Seguimos andando e havia um velho caminhando pela estrada. Devia estar já nos quarenta anos. Já era velho demais para andar na estrada. Esse sr. Burkhart, ele me disse seu nome, diminuiu a velocidade do caminhão e perguntou ao velho.
Ei, amigo, quer ganhar alguns trocados?
Oh, sim, senhor! – disse o velho.
Mexa-se. Deixe-o entrar – disse o sr. Burkhart.
O velho entrou e ele realmente fedia: de bebida e suor e agonia e morte. Seguimos até que chegamos a um pequeno grupo de prédios. Saímos com Burkhart e caminhamos até uma loja. Havia um sujeito usando uma viseira verde com um monte de borrachas ao redor do pulso esquerdo. Era careca, mas seus braços estavam cobertos com pelos loiros, longos e finos.
Olá, sr. Burkhart – ele disse –, vejo que o senhor encontrou mais um par de bêbados.
Aqui está a lista, Jesse – disse o sr. Burkhart, e Jesse caminhou pela loja pegando os produtos. Demorou algum tempo. Então ele juntou o pedido.
Mais alguma coisa, sr. Burkhart? Duas garrafas de vinho barato?
Nada de vinho para mim – eu disse.
Ok – disse o velho –, ficarei com as duas.
Sairá do seu pagamento – Burkhart disse ao velho.
Não importa – respondeu –, desconte do salário.
Tem certeza que não quer uma garrafa? – Burkhart me perguntou.
Tudo bem – eu disse –, levarei uma.
Tínhamos uma barraca e naquela noite bebemos o vinho e o velho me contou seus problemas. Tinha perdido a esposa. Ainda a amava. Pensava nela o tempo todo. Uma grande mulher. Ele ensinava matemática. Mas perdeu sua esposa. Nunca uma mulher como ela. Blá, blá, blá.
Cristo, quando acordamos o velho estava doente e eu não me sentia muito melhor. O sol estava alto e fomos fazer o nosso trabalho: empilhar dormentes de medida que aumentava, tínhamos que contar. “Um, dois, três” e os atirávamos.
O velho tinha uma bandana amarrada na cabeça, e o resultado da bebedeira destilava de sua cabeça para a bandana, que se encharcava e escurecia. De vez em quando, uma lasca de um dos dormentes cortava a luva apodrecida e perfurava minha mão. Normalmente a dor seria insuportável e eu teria desistido, mas o cansaço anestesiava os sentidos, realmente os anestesiava. Eu ficava apenas brabo quando acontecia: como se quisesse matar alguém, mas, quando olhava ao redor, havia apenas areia e penhascos e o sol forte, amarelo, brilhante, seco e nenhum lugar para ir.
De vez em quando, a empresa ferroviária trocava os dormentes. Deixavam os velhos do lado dos trilhos. Não havia nada de muito errado com os velhos, mas a ferrovia os deixava por ali e Burkhart tinha sujeitos como nós para empilhá-los em montes que ele levava no caminhão e vendia. Imagino que tenham muita utilidade. Em alguns ranchos se podia vê-los fincados no chão, servindo como mourões para as cercas de arame farpado. Suponho que havia outros usos também. Não estava muito interessado.
Era como qualquer outro trabalho impossível, você se cansava e queria pedir demissão e então ficava mais cansado e esquecia de se demitir e os minutos não avançavam, vivia-se para sempre dentro de um minuto, sem esperança, sem saída, preso, muito entorpecido para se demitir e sem nenhum lugar para ir caso se demitisse.
Garoto, perdi minha esposa. Ela era a mulher mais maravilhosa do mundo. Fico pensando nela. Uma boa mulher é a melhor coisa do planeta.
É.
Se ao menos tivéssemos um pouco de vinho.
Não temos nada de vinho. Temos que esperar até a noite.
Será que alguém entende os bêbados?
Só os outros bêbados.
Você acha que essas lascas nas nossas mãos irão para o coração?
Sem chance. Nunca teremos essa sorte.
Dois índios vieram e nos observaram. Ficaram nos observando por um longo tempo. Quando o velho e eu nos sentamos em um dormente para fumar um cigarro, um dos índios veio até nós.
Vocês estão fazendo tudo errado – ele disse.
Como assim? – perguntei.
Estão trabalhando no horário mais quente do deserto. O que devem fazer é acordar cedo pela manhã e trabalhar enquanto ainda está fresco.
Você está certo – eu disse. – Obrigado.
O índio estava certo. Decidi que levantaríamos cedo. Mas nunca conseguíamos. O velho estava sempre enjoado da bebedeira da noite, e eu não conseguia fazê-lo levantar a tempo.
Mais cinco minutos – ele dizia. – Mais cinco minutos.
Finalmente, um dia, o velho desistiu. Não podia levantar outro dormente. Ficava se desculpando por isso.
Está tudo bem, velho.
Voltamos para a barraca e esperamos pela noite. O velho falava deitado. Ficava falando de sua ex-esposa. Ouvi-o falar de sua ex-esposa por todo o dia e noite adentro. Então Burkhart chegou.
Jesus Cristo, vocês não fizeram muito hoje. Estão pensando em viver do que a terra dá?
Acabou, Burkhart – eu disse –, estamos esperando pelo dinheiro.
Acho que o melhor é não pagá-los.
Se você sabe o que é o melhor – eu disse –, então vai pagar.
Por favor, sr. Burkhart – disse o velho –, por favor, por favor, trabalhamos muito duro, trabalhamos honestamente.
Burkhart sabe o que fizemos – eu disse. – Ele fez a contagem das pilhas e eu também.
Setenta e duas pilhas – disse Burkhart.
Noventa pilhas – eu disse.
Setenta e seis pilhas – disse Burkhart.
Noventa pilhas – eu disse.
Oitenta pilhas – disse Burkhart.
Vendido – eu disse.
Burkhart tirou seu lápis e papel e nos cobrou pelo vinho, pela comida, pelo transporte e pelo alojamento. O velho e eu ganhamos, cada um, dezoito pratas por cinco dias de trabalho. Pegamos a grana. E ganhamos uma carona de graça para a cidade. De graça? Burkhart fodera com a gente direitinho. Mas não podíamos chamar a lei, porque, quando você não tem dinheiro, a lei deixa de funcionar.
Por Deus – disse o velho –, vou ficar realmente bêbado. Vou ficar bem e bêbado. Você não, garoto?
Acho que não.
Entramos no único bar na cidade e nos sentamos. O velho pediu um vinho, e eu, uma cerveja. Ele começou a ladainha de sua ex-esposa novamente e eu fui para a outra ponta do bar. Uma garota mexicana desceu pelas escadas e sentou-se ao meu lado. Por que sempre desciam pelas escadas desse jeito, como nos filmes? Eu mesmo me senti como se estivesse em um filme. Paguei-lhe uma cerveja.
Ela disse:
Meu nome é Sherri.
E eu disse:
Esse nome não é mexicano.
Não precisa ser.
Está certo.
No andar de cima, tudo me custou cinco dólares, e ela me lavou antes e depois. Lavou-me em uma bacia pequena e branca na qual se via pintinhos pintados perseguindo uns aos outros ao redor da bacia. Ela, em dez minutos, ganhou o mesmo que eu tinha ganhado em um dia e mais algumas horas. Em termos monetários, parecia mais do que certo que era melhor ter uma buceta do que um caralho.
Quando desci a escada, o velho já estava com a cabeça caída no bar. Já estava bêbado. Não tínhamos comido o dia inteiro e ele não tinha nenhuma resistência. Havia um dólar e algumas moedas perto de sua cabeça. Por um momento pensei em levá-lo comigo, mas eu não conseguia nem mesmo tomar conta de mim. Saí. Estava fresco lá fora e eu caminhei para o norte.
Senti-me mal por deixar o velho lá para os pequenos abutres da cidade. Então imaginei se a esposa do velho pensava nele de vez em quando. Decidi que não ou que, se pensava, provavelmente não era da mesma maneira que ele pensava nela. Por toda a terra rastejavam pessoas tristes e machucadas, como ele. Precisava de um lugar para dormir. A cama em que estive com a garota mexicana fora a primeira cama que vi nas últimas três semanas.
Algumas noites atrás, eu tinha descoberto que, quando esfria, as farpas em minhas mãos latejam. Podia sentir onde cada uma estava. Começou a esfriar. Não posso dizer que odeie o mundo dos homens e das mulheres, mas eu sentia um certo nojo que me separava dos artesãos e dos comerciantes, dos mentirosos e dos amantes, e agora, décadas mais tarde, sinto esse mesmo nojo. É claro, essa é apenas a história de um homem ou a visão de um homem da realidade. Se você continuar lendo, talvez a próxima história seja mais alegre. Espero que sim.

Charles Bukowski, in Ao sul de lugar nenhum

26/10/2020

Caminhar | Beraderos e Milton Nascimento

Yamami

            E os índios?
O que têm os índios?
O que você achou dos índios do Brasil?
Fodam-se os índios do Brasil. Toquem fogo na floresta. Vão à merda.
Que turista é você? E a febre amarela?
Só lembro de Yamami.
Yamami.
Sempre gostei de crianças. Aqui é proibido. Yamami, meu tesouro perdido. Passei por uma cidade chamada Cuiabá, depois Corumbá. Parintins, Parin-tintins, sei lá. Viajei no barco Barão do Amazonas.
Há peixes gigantes?
Não, pequenos.
Como pequenos?
Minhocas sul-americanas, não enche o saco.
Puta que pariu. O barco na corrente. Manaus é a capital, chegamos. O mercado à boa do rio é um rio de frutas. As maçãs macias. Belíssimas melancias.
Não, não trouxe fotografias.
Como não?
Não tive tempo.
Como não?
Fotografar aquela merda é um desperdício.
Merda?
Fiquei em um hotel em cima do Rio Negro. Vento calorento. Meu sonho era esse, sair da frieza deste meu lugar. Ir ao extremo.
Você chega, estanca seu olhar em volta, seu olhar em cada buraco, estopa, saco. E vê no mercado. Um extenso mercado no centro da cidade. A puta que você vê tem onze anos. Ou menos. Parece. Não cresce. Vive seminua, sujinha e deliciosa, esperando a lotação da balsa. Há tucanos para vender. E corpos.
Vivi Yamami lá.
Indiazinha típica de uns 13 anos. As unhas pintadas, descalçadas. Tintas extintas na cara. Coisinha de árvore. A pele vermelha e ardente. Virei um canibal, de repente. Não é tão deliciosa a carn e de tamanduá-bandeira.
E a madeira?
O quê?
Dizem que há muita madeira e borracha.
Besteira. Eles não têm nada.
Segui o rastro que desce pelo mercado. O mercado é intransitável. Os gritos irritam. Tudo bem. Falam demais os nativos, são simpáticos. Yamami não saiu do meu juízo. Há outras putinhas no entulho. Você quer ir para Santarém, tem. Se não quer ir, tem. Os barcos a motor. Muita gente já se foi nesse vaivém. Não voltaram mais. Há navegações que afundam com mais de cem.
Pisquei para Yamami e saímos. Fiz sinal de fumaça, acendi um cigarro. Yamami, venha comigo. Sou um branco pálido e telepático. Estou de férias, caralho, longe do meu país, infeliz. Yamami, minha meretriz, o meu turismo.
Outras meninas gaiolando os gringos. Também brasileiros vêm e se enroscam na rede. Há cheiro fudido de peixe, morte de passarinhos.
Mora na minha memória aquele umbigo. A mão fininha de Yamami vai e vindo. O vento do rio no mato. Trabalhar o ano inteiro fechado nesse laboratório, isso é vida? Ficar fazendo teste de urina, para quê? Quero ir embora deste meu destino. Não quero morrer no primeiro mundo. Quero morrer no horizonte. Estonteante. Nos esconderijos de Yamami. Minha Liberdade sensível. O cheiro caçador de Yamami, os seus peitinhos. Pequenininhos. Seus olhos flechando os meus testículos. O mercado verde está Longe e feliz.
Minha alegria primitiva, Yamami. O meu sorriso.
E os crocodilos?
Morram os crocodilos.
Lá posso colocar Yamami no colo e ninguém me enche o saco. E ninguém fica me policiando. Governo me recriminando.
Dizem que lá tem muita criança na rua.
Nua.
É comum, por todo canto. Dizem que tem menina abandonada em Rondônia, Roraima. No Ceará, em Pernambuco. Vendidas no coração de Rio Branco.
Yamami pulando, chupando caroço de manga, me lambuzando. Yamami escorregando pelos galhos, nos cipoais do pântano.
Virei amante de Yamami, ao ar livre. Dei dinheiro para Yamami, jóias, espelhos, colares. Fiz Yamami vestir calcinhas coloridas. Minha menina.
Você não gostou do Brasil?
Yamami veio me deixar no escadós do barco. Ela e algumas amiguinhas. Yamami, Cauã, Jacira, Luanda. Coisa bonita o choro de Yamami. O vento acenando as suas penas. De pavão, na despedida. Penas de arara. O mercado cheirando a merda. A bacia do rio indo embora e me levando.
Não gostei do Brasil, caralho.
Yamami não tem nada a ver com o Brasil. O Brasil é São Paulo, uma cidade longe, parecida com esse continente de gelo, Yamami.
O meu corpo vazio.

Marcelino Freire, in Contos Negreiros 

A noite

         O sol não deixava nunca de iluminar e os índios cashinahua não conheciam a doçura do descanso.
Muito necessitados de paz, exaustos de tanta luz, pediram ao rato que emprestasse a noite.
Fez-se a escuridão, mas a noite do rato bastou apenas para comer e fumar um pouco em frente do fogo. O amanhecer chegou e os índios mal haviam deitado sem suas redes.
Provaram então a noite do tapir. Com a noite do tapir, puderam dormir um sono solto e desfrutaram o sonho tão esperado. Mas quando despertaram, tinha passado tanto tempo que as ervas do monte haviam invadido seus cultivos e esmagado suas casas.
Depois de muito buscar, ficaram com a noite do tatu. Pediram essa noite emprestada e não a devolveram jamais.
O tatu, despojado da noite, dorme durante o dia.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

Calvin

Saber perguntar

         — Quantas mulheres passaram por sua vida? — perguntou o agente de estatística. — Estamos procedendo a um levantamento nacional sobre a vida amorosa dos brasileiros.
Respondeu:
Nenhuma. Só me lembro de ter passado pela vida de muitas mulheres. O governo devia ter mais cuidado na formulação de seus questionários. Meu caso não é único. Suspeito mesmo que seja dos mais comuns. Aceita um café? Não tem cicuta. Meu nome é José Passado.
O recenseador confessou que também ele etc….

Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

Um minuto apenas

        As lâmpadas incandescentes emitiam um amarelo triste que banhava os contornos da igreja e a pequena praça com seus bancos de madeira. A igreja matriz era de grande importância e certamente um dos principais prédios da cidade de Nova Jaguaruara, uma cidade de pouco mais de vinte mil habitantes localizada no interior do estado do Ceará.
O relógio na torre principal marcou meia-noite e, numa sincronia desconcertante, como que por ordem do mínimo movimento dos ponteiros, todas as lâmpadas se desligaram e se mantiveram assim, em consonância com a quietude da noite, por exatamente um minuto. A cidade inteira permaneceu na escuridão. Todas as luzes de todos os postes se desligaram; todos os aparelhos de televisão e rádio daqueles que alimentavam a insônia também se calaram; todas as máquinas da cidade, mesmo as do hospital assim também o fizeram. Mas nenhum deles demorou mais do que um minuto.
Ninguém entendia o fenômeno na cidade de Nova Jaguaruara, mas todos o conheciam muito bem. Um segredo que foi se perdendo ao longo das gerações, uma informação que por escolha era mantida em sigilo pelos mais velhos. A vida seguia e esse aparente problema da cidade não mais incomodava. Um minuto apenas. Apesar da indiferença para o acontecimento corriqueiro, os mais antigos da cidade ainda temiam esse horário e recomendações não faltavam para que ninguém estivesse fora de suas casas.
Meia noite e um. As lâmpadas dos postes próximo à igreja acenderam-se com um estalo. Três meninos formavam um pequeno círculo. Em silêncio, trocaram olhares entre si e para as luzes mais próximas. As ruas agora exibiam suas lâmpadas acesas e os insetos, em suas confusas trajetórias, retornavam a apinhar-se diante das mesmas.
Eu sabia que isso era uma grande bobagem — disse João eufórico.
Estou vivo! É a primeira vez que estou fora de casa a esse horário — disse Antônio, passando as mãos pelo peito e pela grande barriga.
Deixe de ser maricas! Eu também não acredito nessas velhas histórias de fantasmas. Isso só pode ser algum problema elétrico, nada de mais — disse Fernanda.
E como vocês explicam essa precisão de horário? Não tem dia que a eletricidade não se vá das nossas casas à exata meia-noite. Dia santo ou não, chovendo ou não, em qualquer época do ano é a mesma coisa — disse Antônio esforçando-se para não parecer ridículo.
Eu também não sei explicar isso, meu querido Toinho, mas não é essa falta de explicação que vai me fazer acreditar em fantasmas ou outras idiotices do tipo — disse João.
João tinha catorze anos, mas era corpulento o suficiente para se passar por um garoto de dezessete. Embora visto como um desordeiro pelos adultos, ele era respeitado pelas crianças e adolescentes pela sua coragem e espírito aventureiro.
Vocês não acreditam? — retrucou Antônio seriamente.
Eu repito que não acredito em fantasmas. E você, Fernanda?
Estou começando a achar que Antônio não vai ter coragem de fazer a segunda etapa do desafio. — O tom de deboche fez João olhar com cara de cobrança para Antônio, que respondeu de imediato que iria sim. Fernanda, na verdade, realizara uma manobra para fugir da pergunta inquietante. Fernanda acreditava nas velhas histórias da cidade e estava nervosa com a ideia do desafio. Como sempre, porém, sabia que dar o pé para trás era perder sua notoriedade de menina mais corajosa da cidade, diferente das outras que brincavam em segurança com suas bonecas longe das brincadeiras dos meninos. Além do título, tinha sempre a esperança de impressionar João, mal sabendo que sua presença constante apenas a fazia ser vista como igual pelo menino, afastando todas as possibilidades de um eventual relacionamento juvenil.
Enquanto as crianças da cidade passavam as manhãs cavando em seus quintais à procura de velhas botijas, eles preferiam outros tipos de aventura. Aquilo era coisa de criancinha, como sempre afirmava João. Desafiavam-se dia e noite, numa tentativa de determinar o mais corajoso e divertir-se, obviamente, à custa do mais medroso ou bobo. Os desafios começaram simples, como saltar de um galho de cajueiro de altura razoável ou jogar caroços de seriguela em pessoas que passassem pelas ruas. Com o passar do tempo, aquilo se transformou em droga para aqueles meninos. A maioria das crianças se afastou do grupo por ordem dos pais preocupados, que os acompanhavam apenas com olhares vigilantes e raramente com olhares de “sejam bem vindos” ou “fiquem à vontade”. Os três eram vistos como uma pequena gangue de meninos sujos, de má educação e que sempre estavam fazendo alguma desordem pela cidade. Os desafios atuais giravam em torno de aventuras perigosas, como cruzar a nado o grande açude da cidade de pernas amarradas, derrubar colmeias de abelhas, furtar pequenos objetos de lojas da cidade ou galinhas de terrenos vizinhos e até mesmo experimentar um baseado.
Só uma última coisa antes de irmos. Ninguém da casa de vocês acordou, não é? Estamos encrencados se alguém descobrir.
Escapei pela janela do quarto. Ninguém a não ser Faísca me viu.
Ele latiu?
Não, João! Desde que comecei a treiná-lo, ele quase não me desobedece mais. — No rosto uma falsa expressão de confiança.
Não imagino você treinando um cachorro e isso funcionando. — João não perdeu a oportunidade. Fernanda caiu na gargalhada e, com um tom petulante de quem completa uma formalidade, também confirmou que ninguém a tinha visto sair.
Pois antes de irmos, gostaria apenas de…
Você ouviu isso? — Antônio interrompeu, voltando-se para o outro lado da praça, de onde um barulho metálico acabara de vir do camburão de lixo. Antônio deu alguns passos na direção, como querendo mostrar coragem, ainda mais pelo que estavam prestes a fazer àquela noite. Decidiu ir até o camburão para se certificar de que tudo estava bem. Estando a meio caminho do alvo, pôde escutar as risadas vindas das suas costas.
Deixe de bobagem, Antônio. Melhor seguirmos. Não há nada aí — disse João alto o suficiente para ser ouvido pelo amigo, mas atento às dezenas de janelas das casas ao redor da praça da igreja. Sabia que por trás delas dormiam velhas fofoqueiras e crianças cabuetas.
Quando Antônio decidiu por fim virar-se, numa última olhada, imaginação ou não, pôde jurar que o grande latão havia feito um movimento mínimo. Na esperança de apenas ele ter visto aquilo, decidiu voltar em direção aos amigos.
Antônio, aquela lata se mexeu. Tenho certeza! — disse Fernanda com um sorriso malicioso.
Antônio virou-se para o camburão, mas, quando estava prestes a dar o primeiro passo, um gato branco como uma alma pulou para fora soltando um miado agudo e estridente. O menino caiu assustado. Mesmo no chão, suas pernas ainda tremiam, provocando malditas risadas nos outros. O gato correu como louco desaparecendo por uma das ruas.
Gato idiota! — disse Antônio levantando-se. — Eu posso jurar que era a sua gata, João — acrescentou. João não deu a mínima ao que Antônio havia dito nem percebera que a gata fugitiva era de fato a sua.
João passou a mochila para frente e, dentre uma garrafa de água, biscoitos de chocolate e algumas pilhas, retirou uma lanterna e um estilingue, colocando o último como um cordão por sobre a cabeça.
Melhor irmos! Já perdemos tempo demais.
Então é isso — disse Antônio para si mesmo ainda pensando no que estavam prestes a fazer. Desceram os degraus da igreja e montaram em suas bicicletas.
Os três pedalaram devagar, de forma a não fazer barulho enquanto ainda estavam na cidade. Logo a via os levou para fora e em pouco tempo eles pedalaram com velocidade contra o vento frio da madrugada. Tomaram a via raramente usada que dava acesso ao litoral, onde havia uma praia cheia de pedras e pouquíssimo visitada.
O som das bicicletas era tudo o que se podia ouvir. Instantes depois, as nuvens deixaram escapar o brilho da lua cheia, delimitando contornos diversos de cercas, árvores e placas. Mesmo as faixas amarelas no asfalto podiam ser facilmente vistas indicando o caminho. Mesmo assim, João preferiu manter sua lanterna ligada presa ao guidão. Pequenas gotículas e poeira exibiam-se aos raios de luz da lanterna numa dança irreconhecível enquanto os metros eram subtraídos.
Já fizemos metade — disse João. — Querem parar para tomar água? Ainda faltam dez quilômetros.
Mais precisamente dez e meio, se realmente estivermos na metade do caminho — ponderou Antônio com uma voz dissimulada. Já se sentia terrivelmente cansado.
João freou, sendo seguido pelos outros. Os três ficaram lado a lado, Fernanda no meio, exatamente em cima de uma das faixas. Estar ali parado tarde da noite, no meio do nada, cercados pela escuridão e longe da segurança de suas casas, despertava os medos mais primitivos. Arrepios e leves tremores lhes ocorreram, mas ninguém falou nada. Eram imaturos demais para assumir isso. Tomaram água e puseram-se a pedalar, um a um. Estar em movimento era tranquilizador, estar parado era fazer-se de presa fácil.
Antônio fora o primeiro a desfazer a formação, sendo seguido por Fernanda. João olhou uma última vez para os lados e para os contornos bizarros da mata, recortados com leveza pelo luar. Mas foi ao olhar para trás, atraído por um leve rangido metálico, que teve uma grande surpresa.
Virou-se para os outros, mas eles já iam a pelo menos vinte metros de distância. João os alcançou.
Quando desligar a lanterna, eu quero que vocês me sigam. Vocês vão entender. — disse João fazendo a ultrapassagem.
João desligou a lanterna e saiu pelo acostamento. Pararam as bicicletas por detrás de um cajueiro.
O que está acontecendo, João? — perguntou Fernanda sem entender o porquê da nova pausa. — Não faz um minuto que...
Psiu! — João levou o indicador à boca e ficou assim, olhando para a estrada. — Vocês vão entender.
O silêncio foi então quebrado pela aproximação de uma bicicleta. O esforço da pedalada podia ser facilmente reconhecido pelo som da corrente enferrujada. Agora mais perto, ouviram a respiração ofegante do pequeno ciclista, que, em uma bicicleta de adulto, pedalava com destreza e equilíbrio admiráveis.
Pedro... — sussurrou João, lembrando-se de quantas mil vezes já havia dito que um pirralho de nove anos não era bem vindo.
Pedro pedalava de pé, as pernas curtas de menino esticando-se da melhor forma para alcançar os pedais. A bicicleta rangia com dificuldade e traçava uma trajetória ondulante que certamente lhe acrescentaria ao menos dois quilômetros até o destino final, o qual ele já suspeitava.
O menino passou pelo cajueiro com a cabeça baixa, distraído, lutando para manter o guidão firme. João caminhou até a estrada, deixando a bicicleta escorada ao cajueiro junto aos outros. Retirou o estilingue do pescoço e uma pedra arredondada do bolso. Mirou em direção à bunda do irmão e, com um sorriso maldoso estampado no rosto, disparou.
Na mosca! — João gritou aos pulos, vendo que Pedro não passava de uma barata envenenada a se estrebuchar de dor, deitado no asfalto, com as duas mãos pressionando o local atingido. No rosto, a expressão de agonia e a vergonha de ter sido descoberto. Os pneus ainda rodavam ligeiro na bicicleta derrubada ao seu lado.
Não precisava fazer isso, João! — A mão ainda massageava a bunda. — Eu suspeitei o que vocês estavam aprontando e vim conferir se realmente teriam coragem. Você preferia que eu tivesse contado para o papai? — Pedro levantou-se, esforçando-se para falar grosso ao ver que Fernanda e Antônio se aproximavam rindo.
— “Contar para o papai... papai...” — João falava com uma vozinha débil e aguda, balançado os braços de um lado para o outro. — Eu preferia que você deixasse de ser metido, isso sim. Como diabos você descobriu que a gente ia fazer uma missão fora da cidade? — disse, enquanto os outros dois garotos posicionavam-se às suas costas.
Missão? Esse é nome que vocês dão a essa loucura? Ouvi vocês comentando durante a missa no último domingo. Falaram de entrar na velha igreja e sei o que isso quer dizer. Estou de olho em você no nosso quarto enquanto você dorme desde então. Hoje eu vi você pegando sua mochila e claro que eu não ia ficar de fora. Vocês sempre me deixam de fora. Depois que você saiu, coloquei Dara dentro da mochila e peguei a bicicleta do papai.

Mauro Lopes, in Nova Jaguaruara

25/10/2020

Thiago Nani em "Onde Anda Você" | Talentos

Wien, Wien, Nur Du Allein

            Há um grande livro ainda por ser escrito. Ele mostraria que o século XX que vivemos no Ocidente é, em aspectos essenciais, um produto de exportação austro-húngaro. Levamos nossa vida interior dentro de uma paisagem, ou em conflito com uma paisagem, que foi mapeada por Freud e seus discípulos e dissidentes. Nossa filosofia e o papel central que atribuímos à linguagem no estudo do pensamento humano derivam de Wittgenstein e da escola vienense do positivismo lógico. O romance após Joyce, de modo geral, está dividido entre dois polos, a narração introspectiva e a experimentação lírica, definidos por Musil e Broch. Nossa música segue duas grandes correntes: de um lado, a de Bruckner, Mahler e Bartók; de outro lado, a de Schoenberg, Alban Berg e Anton Webern. O papel de Paris foi vital, evidentemente, mas agora está cada vez mais claro que algumas raízes do modernismo estético, do art déco à Action Painting, podem se encontrar no Jugendstil vienense e no expressionismo austríaco. Os ideais funcionalistas antissépticos, tão destacados na arquitetura de hoje, foram anunciados na obra de Adolf Loos. A sátira político-social em Londres e Nova York, a piada pesada, a ideia de que a linguagem de nossos governantes é uma cortina de fumaça venenosa, tudo isso ecoa o gênio de Karl Kraus. Ernst Mach teve profunda influência na evolução do pensamento de Einstein. É impossível falar da lógica e da sociologia das ciências naturais sem fazer referência a Karl Popper. E onde situaremos os múltiplos efeitos de Schumpeter, Hayek, Von Neumann? A lista poderia continuar.
A conflagração de energias artísticas, científicas, sociais e filosóficas na Europa Central derivou de instabilidades fundamentais. Ela foi, como dizem os físicos, uma “implosão”, uma compactação de forças conflitantes num espaço que estava se contraindo violentamente. A decadência imperial e a emancipação étnica, o antissemitismo e o sucesso judaico, uma ordem familiar arcaica e uma sexualidade que permeava tudo — tais eram as antinomias percorridas por grandes clarões e arcos voltaicos de criatividade. Estes, por sua vez, precipitaram o clima de crise social, o estilo nervoso, o erotismo da sensibilidade geral que, até hoje, caracteriza a cidade ocidental, o ateliê das artes ocidentais, as convenções desregradas da vida intelectual ocidental. Entre os anos 1880 e 1914, entre 1919 e 1938, Viena, junto com Praga e Budapeste, viveu, exteriorizou e expressou de maneira febril e incisiva as crises mais gerais das ordens de valor europeias e depois americanas. Nessa implosão, o componente judeu — Freud, Mahler, Kafka, Schoenberg, Kraus e muitos outros — era praticamente dominante. Assim, há uma sinistra lógica e finalidade no fato de Hitler e boa parte da ideologia nazista terem nascido em solo austríaco. (Os historiadores rastrearam a palavra-chave Judenrein, “limpo de judeus”, até o regulamento de uma associação de ciclistas austríacos na virada do século.) Foi em Viena que o jovem Hitler preparou seu incomparável veneno. Como diz a valsa, Wien, Wien, nur du allein. Viena foi a capital da era da ansiedade, o centro do gênio judaico, a cidade de onde percolaria o Holocausto. O livro que tenho em mente teria de ser bem longo.
Talvez essa ideia nos reconcilie com a escala do livro Anton von Webern, de Hans e Rosaleen Moldenhauer (Knopf, 1978). Algumas das mais belas obras de Webern — três estudos para violoncelo e piano, por exemplo — têm menos de um minuto. Mesmo suas peças completas tendem a uma concisão extrema. O próprio homem era franzino. Mas essa biografia passa de oitocentas páginas. Ela não se resume, claro, a uma mera apresentação da vida de Webern. Os Moldenhauer, que têm dedicado grande parte da vida à maior glória de Webern, montaram sua obra com uma biografia, uma exposição ligeiramente técnica de boa parte da música de Webern e um quadro da cultura onde ele viveu e criou. Webern nasceu em 1883 e teve uma morte trágica e absurda em setembro de 1945. Foram as décadas da implosão vienense. O leitor paciente — mesmo aquele cujos interesses não são basicamente musicais — encontrará materiais fascinantes, que levam a uma compreensão do espírito da época. O paradoxo é o seguinte: Webern é uma figura à parte, que encontrou sua realização num ideal quase esotérico de pureza musical e na solidão dos Alpes austríacos. Ao mesmo tempo, é um fenômeno profundamente representativo das condições psicológicas e sociais da arte moderna. Como declarou Boulez, existem peças de Webern, com apenas alguns compassos, que parecem cristalizar a modernidade. E no entanto não houve músico mais próximo de Bach.
Em relação ao ofício, Anton Webern — ele renunciou ao “von”, embora mantivesse o orgulho por sua linhagem levemente aristocrática — era de uma independência extrema. Apesar das dificuldades financeiras durante toda a vida, que o obrigaram a trabalhar como arranjador, professor e exímio regente em tempo parcial (o melhor desde Mahler, diziam muitos especialistas), Webern não fazia concessões. Nenhuma crítica, nenhuma ridicularização pública, nenhum escândalo — a apresentação de suas Seis peças em março de 1913 gerou um tumulto comparável ao que se desencadearia dois meses mais tarde, com a Sagração da primavera de Stravinski — foi capaz de abrandar a decisão de Webern de impor mesmo à mais minúscula unidade de tom, de diapasão, de ritmo, uma grande força emocional e inevitabilidade formal. Jamais existiu inteligência musical mais rigorosa. Mas, em termos pessoais e políticos, a história de Webern ilustra dolorosamente aquele mesmo anseio pela autoridade, por explicações simplistas, que levou a uma grandiloquência pietista ingênua num Bruckner e num Mahler, e que teria seu papel no desenvolvimento e na vitória do nazismo. Como ocorre com muitos montanhistas, também em Webern a solidão e a servidão, o ascetismo e o arrebatamento eram inextricavelmente entrelaçados.
O relacionamento de Webern com Arnold Schoenberg representa quase uma paródia do modelo freudiano da busca de uma figura paterna onipotente. “Creio que os discípulos de Jesus Cristo não podiam ter sentimentos mais profundos por seu Senhor do que nós temos por você”, disse Webern ao Mestre. Schoenberg era o “anjo da guarda” sem o qual a existência de Webern não teria nenhuma finalidade. “Realmente eu não conseguiria viver com a ideia de que você não sente amizade por mim”, declarou Webern por ocasião de uma pequena desavença, acrescentando: “De fato mereço castigo!”. “Com ansiedade terrível, tenho pensado apenas em você”, escreveu Webern a seu deus no momento da crise política de 1933. Os precários recursos psicológicos e materiais de Webern estavam totalmente ao exigente serviço de Schoenberg. O caso é ainda mais interessante porque boa parte da música de Webern, mesmo refletindo os ensinamentos de Schoenberg e a adoção do sistema dodecafônico, tinha diferenças marcadas e, como hoje frisam músicos e musicólogos, chegou a assinalar um rompimento com os elementos conservadores da obra de Schoenberg. A psicanálise adleriana, à qual Webern havia recorrido com bons resultados numa fase de depressão aguda e bloqueio criativo, nada fez para diminuir sua fixação na autoridade.
As consequências políticas eram previsíveis. Se Webern superou o antissemitismo convencional e corrente em que fora criado (e que pode ter dado à sua veneração posterior por Schoenberg uma faceta de ultracompensação), seu chauvinismo nunca diminuiu. O regime de Hitler parecia encarnar um surpreendente renascimento do gênio germânico e centro-europeu. Certamente tal regime se alinharia com a arte do futuro. Bastaria apenas “tentar convencer o regime de Hitler quanto à correção do sistema dodecafônico”. Dois dias antes que os soldados nazistas marchassem sobre Viena, Webern informou a um amigo: “Estou totalmente imerso em meu trabalho e não posso, não posso ser incomodado”. A filha mais nova de Webern se alistou no equivalente feminino da Juventude Hitlerista. Logo depois, e sob a bandeira do Terceiro Reich, Webern deu a mão da filha em casamento a um sa de uniforme. Ele havia providenciado prontamente todas as provas exigidas sobre a pureza ariana da família Webern.
Webern manteve uma confiança inabalável no poder e na vitória teutônica durante muito tempo. Em junho de 1942, ele anotou: “Às vezes domina-me tal sentimento, tal esperança!”. No começo de 1943, um trivial gesto de cortesia que lhe fez um cônsul alemão na Suíça despertou em Webern arroubos de gratidão patriótica: “Jamais me acontecera antes que um representante de minha pátria tivesse me dado qualquer atenção! […] Vejo isso como um bom presságio e uma recompensa por minha lealdade”. Um artigo de Goebbels em 1943, no outono após a derrota alemã em Stalingrado, fez Webern indagar numa carta: “Enfrentamos algo totalmente inesperado?”. Em fevereiro de 1945, os bombardeios dos Aliados sobre sua amada Viena atingiram o auge, e seu filho foi mortalmente ferido em combate. Mas quase até o último minuto Webern não acreditou que o espírito germânico, cujas realizações dominavam a história da música ocidental, cuja poesia lírica e metafísica idealista haviam dado ao ser de Webern seu cerne mágico, poderia sucumbir à barbárie e à ruína. Tal certeza, expressa em agosto de 1914 — “Tenho dentro de mim uma fé inabalável no espírito germânico, que realmente criou quase sozinho a cultura da humanidade” —, continuava a lhe animar o coração e o intelecto. A fuga desesperada de Viena e o fim brusco de Webern representam a queda num abismo imprevisto.
Os Moldenhauer apresentam os elementos de prova com absoluta escrupulosidade. O desconforto deles é palpável. Perguntam a si mesmos e aos leitores se a presença judaica do exilado Schoenberg teria ido assombrá-lo no casamento da filha. Talvez a pergunta devesse ser outra: o que teria acontecido se os nazistas não tivessem rejeitado, e sim aceitado, os talentos e o prestígio do dr. Anton Webern? Como reagiria ele se sua música tivesse sido executada no Reich, em vez de ter sido banida como lixo decadente, fatalmente conspurcada por sua associação com Schoenberg e o erotismo degenerado de Berg? Webern procurou várias vezes romper o círculo de silêncio que as autoridades lhe haviam imposto. E de fato arriscou alguns gestos de solidariedade e apoio aos amigos judeus perseguidos, quando mesmo o mais ínfimo gesto dessa natureza exigia grande coragem. Mesmo assim, o fato é que o ostracismo salvou o caráter moral e a reputação posterior de Webern. Nas semanas anteriores à morte, ele estava sendo convocado para presidir à reconstrução da vida musical pulverizada de Viena. Mas o problema vai além da miopia de um indivíduo, de um mestre da grande arte distanciado do mundo. A dualidade quase esquizofrênica entre a faceta autoritária e a faceta radicalmente rebelde no caráter de Webern, entre a coerção inflexível e a absoluta inovação em sua música, é como um símbolo do autodilaceramento da cultura vienense. Nossa sensibilidade é herdeira direta dessa tensão criativa.
Além disso, se houve muita cegueira e muita dor na carreira de Webern, houve também uma consolidação firme e constante. Por volta de 1920, estavam terminando os anos de descaso. A famosa Passacaglia e os primeiros ciclos de canções começavam a ganhar fama. O primeiro concerto composto exclusivamente de peças de Webern ocorreu em abril de 1931. O quinquagésimo aniversário do compositor foi uma espécie de ocasião comemorativa: a BBC transmitiu um quarteto, a sinfonia foi transmitida pela rádio em Praga, o quarteto de saxofone foi tocado em Winterthur. Em Viena mesmo, que por tanto tempo havia se mostrado virulentamente hostil a ele, houve um pequeno festejo na casa de um patrono americano, com a apresentação de um quarteto de jovens (judeus poloneses, como notou Webern).
Webern nunca duvidou da justeza de suas doutrinas musicais nem da aceitação que acabariam tendo. Numa época em que suas peças eram tidas como cacofonias absurdas ou impossíveis de ser executadas, Webern assegurou com calma a um aluno: “Em algum momento do futuro até o carteiro vai assobiar minhas melodias!”. Em vista do estado atual de nossos serviços postais, dificilmente será este o caso. Mas o reconhecimento tem sido mundial. Entre 1962 e 1978, realizaram-se seis Festivais Internacionais de Webern. Stravinski veio a considerá-lo “o homem justo da música”, o tom de afinação pelo qual os compositores contemporâneos precisam testar sua integridade. É ao ouvido de Webern que grande parte da música de Stockhausen, de Boulez, de Elliott Carter, de George Crumb parece se dirigir.
Webern não poderia saber dessas confirmações enquanto agonizava, atingido pelo tiro de um soldado das forças aliadas num obscuro episódio em que houve um disparo precipitado ou um engano de identidade num vilarejo dos Alpes austríacos. O episódio, que continua quase inacreditável em sua aura de puro acaso e desperdício, foi esclarecido pela pesquisa incansável de Hans Moldenhauer. Mas a aclamação póstuma de Webern foi exatamente como ele previra. “Nunca desanimei por um único momento.” Os céticos, os detratores, os filistinos “sempre me apareceram como ‘fantasmas’”. Assim, Webern aprovaria a devoção deste livro monumental. Reconheceria seu estilo levemente pedante e também sua franqueza como elementos típicos de Viena.

George Steiner, in Tigres no Espelho e Outros Textos

Quem roubou o rubi do chapéu do mandarim?

Disposto a versos, olhar de peixe
torto, arrisca à queima-roupa:
moça tão linda, mais linda se nua,
se fores minha, a lua há de ser tua.
A cuja recusa, não quer ser musa
e sai pisando mundos.

Na caixa, o velho chinês,
imperador de Mesquita e Pequim,
grita coisas em sua língua kung fu
enquanto espelho copos fumaça
tudo abate e rebaixa o homem só.
O garçom se aproxima: aquela

loura magricela sobrancelhas pretas
é feiticeira
transforma os sujeitos em sardinhas
e vende fritos na feira.
O homem só olhos arregala o susto
enquanto o garçom dentes enigmáticos

mostra na confusão engordurada
dos cartazes:
fiado e amor só amanhã.
Dentre o bando de coitados,
bem-aventurados os bem-aventurados
grita um doido filósofo

dentro de sua gravata vermelha, mas
o outro, o cavalheiro de cabeleira branca,
sente-se desgraçado como só pode
alguém com a esperança
de ser o mais infeliz de todos,
promete. Andar de peixe torto,

ganha a rua acelera o passo vai
aos pedaços até sumir
entre os carros
e restar, vista
do alto,
a Muralha da China.

Eucanaã Ferraz

O impressionismo de Monet

 

Mulher com guarda-sol (1875), de Claude Monet

O negro Floriano

          Pedro Guarany acabara de soltar o Penacho no piquete do açude, nos fundos do bolicho. Improvisara uma cama de arreios em um galpão de madeira simples, mas acolhedor. Lá, estavam espalhados alguns mochos e bancos. Havia, também, um grande fogo acomodado no centro de uma velha roda de carreta e algumas prateleiras com latas de erva mate e de bolachas. Sentia o cheiro do carreteiro que se aprontava na panela preta sobre as brasas e escutava o chiar da água fervendo na cambona.
Pedro resolveu caminhar para reconhecer o local onde passaria os próximos dias. Era um lindo recanto. O sol havia recém se escondido, e o céu estava pintado de matizes púrpura e as últimas luzes do dia fugiam em direção ao poente. Era um lugar mágico. Seguiu em direção à casa grande, acompanhado pelo pisca-pisca constante dos vagalumes.
Pedro entrou na sala e ficou de longe, observando. Geraldo estava inquieto. Batia os dedos constantemente no balcão, cuspia pedaços de fumo no chão e coçava a cabeleira branca. Finalmente, pareceu tomar coragem e foi na direção do negro Floriano, que estava bebericando um pouco de canha, sentado muito encurvado numa mesa de canto.
Meu amigo, preciso trocar uma palavra com o senhor. — Foi puxando um banco e sentou ao lado do cliente. — Pois, o caso é que estava revisando a caderneta e — pigarreou — a última vez que pagaste tuas dívidas já faz quase um ano…
O negro Floriano coçou a cara pelancuda, pontilhada de fios brancos, trocou o pito de um canto para outro da boca e, com os olhos lustrosos, ficou a encarar o chão. Como não houvesse resposta, Geraldo foi se desculpando pela cobrança, mas precisava receber pelo menos parte da dívida, pois era assim que sobrevivia e mantinha seus estoques.
Floriano levantou a cabeçorra um pouco grande para o corpo franzino e, muito constrangido, disse:
Le peço perdão Geraldo. Devo, não nego. Mas, se devo é porque, nesta terra, quando o homem perde as forças do braço, não tem mais serventia. Sou pobre e meu único bem é este nome que meu pai me deu, e que já foi do meu avô Floriano, o vô Flor, que Deus o tenha. — Ficou um instante em silêncio, olhos parados como a lembrar outros tempos. Deu um lento suspiro e pareceu voltar à tona: — Vamos fazer um remate! 
O remate era uma prática comum naquelas paragens. Quando um homem não conseguia pagar suas dívidas, reuniam-se os bens do vivente e leiloavam entre os convivas. Era uma situação extrema e constrangedora, porém necessária. Naquele tempo, valorizava-se muito o acordo feito no fio do bigode.
Geraldo ensaiou que não ia aceitar a proposta, mas Floriano fez questão:
Negócios são negócios! — bradou, antes de desafivelar o cinto com fivela prateada e deixá-lo na mesa. Tateou os bolsos e jogou sobre o tampo um naco de fumo castelhano, o velho violão, sacou as esporas das botas, colocou ali o poncho de lã e, após uma breve hesitação, buscou o cutillo de prata, escondido sob a faixa da cintura. Ainda lembrava, certa vez, quando seu pai havia lhe entregue aquele regalo. Era inverno, e ele, um negrinho de perna fina e olhos esbugalhados, estava sentado ao lado do catre do pai. O homem, por demais doente, tossia, parecia querer expulsar o pulmão do corpo. O quarto cheirava a doença, urina e sebo de vela. O menino olhava a cena com expressão chorosa. O pai, então, pegou firmemente o pulso do filho e depositou na mão dele a pequena arma de prata.
Era do seu avô! — disse, antes de fechar os olhos.
O menino correu em prantos para avisar sua mãe de que o pai havia morrido.
Floriano passou seus dedos ásperos sobre a textura da faca de prata ainda quente do contato com seu corpo e largou-a sobre a mesa, juntamente com os outros objetos. Geraldo não olhava mais para o homem, constrangido. Foi analisando cada peça e pensando no seu valor. Deixou as coisas sobre o balcão da copa e pediu atenção aos presentes.
Vamos se aprochegando, gauchada, que vai ter remate no recinto!
Aos poucos, os ainda presentes aproximaram-se. Três ou quatro filhos de estancieiros, que se reuniam semanalmente no bolicho para uma boa carpeta e uns tragos, olhavam curiosos a cena. Um ou dois peões estavam mais distantes, escondidos pelas sombras.
Não fosse o motivo, o remate poderia ser uma cena pintada de forma alegre. Os presentes pelearam por cada peça, o que acabou agregando maiores valores às mercadorias. Um ficou com a espora, outro passou a mão na fivela do cinto, deixando o couro gasto em cima da mesa. A faca de prata foi a mais disputada, e o mais afortunado acabou levando o objeto precioso. Floriano assistia à cena conformado, mas com um imenso sentimento de tristeza e vergonha.
Nada mais? — perguntou, por fim, Geraldo.
Sobravam no balcão a velha viola, um pouco de fumo uruguaio e o poncho, puído e desbotado pelas geadas. O bolicheiro calculava o arrecadado, coçando a cabeleira e cheirando a ponta dos dedos. Teria que ficar com as sobras pra completar o valor devido. Estava, também, aborrecido por tirar do velho Floriano seus poucos pertences. Mas, afinal, se não havia remédio, remediado estava, dizia um antigo camarada dos campos de batalha.
Seu Geraldo, — disse Pedro, em cuja presença Geraldo nem reparara — dependendo do preço, gostaria de ficar com o poncho.
Pega, homem. Paga o que puder — disse o bolicheiro, entregando o agasalho para o Guarany, que tirou um cobre da guaiaca e jogou sobre o balcão.
Alheio às conversas, Floriano pensava na vida. Por que Deus havia permitido que ele vivesse tanto tempo, enquanto as pessoas por quem ele sentia apreço já haviam partido? Por que deixara que ele passasse por tantas batalhas, servisse a tantos coronéis e patrões, pra acabar a vida sem forças, sem casa, sem nada? Pensava nisso tudo e acariciava a faixa na cintura. Não estava mais lá a sua pequena faca de prata, herança de família. Era a perda que mais lhe doía.
Geraldo Muñoz arrematou para si o fumo castelhano por um preço que lhe pareceu justo. Sobrou o violão, parceiro de churrasqueadas, festas e momentos de solidão. Esse ninguém quis. Estava, qual seu dono, velho e judiado.
Geraldo aproximou-se do cliente:
A dívida está quitada, Floriano. Podes levar tua viola que não vai ser preciso. — Na verdade, entretanto, faltava algum dinheiro, mas ele preferia esquecer.
O negro Floriano levantou da cadeira cambaleando um pouco, com o orgulho ferido. Em seguida, puxou as mangas da camisa, pegou sua guitarra, ignorada por todos, pediu licença e caminhou direto à porta da venda. O vento gelado das noites lambeu seu rosto. Por instinto, passou as mãos pelos braços. Respirou fundo e seguiu adiante. Enquanto encilhava seu cavalo, foi tirado dos seus pensamentos pela chegada brusca de Pedro.
Com licença, senhor.
Fale, meu filho — disse o negro.
Vosmecê esqueceu disto — e foi entregando o poncho de volta para o gaúcho. Fez um leve aceno de cabeça e virou-se na direção da venda. Não esperava agradecimentos, simplesmente não podia permitir que um homem daquela idade andasse nas geadas sem o seu agasalho.
Calma! Volta aqui, homem! — Pedro virou-se e, percebendo a emoção do velho, ficou constrangido. — Isso que tu fizeste, menino, não tem palavra que agradeça. Mas vou te oferecer o meu violão, parceiro de uma vida toda, pra que te faça companhia também. Aprenda a contar tuas histórias com ele e sempre preste atenção aos conselhos que ele te dará ... O que dizemos ao dedilhar milongas são recados de outras vidas, outros mundos, que chegam aos nossos ouvidos trazidos pelo minuano. Nunca os ignore...
Pedro respondeu que aquilo não era necessário. Floriano não aceitou o violão de volta. Com os olhos marejados, falou:
Só um andarilho sabe o valor que o poncho tem nesta vida de andejar. Que Deus te acompanhe na tua caminhada!
Então, o velho fez com que seu cavalo apurasse o passo e sumisse na noite fria e sem lua.

R. Tavares, in Andarilhos