Pedro Guarany acabara de soltar o Penacho
no piquete do açude, nos fundos do bolicho. Improvisara uma cama de
arreios em um galpão de madeira simples, mas acolhedor. Lá, estavam
espalhados alguns mochos e bancos. Havia, também, um grande fogo
acomodado no centro de uma velha roda de carreta e algumas
prateleiras com latas de erva mate e de bolachas. Sentia o cheiro do
carreteiro que se aprontava na panela preta sobre as brasas e
escutava o chiar da água fervendo na cambona.
Pedro resolveu caminhar para reconhecer o
local onde passaria os próximos dias. Era um lindo recanto. O sol
havia recém se escondido, e o céu estava pintado de matizes púrpura
e as últimas luzes do dia fugiam em direção ao poente. Era um
lugar mágico. Seguiu em direção à casa grande, acompanhado pelo
pisca-pisca constante dos vagalumes.
Pedro entrou na sala e ficou de longe,
observando. Geraldo estava inquieto. Batia os dedos constantemente no
balcão, cuspia pedaços de fumo no chão e coçava a cabeleira
branca. Finalmente, pareceu tomar coragem e foi na direção do negro
Floriano, que estava bebericando um pouco de canha, sentado muito
encurvado numa mesa de canto.
— Meu amigo, preciso trocar uma palavra
com o senhor. — Foi puxando um banco e sentou ao lado do cliente. —
Pois, o caso é que estava revisando a caderneta e — pigarreou —
a última vez que pagaste tuas dívidas já faz quase um ano…
O negro Floriano coçou a cara pelancuda,
pontilhada de fios brancos, trocou o pito de um canto para outro da
boca e, com os olhos lustrosos, ficou a encarar o chão. Como não
houvesse resposta, Geraldo foi se desculpando pela cobrança, mas
precisava receber pelo menos parte da dívida, pois era assim que
sobrevivia e mantinha seus estoques.
Floriano levantou a cabeçorra um pouco
grande para o corpo franzino e, muito constrangido, disse:
— Le peço perdão Geraldo. Devo, não
nego. Mas, se devo é porque, nesta terra, quando o homem perde as
forças do braço, não tem mais serventia. Sou pobre e meu único
bem é este nome que meu pai me deu, e que já foi do meu avô
Floriano, o vô Flor, que Deus o tenha. — Ficou um instante em
silêncio, olhos parados como a lembrar outros tempos. Deu um lento
suspiro e pareceu voltar à tona: — Vamos fazer um remate!
O remate era uma prática comum naquelas
paragens. Quando um homem não conseguia pagar suas dívidas,
reuniam-se os bens do vivente e leiloavam entre os convivas. Era uma
situação extrema e constrangedora, porém necessária. Naquele
tempo, valorizava-se muito o acordo feito no fio do bigode.
Geraldo ensaiou que não ia aceitar a
proposta, mas Floriano fez questão:
— Negócios são negócios! — bradou,
antes de desafivelar o cinto com fivela prateada e deixá-lo na mesa.
Tateou os bolsos e jogou sobre o tampo um naco de fumo castelhano, o
velho violão, sacou as esporas das botas, colocou ali o poncho de lã
e, após uma breve hesitação, buscou o cutillo de prata,
escondido sob a faixa da cintura. Ainda lembrava, certa vez, quando
seu pai havia lhe entregue aquele regalo. Era inverno, e ele, um
negrinho de perna fina e olhos esbugalhados, estava sentado ao lado
do catre do pai. O homem, por demais doente, tossia, parecia querer
expulsar o pulmão do corpo. O quarto cheirava a doença, urina e
sebo de vela. O menino olhava a cena com expressão chorosa. O pai,
então, pegou firmemente o pulso do filho e depositou na mão dele a
pequena arma de prata.
— Era do seu avô! — disse, antes de
fechar os olhos.
O menino correu em prantos para avisar
sua mãe de que o pai havia morrido.
Floriano passou seus dedos ásperos sobre
a textura da faca de prata ainda quente do contato com seu corpo e
largou-a sobre a mesa, juntamente com os outros objetos. Geraldo não
olhava mais para o homem, constrangido. Foi analisando cada peça e
pensando no seu valor. Deixou as coisas sobre o balcão da copa e
pediu atenção aos presentes.
— Vamos se aprochegando, gauchada, que
vai ter remate no recinto!
Aos poucos, os ainda presentes
aproximaram-se. Três ou quatro filhos de estancieiros, que se
reuniam semanalmente no bolicho para uma boa carpeta e uns tragos,
olhavam curiosos a cena. Um ou dois peões estavam mais distantes,
escondidos pelas sombras.
Não fosse o motivo, o remate poderia ser
uma cena pintada de forma alegre. Os presentes pelearam por cada
peça, o que acabou agregando maiores valores às mercadorias. Um
ficou com a espora, outro passou a mão na fivela do cinto, deixando
o couro gasto em cima da mesa. A faca de prata foi a mais disputada,
e o mais afortunado acabou levando o objeto precioso. Floriano
assistia à cena conformado, mas com um imenso sentimento de tristeza
e vergonha.
— Nada mais? — perguntou, por fim,
Geraldo.
Sobravam no balcão a velha viola, um
pouco de fumo uruguaio e o poncho, puído e desbotado pelas geadas. O
bolicheiro calculava o arrecadado, coçando a cabeleira e cheirando a
ponta dos dedos. Teria que ficar com as sobras pra completar o valor
devido. Estava, também, aborrecido por tirar do velho Floriano seus
poucos pertences. Mas, afinal, se não havia remédio, remediado
estava, dizia um antigo camarada dos campos de batalha.
— Seu Geraldo, — disse Pedro, em cuja
presença Geraldo nem reparara — dependendo do preço, gostaria de
ficar com o poncho.
— Pega, homem. Paga o que puder —
disse o bolicheiro, entregando o agasalho para o Guarany, que tirou
um cobre da guaiaca e jogou sobre o balcão.
Alheio às conversas, Floriano pensava na
vida. Por que Deus havia permitido que ele vivesse tanto tempo,
enquanto as pessoas por quem ele sentia apreço já haviam partido?
Por que deixara que ele passasse por tantas batalhas, servisse a
tantos coronéis e patrões, pra acabar a vida sem forças, sem casa,
sem nada? Pensava nisso tudo e acariciava a faixa na cintura. Não
estava mais lá a sua pequena faca de prata, herança de família.
Era a perda que mais lhe doía.
Geraldo Muñoz arrematou para si o fumo
castelhano por um preço que lhe pareceu justo. Sobrou o violão,
parceiro de churrasqueadas, festas e momentos de solidão. Esse
ninguém quis. Estava, qual seu dono, velho e judiado.
Geraldo aproximou-se do cliente:
— A dívida está quitada, Floriano.
Podes levar tua viola que não vai ser preciso. — Na verdade,
entretanto, faltava algum dinheiro, mas ele preferia esquecer.
O negro Floriano levantou da cadeira
cambaleando um pouco, com o orgulho ferido. Em seguida, puxou as
mangas da camisa, pegou sua guitarra, ignorada por todos, pediu
licença e caminhou direto à porta da venda. O vento gelado das
noites lambeu seu rosto. Por instinto, passou as mãos pelos braços.
Respirou fundo e seguiu adiante. Enquanto encilhava seu cavalo, foi
tirado dos seus pensamentos pela chegada brusca de Pedro.
— Com licença, senhor.
— Fale, meu filho — disse o negro.
— Vosmecê esqueceu disto — e foi
entregando o poncho de volta para o gaúcho. Fez um leve aceno de
cabeça e virou-se na direção da venda. Não esperava
agradecimentos, simplesmente não podia permitir que um homem daquela
idade andasse nas geadas sem o seu agasalho.
— Calma! Volta aqui, homem! — Pedro
virou-se e, percebendo a emoção do velho, ficou constrangido. —
Isso que tu fizeste, menino, não tem palavra que agradeça. Mas vou
te oferecer o meu violão, parceiro de uma vida toda, pra que te faça
companhia também. Aprenda a contar tuas histórias com ele e sempre
preste atenção aos conselhos que ele te dará ... O que dizemos ao
dedilhar milongas são recados de outras vidas, outros mundos, que
chegam aos nossos ouvidos trazidos pelo minuano. Nunca os ignore...
Pedro respondeu que aquilo não era
necessário. Floriano não aceitou o violão de volta. Com os olhos
marejados, falou:
— Só um andarilho sabe o valor que o
poncho tem nesta vida de andejar. Que Deus te acompanhe na tua
caminhada!
Então, o velho fez com que seu cavalo
apurasse o passo e sumisse na noite fria e sem lua.
R. Tavares, in Andarilhos
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