domingo, 25 de outubro de 2020

O negro Floriano

          Pedro Guarany acabara de soltar o Penacho no piquete do açude, nos fundos do bolicho. Improvisara uma cama de arreios em um galpão de madeira simples, mas acolhedor. Lá, estavam espalhados alguns mochos e bancos. Havia, também, um grande fogo acomodado no centro de uma velha roda de carreta e algumas prateleiras com latas de erva mate e de bolachas. Sentia o cheiro do carreteiro que se aprontava na panela preta sobre as brasas e escutava o chiar da água fervendo na cambona.
Pedro resolveu caminhar para reconhecer o local onde passaria os próximos dias. Era um lindo recanto. O sol havia recém se escondido, e o céu estava pintado de matizes púrpura e as últimas luzes do dia fugiam em direção ao poente. Era um lugar mágico. Seguiu em direção à casa grande, acompanhado pelo pisca-pisca constante dos vagalumes.
Pedro entrou na sala e ficou de longe, observando. Geraldo estava inquieto. Batia os dedos constantemente no balcão, cuspia pedaços de fumo no chão e coçava a cabeleira branca. Finalmente, pareceu tomar coragem e foi na direção do negro Floriano, que estava bebericando um pouco de canha, sentado muito encurvado numa mesa de canto.
Meu amigo, preciso trocar uma palavra com o senhor. — Foi puxando um banco e sentou ao lado do cliente. — Pois, o caso é que estava revisando a caderneta e — pigarreou — a última vez que pagaste tuas dívidas já faz quase um ano…
O negro Floriano coçou a cara pelancuda, pontilhada de fios brancos, trocou o pito de um canto para outro da boca e, com os olhos lustrosos, ficou a encarar o chão. Como não houvesse resposta, Geraldo foi se desculpando pela cobrança, mas precisava receber pelo menos parte da dívida, pois era assim que sobrevivia e mantinha seus estoques.
Floriano levantou a cabeçorra um pouco grande para o corpo franzino e, muito constrangido, disse:
Le peço perdão Geraldo. Devo, não nego. Mas, se devo é porque, nesta terra, quando o homem perde as forças do braço, não tem mais serventia. Sou pobre e meu único bem é este nome que meu pai me deu, e que já foi do meu avô Floriano, o vô Flor, que Deus o tenha. — Ficou um instante em silêncio, olhos parados como a lembrar outros tempos. Deu um lento suspiro e pareceu voltar à tona: — Vamos fazer um remate! 
O remate era uma prática comum naquelas paragens. Quando um homem não conseguia pagar suas dívidas, reuniam-se os bens do vivente e leiloavam entre os convivas. Era uma situação extrema e constrangedora, porém necessária. Naquele tempo, valorizava-se muito o acordo feito no fio do bigode.
Geraldo ensaiou que não ia aceitar a proposta, mas Floriano fez questão:
Negócios são negócios! — bradou, antes de desafivelar o cinto com fivela prateada e deixá-lo na mesa. Tateou os bolsos e jogou sobre o tampo um naco de fumo castelhano, o velho violão, sacou as esporas das botas, colocou ali o poncho de lã e, após uma breve hesitação, buscou o cutillo de prata, escondido sob a faixa da cintura. Ainda lembrava, certa vez, quando seu pai havia lhe entregue aquele regalo. Era inverno, e ele, um negrinho de perna fina e olhos esbugalhados, estava sentado ao lado do catre do pai. O homem, por demais doente, tossia, parecia querer expulsar o pulmão do corpo. O quarto cheirava a doença, urina e sebo de vela. O menino olhava a cena com expressão chorosa. O pai, então, pegou firmemente o pulso do filho e depositou na mão dele a pequena arma de prata.
Era do seu avô! — disse, antes de fechar os olhos.
O menino correu em prantos para avisar sua mãe de que o pai havia morrido.
Floriano passou seus dedos ásperos sobre a textura da faca de prata ainda quente do contato com seu corpo e largou-a sobre a mesa, juntamente com os outros objetos. Geraldo não olhava mais para o homem, constrangido. Foi analisando cada peça e pensando no seu valor. Deixou as coisas sobre o balcão da copa e pediu atenção aos presentes.
Vamos se aprochegando, gauchada, que vai ter remate no recinto!
Aos poucos, os ainda presentes aproximaram-se. Três ou quatro filhos de estancieiros, que se reuniam semanalmente no bolicho para uma boa carpeta e uns tragos, olhavam curiosos a cena. Um ou dois peões estavam mais distantes, escondidos pelas sombras.
Não fosse o motivo, o remate poderia ser uma cena pintada de forma alegre. Os presentes pelearam por cada peça, o que acabou agregando maiores valores às mercadorias. Um ficou com a espora, outro passou a mão na fivela do cinto, deixando o couro gasto em cima da mesa. A faca de prata foi a mais disputada, e o mais afortunado acabou levando o objeto precioso. Floriano assistia à cena conformado, mas com um imenso sentimento de tristeza e vergonha.
Nada mais? — perguntou, por fim, Geraldo.
Sobravam no balcão a velha viola, um pouco de fumo uruguaio e o poncho, puído e desbotado pelas geadas. O bolicheiro calculava o arrecadado, coçando a cabeleira e cheirando a ponta dos dedos. Teria que ficar com as sobras pra completar o valor devido. Estava, também, aborrecido por tirar do velho Floriano seus poucos pertences. Mas, afinal, se não havia remédio, remediado estava, dizia um antigo camarada dos campos de batalha.
Seu Geraldo, — disse Pedro, em cuja presença Geraldo nem reparara — dependendo do preço, gostaria de ficar com o poncho.
Pega, homem. Paga o que puder — disse o bolicheiro, entregando o agasalho para o Guarany, que tirou um cobre da guaiaca e jogou sobre o balcão.
Alheio às conversas, Floriano pensava na vida. Por que Deus havia permitido que ele vivesse tanto tempo, enquanto as pessoas por quem ele sentia apreço já haviam partido? Por que deixara que ele passasse por tantas batalhas, servisse a tantos coronéis e patrões, pra acabar a vida sem forças, sem casa, sem nada? Pensava nisso tudo e acariciava a faixa na cintura. Não estava mais lá a sua pequena faca de prata, herança de família. Era a perda que mais lhe doía.
Geraldo Muñoz arrematou para si o fumo castelhano por um preço que lhe pareceu justo. Sobrou o violão, parceiro de churrasqueadas, festas e momentos de solidão. Esse ninguém quis. Estava, qual seu dono, velho e judiado.
Geraldo aproximou-se do cliente:
A dívida está quitada, Floriano. Podes levar tua viola que não vai ser preciso. — Na verdade, entretanto, faltava algum dinheiro, mas ele preferia esquecer.
O negro Floriano levantou da cadeira cambaleando um pouco, com o orgulho ferido. Em seguida, puxou as mangas da camisa, pegou sua guitarra, ignorada por todos, pediu licença e caminhou direto à porta da venda. O vento gelado das noites lambeu seu rosto. Por instinto, passou as mãos pelos braços. Respirou fundo e seguiu adiante. Enquanto encilhava seu cavalo, foi tirado dos seus pensamentos pela chegada brusca de Pedro.
Com licença, senhor.
Fale, meu filho — disse o negro.
Vosmecê esqueceu disto — e foi entregando o poncho de volta para o gaúcho. Fez um leve aceno de cabeça e virou-se na direção da venda. Não esperava agradecimentos, simplesmente não podia permitir que um homem daquela idade andasse nas geadas sem o seu agasalho.
Calma! Volta aqui, homem! — Pedro virou-se e, percebendo a emoção do velho, ficou constrangido. — Isso que tu fizeste, menino, não tem palavra que agradeça. Mas vou te oferecer o meu violão, parceiro de uma vida toda, pra que te faça companhia também. Aprenda a contar tuas histórias com ele e sempre preste atenção aos conselhos que ele te dará ... O que dizemos ao dedilhar milongas são recados de outras vidas, outros mundos, que chegam aos nossos ouvidos trazidos pelo minuano. Nunca os ignore...
Pedro respondeu que aquilo não era necessário. Floriano não aceitou o violão de volta. Com os olhos marejados, falou:
Só um andarilho sabe o valor que o poncho tem nesta vida de andejar. Que Deus te acompanhe na tua caminhada!
Então, o velho fez com que seu cavalo apurasse o passo e sumisse na noite fria e sem lua.

R. Tavares, in Andarilhos

Nenhum comentário:

Postar um comentário