As lâmpadas incandescentes emitiam um
amarelo triste que banhava os contornos da igreja e a pequena praça
com seus bancos de madeira. A igreja matriz era de grande importância
e certamente um dos principais prédios da cidade de Nova Jaguaruara,
uma cidade de pouco mais de vinte mil habitantes localizada no
interior do estado do Ceará.
O relógio na torre principal marcou
meia-noite e, numa sincronia desconcertante, como que por ordem do
mínimo movimento dos ponteiros, todas as lâmpadas se desligaram e
se mantiveram assim, em consonância com a quietude da noite, por
exatamente um minuto. A cidade inteira permaneceu na escuridão.
Todas as luzes de todos os postes se desligaram; todos os aparelhos
de televisão e rádio daqueles que alimentavam a insônia também se
calaram; todas as máquinas da cidade, mesmo as do hospital assim
também o fizeram. Mas nenhum deles demorou mais do que um minuto.
Ninguém entendia o fenômeno na cidade
de Nova Jaguaruara, mas todos o conheciam muito bem. Um segredo que
foi se perdendo ao longo das gerações, uma informação que por
escolha era mantida em sigilo pelos mais velhos. A vida seguia e esse
aparente problema da cidade não mais incomodava. Um minuto apenas.
Apesar da indiferença para o acontecimento corriqueiro, os mais
antigos da cidade ainda temiam esse horário e recomendações não
faltavam para que ninguém estivesse fora de suas casas.
Meia noite e um. As lâmpadas dos postes
próximo à igreja acenderam-se com um estalo. Três meninos formavam
um pequeno círculo. Em silêncio, trocaram olhares entre si e para
as luzes mais próximas. As ruas agora exibiam suas lâmpadas acesas
e os insetos, em suas confusas trajetórias, retornavam a apinhar-se
diante das mesmas.
— Eu sabia que isso era uma grande
bobagem — disse João eufórico.
— Estou vivo! É a primeira vez que
estou fora de casa a esse horário — disse Antônio, passando as
mãos pelo peito e pela grande barriga.
— Deixe de ser maricas! Eu também não
acredito nessas velhas histórias de fantasmas. Isso só pode ser
algum problema elétrico, nada de mais — disse Fernanda.
— E como vocês explicam essa precisão
de horário? Não tem dia que a eletricidade não se vá das nossas
casas à exata meia-noite. Dia santo ou não, chovendo ou não, em
qualquer época do ano é a mesma coisa — disse Antônio
esforçando-se para não parecer ridículo.
— Eu também não sei explicar isso,
meu querido Toinho, mas não é essa falta de explicação que vai me
fazer acreditar em fantasmas ou outras idiotices do tipo — disse
João.
João tinha catorze anos, mas era
corpulento o suficiente para se passar por um garoto de dezessete.
Embora visto como um desordeiro pelos adultos, ele era respeitado
pelas crianças e adolescentes pela sua coragem e espírito
aventureiro.
— Vocês não acreditam? — retrucou
Antônio seriamente.
— Eu repito que não acredito em
fantasmas. E você, Fernanda?
— Estou começando a achar que Antônio
não vai ter coragem de fazer a segunda etapa do desafio. — O tom
de deboche fez João olhar com cara de cobrança para Antônio, que
respondeu de imediato que iria sim. Fernanda, na verdade, realizara
uma manobra para fugir da pergunta inquietante. Fernanda acreditava
nas velhas histórias da cidade e estava nervosa com a ideia do
desafio. Como sempre, porém, sabia que dar o pé para trás era
perder sua notoriedade de menina mais corajosa da cidade, diferente
das outras que brincavam em segurança com suas bonecas longe das
brincadeiras dos meninos. Além do título, tinha sempre a esperança
de impressionar João, mal sabendo que sua presença constante apenas
a fazia ser vista como igual pelo menino, afastando todas as
possibilidades de um eventual relacionamento juvenil.
Enquanto as crianças da cidade passavam
as manhãs cavando em seus quintais à procura de velhas botijas,
eles preferiam outros tipos de aventura. Aquilo era coisa de
criancinha, como sempre afirmava João. Desafiavam-se dia e noite,
numa tentativa de determinar o mais corajoso e divertir-se,
obviamente, à custa do mais medroso ou bobo. Os desafios começaram
simples, como saltar de um galho de cajueiro de altura razoável ou
jogar caroços de seriguela em pessoas que passassem pelas ruas. Com
o passar do tempo, aquilo se transformou em droga para aqueles
meninos. A maioria das crianças se afastou do grupo por ordem dos
pais preocupados, que os acompanhavam apenas com olhares vigilantes e
raramente com olhares de “sejam bem vindos” ou “fiquem à
vontade”. Os três eram vistos como uma pequena gangue de meninos
sujos, de má educação e que sempre estavam fazendo alguma desordem
pela cidade. Os desafios atuais giravam em torno de aventuras
perigosas, como cruzar a nado o grande açude da cidade de pernas
amarradas, derrubar colmeias de abelhas, furtar pequenos objetos de
lojas da cidade ou galinhas de terrenos vizinhos e até mesmo
experimentar um baseado.
— Só uma última coisa antes de irmos.
Ninguém da casa de vocês acordou, não é? Estamos encrencados se
alguém descobrir.
— Escapei pela janela do quarto.
Ninguém a não ser Faísca me viu.
— Ele latiu?
— Não, João! Desde que comecei a
treiná-lo, ele quase não me desobedece mais. — No rosto uma falsa
expressão de confiança.
— Não imagino você treinando um
cachorro e isso funcionando. — João não perdeu a oportunidade.
Fernanda caiu na gargalhada e, com um tom petulante de quem completa
uma formalidade, também confirmou que ninguém a tinha visto sair.
— Pois antes de irmos, gostaria apenas
de…
— Você ouviu isso? — Antônio
interrompeu, voltando-se para o outro lado da praça, de onde um
barulho metálico acabara de vir do camburão de lixo. Antônio deu
alguns passos na direção, como querendo mostrar coragem, ainda mais
pelo que estavam prestes a fazer àquela noite. Decidiu ir até o
camburão para se certificar de que tudo estava bem. Estando a meio
caminho do alvo, pôde escutar as risadas vindas das suas costas.
— Deixe de bobagem, Antônio. Melhor
seguirmos. Não há nada aí — disse João alto o suficiente para
ser ouvido pelo amigo, mas atento às dezenas de janelas das casas ao
redor da praça da igreja. Sabia que por trás delas dormiam velhas
fofoqueiras e crianças cabuetas.
Quando Antônio decidiu por fim virar-se,
numa última olhada, imaginação ou não, pôde jurar que o grande
latão havia feito um movimento mínimo. Na esperança de apenas ele
ter visto aquilo, decidiu voltar em direção aos amigos.
— Antônio, aquela lata se mexeu. Tenho
certeza! — disse Fernanda com um sorriso malicioso.
Antônio virou-se para o camburão, mas,
quando estava prestes a dar o primeiro passo, um gato branco como uma
alma pulou para fora soltando um miado agudo e estridente. O menino
caiu assustado. Mesmo no chão, suas pernas ainda tremiam, provocando
malditas risadas nos outros. O gato correu como louco desaparecendo
por uma das ruas.
— Gato idiota! — disse Antônio
levantando-se. — Eu posso jurar que era a sua gata, João —
acrescentou. João não deu a mínima ao que Antônio havia dito nem
percebera que a gata fugitiva era de fato a sua.
João passou a mochila para frente e,
dentre uma garrafa de água, biscoitos de chocolate e algumas pilhas,
retirou uma lanterna e um estilingue, colocando o último como um
cordão por sobre a cabeça.
— Melhor irmos! Já perdemos tempo
demais.
— Então é isso — disse Antônio
para si mesmo ainda pensando no que estavam prestes a fazer. Desceram
os degraus da igreja e montaram em suas bicicletas.
Os três pedalaram devagar, de forma a
não fazer barulho enquanto ainda estavam na cidade. Logo a via os
levou para fora e em pouco tempo eles pedalaram com velocidade contra
o vento frio da madrugada. Tomaram a via raramente usada que dava
acesso ao litoral, onde havia uma praia cheia de pedras e pouquíssimo
visitada.
O som das bicicletas era tudo o que se
podia ouvir. Instantes depois, as nuvens deixaram escapar o brilho da
lua cheia, delimitando contornos diversos de cercas, árvores e
placas. Mesmo as faixas amarelas no asfalto podiam ser facilmente
vistas indicando o caminho. Mesmo assim, João preferiu manter sua
lanterna ligada presa ao guidão. Pequenas gotículas e poeira
exibiam-se aos raios de luz da lanterna numa dança irreconhecível
enquanto os metros eram subtraídos.
— Já fizemos metade — disse João. —
Querem parar para tomar água? Ainda faltam dez quilômetros.
— Mais precisamente dez e meio, se
realmente estivermos na metade do caminho — ponderou Antônio com
uma voz dissimulada. Já se sentia terrivelmente cansado.
João freou, sendo seguido pelos outros.
Os três ficaram lado a lado, Fernanda no meio, exatamente em cima de
uma das faixas. Estar ali parado tarde da noite, no meio do nada,
cercados pela escuridão e longe da segurança de suas casas,
despertava os medos mais primitivos. Arrepios e leves tremores lhes
ocorreram, mas ninguém falou nada. Eram imaturos demais para assumir
isso. Tomaram água e puseram-se a pedalar, um a um. Estar em
movimento era tranquilizador, estar parado era fazer-se de presa
fácil.
Antônio fora o primeiro a desfazer a
formação, sendo seguido por Fernanda. João olhou uma última vez
para os lados e para os contornos bizarros da mata, recortados com
leveza pelo luar. Mas foi ao olhar para trás, atraído por um leve
rangido metálico, que teve uma grande surpresa.
Virou-se para os outros, mas eles já iam
a pelo menos vinte metros de distância. João os alcançou.
— Quando desligar a lanterna, eu quero
que vocês me sigam. Vocês vão entender. — disse João fazendo a
ultrapassagem.
João desligou a lanterna e saiu pelo
acostamento. Pararam as bicicletas por detrás de um cajueiro.
— O que está acontecendo, João? —
perguntou Fernanda sem entender o porquê da nova pausa. — Não faz
um minuto que...
— Psiu! — João levou o indicador à
boca e ficou assim, olhando para a estrada. — Vocês vão entender.
O silêncio foi então quebrado pela
aproximação de uma bicicleta. O esforço da pedalada podia ser
facilmente reconhecido pelo som da corrente enferrujada. Agora mais
perto, ouviram a respiração ofegante do pequeno ciclista, que, em
uma bicicleta de adulto, pedalava com destreza e equilíbrio
admiráveis.
— Pedro... — sussurrou João,
lembrando-se de quantas mil vezes já havia dito que um pirralho de
nove anos não era bem vindo.
Pedro pedalava de pé, as pernas curtas
de menino esticando-se da melhor forma para alcançar os pedais. A
bicicleta rangia com dificuldade e traçava uma trajetória ondulante
que certamente lhe acrescentaria ao menos dois quilômetros até o
destino final, o qual ele já suspeitava.
O menino passou pelo cajueiro com a
cabeça baixa, distraído, lutando para manter o guidão firme. João
caminhou até a estrada, deixando a bicicleta escorada ao cajueiro
junto aos outros. Retirou o estilingue do pescoço e uma pedra
arredondada do bolso. Mirou em direção à bunda do irmão e, com um
sorriso maldoso estampado no rosto, disparou.
— Na mosca! — João gritou aos pulos,
vendo que Pedro não passava de uma barata envenenada a se
estrebuchar de dor, deitado no asfalto, com as duas mãos
pressionando o local atingido. No rosto, a expressão de agonia e a
vergonha de ter sido descoberto. Os pneus ainda rodavam ligeiro na
bicicleta derrubada ao seu lado.
— Não precisava fazer isso, João! —
A mão ainda massageava a bunda. — Eu suspeitei o que vocês
estavam aprontando e vim conferir se realmente teriam coragem. Você
preferia que eu tivesse contado para o papai? — Pedro levantou-se,
esforçando-se para falar grosso ao ver que Fernanda e Antônio se
aproximavam rindo.
— “Contar para o papai... papai...”
— João falava com uma vozinha débil e aguda, balançado os braços
de um lado para o outro. — Eu preferia que você deixasse de ser
metido, isso sim. Como diabos você descobriu que a gente ia fazer
uma missão fora da cidade? — disse, enquanto os outros dois
garotos posicionavam-se às suas costas.
— Missão? Esse é nome que vocês dão
a essa loucura? Ouvi vocês comentando durante a missa no último
domingo. Falaram de entrar na velha igreja e sei o que isso quer
dizer. Estou de olho em você no nosso quarto enquanto você dorme
desde então. Hoje eu vi você pegando sua mochila e claro que eu não
ia ficar de fora. Vocês sempre me deixam de fora. Depois que você
saiu, coloquei Dara dentro da mochila e peguei a bicicleta do papai.
Mauro Lopes, in Nova Jaguaruara
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