24/08/2015

Dani Black // Travessia

A corrida de sapinhos

Era uma vez uma corrida de sapinhos.
Eles tinham que subir uma grande ladeira e, do lado havia uma grande multidão, muita gente que vibrava com eles.
Começou a competição.
A multidão dizia:
– Não vão conseguir! Não vão conseguir!
Os sapinhos iam desistindo um a um, menos um deles que continuava subindo. E a multidão a aclamar:
– Não vão conseguir! Não vão conseguir!
E os sapinhos iam desistindo, menos um, que subia tranquilo, sem esforço.
No final da competição, todos os sapinhos desistiram, menos aquele.
Todos queriam saber o que aconteceu, e quando foram perguntar ao sapinho como ele conseguiu chegar até o fim, descobriram que ele era SURDO!

Moral da estória: Quando queremos fazer alguma coisa que precise de coragem, não devemos escutar pessoas que falam que você não vai conseguir. Seja surdo aos apelos negativos.
Monteiro Lobato

Quase Nada 328

Quase Nada 328
www.10paezinhos.com.br

A face humana

Não tenho nem mais vontade de falar e de discutir com as pessoas; e mesmo pensar sobre elas me cansa, já que tão continuamente sou obrigado a pensar mal. Se volto a elas, se torno a procurá-las, só vejo uma explicação para isto: um grande amor. Um grande e doloroso amor por essa coisa triste e castigada que é a face humana.
Lúcio Cardoso, in Diários

O jovem casal

Estavam esperando o bonde e fazia muito calor. Veio um bonde mas estava tão cheio, com tanta gente pendurada nos estribos que ela apenas deu um passo à frente, ele apenas esboçou com o braço o gesto de quem vai pegar um balaústre – mas desistiram.
Um homem com uma carrocinha de pão obrigou-os a recuar mais perto do meio-fio; depois o negrinho de uma lavanderia passou com a bicicleta tão junto que um vestido esvoaçante bateu na cara do rapaz.
Ela se queixou de dor de cabeça; ele sentia uma dor de dente não muito forte, mas enjoada e insistente, mas preferiu não dizer nada. Ano e mio casados, tanta aventura sonhada, e estavam tão mal naquele quarto de pensão no Catete, muito barulhento: “Lutaremos contra tudo” – havia dito – e ele pensou com amargor que estavam lutando apenas contra as baratas, as horríveis baratas do velho sobradão. Ela apenas com um gesto de susto e nojo se encolhia a um canto ou saía para o corredor – ele, com repugnância, ia matar o bicho; depois, com mais desgosto ainda, jogá-lo fora.
E havia as pulgas; havia a falta de água, e quando havia água, a fila dos hospedes no corredor, diante da porta do chuveiro. Havia as instalações que sempre cheiravam mal, o papel da parede amarelado e feio, as duas velhas gordas, pintadas, da mesinha ao seu lado, que lhe tiravam o apetite para a mesquinha comida da pensão. Toda a tristeza, toda a mediocridade, toda a feiúra duma vida estreita onde o mau gosto atroz e pretensioso da classe média se juntava à minuciosa ganância comercial – um ovo era “extraordinário”, quando eles pediam dois ovos a dona da pensão olhava com raiva, estavam atrasados dias no pagamento.
Passou um ônibus enorme, parou logo adiante abrindo com ruído a porta, num grande suspiro de ar comprimido, e ela nem sequer olhou o ônibus, era tão mais caro. Ele teve um ímpeto, segurou-a pelo braço disposto a fazer uma pequena loucura financeira – “vamos pegar um ônibus!” Mas o monstro se fechara e partira jogando-lhes na cara um jato de fumaça ruim.
Ele então chegou mais para perto dela – lá vinha outro bonde, não, mas aquele não servia – enlaçou-a pela cintura, depois ficou segurando seu ombro com um gesto de ternura protetora, disse-lhe vagas meiguices, ela apenas ficou quieta. “Está doendo muito a cabeça?” Ela disse que não. “Seu cabelo agora está mais bonito, meio queimado de sol.” Ela sorriu levemente, mas de repente: “ih, me esqueci da receita do médico”, pediu-lhe a chave do quarto, ele disse que iria apanhar para ela, ela disse que não, ela iria; quando voltou, foi exatamente a tempo de perder um bonde quase vazio; os dois ficaram ali desanimados.
Então um grande carro conversível se deteve um instante perto dos dois, diante do sinal fechado. Lá dentro havia um casal, um sujeito meio calvo de ar importante na direção, uma mulherzinha muito pintada ao lado, sentiram o cheiro de seu perfume caro. A mulherzinha deu-lhes um vago olhar, examinou um pouco mais detidamente a moça, correndo os olhos da cabeça até os sapatos pobres – enquanto o senhor meio calvo dizia alguma coisa sobre anéis, e no momento do carro partir com um arranco macio e poderoso ouviram que a mulherzinha dizia: “se ele deixar aquele por quinze contos, eu fico”.
Quinze contos – isso entrou dolorosamente pelos ouvidos do rapaz, parece que foi bater, como um soco, em seu estômago mal alimentado – quinze contos, meses e meses de pensão! Então olhou a mulher e achou-a tão linda e triste com uma blusinha branca, tão frágil, tão jovem e tão querida, que sentiu os olhos arderem de vontade de chorar de humilhação por ser tão pobre; disse: “Viu aquela vaca dizendo que ia comprar um anel de quinze contos?”
Vinha o bonde.
Rubem Braga, in Os melhores contos

Soneto XXIII


Cidadezinha cheia de graça…
Tão que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça…
Sua igrejinha de uma torre só…

Nuvens que venham, nuvens e asas,
Não param nunca nem um segundo…
E fica a torre, sobre as velhas casas,
Fica cismando como é vasto o mundo!…

Eu que de longe venho perdido,
Sem pouso fixo (a triste sina!)
Ah, quem me tera ter lá nascido!

Lá toda a vida poder morar!
Cidadezinha… Tão pequenina
Que toda cabe num só olhar.
Mário Quintana

Tatuagens minimalistas de Austin Tott






22/08/2015

Luz

“Cada ser se revela apenas pela luz que dele emana.”
Mia Couto

Podemos

Podemos atear fogo
à memória da casa
desaprender um idioma
palavra por palavra
podemos esquecer uma cidade
suas ruas pontes armarinhos
armazéns guindastes teleféricos
e se ela tiver um rio
podemos esquecer o rio
mesmo contra a correnteza
mas não podemos proteger com o corpo
um outro corpo do envelhecimento
lançando-nos sobre a lembrança dele.
Ana Martins Marques

Lucas Arruda // Fazenda

São João dos cachorros


A princípio era um só. Mas os latidos foram despertando outros. Desespero de quem não quer olhar. Não pode e nem deve olhar, porque o cão lê o medo no olho do homem. E aí é pior. Sente o resfolegar, o rosnar dos cães bem na sua perna. Anda como autômato. Se correr... Nenhuma arma. Nenhum pedaço de pau, nenhuma pedra.
Uma lua fosca e débeis luzes de postes retorcidos iluminam a rua de terra, deserta. Os cães continuam a segui-lo. Aliás, persegui-lo. Acuam-no como caça preciosa. Cada quarteirão vencido parecia ter léguas de distância. Cada esquina dobrada, mais cães se juntavam à procissão barulhenta no seu encalço.
Levava um pacote de alimentos para gatos e um livro desgastado de tantas e quantas leituras. Não criava bichos de estimação. De bicho, bastava a si próprio. Os gatos, de um amigo. Daí os alimentos.. Os cães querem é o gato imaginário escondido no saco, pensou. Jogasse fora o alimento? Mais fúria, quem sabe... O livro, não. Leitura não alimenta cachorro. Subisse numa árvore? Merda de cidade mal arborizada... Desse um grito feito Tarzan dos gibis? Arriscado bancar o herói quadrinizado.
A barra da calça molhada pela baba dos famintos. Suor lhe empapa o corpo. Caminhando e pensando no grande idiota que inventou ser o cão o melhor amigo do homem. Melhor amigo é da sua mãe, imbecil, à merda. Xinga o pensamento.
Aqueles os ex-cães. Noturnos que não têm dono. Esquecem origem, medalha e pedigree, se é que um dia tiveram. Rosnam violentos como o lobo. Cobiçam o homem na selva cidade. Mundo cão, esse.
O cérebro esmiuçou conhecimentos caninos. Não muitos. Sabia da escola treinadora de cães. Caçar bandidos. Farejar pó. Não se enquadrava no figurino. E então? Como sair daquela? Lembrava amigo morto pela baba de cachorro louco. Calafrio no corpo. Náusea. Não esmorecer. Estômago vira, revira. Vomitar pirão com torresmo. Travou o gogó.
Abocanhada na perna da calça. Apertou o passo. Pernas pesavam toneladas. Ouvidos se acostumavam à latomia espumosa. Rápida olha para trás. Muitos os cães. Rua inteira coberta de pelos encardidos. Profusão de bocas arreganhadas. Mar de orelhas, pontiagudos os chifres. Assemelhavam-se à manada de búfalos pronta ao estouro. Ladravam, mordiam-se entre si. Não a sombra por falta de espaço.
Estranha alcateia, sem líder, cavalgando a noite. Ele, a mascote. Merda de cidade pequena com tantos cachorros assim. Povo pobre. De onde tiram alimento para essas feras? Que milagre faz sobra de tão pouco na vida? Boca dos filhos. Filhos da puta esses cães magros e asquerosos.
Dormia a cidade. Ele, o fantasma de ruas sombrias, acuado. Fingisse de morto? O bafio da cachorrada em seu rosto. Cheirá-lo com seus focinhos frios, baba gosmenta, pulgas, carrapatos e carrapichos no pelo bernento. Ideia melhor precisava ter.
Iam e vinham à sua frente, em semicírculos. Urubus à espreita da carniça. Hienas farejando a presa.
Arrastava um cão pequeno abocanhado nos fiapos da mesclinha azul. Um tropeção seria o diabo. Levantou a vista. A pracinha à frente. Um coreto. Miragem da noite, oásis de salvação. Último reduto da esperança em frangalhos.
Quando a cidade acordou, viu o nicho da praça preenchido por estranho santo, maltrapilho. O breviário na mão esquerda, um livro de Poe. Na direita, o maná dos gatos. Prestavam-lhe tributo os cães. Um mar deles.
Aos poucos, o povo foi se aproximando cauteloso por entre os bichos. Ajoelhavam-se ao lado dos cachorros que coalhavam a praça. Estranho aquele são francisco de assis que deixara os pássaros e se dedicava aos cães. Sangravam-lhe as pernas esfarrapadas.
– Viva São João dos Cachorros! – histérico, o povo.
– À merda vocês todos! – o xingo entredentes.
Formigavam os pés. Batatas de cãibra subiam e desciam como lagartos pela barriga da perna. Cada braço, um cabo de aço. Ruptura à vista.
– Viva São João dos Cachorros! – o povo.
– À puta que pariu vocês todos! – inaudível protesto afogava-se na garganta.
Num momento em que o povo se curvou, olhos fechados, tentou se mover. Inútil. Pernas e braços não mais o obedeciam. Boca cerrada, língua travada. Gritar, como?
– Viva São João dos Cachorros! – a ladainha do povo.
– É a puta que pariu vocês to...! – não consegue mais o pensamento engessado.
Tempo demais fingindo-se santo. Agora, paciência. Era uma estátua de verdade.
Línguas ávidas vão lambendo as chagas de pedra encarnada.
José de Castro, in www.marceloabdon.com.br

Arte Impressionista

Grande Canal de Veneza (1908), de Claude Monet

Primeira vez da vovó

Vovó, você se lembra da sua primeira vez?
– Primeira vez o que, minha filha?
– Que fez sexo.
– Uuuuuuuu…
– Faz tanto tempo assim?
– Espera que eu ainda não terminei. Uuuuuuuuuu…
– Foi com quem?
– Um cadete. Ele ia ser mandado para o front no dia seguinte e disse que queria levar com ele a lembrança da nossa última noite juntos. Não pude recusar. Dali a duas semanas recebi a notícia de que ele tinha morrido.
– Que front era esse, vovó?
– O front. Da guerra. Não me lembro qual delas. Fiquei chocada com a notícia e me internei num convento, onde fiquei pelo resto da vida.
– Vovó, você viveu num convento?
– Não vivi? Espera um pouquinho. Acho que estou misturando as coisas. Isso foi um romance que eu li. Ó cabeça.
– Então, quem foi o primeiro?
– O primeiro o quê?
– Com quem você fez sexo, vovó.
– Uuuuuuuuu… Deixa ver. Como era o nome dele… Gilbert qualquer coisa. Gilbert Roland!
– Acho que esse era um ator.
– Não, não, não. Era nosso vizinho. Nos encontrávamos no fundo do quintal, sob a goiabeira. Até hoje não posso sentir cheiro de goiaba que me lembro do Gilbert Roland. Foi o primeiro e o único. Nunca mais amei ninguém.
– Vovó. Você casou com o vovô. Teve cinco filhos com o vovô. Você amava o vovô.
– Tudo fingimento.
– E há quanto tempo você não faz sexo?
– Uuuuuuuuuuu…
– Com quem foi a última vez?
– Eu já era viúva. Um dia bateram na porta. Era o Juan Carlos da Espanha. Na época ele ainda era príncipe. Tinha errado de porta, estava procurando não sei quem. Mandei entrar e começamos a conversar. Assuntos gerais. Ele pediu para ver o meu quarto… E aconteceu. Nunca mais nos vimos. Mas ele não deixa de me escrever.
– Vovó, você tem cartas do rei Juan Carlos da Espanha?
– Estão por aí, em algum lugar.
– E são cartas amorosas?
– Uuuuuuuuuuuu…
Luís Fernando Veríssimo

21/08/2015

Você mesmo


Ser tão bonito: Caruaru - PE

Imagem: @jaapa7

A frouxidão no amor é uma ofensa

A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão; fervor, e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.

Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

Talvez me enfadaria aspecto iroso;
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-se cativo, e não me faz ditoso.
Manuel Maria Barbosa du Bocage

Direitos sociais

“Em sua dimensão mais ampla, os direitos sociais entraram na história do constitucionalismo moderno com a Constituição de Weimar. A mais fundamentada razão da sua aparente contradição, mas real complementaridade, com relação aos direitos de liberdade é a que vê nesses direitos uma integração dos direitos de liberdade, no sentido de que eles são a própria condição do seu exercício efetivo. Os direitos de liberdade só podem ser assegurados garantindo-se a cada um o mínimo de bem-estar que permite uma vida digna.”

Norberto Bobbio, in A era dos direitos

O Pequeno Príncipe | Trailer

Feliz por nada

Geralmente, quando uma pessoa exclama Estou tão feliz!, é porque engatou um novo amor, conseguiu uma promoção, ganhou uma bolsa de estudos, perdeu os quilos que precisava ou algo do tipo. Há sempre um porquê. Eu costumo torcer para que essa felicidade dure um bom tempo, mas sei que as novidades envelhecem e que não é seguro se sentir feliz apenas por atingimento de metas. Muito melhor é ser feliz por nada.
[...]
Feliz porque existe uma perspectiva de viagem daqui a alguns meses. Feliz porque você não magoou ninguém hoje. Feliz porque daqui a pouco será hora de dormir e não há lugar no mundo mais acolhedor do que sua cama.
Esquece. Mesmo sendo motivos prosaicos, isso ainda é ser feliz por muito.
Feliz por nada, nada mesmo?
Talvez passe pela total despreocupação com essa busca. Essa tal de felicidade inferniza.
“Faça isso, faça aquilo”. A troco? Quem garante que todos chegam lá pelo mesmo caminho?
Particularmente, gosto de quem tem compromisso com a alegria, que procura relativizar as chatices diárias e se concentrar no que importa pra valer, e assim alivia o seu cotidiano e não atormenta o dos outros. Mas não estando alegre, é possível ser feliz também. Não estando “realizado”, também. Estando triste, felicíssimo igual. Porque felicidade é calma.
Consciência. É ter talento para aturar o inevitável, é tirar algum proveito do imprevisto, é ficar debochadamente assombrado consigo próprio: como é que eu me meti nessa, como é que foi acontecer comigo? Pois é, são os efeitos colaterais de se estar vivo.
Benditos os que conseguem se deixar em paz. Os que não se cobram por não terem cumprido suas resoluções, que não se culpam por terem falhado, não se torturam por terem sido contraditórios, não se punem por não terem sido perfeitos. Apenas fazem o melhor que podem.
Se é para ser mestre em alguma coisa, então que sejamos mestres em nos libertar da patrulha do pensamento. De querer se adequar à sociedade e ao mesmo tempo ser livre.
Adequação e liberdade simultaneamente? É uma senhora ambição. Demanda a energia de uma usina. Para que se consumir tanto?
A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa.
Ser feliz por nada talvez seja isso.
Martha Medeiros

20/08/2015

Perguntas e respostas

“Quando a gente acha tem tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas...”
Luís Fernando Veríssimo