05/06/2025

Seu Olhar Não Mente | Joyce Alane e Lucy Alves

Livro do Desassossego | Diário de Bernardo Soares

27.

A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom num a memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a história seja mais, no seu grande panorama desbotado, que um decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos.
O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter dito.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Papel tesoura e cola

Dia de verão na Vista Chinesa. Eu, sozinho,
era um mandarim frio; mas vendo tudo
 
do alto, tomado pela beleza, achei que
em meu coração a tristeza era mesquinha;
 
pensar em mim e em você me pareceu avareza,
tendo em vista que nós somos bem menores
 
vistos do Alto da Boa Vista. Janeiro bicicletas
bem-te-vis entraram pelos meus olhos
 
abrindo em cheio meu peito; que sombra
demoraria à luz de tantas lanternas?
 
Mesmo a noite mais profunda logo se incendiara
e, decerto, morreríamos só depois da madrugada.
 
Era uma tarde chinesa, tarde de mim sem você,
quando vi que nós dois juntos não valíamos
 
a cena.

Eucanaã Ferraz, em Sentimental 

Crise

Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque…

Mário Quintana, em Sapato Florido

A brasilidade na Arte de Portinari

Baile na Roça (1924), de Cândido Portinari

Do diário epistolar de César

Para Lúcio Mamilio Turrino, na ilha de Capri

Na noite de 27 para 28 de outubro
1013, (Sobre a morte de Catulo). Estou velando à cabeceira de um amigo agonizante: o poeta Catulo. De tempo em tempo adormece e, como de costume, tomo a pena, talvez para evitar a reflexão.
Acaba de abrir os olhos. Pronunciou o nome de seis Plêiades, e me perguntou o sétimo.
Agora dorme.
Passou uma outra hora. Conversamos. Não sou novato nisto de velar à cabeceira dos moribundos. Aos que sofrem, deve-se falar sobre eles mesmos; aos de mente lúcida, elogiar-lhes o mundo que abandonam. Não há dignidade alguma em abandonar um mundo desprezível, e aqueles que morrem soem temer que a vida talvez não tenha compensado os esforços que lhes custou. Pessoalmente, jamais me faltam motivos para elogiá-la.
No transcurso desta hora paguei uma velha dívida. Durante minhas campanhas, muitas vezes visitou-me um sonho persistente: caminhava de cá para lá frente a minha tenda, no meio da noite, improvisando um discurso.. Imaginava ter congregado um auditório seleto de homens e mulheres, quase todos eles jovens, aos quais eu desejava ardentemente revelar tudo o quanto havia aprendido na poesia imortal de Sófocles — em minha adolescência, em minha maturidade, como soldado, como estadista, como pai, como filho e como homem enamorado, através de alegrias e de vicissitudes —. Queria, antes de morrer, descarregar meu coração (tão rapidamente transbordante!) de toda esta gratidão e louvor.
Ah, sim! Sófocles foi um homem; e sua obra totalmente humana.
Eis aqui a resposta a uma velha pergunta. Os deuses nem lhe deram apoio, nem se negaram a ajudá-lo; não é esta sua forma de proceder.
Porém se eles não tivessem estado ocultos, Sófocles não teria lutado tanto para encontrá-los.
Assim, viajei: sem poder ver a um pé de distância, entre os Alpes mais elevados, porém jamais com passo tão seguro. A Sófocles bastava viver como se os Alpes tivessem estado sempre ali.
E agora, também Catulo estava morto.

Thorton Wilder. Os idos de março (1945), em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

Fixing a Hole


Paul McCartney e John Lennon
Lançamento: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, 1967

I’m fixing a hole where the rain gets in
And stops my mind from wandering
Where it will go

I’m filling the cracks that ran through the door
And kept my mind from wandering
Where it will go

And it really doesn’t matter if I'm wrong I'm right
Where I belong I'm right
Where I belong
See the people standing there
Who disagree and never win
And wonder why they don’t get in my door

I’m painting the room in a colourful way
And when my mind is wandering
There I will go
And it really doesn’t matter if I'm wrong I'm right
Where I belong I'm right
Where I belong
Silly people run around
They worry me and never ask me
Why they don’t get past my door

I’m taking the time for a number of things
That weren’t important yesterday
And I still go

I’m fixing a hole where the rain gets in
And stops my mind from wandering
Where it will go
Where it will go

Antes de compor uma canção, há um buraco negro, daí eu pego o meu violão ou sento ao piano e o preencho. Em termos de inspiração, a ideia de que existe uma lacuna a ser preenchida não é uma base menos honrosa do que um relâmpago caindo do céu. É um milagre, de uma forma ou de outra. Eu me sento ali e vislumbro uma escuridão. Nesse buraco não há nada. Eu começo a fazer a minha mágica e ao final de três horas descubro que não era um buraco, e sim uma cartola, e eu consegui tirar um coelho dela.
Ou então, no final da sessão, já não existe um buraco negro e sim uma paisagem colorida.
Por falar em paisagens coloridas, eu fui o último da banda a tomar LSD. John e George me incentivaram a fazer isso para que eu alcançasse o mesmo patamar que eles. Relutei muito, porque, na verdade, sou bastante puritano, e eu tinha ouvido falar que a pessoa que toma LSD nunca mais é a mesma. Eu tinha lá minhas dúvidas se eu queria isso para mim. E tinha minhas dúvidas se a ideia era assim tão incrível. Por isso, resisti muito. No final, acabei cedendo e uma noite tomei LSD com John.
Tive muita sorte nessa experiência com o LSD, pois ela não causou muito estrago. Claro que havia um elemento assustador nisso. O que mais assustava era quando você queria que aquilo parasse, e não parava. Você dizia: “Ok, chega, acabou a festa”, mas o LSD dizia: “Não acabou, não”. Então você era obrigado a ir para a cama vendo coisas.
Nessa época, quando eu cerrava os olhos, em vez de escuridão, avistava um buraquinho azul. Parecia algo precisando de remendo. Eu sempre ficava com a sensação de que, se pudesse chegar lá e dar uma olhada, descobriria uma resposta. Outra influência é o jogo de palavras na canção “Please”, de Bing Crosby, “Oh, Please/ Lend your little ear to my pleas”, que pode ter inspirado o jogo de palavras “And it doesn’t really matter if I’m wrong I’m right/ Where I belong”. Aqui a influência mais relevante não é a ideia metafísica de um buraco, que mencionei antes, mas esse fenômeno absolutamente físico – algo que surgiu pela primeira vez depois que tomei ácido. De vez em quando eu ainda o vejo e sei exatamente de que se trata. Sei o seu tamanho exato.
Tem gente que acha que “Fixing a Hole” é sobre heroína. É bem provável que estejam visualizando os furos das seringas na pele. Na época em que a canção foi escrita, o mais provável é que a droga fosse a maconha. Na realidade, eu estava morando praticamente sozinho em Londres e curtindo a minha nova casa. Portanto, todo esse mundo de melhorias domésticas começou a me afetar de um modo bem literal.
Fui o último da banda a tomar LSD. John e George me incentivaram a fazer isso para que eu alcançasse o mesmo patamar que eles. Relutei muito, porque, na verdade, sou bastante puritano, e eu tinha ouvido falar que a pessoa que toma LSD nunca mais é a mesma.

Paul McCartney, em As letras – 1956 até o presente

03/06/2025

Dorgival Dantas | A Natureza Das Coisas / Me Dá Meu Coração

1566 – Madrid

O fanático da dignidade humana

Frei Bartolomé de Las Casas está passando por cima do rei e do Conselho das Índias. Será castigada a sua desobediência? Aos noventa e dois anos, pouco lhe importa. Meio século lutou ele. Não estão em sua façanha as chaves de sua tragédia? Muitas batalhas deixaram que ele ganhasse; faz tempo que sabe disso, porque o resultado da guerra estava decidido por antecipação.
Os dedos já não lhe dão confiança. Dita a carta. Sem autorização de ninguém, se dirige diretamente à Santa Sé. Pede ao papa Pio V que mande cessar as guerras contra os índios e que ponha fim ao saqueio que usa a cruz como álibi. Enquanto dita se indigna, sobe-lhe o sangue à cabeça e se rompe a voz que lhe sobra, rouca e pouca.
Subitamente, cai ao chão.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende


[…]

Assim pois foi, como conforme, que avançamos rompidas marchas, duramente no varo das chapadas, calcando o sapê brabão ou areias de cor em cimento formadas, e cruzando somente com gado transeúnte ou com algum boi sozinho caminhador. E como cada vereda, quando beirávamos, por seu resfriado, acenava para a gente um fino sossego sem notícia ― todo buritizal e florestal! ramagem e amar em água. E que, com nosso cansaço, em seguir, sem eu nem saber, o roteiro de Deus nas serras dos Gerais, viemos subindo até chegar de repente na Fazenda Santa Catarina, nos Buritis-Altos, cabeceira de vereda. Ques borboletas! E era em maio, pousamos lá dois dias, flôr de tudo, como sutil suave, no conhecimento meu com Otacília. O senhor me ouviu. Em como Otacília e eu ficamos gostando um do outro, conversamos, combinados no noivável, e na sobremanhã eu me despedi, ela com sua cabecinha de gata, alva no topo da alpendrada, me dando a luz de seus olhos; e de lá me fui, com Diadorim e os outros. E de como viemos, em cata do grosso do bando de Medeiro Vaz, que dali a quinze léguas recruzava, da Ratragagem para a Vereda-Funda, e com eles nos ajuntamos, economizando rumo, num lugar chamado o Bom-Burití. Me alembro, meu é. Ver belo! o céu poente de sol, de tardinha, a roseia daquela cor. E lá é cimo alto! pintassilgo gosta daquelas friagens. Cantam que sim. Na Santa Catarina. Revejo. Flores pelo vento desfeitas. Quando rezo, penso nisso tudo. Em nome da Santíssima Trindade.
O que o seguinte foi este: o encontro da gente com Medeiro Vaz , no Bom-Burití, num ressaco, conforme já disse, ele no meio de seus fortes homens, exatos, naquela bocâina de campo. Medeiro Vaz, retratal, barbaça, com grande chapéu rebuçado, aquela pessoa sisuda, circunspecto com todas as velhices, sem nem velho ser. Cujo eu me disse: ― E bom homem... E ele beijou a testa de Diadorim, e Diadorim beijou aquela mão. A um assim, a gente podia pedir a benção, se prezar. Medeiro Vaz tomava rapé. Medeiro Vaz, mandando passar as ordens. E tinha quartel-mestre. Subindo em esperança, de lá saímos, para chão e sertão. Sertão bravo: as araras. O só que Medeiro Vaz comandou foi isto: ― Alelúia! Diadorim tinha comprado um grande lenço preto: que era para ter luto manejável, funo guardado em sobre seu coração. Chapadão de duro. Daí, passamos um rio vadoso ― rio de beira baixinha, só burití ali, os buritís calados. E a flór de caraíba urucuiã ― róxo astrazado, um róxo que sobe no céu. Naquele trêcho, também me lembro, Diadorim se virou para mim ― com um ar quase de meninozinho, em suas miúdas feições. ― Riobaldo, eu estou feliz!... ― ele me disse. Dei um sim completo. E foi assim que a gente principiou a tristonha história de tantas caminhadas e vagos combates, e sofrimentos, que já relatei ao senhor, se não me engano até ao ponto em que Zé Bebelo voltou, com cinco homens, descendo o Rio Paracatú numa balsa de talos de burití, e herdou brioso comando; e o que debaixo de Zé Bebelo fomos fazendo, bimbando vitórias, acho que eu disse até um fogo que demos, bem dado e bem ganho, na Fazenda São Serafim. Mas, isso, o senhor então já sabe.
Só sim? Ah, meu senhor, mas o que eu acho é que o senhor já sabe mesmo tudo ― que tudo lhe fiei. Aqui eu podia pór ponto.
Para tirar o final, para conhecer o resto que falta, o que lhe basta, que menos mais, é pôr atenção no que contei, remexer vivo o que vim dizendo. Porque não narrei nada à-tôa! só apontação principal, ao que crer posso. Não esperdiço palavras. Macaco meu veste roupa. O senhor pense, o senhor ache. O senhor ponha enredo. Vai assim, vem outro café, se pita um bom cigarro. Do jeito é que retôrço meus dias! repensando. Assentado nesta boa cadeira grandalhona de espreguiçar, que é das de Carinhanha. Tenho saquinho de relíquias. Sou um homem ignorante. Gosto de ser. Não é só no escuro que a gente percebe a luzinha dividida? Eu quero ver essas águas, a lume de lua...
Urubú? Um lugar, um baiano lugar, com as ruas e as igrejas, antiquíssimo ― para morarem famílias de gente. Serve meus pensamentos. Serve, para o que digo! eu queria ter remorso; por isso, não tenho. Mas o demônio não existe real. Deus é que deixa se afinar à vontade o instrumento, até que chegue a hora de se dansar. Travessia, Deus no meio. Quando foi que eu tive minha culpa? Aqui é Minas; lá já é a Bahia? Estive nessas vilas, velhas, altas cidades... Sertão é o sozinho. Compadre meu Quelemém diz! que eu sou muito do sertão? Sertão! é dentro da gente. O senhor me acusa? Defini o alvará do Hermógenes, referi minha má cedência. Mas minha padroeira é a Virgem, por orvalho. Minha vida teve meio-do-caminho? Os morcegos não escolheram de ser tão feios tão frios ― bastou só que tivessem escolhido de esvoaçar na sombra da noite e chupar sangue. Deus nunca desmente. O diabo é sem parar. Saí, vim, destes meus Gerais! voltei com Diadorim. Não voltei? Travessias... Diadorim, os rios verdes. A lua, o luar! vejo esses vaqueiros que viajam a boiada, mediante o madrugar, com lua no céu, dia depois de dia. Pergunto coisas ao burití; e o que ele responde é! a coragem minha. Burití quer todo azul, e não se aparta de sua água ― carece de espelho.
Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. Por que é que todos não se reúnem, para sofrer e vencer juntos, de uma vez? Eu queria formar uma cidade da religião. Lá, nos confins do Chapadão, nas pontas do Urucúia. O meu Urucúia vem, claro, entre escuros. Vem cair no São Francisco, rio capital. O São Francisco partiu minha vida em duas partes. A Bigrí, minha mãe, fez uma promessa; meu padrinho Selorico Mendes tivesse de ir comprar arroz, nalgum lugar, por morte de minha mãe? Medeiro Vaz reinou, depois de queimar sua casa-de-fazenda. Medeiro Vaz morreu em pedra, como o touro sozinho berra feio; conforme já comparei, uma vez: touro preto todo urrando no meio da tempestade. Zé Bebelo me alumiou. Zé Bebelo ia e voltava, como um vivo demais de fogo e vento, zás de raio veloz como o pensamento da ideia ― mas a água e o chão não queriam saber dele. Compadre meu Quelemém outrotanto é homem sem parentes, provindo de distante terra ― da Serra do Urubú do Indaiá. Assim era Joca Ramiro, tão diverso e reinante, que, mesmo em quando ainda parava vivo, era como se já estivesse constando de falecido. Só Candelário? Só Candelário se desesperou por forma. Meu coração é que entende, ajuda minha ideia a requerer e traçar. Ao que Joca Ramiro pousou que se desfez, enterrado lá no meio dos carnaubais, em chão arenoso salgado. Só Candelário não era, de certo modo, parente do compadre meu Quelemém, o senhor sabe? Diadorim me veio, de meu não-saber e querer. Diadorim ― eu adivinhava. Sonhei mal? E em Otacília eu sempre muito pensei: tanto que eu via as baronesas amarasmeando no rio em vidro ― jericó, e os lírios todos, os lírios-do-brejo ― copos-de-leite, lágrimas-de-moça, são-josés. Mas, Otacília, era como se para mim ela estivesse no camarim do Santíssimo. A Nhorinhá ― nas Aroeirinhas ― filha de Ana Duzuza. Ah, não era rejeitã... Ela quis me salvar? De dentro das águas mais clareadas, aí tem um sapo roncador. Nonada! A mais, com aquela grandeza, a singeleza! Nhorinhá puta e bela. E ela rebrilhava, para mim, feito itamotinga. Uns talismãs. A mocinha Miosótis? Não. A Rosauarda. Me alembrei dela; todas as minhas lembranças eu queria comigo. Os dias que são passados vão indo em fila para o sertão. Voltam, como os cavalos! os cavaleiros na madrugada ― como os cavalos se arraçôam. O senhor se alembra da canção de Siruiz? Ao que aquelas crôas de areia e as ilhas do rio, que a gente avista e vai guardando para trás. Diadorim vivia só um sentimento de cada vez. Mistério que a vida me emprestou! tonteei de alturas. Antes, eu percebi a beleza daqueles pássaros, no Rio dasVelhas ― percebi para sempre. O manuelzinho-da-crôa. Tudo isso posso vender? Se vendo minha alma, estou vendendo também os outros. Os cavalos relincham sem causa; os homens sabem alguma coisa da guerra? Jagunço é o sertão. O senhor pergunte! quem foi que foi que foi o jagunço Riobaldo? Mas aquele menino, o Valtêi, na hora em que o pai e a mãe judiavam dele por lei, ele pedia socôrro aos estranhos. Até o Jazevedão, estivesse ali, vinha com brutalidade de socôrro, capaz. Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente ― o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe. O Reinaldo era Diadorim ― mas Diadorim era um sentimento meu. Diadorim e Otacília. Otacília sendo forte como a paz, feito aqueles largos remansos do Urucúia, mas que é rio de braveza. Ele está sempre longe. Sozinho. Ouvindo uma violinha tocar, o senhor se lembra dele. Uma musiquinha até que não podia ser mais dansada ― só o debulhadinho de purezas, de virar-virar... Deus está em tudo ― conforme a crença? Mas tudo vai vivendo demais, se remexendo. Deus estava mesmo vislumbrante era se tudo esbarrasse, por uma vez. Como é que se pode pensar toda hora nos novíssimos, a gente estando ocupado com estes negócios gerais? Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda a hora a gente está num cómpito. Eu penso é assim, na paridade. O demónio na rua... Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro é o do sentidor. O que eu quero, é na palma da minha mão. Igual aquela pedra que eu trouxe do Jequitinhonha. Ah, pacto não houve. Pacto? Imagine o senhor que eu fosse sacerdote, e um dia tivesse de ouvir os horrores do Hermógenes em confissão. O pacto de um morrer em vez do outro ― e o de um viver em vez do outro, então?! Arrenego. E se eu quiser fazer outro pacto, com Deus mesmo ― posso? ― então não desmancha na rás tudo o que em antes se passou? Digo ao senhor: remorso? Como no homem que a onça comeu, cuja perna. Que culpa tem a onça, e que culpa tem o homem? As vezes não aceito nem a explicação do Compadre meu Quelemém; que acho que alguma coisa falta. Mas, medo, tenho; mediano. Medo tenho é porém por todos. E preciso de Deus existir a gente, mais; e do diabo divertir a gente com sua dele nenhuma existência. O que há é uma certa coisa ― uma só, diversa para cada um ― que Deus está esperando que esse faça. Neste mundo tem maus e bons ― todo grau de pessoa. Mas, então, todos são maus. Mas, mais então, todos não serão bons? Ah, para o prazer e para ser feliz, é que é preciso a gente saber tudo, formar alma, na consciência; para penar, não se carece: bicho tem dor, e sofre sem saber mais porque. Digo ao senhor: tudo é pacto. Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais ― a gente levanta, a gente sobe, a gente volta! Deus resvala? Mire e veja. Tenho medo? Não. Estou dando batalha. E preciso negar o que o Que-Diga existe. Que é que diz o farfal das folhas? Estes gerais enormes, em ventos, danando em raios, e fúria, o armar do trovão, as feias onças. O sertão tem medo de tudo. Mas eu hoje em dia acho que Deus é alegria e coragem ― que Ele é bondade adiante, quero dizer. O senhor escute o buritizal. E meu coração vem comigo. Agora, no que eu tive culpa e errei, o senhor vai me ouvir.

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Esta manhã

Esta manhã, nasceram as crias
de cardeal, e já chilreiam,
pedindo alimento. Eles não sabem
donde vem, apenas continuam
a gritar “Mais! Mais!”.
Em relação ao resto, não têm qualquer
pensamento formulado. Os seus olhos
ainda não se abriram, nada sabem
sobre o céu que as esperam. Ou sobre
as centenas, milhares de árvores.

E assim, como se dum mero
evento de bairro se tratasse,
um milagre acontece.

Mary Oliver (versão de Pedro Belo Clara)

O impagável Laerte

“Não quero o fim...”

Ela lhe deu o livro e disse:
É uma estória de amor muito bonita. Mas não quero o fim para nós...
Na capa do livro estava escrito As pontes de Madison.
Madison era o nome de uma daquelas cidadezinhas pacatas do interior norte-americano, lugar de criadores de gado. Novidades não havia, todas as noites era a mesma coisa: os homens se reuniam nos bares para beber cerveja e falar sobre touros e vacas, ou jogavam boliche com suas mulheres, que durante o dia cuidavam da casa e cozinhavam. Aos domingos a família ia à igreja e cumprimentava o pastor na saída pelo bom sermão. Todos conheciam todos, todos sabiam de tudo, vida privada não havia, nem segredos, e como gado manso ninguém se atrevia a pular a cerca, porque todos ficariam sabendo.
A cidade era vazia de atrativos além do gado, a não ser algumas pontes cobertas sobre um rio às quais os moradores não atribuíam nenhuma importância. Eram cobertas como proteção contra as nevascas de inverno, que poderiam interditá-las, bloqueando o tráfego dos veículos. Só uns poucos turistas que paravam no lugar as julgavam dignas de ser fotografadas.
A família, pacata como todas as outras, era composta de marido, mulher e dois filhos. Tinham cabeça de criadores de gado, cheiro de criadores de gado, olhos de criadores de gado e sensibilidade de criadores de gado. A esposa era uma mulher bonita e discreta, de sorriso e olhos tristes. Mas o marido não a via, lotado que estava com touros e vacas.
Sua rotina de vida era igual à rotina de todas as outras mulheres. Essa era a sorte comum de todas, que, em Madison, haviam se esquecido da arte de sonhar. A porta das gaiolas podia ficar aberta, mas suas asas tinham desaprendido a arte do voo.
Marido e filhos tratavam a casa como uma extensão dos currais, e havia na cozinha aquela porta de molas que batia no batente, produzindo um ruído seco como o de uma porteira, sempre que entravam. A mulher já lhes havia pedido vezes sem conta que segurassem a porta para que ela fechasse de mansinho. Mas o pai e os filhos, acostumados à música da porteira, não prestavam atenção. Com o passar do tempo ela compreendeu que era inútil. A batida seca da porta passou a ser o sinal de que marido e filhos haviam chegado.
Aquele era um dia diferente. Havia excitação na cidade. Os homens se preparavam para levar seus animais a uma exposição de gado numa cidade próxima. As mulheres ficariam sozinhas. Na cidadezinha amiga estariam protegidas.
E assim aconteceu com ela naquele dia em que a porta não bateu...
Era uma tarde parada e calorenta. Nem uma vivalma até onde a vista alcançava. Ela, sozinha na casa.
Rompendo a mesmice de todos os dias, passou pela estrada de terra um estranho guiando um jipe. Estava perdido – enganara-se sobre as estradas, que não tinham indicações, e procurava alguém que pudesse ajudá-lo a encontrar aquilo que procurava. Era um fotógrafo que procurava as pontes cobertas, para escrever um artigo para a National Geographic Magazine.
Vendo a mulher que da varanda o observava interrogativa – quem seria? –, ele parou defronte da casa. Surpreendido que uma mulher tão bonita estivesse sozinha naquele fim de mundo, ele se aproxima e é convidado a subir até a varanda. Que mal poderia haver nesse gesto de cortesia? Ele estava suado. Que mal haveria em tomarem juntos uma limonada gelada? Quanto tempo fazia que ela não conversava assim com um homem estranho, sozinha?
Foi então que aconteceu. E os dois disseram em silêncio: “Quando te vi amei-te já muito antes...”. E assim a noite passou, com um amor manso, delicado e apaixonado, que nem ela nem ele jamais haviam experimentado.
Mas o tempo da felicidade passa rápido. A madrugada chegou. A vida real em breve entraria pela porta: filhos, marido e o barulho seco da porta. Hora da despedida, hora do “nunca mais”.
Mas a paixão não aceita separações. Ela deseja a eternidade: Que seja eterno embora chama e infinito para todo o sempre... Eles tomam, então, a decisão de partir juntos. Ele a esperaria numa determinada esquina. Para ele seria fácil – solteiro, livre, nada o prendia. Difícil para ela, presa ao marido e aos filhos. E ela pensava na humilhação que sofreriam na tagarelice dos bares e da igreja.
Chovia forte. Ela e o marido se aproximam da esquina combinada, o marido sem suspeitar do sofrimento de paixão assentado ao seu lado. Sinal vermelho. O carro para. Ele a espera na esquina, a chuva lhe escorrendo pelo rosto e pelas roupas. Seus olhares se encontram. Ele, decidido, esperando. Ela, partida pela dor. A decisão ainda não está feita. Sua mão está crispada sobre a maçaneta. Bastaria um movimento da mão, não mais que cinco centímetros. A porta se abriria, ela sairia sob a chuva e iria abraçar aquele que amava. A luz verde do semáforo se acende. A porta não se abre. O carro segue rumo ao “nunca mais”...
E esse é o fim da estória no livro (e no filme) e na vida…

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

Sono intermitente


Quase duas horas da manhã. O sono intermitente. Não sei se estava acordado ou dormindo, ninguém ao meu lado para perguntar. Levanto da cama, os olhos borrando o quarto, o corpo fazendo carga nos joelhos, equilíbrio é palavra sem significado depois de certa idade, certas doenças. Olho pela janela com a esperança de que seja ela quem chega ao carro que barulha na porta do prédio. Bobagem, Ana nunca dirigiu ou teve costume de sair sem mim à noite. Afasto a cortina apenas o suficiente para espiar o rapaz que salta do táxi, guarda o troco no bolso de trás da calça jeans e espera que o porteiro lhe abra a porta.
Afasto-me da janela. Sento na cama. Deito. Demoro a fazer cada movimento. Sou todo demora agora. De primeira, a perna não atende ao comando do cérebro, os joelhos doem, sempre, em pé mais do que sentado ou deitado. Olhos abertos. No teto, o ventilador de madeira, imóvel, despenca sua pele-verniz. Quantas vezes virei de um lado para o outro da cama buscando a memória de sua companhia?
Levanto novamente, com custo: sede, urina, barulho? Nada disso. Sei que levanto para expulsar da mente a imagem de Ana e meu afeto por ela. Quantifico sentimento, sim. Afeto é diferente de amor, mas também chama por saudade. Tentar colocar meu corpo de pé exige tudo de mim, não resta espaço para devaneios. Olho pela janela, rosto co lado no vidro, nem quente nem gelado, procurando através de sua lente encontrar Ana despontando na esquina. Deito novamente na cama, devagar, mãos apoiadas primeiro, depois deixar o peso do corpo derramar-se sobre o colchão. Caio torto, mas não importa, a cama grande, latifúndio improdutivo. Desta vez fecho os olhos. Com força. Ana sempre tinha o mesmo pesadelo, logo que dormia, pensamento inaugural do sono. Sonhava que eu a deixava. As formas variadas, iguais: eu revelava que tinha outra família, depois ia embora, morria; dizia que não a amava mais, ia embora, morria; a pedia em casamento no ponto mais alto de uma roda-gigante, ia embora, morria.
Ana acordava chorando, eu já de olhos abertos, vigília premeditada. Ela ensejava dizer alguma coisa, eu a abraçava, abortando qualquer tentativa. Mesmo assim sempre me contava o sonho, pesadelo, com detalhes, e no final reforçava, resumindo: “Você me deixava, morria.”
Um mosquito zumbiu no meu ouvido. Estalei minhas palmas na direção do barulho. Insucesso. O som persistiu e eu abri os olhos, acendi o abajur. O quarto é um silêncio de paredes brancas e porta-retratos nas mesas de cabeceira. Ana testemunha calada, sorriso eternamente congelado, uma felicidade agora totalmente despropositada. Numa foto está vestida de noiva, mas não é a minha preferida. A que mais gosto é dela um pouco mais velha, no dia em que trouxemos Marlene, mas na foto só Ana aparece, não olha para a câmera ou para mim, o fotógrafo, olhava para a filha, um bebê já gorducho, dormindo no berço.
O mosquito sumiu. Olho para o lado, o travesseiro dela intocado, intocável, os lençóis não desfeitos, o edredom no lugar, as três almofadas que Ana usava no final sem marca de uso, peso. A Ana do final da vida vai se apagando, a não ser nesses detalhes. Lembro dela mais jovem, quase bonita, judia. É com essa Ana que casei e continuo casado, mesmo depois de sua morte.
Decido ligar o ventilador para encontrar o mosquito, e é claro que com isso quero ganhar tempo, mesmo perdendo. As duas mãos apoiadas na cama, as pernas fincadas no chão, levantar, pôr-se de pé, caminhar, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, os primeiros passos ainda pedindo ajuda do cérebro, depois não. O ventilador agora rodando, muito barulho, suas pás fazendo um movimento que não é o de 360 graus, algo como 390, descendo um tanto mais, mergulhando justamente no lado intocado da cama.
Não escuto ou vejo o mosquito, desligo o ventilador. Ele parece agradecer, zumbindo de maneira diferente, quase como se colocasse a língua para fora e ofegasse depois de um pique curto. Já passou da idade, passamos.
Fecho a porta do quarto, e no espelho vejo em minha testa uma marca vermelha, a memória da mordida do mosquito, uma pontinha de sangue extirpado. Ainda me faz companhia, de um modo. Ana também, mas foi embora, morreu.

Flávio Izhaki, em Amanhã não tem ninguém

02/06/2025

Mestrinho | Bom Danado

Desprezo

Desprezo era um lugarejo. Acho que lugar
desprezado é mais triste do que abandonado.
Não sei por quê caminhos o mundo me tirou do
Desprezo para este Posto de gazolina na
estrada que vai pra São Paulo. Acho quase um
milagre. Quando a gente morava no Desprezo
ele já era desprezado. Restavam três casas em
pé. E três famílias com oito guris que corriam
pelas estradas já cobertas de mato. Eu era um
dos oito guris. Agora estou aqui botando
gazolina para os potentados. Naquele tempo
do Desprezo eu queria ser chão, isto ser:
para que em mim as árvores crescessem. Para
que sobre mim as conchas se formassem. Eu
queria ser chão no tempo do Desprezo para
que sobre mim os rios corressem. Me lembro
que os moradores do Desprezo, incluindo os
oito guris, todos queriam ser aves ou coisas
ou novas pessoas. Isso quer dizer que os
moradores do Desprezo queriam ficar livres
para outros seres. Até ser chão servia como
era o meu caso. Ninguém era responsável pelas
preferências dos outros. Nem isso era uma
brincadeira. Podia ser um sonho saído do
Desprezo. Uma senhora de nome Ana Belona queria
ser árvore para ter gorjeios. Ela falou que não
queria mais moer solidão. Tinha um homem com
o olhar sujo de dor que catava o cisco mais
nobre do lugar para construir outra casa. Não
sei por quê aquele homem com olhar sujo de dor
queria permanecer no Desprezo. Eu não sei
nada sobre as grandes coisas do mundo, mas
sobre as pequenas eu sei menos.

Manoel de Barros, em Memórias Inventadas – A segunda infância

Do injusto e do mau

Quem comete o mal acomete contra si próprio. Quem perpetua a injustiça é injusto consigo mesmo — porque se torna mau.

Marco Aurélio, em Meditações

Um quilo de...

Um telefonema

O telefone tocou, eu atendi, chamaram por mim. Em geral pergunto quem é porque nem sempre estou disposta a ser chateada.
Mas dessa vez alguma coisa na voz, doce e tímida, me fez dizer que era eu mesma que estava ao telefone. Então a voz disse: sou uma leitora sua e quero que você seja feliz. Perguntei: como é seu nome? Respondeu: uma leitora. Eu disse: mas eu quero saber seu nome para poder dizê-lo ao desejar que você seja feliz. Mas foi inútil, ela não tinha sequer diante de mim a vontade de aparecer como pessoa que é. Era o anonimato completo. Mas para você, de quem nem ao menos sei o nome, quero que tenha alegrias e que, se já não é casada, que encontre o homem de sua vida. Peço também que não leia tudo o que escrevo porque muitas vezes sou áspera e não quero que você receba minha aspereza.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Enquanto agonizo


Darl

A candeia está sobre um toco. Enferrujada, manchada de graxa, com o vidro partido e coberto, de um lado, por uma nódoa de fuligem, ela lança uma claridade fraca e deprimente sobre os cavaletes, sobre as tábuas e a terra adjacente. Sobre o solo escuro as ripas assemelham-se a manchas irregulares: de tinta pálida, aguada, em tela negra. As tábuas parecem compridos farrapos lisos, destacados da escuridão plana e virados de revés.
Cash labuta nos cavaletes, avançando e recuando, levantando e ajustando as tábuas que despedem longos revérberos chispantes no ar morto, como se ele as erguesse e deixasse tombar no fundo de invisível poço, os sons cessando mas não desaparecendo, como se qualquer movimento os deslocasse do ar imediato, em reverberante repetição. Ele volta a serrar, o cotovelo cintila suavemente, um pálido fio de fogo correndo ao longo do fio da serra, perdido e recuperado no vaivém de cada investida, em contínuo prolongamento, de forma que a serra parece ter quase dois metros de comprimento, quando entra e sai da silhueta inútil e mesquinha de Pai. “Passe-me esta tábua”, diz Cash. “Não, a outra.” Ele pousa a serra e avança e apanha a tábua que deseja, afastando Pai com a larga claridade que a tábua emite ao balouçar.
O ar cheira a enxofre. Sobre a impalpável superfície do ar, suas sombras formam, a bem dizer, tuna parede, como se, a exemplo dos sons, não se afastassem muito ao cair, mas se tivessem apenas coagulado por um breve instante, imediatas e sonhadoras. Cash trabalha, meio voltado para a débil luz, com uma coxa e um dos braços magros estendidos, o rosto fundido na luz, com uma expressão de imobilidade arrebatada e dinâmica acima do cotovelo incansável. No céu baixo, relâmpagos palpitam de leve; contra o céu, as árvores, imóveis, estão eriçadas até o Ínfimo ramo, inchadas, aumentadas como se estivessem prenhes.
Começa a chover. As primeiras gotas, esparsas, velozes, caem através das folhas e no chão com um longo suspiro, como de alivio após um intolerável suspense. São grossa; como chumbo, quentes como se disparadas pelo cano de uma arma de fogo; golpeiam a candeia num tamborilar vicioso. Pai ergue o rosto, com a boca escancarada, o tabaco preto e úmido amassado contra as gengivas; por trás do rosto atônito chegam, fora de tempo ideias acerca desse supremo ul traje. Cash olha uma só vez para o céu, depois para a candeia. A serra não parou, não interrompeu o resplendor corredio de seus dentes. “Traga alguma coisa para cobrir a candeia”, ele diz.
Pai dirige-se à casa. A chuva tomba violenta, sem estrondo, sem advertência de nenhuma espécie; ele fica molhado ao chegar ao canto do alpendre e, num átimo, Cash tem a pele encharcada. Contudo, e movimento da serra não parou, como se ela e o braço funcionassem com a tranquila convicção de que a chuva fosse ilusão do espírito. Então, ele pousa a serra e se debruça sobre a candeia, protegendo-a com o corpo, as costas arqueadas e ossudas coladas na camisa molhada, como se tivesse sido virado, repentinamente, pelo avesso, camisa e tudo o mais.
Pai volta. Veste o impermeável de Jewel e traz na mão o de Dewey Dell. Curvado por cima da candeia, Cash apanha quatro estacas, finca-as no chão e, pegando a capa de chuva de Dewey Dell, estende-a sobre os paus, formando um telhado em cima da candeia. Pai observa-o. "Não sei o que você pretende fazer", ele diz. “Darl levou o casaco.” “Molhar-me”, diz Cash. Empunha novamente a serra; novamente ela sobe e desce, dentro e fora da calma impenetrabilidade de um pistão mergulhado em querosene; encharcado, ossudo, infatigável, com o corpo esguio e encurvado de um menino ou de um velho, Cash trabalha. Pai observa-o, piscando os olhos, a água escorrendo-lhe pela cara; novamente olha o céu com aquela expressão de afronta e, sobretudo, de represália, como se não esperasse outra coisa; de vez em quando se move, muda de lugar, descarnado e gotejante, apanha uma tábua ou uma ferramenta e em seguida deixa-a cair. Vernon Tull está ali agora e Cash usa o Impermeável de Mrs. Tull e ele e Vernon procuram a serra. Pouco depois a encontram na mão de Pai.
Por que não vai para casa proteger-se da chuva?”, diz Cash. Pai olha-o, a água escorrendo lentamente pelo rosto.
É como se em seu rosto esculpido por um caricaturista primitivo flutuasse a monstruosa máscara da privação. “Vá para casa”, diz Cash. “Eu e Vernon terminaremos Isto.” Pai olha-os. As mangas do casaco de Jewell são muito curtas para ele. Sobre seu rosto escorre a chuva, devagar e fria nua! glicerina. “Não me importo que a chuva me molhe”, diz. Avança e se curva para apanhar as tábuas, pousando-as. de novo, cuidadosamente, como se fossem de vidro. Dirige-se à candeia e repuxa, de tal forma, o impermeável esticado, que este cai e obriga Cash a arranjá-lo adequadamente.
Vá para casa”, diz Cash. Conduz Pai à casa e volta com o impermeável e dobra-o e coloca-o embaixo do abrigo onde está a candeia. Vernon não parou. Levanta a vista, ainda serrando.
Você devia ter feito isto antes”, diz. “Sabia que ia chover.” “É a febre dele”, diz Cash. E olha a tábua.
Ah, sim”, diz Vernon. “Ele viria, de qualquer forma.” Cash mede a tábua com o olhar. Sobre sua comprida superfície a chuva cai com firmeza, flutuante, em miríades. “Vou aplainá-la”, diz.
Isso demora ainda mais”, diz Vernon. Cash deita a tábua; Vernon olha-o durante um momento, depois lhe passa a plaina.
Vernon segura a tábua, com firmeza, enquanto Cash aplica a plaina com o cuidado tedioso e minudente de um joalheiro. Mrs. Tull chega ao corrimão do alpendre e chama Vernon. “Vocês ainda demoram?”, pergunta.
Vernon não levanta a vista. “Não. Falta pouco.” Ela observa Cash debruçado sobre a tábua; o túrgido e bravio brilho da candeia desliza pelo impermeável, quando ele se movimenta. “Vão apanhar umas tábuas no celeiro e acabem logo e saiam da chuva”, ela diz. “Vocês podem pegar um resfriado mortal.” Vernon não se move. “Vernon”, ela diz.
Não vamos demorar muito”, diz. “Daqui a pouco está pronto.” Mrs. Tull observa-os por um instante. Em seguida, entra na casa.
Se for preciso mesmo, podemos recorrer àquelas tábuas”, diz Vernon. “Eu o ajudarei a trazê-las.” Cash para a plaina, mede a tábua com o olhar e passa a palma da mão por sua superfície. “Passe-me a outra”, diz. Pouco antes da aurora, a chuva cessa. Mas o dia ainda não rompeu quando Cash bate o último prego e ergue o tronco e olha para o caixão pronto, com os outros a observá-lo. A luz da candeia, seu rosto está calmo, pensativo; vagarosamente, golpeia as mãos no impermeável, à altura das coxas, em gesto deliberado, final e compenetrado. Então, os quatro — Cash e Pai e Vernon e Peabody — levantam o caixão nos ombros e se dirigem à casa. Ele é leve, mas, mesmo assim, os homens movimentam-se devagar; está vazio, e no entanto carregam-no com cuidado; não tem vida, contudo caminham pronunciando entre si palavras de precaução, falando dele como se, completo, estivesse agora levemente desperto, à espera de acordar de todo. No chão escuro, seus pés pisam desajeitadamente, como se, há muito tempo, não caminhassem sobre o assoalho de um casa.
Pousam o caixão junto à cama. Peabody diz tranquilamente: “Vamos forrar o estômago. Já e quase dia. Onde está Cash?” Ele voltou aos cavaletes e, outra vez inclinado à débil luz da candeia, recolhe as ferramentas, envolve-as zelosamente num pano e as põe na caixa com a tira de couro para trespassar no ombro. Em seguida, apanha a caixa, a candeia e o impermeável e volta à casa, e, ao subir os degraus, sua desbotada silhueta recorta-se contra o palor do dia nascente.
Em quarto estranho é preciso criar em nós mesmos o vazio, para poder dormir. E antes de se ficar vazio para o sono. Que é que somos, afinal? E quando ficamos vazios para o sono, já não somos nada. E quando estamos cheios de sono.
Nunca somos nada. Não sei o que sou. Não sei se sou ou não sou. Jewel sabe que ele é, porque não sabe que ele não sabe se é ou não é. Não pode esvaziar-se para dormir porque não é o que é e é o que não é. Além da parede escura, posso ouvir a chuva modelando a carroça que é nossa, a carga que já não pertence aos que derrubaram e serraram a madeira, e que também não é deles, que a compraram, e tampouco nossa, embora esteja amontoada em nossa carroça, pois só o vento e a chuva a modelam para Jewel e para mim, que não estamos dormindo. E já que o sono é o não ser e a chuva e o vento são o que foram, a carroça não é. Contudo, a carroça é, porque, quando a carroça era, Addie Bundren não seria. E Jewel é, portanto Addie Bundren tem de ser. E, nesse caso, eu devo ser, ou não poderia esvaziar-me para dormir em quarto estranho, E se ainda não estou vazio, então eu sou.
Quantas vezes já dormi embaixo da chuva, em teto estranho, pensando na minha casa.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo