quinta-feira, 5 de junho de 2025

Do diário epistolar de César

Para Lúcio Mamilio Turrino, na ilha de Capri

Na noite de 27 para 28 de outubro
1013, (Sobre a morte de Catulo). Estou velando à cabeceira de um amigo agonizante: o poeta Catulo. De tempo em tempo adormece e, como de costume, tomo a pena, talvez para evitar a reflexão.
Acaba de abrir os olhos. Pronunciou o nome de seis Plêiades, e me perguntou o sétimo.
Agora dorme.
Passou uma outra hora. Conversamos. Não sou novato nisto de velar à cabeceira dos moribundos. Aos que sofrem, deve-se falar sobre eles mesmos; aos de mente lúcida, elogiar-lhes o mundo que abandonam. Não há dignidade alguma em abandonar um mundo desprezível, e aqueles que morrem soem temer que a vida talvez não tenha compensado os esforços que lhes custou. Pessoalmente, jamais me faltam motivos para elogiá-la.
No transcurso desta hora paguei uma velha dívida. Durante minhas campanhas, muitas vezes visitou-me um sonho persistente: caminhava de cá para lá frente a minha tenda, no meio da noite, improvisando um discurso.. Imaginava ter congregado um auditório seleto de homens e mulheres, quase todos eles jovens, aos quais eu desejava ardentemente revelar tudo o quanto havia aprendido na poesia imortal de Sófocles — em minha adolescência, em minha maturidade, como soldado, como estadista, como pai, como filho e como homem enamorado, através de alegrias e de vicissitudes —. Queria, antes de morrer, descarregar meu coração (tão rapidamente transbordante!) de toda esta gratidão e louvor.
Ah, sim! Sófocles foi um homem; e sua obra totalmente humana.
Eis aqui a resposta a uma velha pergunta. Os deuses nem lhe deram apoio, nem se negaram a ajudá-lo; não é esta sua forma de proceder.
Porém se eles não tivessem estado ocultos, Sófocles não teria lutado tanto para encontrá-los.
Assim, viajei: sem poder ver a um pé de distância, entre os Alpes mais elevados, porém jamais com passo tão seguro. A Sófocles bastava viver como se os Alpes tivessem estado sempre ali.
E agora, também Catulo estava morto.

Thorton Wilder. Os idos de março (1945), em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges

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