Para Lúcio Mamilio Turrino, na
ilha de Capri
Na noite de 27 para 28 de outubro
1013, (Sobre a morte de Catulo). Estou
velando à cabeceira de um amigo agonizante: o poeta Catulo. De tempo
em tempo adormece e, como de costume, tomo a pena, talvez para evitar
a reflexão.
Acaba de abrir os olhos. Pronunciou o
nome de seis Plêiades, e me perguntou o sétimo.
Agora dorme.
Passou uma outra hora. Conversamos.
Não sou novato nisto de velar à cabeceira dos moribundos. Aos que
sofrem, deve-se falar sobre eles mesmos; aos de mente lúcida,
elogiar-lhes o mundo que abandonam. Não há dignidade alguma em
abandonar um mundo desprezível, e aqueles que morrem soem temer que
a vida talvez não tenha compensado os esforços que lhes custou.
Pessoalmente, jamais me faltam motivos para elogiá-la.
No transcurso desta hora paguei uma
velha dívida. Durante minhas campanhas, muitas vezes visitou-me um
sonho persistente: caminhava de cá para lá frente a minha tenda, no
meio da noite, improvisando um discurso.. Imaginava ter congregado um
auditório seleto de homens e mulheres, quase todos eles jovens, aos
quais eu desejava ardentemente revelar tudo o quanto havia aprendido
na poesia imortal de Sófocles — em minha adolescência, em minha
maturidade, como soldado, como estadista, como pai, como filho e como
homem enamorado, através de alegrias e de vicissitudes —. Queria,
antes de morrer, descarregar meu coração (tão rapidamente
transbordante!) de toda esta gratidão e louvor.
Ah, sim! Sófocles foi um homem; e sua
obra totalmente humana.
Eis aqui a resposta a uma velha
pergunta. Os deuses nem lhe deram apoio, nem se negaram a ajudá-lo;
não é esta sua forma de proceder.
Porém se eles não tivessem estado
ocultos, Sófocles não teria lutado tanto para encontrá-los.
Assim, viajei: sem poder ver a um pé
de distância, entre os Alpes mais elevados, porém jamais com passo
tão seguro. A Sófocles bastava viver como se os Alpes tivessem
estado sempre ali.
E agora, também Catulo estava morto.
Thorton Wilder. Os idos de março (1945), em Livro de Sonhos, de Jorge Luís Borges
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