27.
A literatura, que é a arte casada com
o pensamento e a realização sem a mácula da realidade, parece-me
ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse
verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que
dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os
campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores,
se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação,
terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é
sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se
descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal
poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia
está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom,
ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom num a memória
florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos
astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será,
para os que nos seguirem na diversidade do tempo, conforme nós
intensamente o houvermos imaginado, isto é, o houvermos, com a
imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não creio que a
história seja mais, no seu grande panorama desbotado, que um decurso
de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos.
O romancista é todos nós, e narramos
quando vemos, porque ver é complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos
fundamentais, tantas coisas verdadeiramente metafísicas que dizer,
que me canso de repente, e decido não escrever mais, não pensar
mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e eu faça festas
com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia ter
dito.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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