03/04/2021

Nomes

Um dia, todos os bonecos e bonecas da Helena começaram a falar. O primeiro foi o urso Pompeu.
Helena estava dormindo e acordou de manhã com a voz do Pompeu, que dizia: — Olha a hora, preguiçosa. Helena abriu os olhos em volta. Quem a chamara?
— Fui eu — disse Pompeu.
— Urso não fala — disse Helena.
— Mas eu não sou um urso de verdade — respondeu Pompeu, como se isto explicasse tudo.
Helena levantou da cama e levou um susto. Todos os seus bonecos e bonecas a cumprimentaram.
— Bom-dia — disse a Suzi.
— Oi — disse o Molengão.
— Hello — disse o cachorro, que era americano.
Helena ficou de boca aberta.
— Eu não sabia que vocês falavam! — disse.
— Nem nós — disse a Suzi.
— É o maior barato! — disse a boneca de pano, que a Helena chamava de Matilde e era muito espevitada.
— Eu sei até cantar — disse o Pompeu. E começou a cantar, até que os outros fizeram “sssh” e mandaram parar.
— Mas isto é ótimo! — disse Helena. — Agora eu vou poder conversar com vocês de verdade. Antes só eu falava e ninguém respondia.
— Tem uma coisa... — disse o Molengão.
— O que é?
— Você nos chama pelos nomes errados.
— Mas fui eu que botei os nomes em vocês. A não ser pela Suzi, que já veio da loja com esse nome.
— Pois nem eu me chamo Suzi — disse a Suzi. — Meu nome mesmo é Eunice.
— O meu é Geraldo — disse Pompeu.
— O meu é Felipe — disse o Molengão. — Mas você pode me chamar de Felipão.
— E o seu, como é? — perguntou Helena, apontando para o cachorro.
— What? — disse o cachorro, em inglês.
— Como é o seu nome? — repetiu Helena. Quando a gente fala com estrangeiro, é só falar bem devagar que eles entendem.
— Meu nome é Sam — disse o cachorro. — Sam Smith.
— E o meu nome vocês nem desconfiam qual é — disse a boneca de pano. — É Saralara!
— Que nome esquisito! — disse o Molengão. Quer dizer, o Felipão.
— Esquisita é a sua cara! — disse a boneca.
— Não briguem — pediu Helena.
— E o seu verdadeiro nome, como é, Helena? — quis saber Geraldo, o ex-Pompeu.
— É Helena, ué.
— Helena é o nome que deram para você. Como é que você se chama?
Helena ficou pensativa. Gostava do nome Helena. Mas, no fundo, no fundo, sempre se achara com cara de Rejane. Devia ser o seu nome de verdade.
— É Rejane — disse.
A mãe de Helena entrou no quarto e disse que era para ela interromper aquele papo com os bonecos porque estava na hora de escovar os dentes, tomar café e ir para a escola. Antes de sair do quarto, Helena, ou Rejane, ainda fez uma pergunta para os bonecos. Era uma coisa que a estava intrigando.
— Eu botei nomes em vocês porque vocês não falavam e não podiam dizer seus nomes de verdade, certo?
— Certo.
— Quer dizer que todas as outras coisas neste quarto também têm nomes que a gente não sabe. Se pudessem falar, elas nos diriam qual é.
— Exatamente.
— Eu, por exemplo — disse Saralara —, sei que cama não se chama “cama”.
— E como é que ela se chama? — quis saber Helena.
— É “Frunfra” — disse Saralara.
— E armário é “Bozório” — revelou Geraldo.
— Tapete se chama “Abajur” — disse Eunice.
— E abajur, como se chama? — perguntou Helena.
— Carlos Henrique.
Helena contou tudo isto para os seus pais, que acharam engraçado mas não acreditaram muito. Os adultos não têm nenhuma imaginação.
— Senta direito na cadeira — disse a mãe de Helena.
— Cadeira, não — corrigiu Helena. — Sploct.

Luís Fernando Veríssimo, in O santinho

Snoopy

 

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas –,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

Com o mundo nas mãos

 


Bernardo tem cinco anos mas já sabe da existência do Japão. E aponta para o céu com o dedo:
– É atrás daquele teto azul que fica o Japão?
Tenho de explicar-lhe que aquilo é o céu, não é teto nenhum.
– Mas então o céu não é o teto do mundo?
– Não: o céu é o céu. O mundo não tem teto. O azul do céu é o próprio ar. O Japão fica é lá embaixo – e apontei para o chão. – O mundo é redondo feito uma bola. Lá para cima não tem país mais nenhum não, só o céu mesmo, mais nada.
Ele fez uma carinha aborrecida, um gesto de desilusão:
– Então este Brasil é mesmo o fim do mundo. Daqui pra lá não tem mais nada...
Difícil de lhe explicar o que até mesmo a mim parece meio esquisito: o mundo ser redondo, o Japão estar lá embaixo, os japoneses de cabeça pra baixo, como é que não caem? Às vezes, andando na rua e olhando para cima, eu mesmo tenho medo de cair.
Na primeira oportunidade compro e trago para casa um mapa-múndi: um desses globos terrestres modernos, aliás de fabricação japonesa, feitos de matéria plástica e que se enchem de ar, como os balões. O menino não lhe deu muita importância, quando apontei nele o Japão e a Inglaterra, o Brasil, os países todos. Limitou-se a fazê-lo girar doidamente, aos tapas, até que se desprendesse do suporte de metal. Logo se dispôs a sair jogando futebol com ele, não deixei. Consegui convencê-lo a ir destruir outro brinquedo, o secador de cabelo da mãe, por exemplo, que faz um ventinho engraçado – e assim que me vi só, tranquei-me no escritório para apreciar devidamente a minha nova aquisição.
Com o mundo nas mãos, descobri coisas de espantar. Descobri que a Coreia é muito mais lá para cima do que eu imaginava – uma espécie de penduricalho da China, ali mesmo no costado do Japão. O que é que os Estados Unidos tinham de se meter ali, tão longe de casa? O Vietnã nem me fale: uma tripinha de terra ao longo do Laos e do Camboja. Aliás, a confusão de países por ali, eu vou te contar. Tem a Tailândia e tem Burma, dois países de pernas compridas, tem a Malásia, a Indonésia. A Tasmânia não tem. Pelo menos não encontrei. Continua sendo para mim apenas a terra daquele selo enorme que em menino era o melhor da minha coleção. Dou um piparote no mundo e ele gira diante de meus olhos, para que eu descubra o que é mais que tem. Outra confusão é ali nas Arábias, onde o pau anda comendo: Síria, Líbano, Arábia Saudita, Iêmen, e o diabo de um país cor-de-rosa chamado Hadramaut de que nunca ouvi falar. Estou ficando bom em Geografia.
Duvido que alguém me diga onde fica Andorra. A última pessoa a quem perguntei, me disse que ficava nos limites do Aznavour. Pois fica é logo aqui, encravada entre a França e a Espanha, um paisinho de nada, vê quem pode. E fez aquele sucesso todo no Festival da Canção. Em compensação a Antártida é muito maior do que eu pensava, ocupa quase todo o polo Sul. E é bem no centro dela que eu tenho de soprar para encher o mundo.
De repente me vem uma ideia meio paranoide. De tanto apalpar o globo de plástico, ele acabou meio murcho, acho que o ar está escapando. E quando me disponho a enchê-lo de novo, imagino que eu seja um ser imenso solto no espaço, botando a boca no mundo para enchê-lo com meu sopro. O nosso planeta é mesmo uma bolinha perdida no cosmo, e do tamanho desta que tenho nas mãos é que os astronautas devem tê-lo visto da Lua: uma linda esfera de manchas coloridas, com seus oceanos cheios de peixes e singrados por navios, as cidades agarradas aos continentes, ruas cheias de automóveis, casas cheias de gente, o ar riscado de aviões, de gaivotas, e de urubus... Tudo isso pequenino, insignificante, microscópico, os homens se explorando mutuamente, se maltratando, se assassinando para colher um segundo de satisfação ao longo de séculos de História, não mais que alguns minutos em face da eternidade. Que aventura mais temerária, a de Deus, escolhendo caprichosamente este lindo e insignificante planetinha para a ele enviar através dos espaços o seu Filho feito homem, com a missão de redimir a nossa pobre humanidade.
Faço votos de que tenha valido a pena e que um dia ela se veja redimida. Até lá, este mundo não passará mesmo de uma bola, como esta que meu filho Bernardo, irrompendo alegremente no escritório, me arrebata das mãos e sai chutando pela casa.

Fernando Sabino, in Fernando Sabino na sala de aula

02/04/2021

Wilson Simonal e Sarah Vaughan / Shadow of your Smile (1970)

A poesia é uma inclinação profunda do homem

Como poeta atuante, combati o meu próprio ensimesmamento. Por isso, o debate entre o real e o subjetivo se decidiu dentro do meu próprio ser. Sem pretensões de aconselhar ninguém, os resultados podem auxiliar as minhas experiências Vejamo-los de relance.
É natural que a minha poesia esteja exposta tanto à opinião da crítica elevada como submetida à paixão do libelo. Isto faz parte do jogo. Sobre este aspecto da discussão não tenho voz, mas tenho voto. Para a crítica essencial, o meu voto são os meus livros, a minha poesia inteira. Para o libelo inamistoso, tenho também direito de voto — e este também é constituído pela minha própria e constante criação.
Se soa a vaidade o que digo, pode ser que tenham razão. No meu caso, trata-se da vaidade do artesão que exerceu um ofício por muitos anos com amor indelével.
Mas há uma coisa com que estou satisfeito: de uma maneira ou outra, fiz respeitar, pelo menos na minha pátria, o ofício de poeta, a profissão da poesia.
Na época em que comecei a escrever, o poeta era de dois gêneros. Uns, eram poetas grandes senhores que se faziam respeitar pelo seu dinheiro, a secundar-lhes uma legítima ou ilegítima importância. A outra família de poetas era a dos militantes errabundos da poesia, gigantes de taberna, loucos fascinantes, atormentados sonâmbulos. Resta ainda — e não devo esquecê-la — a situação daqueles escritores que vivem amarrados, como forçados à grilheta, ao lugar da administração pública. Os sonhos foram-lhe quase sempre afogados por montanhas de papel selado e terríveis receios da autoridade e do ridículo.
Eu lancei-me na vida mais nu do que Adão, mas disposto a manter a integridade da minha poesia. Esta atitude irredutível não só valeu para mim como também para que deixassem de rir os parvalhões. Se tivessem coração e consciência, esses pobres diabos deveriam render-se, como bons seres humanos, perante o essencial que os meus versos despertavam. E se fossem malévolos, tomariam medo de mim.
Assim, a Poesia, com maiúscula, foi respeitada. E não só a poesia, mas também os poetas foram respeitados. Toda a poesia e todos os poetas. Tenho plena consciência deste meu serviço à cidadania e não deixo que ninguém me arrebate a prerrogativa — porque me agrada carregar com ela como uma condecoração. O restante pode discutir-se — mas isto que conto é, nem mais nem menos, história.
Os obstinados inimigos do poeta esgrimirão muitas argumentações que já não servem. Disseram que eu andava morto de fome na mocidade. Agora, hostilizam-me persuadindo algumas pessoas de que sou um ricaço, dono de uma fortuna fabulosa que, embora não tenha, muito gostaria de ter, principalmente para os incomodar ainda mais.
Outros medem a pauta dos meus versos, provando que os divido em pequenos fragmentos ou os estico demasiado. Não tem nenhuma importância. Quem determina que os versos sejam mais curtos ou mais compridos, mais delgados ou mais gordos, mais amarelos ou mais vermelhos? O poeta que os escreve. Determina-o com a sua respiração e o seu sangue, com a sua sabedoria e a sua ignorância, porque tudo isso entra no pão da poesia.
O poeta que não seja realista está morto. Mas o poeta que seja só realista está morto também. O poeta que seja apenas irracionalista só será compreendido por si mesmo e pela sua amada, o que é bastante triste. O poeta que seja só um racionalista será compreendido até pelos asnos, o que é também sumamente triste. Para tais equações não há cifras na pauta, não há ingredientes decretados por Deus, nem pelo Diabo. Pelo contrário: estas duas personagens importantíssimas mantêm uma luta constante dentro da poesia, e nesta batalha ou vence uma ou vence a outra. Mas a poesia é que não pode ficar derrotada.
É evidente que o ofício de poeta está a ser alvo de certos abusos. Surgem tantos poetas novéis e tantas incipientes poetisas que não tardará muito a parecermos todos poetas, desaparecendo os leitores. Teremos de ir à procura deles em expedições que atravessarão os areais em camelos ou circularão pelo céu em astronaves.
A poesia é uma inclinação profunda do homem. Dela saíram a liturgia, os salmos e também o conteúdo das religiões. O poeta arriscou-se a defrontar os fenômenos da natureza e, nas primeiras idades, intitulou-se sacerdote a fim de preservar a vocação. Daí que, na época moderna, o poeta, para defender a sua poesia, aceite a investidura que lhe dão a rua e as massas. O poeta civil de hoje continua a ser o representante do mais antigo sacerdócio. Anteriormente pactuou com as trevas. Agora deve interpretar a luz.

Pablo Neruda, in Confesso que Vivi

Falso dilema

O falso dilema é um argumento que apresenta apenas duas categorias possíveis e parte do princípio de que tudo no âmbito da discussão deva pertencer somente a uma ou a outra destas possibilidades opostas. Assim, ao rejeitar uma das opções, a pessoa não teria alternativa a não ser aceitar a outra. Por exemplo: “Na guerra ao fanatismo, não há neutralidade: ou você está do nosso lado, ou está com os extremistas.” Na realidade, há uma terceira opção, a de estar neutro; e uma quarta, de ser contra os dois lados; e ainda uma quinta opção, de concordar com razões de ambos.
O livro The Strangest Man, biografia do gênio da física quântica Paul Dirac, escrito por Graham Farmelo, reproduz uma divertida parábola contada pelo físico Ernest Rutherford: Um homem comprou um papagaio numa loja de animais, mas depois voltou pedindo outro, porque o pássaro não falava. O gerente da loja não quis fazer a troca, mas depois de várias outras visitas e reclamações do cliente, ele finalmente cedeu. “Ah, é mesmo! Você queria um papagaio falante. Por favor, me perdoe. Eu lhe dei um papagaio pensante.” Rutherford estava claramente aludindo à personalidade silenciosa e genial de Dirac, mas é possível imaginar que alguém usaria tal linha de raciocínio para sugerir que ou alguém é silencioso e pensador, ou é falante e imbecil.

Ali Almossawi, in O livro ilustrado dos maus argumentos

Armandinho

 

O destino e o alvo

O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, não conhece a linha reta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em função de um resultado final, portanto conhecido, é imaginar o destino como uma flecha apontada diretamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se. Tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas e marfim em África, o obrigou a ser poeta em Paris.

José Saramago, in Cadernos de Lanzarote (1994)

Meu pai

Meu pai tinha um nome estranho. Que eu saiba esse nome só houve em Dores da Boa Esperança. Acho que ele se envergonhava do nome porque, nas apresentações, ele o falava bem baixinho, acho que para o outro não ouvir.
Qual seria a origem de um nome tão esquisito, de mau gosto, mesmo? Uma coisa é certa: não foi invenção de pai ou mãe dorense, porque lá os homens todos tinham nomes comuns e cristãos. Era sabido que ter o nome de um santo era ter o santo como padrinho e isso ajudava a vida na terra e a entrada da alma no céu. Padre não aceitava nome diferente. Quando meu irmão foi ser batizado, o padre refugou ao ouvir o nome da boca do meu pai. “Ivan não é nome cristão”. E sem aceitar argumentos batizou o meu irmão de Ivan José, que é o nome por que ele deve ser conhecido nos cartórios divinos, muito embora nos cartórios humanos ele continue a ser simplesmente Ivan. O que me intriga é: o que foi que fez com que o padre aceitasse o nome do meu pai? Não era nome cristão. Era nome de um maldito condenado às profundezas do inferno: Herodiano. Você conhece algum Herodiano? Em Dores ele não foi o único. Como eu disse, esse nome só poderia ter vindo de fora, e esse que veio de fora com esse nome foi um juiz. Imaginem agora se o padre, na pia batismal, recusasse o nome, mormente se o meretríssimo juiz doutor Herodiano fosse o padrinho. Estava declarada guerra entre a Igreja e a Justiça. Se a Igreja e a Justiça estivessem em guerra, como poderiam padre e juiz subirem juntos nos palanques das festas?
Quais teriam sido as razões que levaram o pai do juiz a dar-lhe esse nome maldito? Maldito sim, porque Herodiano vem de Herodes, aquele rei facínora que mandou matar a espada todas as crianças pequenas na esperança de matar Jesus. Tão ruim era Herodes que todo mundo rezava por sua morte. Vendo a morte aproximar-se e imaginando as celebrações de júbilo nas cidades de Israel, ele ordenou que no dia da sua morte todos os líderes das aldeias fossem passados ao fio da espada para que todo mundo chorasse. Não sei se foi assim mesmo, mas foi o que me contaram. É certo que o pai do juiz Herodiano não gostava da Igreja. O padre, para ser coerente com a sua fé, deveria ter-se recusado a batizar o meu pai com o nome Herodiano. Mas, como é bem sabido, os interesses do poder suplantam as convicções da fé. Como o nome Herodiano era comprido e complicado de falar, a preguiça do povo o encurtou e meu pai passou a ser conhecido como Diano, o que, para ele, foi um alívio.
O que terá levado as mães a escolher esse nome feio se há tantos nomes bonitos? O nome é feio, mas imagino que o “meritíssimo” devia ser bonito. Nome feio em homem bonito fica bonito como o homem... Homem de cidade grande, falava no “xis”, almofadinha, tomava banho, fazia a barba com navalha, aparava o bigode, passava brilhantina no cabelo, usava lenço perfumado no bolsinho do paletó e colarinho engomado com gravata. Além do que, ele jamais faria o que era comum entre os homens do lugar: ele não enfiava a camisa por dentro da cueca. Naquele tempo as cuecas eram de confecção caseira. As noivas, zelosamente preparadas por suas mães para o casamento, além de aprender a cozinhar e a fazer doces e quitandas, tinham de aprender a fazer vestidos e calças para elas mesmas (era assim que se denominavam aquelas peças do vestuário feminino que hoje são chamadas calcinhas. Naqueles tempos não havia razão alguma para o “inha”, porque eram rústicas, motivos de vergonha, e não deveriam ser dependuradas em varais, onde poderiam ser vistas pelos homens de imaginação descontrolada. A quantas orgias se entregavam os homens pela simples contemplação dessa peça do vestuário feminino! De seda, com rendinhas, só mesmo no corpo de mulheres de vida fácil. Também atendiam pelo apelido de V-8, nome que nada tinha a ver com motor de automóvel. Nunca me explicaram a razão de tal apelido. Imaginei que o V tinha a ver com o fato de que, se vistas de frente, pareciam um V. E 8 porque, se vistas de cima para baixo, os dois buracos faziam um 8), e calças, camisas e cuecas para seus maridos, e também toalhas de banho, feitas de sacos de algodão que eram descosturados, abertos, alvejados com folhas de mamão no coradouro e, finalmente, costurados uns nos outros para virarem toalhas. Eu mesmo só vim a conhecer toalhas de banho compradas em lojas quando adolescente, no Rio de Janeiro. Aí, felicidade suprema, no dia do casamento a noiva ganhava uma máquina de costura Singer que seria seu instrumento de trabalho e sobrevivência caso o seu marido morresse, como aconteceu com a minha tia Marieta, que muito amei. Sustentou os filhos costurando. Ela era tão alegre! Morreu de um jeito que eu gostaria de morrer. Estava tomando sopa com as duas filhas, falou uma coisa engraçada como era seu costume, deu uma gargalhada e seu rosto mergulhou no prato. Morreu em meio a uma risada, tomando sopa...
Pois as cuecas, quando não eram ceroulas, tinham pernas até o joelho e eram abotoadas na cintura. O fato de as pernas das cuecas irem até o joelho lhes dava utilidades impensadas, como aconteceu com o meu tio Antônio, apelidado Fodosca, pescador inveterado. Havendo feito uma grande pescaria, os peixes não cabendo no embornal, ele teve uma ideia criativa: tirou as calças, tirou a cueca, deu nós nas pernas da cueca e a encheu de peixes...
Mas os homens do lugar, sem conhecimento das finezas da cidade, enfiavam a camisa dentro da cueca, puxavam a cueca para cima, e ela ficava aparecendo sobre o cinto largo na cintura, exibindo o botão de madrepérola. O doutor Herodiano, sabendo que aquelas cuecas eram ridículas, não permitia que fossem vistas por ninguém e muito menos pelas mulheres: ele enfiava a camisa entre a cueca e as calças para que a cueca não aparecesse.
Meu pai ganhou a vida de muitas maneiras. Era menino pequeno quando seu pai morreu. Teve de deixar o grupo escolar no segundo ano, para ajudar a mãe. Não sei se chegava a ser uma “loja”. Acho que não passava de uma bitácula, botequim onde se vendia cachaça, fumo de rolo, toucinho de porco, velas, fósforos, querosene, que atendia pelo nome de “criosene”, açúcar mascavo, rapadura, lamparinas. Sua primeira obrigação era varrer, pois loja mal varrida é sinal de dono desmazelado. Até bem velho ele guardou a mania de varrer. Era também responsável por acender os lampiões a querosene, o que ele fazia subindo num tamborete. Aos catorze anos já era responsável pelo negócio, que já não era mais uma bitácula, mas um respeitável estabelecimento que vendia ferragens, tecidos, bijuterias, perfumarias, armarinhos. Progrediu. Ficou muito rico. Já mencionei a versatilidade da sua empresa. Era proprietário da única bomba de gasolina da cidade (naquele tempo não havia posto de gasolina; era uma bomba mesmo, cilíndrica, vermelha, numa esquina. A gasolina era bombeada à mão e enchia um cilindro de vidro na cabeça da máquina, onde estavam indicados os litros), proprietário de várias casas de aluguel, pelas quais nunca recebeu um tostão porque os inquilinos eram pobres. (Ele não conseguia cobrar. Quando, andando pela rua, percebia que um devedor se aproximava, virava a primeira esquina para não lhe causar constrangimento... Meu irmão Ismael me contou que papai, certa vez, como representante de uma firma no Rio, foi cobrar uma dívida na Vila Nepomuceno. A casa do devedor, com todas as janelas abertas, indicava que havia pessoas lá dentro. Pois ele chegou pé ante pé e bateu à porta bem de leve, para que ninguém escutasse. Como ninguém atendesse ele se foi, relatando à dita firma que, no cumprimento de sua missão de cobrança, não havia encontrado ninguém na casa.) Exportador de café, dono de fábrica de móveis, armazéns, teatro-cinema, restaurante, serraria, fábrica de manteiga, bar, sua loja vendia de tudo, até urnas mortuárias. Provocou revolução em Boa Esperança e redondezas fabricando picolés. Foi à falência, ficou pobre, ganhou a vida no cabo de foice e enxada, virou viajante, vendia de tudo, sacos de aniagem para os fazendeiros, coco ralado, calendários, correias para movimentar polias, caixas de doces de fruta em pasta, brinquedos de celulóide, pedras semipreciosas, materiais para farmácia, inclusive camisinhas, não sei como se chamavam naqueles tempos. Isso foi meu irmão Ismael que me contou: acompanhava meu pai nas viagens de trem, fuça daqui, fuça dali, abriu uma caixa parecida com uma caixa de charutos, e lá estavam elas arranjadas como numa exposição. Ele levou um susto, acho que nem sabia direito para que aquilo servia. Perguntei se ele tinha certeza de que elas eram para venda e não para uso pessoal; aí ele desconversou. Mas antes de prosseguir é necessário esclarecer a fabricação das urnas mortuárias que naquele tempo não tinham esse nome pomposo. Eram conhecidas pelo nome verdadeiro, caixões dedefunto, porque é isso que são. O defunto é literalmente encaixotado, não importando a forma exterior do caixote. Eles, os caixões, vinham das fábricas em estado de esqueleto, armações de madeira, ripas de pinho, em tamanhos vários, para se ajustarem ao tamanho do falecido. Era nas lojas em que os ditos esqueletos eram vendidos que se fazia o acabamento em tecidos de cores várias, de acordo com o gosto do freguês. O branco era reservado para os anjinhos e as virgens. Presenciei, na cidade de Perdões, um costume curioso, num enterro de uma virgem. Vinha o caixão sendo piedosamente carregado por homens quando, ao se aproximar o enterro da igreja matriz, várias virgens das Filhas de Maria, todas de branco, inclusive o véu, substituíram os homens nas alças pelas quais o caixão era carregado. Passada a igreja, os homens voltaram às alças e as virgens voltaram aos seus lugares. Fiquei intrigado. Depois de muito pensar, concluí que assim se fazia para evitar que Deus, que mora na igreja e de lá observa as coisas, vendo a virgem sendo carregada por homens, chegasse a conclusões indevidas que maculassem o estado virginal da defunta. A virgem nem depois de morta podia ter qualquer relação com os homens. É preciso evitar as aparências enganosas. Até mesmo Deus pode se enganar... Voltando à loja do meu pai: o freguês chegava, expunha o seu caso, e o meu pai lhe mostrava os tecidos mais cheios de dor, geralmente roxos com beiradas douradas. Aí pregava-se o tecido sobre o esqueleto de madeira com tachinhas, e estava pronto o caixão de defunto e o freguês o levava, ou no ombro ou debaixo do braço, conforme o tamanho. Acho que eram mais ecológicos que os de hoje.
Como eu dizia, meu pai ganhou a vida de muitas maneiras, mas sua vocação era a de alquimista. Eu exerci a arte da psicanálise. Um dos meus clientes foi o artista Geraldo Jürgensen. Certo dia ele chegou para a sessão com cara de moleque. Perguntei logo: “Que arte você andou fazendo?”. Aí ele me contou. Fora contratado por uma loja do shopping center para fazer uma decoração. Estava sem ideias. Resolveu ir caminhar por um pasto para ver se a inspiração vinha. Veio da forma mais inesperada. Pisou num bolo de bosta de vaca mole. Ficou muito bravo. Agachou-se para limpar a gosma. Aí olhou ao redor. O que ele viu o encheu de alegria: dezenas de montes de bosta de vaca seca, redondos, esculpidos. Viu imediatamente o que devia fazer. Foi para casa, pegou uma cesta, voltou ao mesmo lugar, catou um certo número de bostas secas, levou-as para o seu ateliê, limpou-as com um pincel, pintou-as com um spray de tinta dourada e com elas fez um móbile que, naquele momento, estava pendurado no shopping, e todo mundo queria saber a técnica que usara para produzir aqueles objetos mágicos, tão delicados, tão leves. E começou a rir. Aí eu tive satori. Compreendi que isso é a arte da psicanálise: transformar bosta em ouro. Pois essa era a verdadeira vocação do meu pai: alquimista. Só que ele não usava tinta dourada para transubstanciar bosta em ouro. Ele usava as palavras. Usava as palavras com tal magia que ele mesmo acabava por se convencer. Não queria ver ninguém triste. Ele fantasiava e pronto: estava inventado. O problema é que a bosta dourada não dura muito. Esfarela-se. Volta a ser bosta... Era um homem bonito, assim me disseram. As mulheres o achavam parecido com Rodolpho Valentino. Queria ver todo mundo feliz. Queria ver todo mundo feliz porque ele mesmo queria sentir-se feliz. Falava felicidades. No seu mundo não havia lugar para dor. Se a dor aparecia ele a transformava magicamente por meio das palavras. Por isso eu me senti sempre órfão. Não tinha com quem falar sobre as minhas dores. Se eu trouxesse a ele minhas dores, meu pai não saberia acolhê-las. Seria doloroso demais. Para ele. Ele era fraco. Empunhava sua vara de condão e minhas dores se transformavam em risos. Para ele. Mas em mim elas continuavam a doer. Fui sempre sozinho.
Ele era um ator que acreditava no seu script. Sei mesmo que chegou a fazer algumas experiências no palco, em Boa Esperança. Não deu certo, mas representou seu papel a vida inteira. Eu disse “representou”. Mas está errado. Um bom ator não representa. Ele vive o seu papel. Shakespeare se assombrava com o que acontecia com os atores. “Não é incrível que um ator, por uma simples ficção, um sonho apaixonado, amolde tanto sua alma à imaginação, que todo se lhe transfigure o semblante, por completo o rosto lhe empalideça, lágrimas vertam dos seus olhos, suas palavras tremam e, inteiro seu organismo se acomode à mera ficção? E tudo por nada!” Meu pai vivia as suas ficções. Especializou-se em papéis alegres. Seu público era qualquer grupo de pessoas. Onde ele estava tudo era alegria.
Tinha tristeza de não ter estudado. Tratou de compensar. Por conta própria estudou francês, que usava nos restaurantes do Rio que imitavam Paris. “Poisson sans boisson, c’est poison...”, ele repetia num tom de brincadeira. Comprou um atlas enorme, em francês. Uma enciclopédia de capa preta. Eu ficava olhando as lombadas dos volumes escritas em dourado onde estavam as primeiras e as últimas palavras de cada volume. Volume I: A-ARAVEÇA. Volume II: ARAVEL-BEGH. Volume III: BEGONIA-CAFÉ. Até aí eu sabia de cor. O restante não consegui aprender. Meu irmão Ismael foi atrás da dita, que está depositada num canto de um museu onde ninguém a olha, e completou: IV: CAFEATO-CHLORASTROLITE. VI: CROCIDURA-DRAMA. VII: DRAMADEIRA-ESTRELA DO SUL. VIII: ESTRELLAMIN-GALEOS. IX: GALEOTA-HIPPODROMIA. X: HIPPODROMO-JYNGIPICO. XI: K-MACCHABEU S. XII: MACCHIA-MINHO. XIII: MINHOCA-OBVOLVIDO. XIV: OC-PELIBRANDO. XV: PELI CANA-POUCHYA. XVI: POUCO-RIO DO FARO. XVII: RIO DE JANEIRO-SCHWARZWASSER. XVIII: SCHWATKA-SURURUS Diccionario Internacional, Lisboa, Rio de Janeiro, São Paulo, Londres, Paris, Nova York, W. W. Jackson, editor, sem data de publicação). E a coleção Biblioteca Internacional de Obras Célebres. Meu pai a abria na página do poema de Guerra Junqueiro e o lia. Ao final do poema eu estava chorando. E me mostrava a ilustração de Robinson Crusoé: ele espantado diante das pegadas na areia que não eram suas. A Encyclopaedia foi-se. O atlas francês desapareceu. Restaram-me quatro volumes da Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
Pagou caro por sua vocação artística. Arthur Miller, sem o conhecer, escreveu a sua estória: A morte do caixeiro-viajante. Quando vi essa peça pela primeira vez, num teatro em São Paulo, o impacto foi tão grande que me senti fisicamente mal. Era a estória da vida do meu pai. O script da vida não é igual ao script da peça. A fotografia dele de que mais gosto é uma em que ele, já velho (mais moço do que eu agora), está assentado numa poltrona, fumando o seu cachimbo, com olhar perdido. A fumaça, em suas espirais azuis, vai dissolvendo os contornos nítidos das coisas. Ela tem um poder de “desrealização” das coisas sólidas. Os pintores chineses sabiam disto e, para misturar realidade com irrealidade, enchiam suas telas com neblinas. O cachimbo é um objeto “nefelegênio” (não procure no dicionário. Acabei de inventar essa palavra. Quer dizer “gerador de nuvens”). As últimas palavras que ouvi dele foram: “Ainda há esperança?”. Bela pergunta para quem nasceu em Boa Esperança. De toda a riqueza, o que dele herdei foi um peso de papel de vidro verde, cheio de bolhas de ar. Olhando para aquela infinidade de bolhas de ar, de tamanhos variados, iluminadas pela luz, imagino que dentro do peso de papel há galáxias e estrelas…

Rubem Alves, in O velho que acordou menino

01/04/2021

Griô dos Sons / Arismar do Espírito Santo - Episódio 01

Sequência

Na estrada das Tabocas, uma vaca viajava. Vinha pelo meio do caminho, como uma criatura cristã. A vaquinha vermelha, a cor grossa e afundada — o tom intenso de azamar. Ela solevava as ancas, no trote balançado e manso, seus cascos no chão batiam poeira. Nem hesitava nas encruzilhadas. Sacudia os chifres, recurvos em coroa, e baixava testa, ao rumo, que reto a trazia, para o rio, e — para lá do rio — a terras de um Major Quitério, nos confins do dia, à fazenda do Pãodolhão.
No Arcanjo, onde a estrada borda o povoado, foi notada, e, vendo que era uma rês fujã, tentaram rebatê-la; se esvencilhou, feroz, e foi-se, porém. De beira dos pastos, os anus, que voavam cruzando-a, desvinham de pousar-lhe às costas. No riachinho do Gonçalves, quase findo à míngua d’água, se deteve para beber. Deram tiros, no campo, caçando às codornas. Latidos, noutra parte, faziam-na entrar oculta no cerrado. Ora corriam dela umas mulheres, que andavam buscando lenha. Se encontrava cavaleiros, sabia deles se alonjar, colada ao tapume, com disfarces: sonsa curvada a pastar, no sofrido simulamento. Légua adiante, entanto, nos Antônios, desabalava em galope, espandongada, ao passar por currais, donde ouvia gente e não era ainda o seu termo. Tio Terêncio, o velho, à porta de casa, conversou com o outro: — “Meo fi’o, q’vaca qu’é essa?” — “Nho pai, e’a n’é nossa, não.” Seguia, certa; por amor, não por acaso.
Só, assim, a vaquinha se fugira, da Pedra, madrugadamente — entre o primeiro canto dos melros e o terceiro dos galos — o sol saindo à sua frente, num céu quase da sua cor. Fazia parte de um gado, transportado, de boiadeiros, gado de coração ativo. Viera do Pãodolhão — sua querência. Apressava-se nela o empolgo de saudade que adoece o boi sertanejo em terra estranha, cada outubro, no prever os trovões. Apanhara a boca-da-estrada — para os onde caminhos — fronteando o nascente. Soada a notícia, seo Rigério, o dono da Pedra, disse: — “Diaba”. Ele era alto, o homem, para tão pequenina coisa. Seus sabedores informavam: que a marca sendo a de grande fazendeiro, da outra banda, distante. Seus vaqueiros, postos, prontos. Esse seo Rigério tinha os filhos diversos, que por em volta se achavam. Nem deles, para o quê, havia a necessidade. E vede de que maneira tudo então se passou. Só um dos filhos, rapaz, senhor-moço, quis-se, de repente, para aquilo: levar em brio e tomar em conta. Atou o laço na garupa. Disse: — “É uma vaquinha pitanga?” Pôs-se a cavalo. Soubesse o que por lá o botava, se capaz. Saiu à estrada-geral. Ia indo, à espora leve. Ia desconhecidamente. Indo de oeste para leste. Já a vaca. O avanço, que levava, não se lhe dava de o bastante. Ante o morro, a passo, breve, nem parava para os capins dos barrancos: arrancava-os, mesmo em marcha, no mesmo surdo insossego. Se subia — cabeceava, num desconjuntado trabalho de si. Se descia — era beira-abismos, patas abertas, se borneando. Após, no plano, trotava. Agora, lá num campal, outras vacas se avistavam. Olhava-as: alteou-se e berrou — o berro encheu a região tristonha. O dia era grande, azul e branco, por cima de matos e poeiras. O sol inteiro.
Já o rapaz se anorteava. Só via o horizonte e sim. Sabia o de uma vaquinha fugida: que, de alma, marca o rumo e faz atalhos — querençosa. Entrequanto, ele perguntava. Davam-lhe novas da arribada. Seu cavalo murça se aplicava, indo noutra forma, ligeiro. Sabia que coisa era o tempo, a involuntária aventura. E esquipava. Ia o longo, longo, longo. Deu patas à fantasia. Ali, escampava. Tempo sem chuvas, terrentas campinas, os tabuleiros tão sujos, campos sem fisionomia. O rapaz ora se cansava. Desde aí, o muito descansou. Do que, após, se atormentava. Apertou.
Com horas de diferença, a vaquinha providenciava. Aqui alta cerca a parou, foi seguindo-a, beira, beira. Dava num córrego. No córrego a vaquinha entrou, veio vindo, dentro d’água. Três vezes esperta. Até que outra cerca travou-a, ia deixando-a desairada. Volveu — irrompida ida: de um ímpeto então a saltou: num salto que queria ser vôo. Vencia. E além se sumia a vaca vermelha, suspensa em bailado, a cauda oscilando. O inimigo já vinha perto.
O rapaz, no vão do mundo, assim vocado e ordenado. Ele agora se irritava. Pensou de arrepender caminho, suspender aquilo para mais tarde. Pensou palavra. O estúpido em que se julgava. Desanimadamente, ele, malandante, podia tirar atrás. Aonde um animal o levava? O incomeçado, o empatoso, o desnorte, o necessário. Voltasse sem ela, passava vergonha. Por que tinha assim tentado? Triste em torno. Só as encostas guardando o florir de árvores esfolhadas: seu roxo-escuro de julho as carobinhas, ipês seu amarelo de agosto. Só via os longes de um quadro. O absurdo ar. Chatos mapas. O céu de se abismar. E indagava o chão, rastreava. Agora, manchava o campo a sombra grande de uma nuvem. O rapaz lançou longe um olhar. De repente, ajustou a mão à testa, e exclamou. Do ponto, descortinou que: aquela. A vaquinha, respoeirando. Aí e lá, tomou-a em vista. O vulto, pé de pessoa, que a cumeada do morro escalava. Ver o que diabo. Reduzida, ocupou, um instante, a lomba linha do espigão. Aí, se afundou para o de lá, e se escondeu de seus olhos. Transcendia ao que se destinava.
O rapaz, durante e tanto, montado no bom cavalo, à espora avante, galgando. Sempre e agudamente olhava. Podia seguir com os olhos como o rastro se formava. Só perseguia a paisagem. Preparava-se uma vastidão: de manchas cinzas e amarelas. O céu também em amarelo. Pitavam extensões de campo, no virar do sol, das queimadas; altas, mais altas, azuis, as fumaças desmanchavam-se. O rapaz — desdobrada vida — se pensou: — “Seja o que seja.”
Aí, subia também ao morro, de onde muito se enxergava: antes das portas do longe, as colinas convalares — e um rio, em suas baixadas, em sua várzea empalmeirada. O rio, liso e brilhante, de movimentos invisíveis. Como cortando o mundo em dois, no caminho se atravessava — sem som. Seriam buracos negros, as sombras perto das margens.
Depois dos destornamentos, a vaquinha chegava à beira, às derradeiras canas-bravas. Com roubada rapidez, ia a levantar o desterro. Foi uma mexidinha figura — quase que mal os dois chifres nadando — a vaca vermelha o transpondo, a esse rio, de tardinha; que em setembro. Sob o céu que recebia a noite, e que as fumaças chamava.
Outrarte o ouro esboço do crepúsculo. O rapaz, o cavalo bom, como vinham, contornando. Antes do rio não viam: as aves, que já ninhavam. À beira, na tardação, não queria desastrar-se, de nada; pensava. Às pausas, parte por parte. Não ouviu sino de vésperas. Tinha de perder de ganhar? Já que sim e já que não, pensou assim: jamais, jamenos... — o filho de seo Rigério. A fatal perseguição, podia quebrar e quitar-se. Hesitou, se. Por certo não passaria, sem o que ele mesmo não sabia — a oculta, súbita saudade. Passo extremo! Pegou a descalçar as botas. E entrou — de peito feito. Àquelas qüilas águas trans — às braças. Era um rio e seu além. Estava, já, do outro lado.
— “A vaca?” — e apertava o encalço — à boa espora, à rédea larga. Mas a vaca era uma malícia, precipitava-se o logro. Nisso, anoiteceu. E não é que, seu cavalo, o murça, se sentia — da viagem de pêlo a pêlo: os joelhos bambeava, descaía, quase caía para a frente o cavaleiro.
Iam-se, na ceguez da noite — à casa da mãe do breu: a vaca, o homem, a vaca — transeuntes, galopando. — “Onde então o Pãodolhão? Cujo dono? Vinha-se a qual destinatário?” Pelas vertentes, distante, e até ao cimo do monte, um campo se incendiava: faíscas — as primeiras estrelas. O andamento. O rapaz: obcego. Sofria como podia, nem podia mais desespero. O arrepio negro das árvores. O mundo entre as estrelas e os grilos. Semiluz: sós estrelas. Onde e aonde? A vaca, essa, sabia: por amor desses lugares.
Chegava, chegavam. Os pastos da vasta fazenda. A vaca surgia-se na treva. Mugiu, arrancadamente. Remugiu em fim. A um bago de luz, lá, lá. Às luzes que pontilhavam, acolá, as janelas da casa, grande. Só era uma luz de entrequanto? A casa de um Major Quitério.
O rapaz e a vaca se entravam pela porteira-mestra dos currais. O rapaz desapeava. Sob o estúrdio atontamento, começou a subir a escada. Tanto tinha de explicar.
Tanto ele era o bem-chegado!
A uma roda de pessoas. Às quatro moças da casa. A uma delas, a segunda. Era alta, alva, amável. Ela se desescondia dele. Inesperavam-se? O moço compreendeu-se. Aquilo mudava o acontecido. Da vaca, ele a ela diria: — “É sua.” Suas duas almas se transformavam? E tudo à sazão do ser. No mundo nem há parvoíces: o mel do maravilhoso, vindo a tais horas de estórias, o anel dos maravilhados. Amavam-se.
E a vaca — vitória, em seus ondes, por seus passos.

Guimarães Rosa, in Primeiras estórias

O beijo

 



São muitas as tentativas de descobrir o que diferencia o humano dos outros animais. A história de que os humanos são os únicos que pensam é balela. Já há tempos se relativizou o conceito de pensamento, e sabe-se que ele não se restringe mais à noção de lógica causal ou de raciocínios encadeados. Portanto, o velho corolário de que os humanos são superiores por serem racionais já pode ser descartado.
Dentro desse mesmo espírito da racionalidade, há outros estudiosos que afirmam que os humanos sabem representar, enquanto aos animais cabe apenas repetir aquilo que está em seu código genético. Nesse sentido, haveria, da parte dos hominídeos, uma capacidade inata de inventar, a partir de uma herança biológica, formas infinitas de comunicação: as palavras, os gestos, as carícias, a arte, os objetos, tudo como representação simbólica de um desejo expressivo. Mas, contra essa hipótese, há inúmeras pesquisas zoológicas que apontam variações inesperadas em danças desempenhadas por abelhas; nos movimentos de alguns pássaros, nos barulhos das baleias, nos saltos dos golfinhos, nas tomadas de decisão de macacos quando dentro de uma cela, na capacidade aparentemente interminável de aprendizado por parte dos cachorros e dos cavalos. Ao mesmo tempo, nós humanos vamos, cada vez mais, nos dando conta de nossa própria incapacidade em conhecer o que significa a representação e quais são seus limites.
Já se falou muito que os humanos são os únicos seres que guardam os restos mortais de seus parentes, mas isso também é polêmico. Se os elefantes, como se sabe, se encaminham para um local distante quando pressentem seu passamento e o mesmo fazem os gatos; se várias espécies de macacos, quando perdem um parceiro ou parceira, passam semanas enlutados, sem vontade de comer ou de brincar, e se cenas parecidas se repetem com vários outros animais, não se pode afirmar categoricamente que eles não se importem com seus mortos ou que não tenham noção do que significa o desaparecimento.
Mas, depois de muita reflexão, creio ter chegado a uma diferença infalível e duvido que alguém retire de mim a grandeza dessa descoberta.
O que definitivamente distingue o animal humano dos outros animais é o beijo.
Não falo de uma simples aproximação entre bocas, narizes, boca e bochecha, boca e alguma outra parte do corpo. Tampouco quero considerar como beijo equivalentes toques corpóreos, verificáveis em outros animais. Falo do beijo que faz “smack”, que estala, que diz respeito a uma contração calculada e minuciosa dos lábios, formando um pequeno bico que, ao encostar na superfície epitelial de outra pessoa (boca, bochecha, testa, mão, seio, perna etc.), contrai-se ainda mais, produzindo um som pitoresco, resultado de uma aproximação projetada entre os lábios superior e inferior. E o beijo agregado de complementos, como o beijo de língua, que pode demorar, nos casos de paixões adolescentes, até cerca de algumas horas. Ou o beijo roubado, uma categoria especial, beirando o indescritível, porque é o beijo-que-se-sente-vontade-de-dar-em-alguém-de-surpresa-sem-que-essa-pessoa-saiba-e-a-pessoa-fica-feliz-em-recebê-lo. E as diferenças que foram se estabelecendo entre os tipos de beijos: na testa, paternal, independente de quem o dê; na bochecha, fraternal ou burocrático, variando conforme a circunstância, mas sempre identificável; na boca, curto ou longo, comunicando amor, paixão, amizade ou, em alguns lugares, lealdade eterna; nos seios, expressão erótica por excelência; nos pés, índice fetichista ou de promessa de fidelidade; na mão, servilismo. Entre mulheres, entre homens, mulheres e homens, mães e filhos, amigos, crianças, velhos, inimigos, chefes e empregados, amantes, o beijo da extrema-unção e o do nascimento, nos olhos, o de chegada e o de despedida, o do despertar e o de dormir. O beijo em português, que vem de suavis, sinalizando agrado e maciez, ou de ósculo, que significa boca pequena. O beijo em inglês, kiss, mais literal, tocar com os lábios. Neshikah, em hebraico e outras línguas semíticas, que é o mesmo que apertar, juntar com força. E as metáforas baseadas no beijo, como o mar que beija a areia, o beijo suspenso invisível na boca das meninas e o beijo que é a véspera do escarro. O beijo esfregadinho, de japonês; de faxininha, limpando as gengivas; de louco, quase encostando na garganta; o do beijoqueiro, o do beija-flor, o beijo que só se manda soprando com a mão e a boca e o imperdoável “bj”, que me persegue as noites insones.
O beijo, essa inutilidade, não nos salvará do irremediável, porque ele não salva. Ele será somente nossa marca do demasiadamente humano, quase encostando no bicho, tão perto que, por causa dele, nos tornamos ainda mais humanos, porque o smack e a língua prolongada sempre nos lembrarão do porquê de termos vindo ao mundo: para beijar.

Noemi Jaffe, in Não está mais aqui quem falou

Charlie Brown

Gaku Tada

Há quem, secretamente e manso,
das pedras e das flores ouça a voz,
na mesma língua em branco

respondendo; pensei nisso quando
olhei nos olhos do menino, ator
de uma pequena trupe de kabuki.

Eucanaã Ferraz

Torto Arado / 11

Todos temeram, por algum tempo, que Crispina tivesse uma recaída do seu acesso de loucura, que desaparecesse como no passado, ou mesmo que precisasse ser recolhida à nossa casa para tratar novamente os males de sua alma. Chegavam notícias de que ela havia mergulhado num estado de melancolia preocupante, sem comer ou cuidar da própria higiene. Isidoro zelava por ela, sacrificando em parte seu trabalho na fazenda, expressando preocupação com a tristeza da mulher. Havia o peso da irmã instalada ainda na casa do pai, no outro lado do terreiro, com seu sobrinho crescendo saudável, sobrinho este que talvez fosse filho de seu companheiro.
As coisas não se resolveram de forma fácil, mas o tempo cuidou para que as emoções esmorecessem. Soubemos que, apesar da indiferença que Crispina havia demonstrado durante o difícil trabalho de parto de Crispiniana, a gêmea não hesitou em procurar pela irmã que, mergulhada em sua melancolia, foi incapaz de reagir e se deixou cuidar como se fosse a sua mãe ausente quem fazia aquela tarefa. No princípio, Crispiniana evitou levar o pequeno consigo, temendo sua reação, que pudesse considerar a presença da criança uma afronta ao seu sentimento de perda. Ainda, porque temia que pudesse Crispina vislumbrar algum traço de Isidoro em seu rosto.
Mas a própria criança, com seus gestos inocentes de choro ou satisfação, se encarregou de despertar um brilho na palidez das atitudes da tia. E como as coisas que não podemos explicar ou entender, aconteceu que o leite de Crispiniana secou. Nunca saberemos se foi uma ação deliberada da mãe, ou um dos eventos místicos tão comuns na vida do povo de Água Negra. A irmã que estava mergulhada na melancolia pela perda do filho, mas atenta ao desconforto revelado no constante berreiro do sobrinho, o abrigou em seu seio sem que ninguém precisasse pedir por isso. Talvez de forma instintiva tenha deixado a criança por si só perseguir seu leite que, mesmo passados tantos dias da chegada do filho natimorto, ainda minava feito uma fonte de água, como as que surgem nas serras que circundam a Chapada Velha. Era o gesto que faltava para unir as gêmeas, por um breve tempo, até as próximas disputas e brigas, num movimento de afeto e rancor que faria parte de seus dias até o fim de suas vidas.
Vi o menino dando seus primeiros passos e depois correndo para o seio da tia, em plena brincadeira de jarê, numa das muitas celebrações da liturgia em nossa casa. A última vez que o vi mamar no seio de Crispina, na conversa tímida que tinham diante da audiência, o menino já se aproximava dos dois anos. Era forte, ativo, parecia muito com as duas irmãs e com o compadre Saturnino, nada guardando em seus traços da possível paternidade de Isidoro.
Foi na noite de Santa Bárbara, em dezembro, e meu pai, apesar de suas obrigações nas brincadeiras do jarê, havia acordado mal humorado, com respostas lacônicas às perguntas que lhe faziam. Só os mais próximos, como nós, sabíamos o porquê do desconforto visível em seus gestos. No fim da tarde, dona Tonha trouxe, numa caixa antiga, adornos de encantada que meu pai vestiria à noite, depois da ladainha, e à medida que os espíritos chegassem e lhe tomassem o corpo para se fazerem presentes. Na caixa estavam guardadas as roupas de Santa Bárbara, Iansã, a dona da noite, lavadas e passadas desde a última vez em que Zeca a havia vestido. A repulsa pelas vestes era tanta que a roupa não era guardada no quarto dos santos como as demais, mas na casa de Tonha, ela mesma cavalo para a encantada nas noites de jarê.
Zeca Chapéu Grande se envergonhava de ter que deixar as calças que honravam a sua posição de liderança na fazenda, como pai espiritual, e vestir saias, emprestando seu corpo a uma mulher. Fazia porque era a sua obrigação, compromisso que havia assumido quando se curou da loucura e se fez no santo na casa de João do Lajedo, em Andaraí. Mas se envergonhava, porque a audiência era formada por seus compadres e vizinhos, que muitas vezes conduzia nos trabalhos de mutirão para a fazenda.
Nessa noite, fiquei ao lado das filhas de santo que o ajudavam a se trocar durante a celebração. Os tocadores aqueceram seus tambores na fogueira acesa no terreiro. A primeira a chegar, após a ladainha e a saraivada de fogos, foi justamente a dona da festa, Santa Bárbara; a caixa trazida por dona Tonha continha a saia vermelha, o adé e a espada de Iansã, todos os adornos que a santa vestiria. O quarto dos santos, onde rezavam a ladainha, tinha velas acesas e uma profusão de cores das imagens e bonecas. Havia imagens de gesso e madeira de diferentes tamanhos e estados de conservação. S. Sebastião, Cristo Crucificado, o Bom Jesus, S. Lázaro, S. Roque, S. Francisco, Padre Cícero. Havia pequenos quadros, uns de cores vivas, outros desbotados, de S. Cosme e S. Damião, Nossa Senhora Aparecida, Santo Antônio. Havia fotografias de meus pais, da velha Donana, outras tantas, pequenas, de devotos. Havia flores de papel, algumas mais novas, outras pálidas. Sempre-vivas, que colhíamos na estrada ou nas cercanias, entre as rochas.
Fazia calor. Os presentes suavam e enxugavam o suor com as costas ou a palma das mãos, sem deixar os lábios vacilarem na prece. Havia muita gente e o quarto era tão pequeno que a maioria acompanhava da sala, principalmente as mulheres e os homens mais velhos. Os mais jovens e as crianças ficavam alheios às rezas e conversavam em tom baixo; as crianças brincavam e, quando saíam de controle, uma das mulheres se virava para reclamar e pedir silêncio, com os dedos em riste e olhos arregalados.
Havia beleza nos cantos que antecediam a aparição da encantada, e muito mais encanto quando meu pai deixava o quarto dos santos para dançar ao som dos atabaques, no meio da sala. Era um homem magro, mais baixo que minha mãe, e com um tom de pele mais claro que o nosso. Não era jovem e carregava no rosto os traços de sua idade. Sulcos profundos, vales na sua pele erodida pelo sol e o vento, que ainda enfrentava todos os dias para plantar e ter direito à morada de sua família na fazenda. Àquela época, Zeca Chapéu Grande já parecia um ancião, guia do povo de Água Negra e das cercanias, referência para todos os tipos de assuntos, desde divergência de trabalho a problemas de saúde.
Dali, do quarto quente dos santos que rescendia a suor e alfazema, Zeca, que agora abrigava Santa Bárbara, vestia a saia vermelha e branca, engomada com todo zelo por dona Tonha, e com o rosto encoberto sob o adé lustroso, ornado de contas vermelhas que recobriam a face. Saiu empunhando a espada de madeira feita por ele mesmo. A espada, pequena, cortava o ar com seus movimentos ágeis. “Ê, Santa Bárbara, virgem dos cabelos louros, ela vem descendo com sua espada de ouro”, a audiência batia palmas e cantava em coro, seguindo o tocador de atabaque. Enquanto os homens aceleravam o toque, Santa Bárbara se agitava em seus passos e giros. Duas mulheres arriaram no chão, com os olhos semicerrados e movimentos que anunciavam a chegada de mais Santas Bárbaras. Foram conduzidas para o quarto por minha mãe e dona Tonha para que pudessem colocar suas vestes também.
Severo, nas últimas brincadeiras de jarê, havia se postado mais próximo aos tocadores. Atento aos toques, já arriscava bater sozinho no couro aquecido, tentando reproduzir o ritmo. Estava maior e mais forte. Tinha um sorriso luminoso, a pele mais negra pela faina debaixo do sol. O corpo irrompendo das roupas, que estavam pequenas. Os olhos de Belonísia, assim como os meus – sei que ela também me notava –, perseguiam com atenção seus gestos. Tio Servó também assumia, por um breve tempo, um dos atabaques, sempre no começo da festa, ou quando um encantado de sua estima, como Tupinambá, vinha girar na sala entre os presentes. Muitas vezes, Sutério vinha participar da audiência e também ensaiava tocar o atabaque nos intervalos entre um giro e outro.
Nessa noite, em particular, estava presente o prefeito. Havia cinco anos, meu pai tinha atendido um de seus filhos. Vieram buscá-lo de carro, um Gordini vermelho, coisa nunca vista em Água Negra. Até então só conhecíamos a Ford Rural da fazenda e os carros que vimos na estrada quando fomos para o hospital por causa do acidente. Desde então, aparecia na festa de Santa Bárbara. Da primeira vez, meu pai não aceitou seu pagamento, mas pediu que trouxesse um professor da prefeitura para que desse aula às crianças da fazenda. Contava que viu um tanto de constrangimento no rosto de Ernesto, que, sem escapatória, fez a promessa. A gratidão por meu pai e pela encantada era grande, por isso teve que cumprir o que prometeu. Havia também o medo que o encantamento que curou o filho se desfizesse. Então, meses mais tarde, viria uma professora no carro da prefeitura, três dias na semana, para dar três horas de aula na casa de dona Firmina. Firmina vivia sozinha e dispunha de um pequeno galpão com tábuas que, apoiadas em duas latas cheias de barro, se tornavam um banco para sete ou oito crianças. Para reforçar o que aprendíamos com professora Marlene, tínhamos o apoio de minha mãe. Dizia que só não poderia ensinar matemática, porque não sabia; “tenho a letra, mas não tenho o número”.
Inclusive, no princípio, o prefeito sugeriu uma solução menos trabalhosa e, sabendo que minha mãe era alfabetizada, quis fazê-la professora. Minha mãe, consciente de suas limitações, recusou. Reforçou em sua fala a expressão “tenho a letra, mas não tenho o número”, e que queria muito que seus filhos de sangue e de pegação tivessem estudo e pudessem ter uma vida melhor do que a que tinha. Essa era a razão de todo o esforço que meu pai fez para que tivéssemos um professor e, percebendo que não era o suficiente, uma escola. Meu pai não era alfabetizado, assinava com o dedo de cortes e calos, de colher frutos e espinhos da mata. Escondia as mãos com a tinta escura quando precisava colocar suas digitais em algum documento. De tudo que vi meu pai bem querer na vida, talvez fosse a escrita e leitura dos filhos o que perseguiu com mais afinco. Quem acompanhasse sua vida de lida na terra ou a seriedade com que guardava as crenças do jarê, acharia que eram os bens maiores de sua existência. Mas pessoas como nós, quando viam o orgulho que sentia dos filhos aprendendo a ler e do valor que davam ao ensino, saberiam que esse era o bem que mais queria poder nos legar.
E não foi com espanto que vi naquela noite, antes de todos os outros encantados chegaram e se abrigarem no seu corpo, Santa Bárbara girar, gritar e parar com sua espada apontada para o prefeito, a quem fez honras, como se cumprimentasse um monarca, mas também como se se dirigisse a um súdito, para lhe pedir, na frente da audiência, que cumprisse a promessa feita no passado – e que não me recordo de sabermos – de construir uma escola para os filhos dos trabalhadores. O prefeito olhou desconcertado, esboçando um sorriso sem graça, quando se viu diante do olhar das quarenta famílias que moravam em Água Negra. Quase compassivo, recordando das graças e temendo a má sorte que teria, dependendo do esforço empreendido para realizar a ordem dada pela encantada, aquiesceu.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado