04/04/2020

O maior computador do mundo


O magnífico monumento inglês chamado Stonehenge ergue-se solitário sobre a planície de Salisbury, ladeado por um estacionamento e uma loja de presentes para turistas. É famoso por suas grandes pedras e curiosa arquitetura: um círculo de pedras maciças e bem talhadas.
Em 1964, um astrônomo inglês, Gerald S. Hawkins, publicou seu tratado - hoje famoso - sobre Stonehenge como computador astronômico. Seu artigo, intitulado “Stonehenge: um computador neolítico”, foi publicado no número 202 da prestigiada revista inglesa Nature. Em 1965, foi editado o famoso livro de Hawkins, Stonehenge decoded.
Hawkins abalou o mundo arqueológico ao afirmar que o sítio megalítico não era apenas um templo circular erguido por alguns reis egocêntricos, mas um sofisticado computador para observação celeste.
Ele inicia seu artigo da Nature com uma citação de Diodoro sobre a Grã-Bretanha pré-histórica encontrada no livro de Diodoro, History of the Ancient World, escrito por volta de 50 a.C.:
Vista desta ilha, a Lua parece estar a uma pequena distância da Terra, mostrando proeminências como as da Terra, que são visíveis a olho nu. Diz-se que o deus [Lua?] visita a ilha a cada dezenove anos, período no qual se completa o retorno das estrelas ao mesmo lugar no céu. Há na ilha, ainda, tanto um magnífico local sagrado dedicado a Apolo [Sol] como um templo notável [...] e os sacerdotes são chamados boraedae, e a sucessão ao cargo permanece sempre nas mesmas famílias.
A teoria básica de Hawkins é que “Stonehenge era um observatório; os imparciais cálculos matemáticos de probabilidade e a esfera celeste estão do meu lado”. A proposição inicial era de que os alinhamentos entre pares de pedras e outros tópicos, calculados em computador a partir de plantas em escala reduzida, comparavam suas direções com os azimutes do nascer e do pôr do sol e da lua, nos solstícios e equinócios, calculados para o ano 1.500 a.C. Hawkins afirma ter encontrado 32 alinhamentos “significativos”.
A segunda proposição é que os 56 buracos de Aubrey eram usados como “computador” (ou seja, marcas de totalização) para aprevisão de movimentos da lua e dos eclipses, para os quais ele alega ter estabelecido um “ciclo até hoje desconhecido de 56 anos com irregularidade de 15%; e que o nascer da lua cheia mais próximo do solstício de inverno sobre a Pedra do Calcanhar sempre predizia com sucesso um eclipse. É interessante notar que não mais do que metade desses eclipses era visível de Stonehenge”. Diz Hawkins em Stonehenge decoded:
O número 56 é de grande importância para Stonehenge por ser o número de buracos de Aubrey dispostos à volta do círculo externo. Vistos do centro, esses buracos situam-se em espaçamentos iguais de azimute ao redor do horizonte, e, portanto, não podem marcar o Sol, a Lua ou qualquer outro objeto celeste. Isso é confirmado pelas evidências dos arqueólogos; os buracos abrigaram fogueiras e cremações de corpos, mas nunca pedras. Bem, se os responsáveis por Stonehenge desejavam dividir o círculo, por que não fizeram simplesmente 64 buracos valendo-se da bissecção de segmentos do círculo - 32,16, 8, 4 e 2 -? Acho que os buracos de Aubrey proporcionavam um sistema de contagem de anos, um buraco para cada ano, para ajudar a prever os movimentos da Lua. Talvez se fizessem cremações em um buraco de Aubrey específico no decorrer do ano, ou talvez aquele buraco fosse assinalado com uma pedra móvel.
Stonehenge pode ser usado como uma máquina de cálculo digital [...] A pedra no buraco 56 prevê o ano em que um eclipse do Sol ou da Lua irá ocorrer no período de 15 dias por volta do meio do inverno - o mês da Lua de inverno. Ela também irá prever eclipses para a Lua de verão.
Os críticos de Hawkins, as principais mentes acadêmicas de sua época, debruçaram-se imediatamente sobre suas descobertas e puseram-se a criticá-las. Em 1966, um artigo intitulado “Decodificador equivocado?”, de R. J. Atkinson, astrônomo inglês, foi publicado na Nature (volume 210, 1966), e criticava Hawkins por muitas de suas declarações relativas à natureza de Stonehenge como computador astronômico.
Disse Atkinson acerca de Stonhenge decoded, de Hawkins:
É tendencioso, arrogante, descuidado e pouco convincente, e pouco nos ajuda a compreender melhor Stonehenge.
Os cinco capítulos iniciais, sobre o pano de fundo legendário e arqueológico, foram compilados sem senso crítico, e contêm vários erros bizarros e interpretações estranhas. O resto do livro é uma tentativa mal-sucedida de emprestar corpo à alegação do autor - que “Stonehenge era um observatório; os imparciais cálculos matemáticos de probabilidade e a esfera celeste estão do meu lado”. De suas duas alegações principais, a primeira diz respeito a alinhamentos entre pares de pedras e outros tópicos, calculados com um computador a partir de plantas baixas em escala reduzida, pouco adequados a esse propósito.
A crítica mordaz de Atkinson em relação a Hawkins é reveladora, pois mostra como os acadêmicos já estabelecidos podem ser resistentes a novas ideias. A relutância de Atkinson em acreditar que Stonehenge era um tipo de computador astronômico provavelmente se deve à crença popular de que o homem antigo simplesmente não vivia um estágio civilizacional que lhe permitisse dedicar-se a temas intelectuais superiores.
Mas esses críticos não são mais ouvidos, e parece não haver dúvidas, mesmo por parte dos arqueólogos mais conservadores, de que Stonehenge é um tipo de templo astronômico. Diversas verdades astronômicas simples podem ser discernidas em Stonehenge. Por exemplo: há 29,53 dias entre as luas cheias, e há 29,5 monólitos no círculo exterior de Sarsen.
Dezenove das imensas “pedras azuis” encontram-se na ferradura interior, com diversas explicações e usos possíveis. Há um período de quase dezenove anos entre os pontos extremos do nascer e do pôr da lua. Além disso, se uma lua cheia ocorre em um dia específico do ano, digamos no solstício de verão, faltarão dezenove anos até outra lua cheia ocorrer no mesmo dia do ano. Finalmente, há dezenove anos de eclipses (ou 223 luas cheias) entre eclipses similares, tais como o eclipse que ocorre quando o Sol, a Lua e a Terra retornam às mesmas posições relativas. As posições dos outros planetas variam em ciclos ainda mais longos.
Sugere-se ainda que os cinco grandes arcos de trílitos representam os cinco planetas visíveis a olho nu: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.
O escritor inglês especializado em antiguidades, John Ivimy, faz uma espantosa sugestão no final de seu popular livro sobre Stonehenge, The Aphinx and the megaliths. Ele passa a maior parte do livro tentando provar a tese de que Stonehenge foi construído por um punhado de aventureiros egípcios que foram enviados às ilhas Britânicas para estabelecer uma série de sítios astronômicos em latitudes mais elevadas, a fim de poderem prever com precisão eclipses solares, algo que os observatórios egípcios não podiam fazer, pois estavam próximos demais do equador.
Ivimy apresenta evidências como a construção megalítica, os cortes em “L” nos gigantescos blocos de pedra, o óbvio propósito astronômico e, acima de tudo, o uso de um sistema numérico baseado no número seis, e não no dez, como usamos hoje. Ivimy mostra que os egípcios usavam um sistema numérico baseado no número seis, e que o mesmo sistema foi empregado em Stonehenge. Posteriormente, sugere que os mórmons usam um sistema numérico com base no número seis para construírem seus templos, especialmente o grande templo de Salt Lake City.
No fim, a tese de Ivimy é bastante controvertida: ele acredita que Brigham Young e os primeiros povoadores mórmons de Utah são a reencarnação do mesmo grupo de pioneiros egípcios enviados à Inglaterra para construir Stonehenge. Diz Ivimy:
Sempre se fez referência ao grande domo de madeira, feito totalmente sem metal, que cobre o Tabernáculo Mórmon. Será que sua construção foi inspirada em uma pálida recordação do modo como as mesmas pessoas, em uma encarnação vivida alguns séculos antes, usaram um domo para cobrir aquele que depois se tornou o Templo de Apolo Hiperbóreo?
É fascinante a ideia de que os egípcios teriam ido à Inglaterra para construir um observatório megalítico com o intuito de prever eclipses lunares com precisão. Há registros de que, em 2.000 a.C., aproximadamente, um imperador chinês mandou executar seus dois principais astrônomos por deixarem de prever um eclipse solar. Um dos proponentes da teoria dos astronautas da Antiguidade, Raymond Drake, pergunta: “Será que hoje algum soberano ligaria para isso?” Egípcios, chineses, maias e muitas outras culturas antigas tinham obsessão por eclipses e por outros fenômenos planetários e solares. Acredita-se que associavam catástrofes, inclusive o afundamento da Atlântida, a movimentos planetários e eclipses. Talvez os antigos egípcios, maias e outros povos imaginassem poder prever o próximo cataclismo acompanhando os eclipses lunares e as posições dos planetas em relação à Terra.
Heródoto escreveu sobre cataclismos e astronomia no antigo Egito em seu Livro Dois, capítulo 142:
[...] Até agora os egípcios e seus sacerdotes contaram a história. E mostraram que já existiram 341 gerações de homens desde o primeiro rei até este último, o sacerdote de Hephaestus [...] Bem, em todo esse tempo, 11.340 anos, disseram que o Sol se afastou de seu caminho correto em quatro ocasiões; e nasceu onde hoje se põe, e se pôs onde hoje nasce; mas nada no Egito foi alterado com isso, nem no que concerne ao rio ou aos frutos da terra, nem no que concerne às doenças ou à morte.
Se Heródoto merece crédito, então a Terra deslocou-se ao redor de seu eixo, o que hoje chamamos de deslocamento polar. Com isso, o sol parece nascer em uma direção diferente da normal. Os deslocamentos polares são acompanhados de uma ampla gama de mudanças na terra e de severos fenômenos climáticos. Portanto, se os egípcios estavam familiarizados com esse tipo de ocorrência, e não tinham sido muito afetados pelos cataclismos, é possível que tenham se esforçado para aprimorar seus conhecimentos astronômicos, incluindo-se aí a colonização da Inglaterra e a construção de Stonehenge.
Com efeito, as magistrais mentes megalíticas colonizaram praticamente todo o planeta, do Egito à Inglaterra, Américas, Ilha de Páscoa e Tonga. Há megálitos em lugares remotos como a Manchúria, as Filipinas, a Mongólia e as colinas Assam, no nordeste da índia. Houve época em que essas mentes magistrais estiveram por toda parte. Mas que tecnologia esses mestres construtores utilizavam?
David Hatcher Childres, in A Incrível Tecnologia dos Antigos

Medo da libertação


Paysage aux Oiseaux Jaunes, de Paul Klee

Se eu me demorar demais olhando Paysage aux Oiseaux Jaunes (Paisagem com Pássaros Amarelos, de Klee), nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito que temos de olhar através das grades da prisão, o conforto que traz segurar com as duas mãos as barras frias de ferro. A covardia nos mata. Pois há aqueles para os quais a prisão é a segurança, as barras um apoio para as mãos. Então reconheço que conheço poucos homens livres. Olho de novo a paisagem e de novo reconheço que covardia e liberdade estiveram em jogo. A burguesia total cai ao se olhar Paysage aux Oiseaux Jaunes. Minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Começo até a pensar que entre loucos há os que não são loucos. E que a possibilidade, a que é verdadeiramente, não é para ser explicada a um burguês quadrado. E à medida que a pessoa quiser explicar se enreda em palavras, poderá perder a coragem, estará perdendo a liberdade. Les Oiseaux Jaunes não pede sequer que se o entenda: esse grau é ainda mais liberdade: não ter medo de não ser compreendido. Olhando a extrema beleza dos pássaros amarelos calculo o que seria se eu perdesse totalmente o medo. O conforto da prisão burguesa tantas vezes me bate no rosto. E antes de aprender a ser livre, tudo eu aguentava — só para não ser livre.
Clarice Lispector, in Crônicas para jovens: de escrita e vida

O homem que as meninas idolatravam

O rei, viva o nosso rei. Rei, rei, rei.
O Rei, lá de cima, olhava. Abria os braços e elas gritavam. As meninas. Que tinham vindo de todos os pontos da cidade. Pobres e ricas. Tinham deixado suas casas, os empregos, as escolas. A cidade estava parada por causa do Rei. E ele sabia disso. Por isso sorria e abria os braços.
Viva o Rei, viva o Rei.
Mandara avisar a todos. Subira à sacada. A rua e os prédios estavam cheios. Era como um grande auditório. Havia brigas, palmas, gritos, choros, cantos, lamentos, uivos, histerismo, desmaios. Cantavam suas músicas. Havia conjuntos, orquestras, bandas. E as pajens, bem embaixo. Na porta do prédio. Fiéis. Via suas roupas coloridas, os cabelos compridos, ouvia os guizos das pulseiras. As pulseiras marca Rei. Via outras pajens, no meio da multidão, comprimidas, sem conseguirem furar o bloco de gente.
Para onde olhasse, o Rei via povo. Acenavam com os lenços. Choravam. Bobagem. Pra que chorar? Vou fazer isto porque amo vocês. Amo demais.
As mãos lá embaixo erguiam as imagens. Ele = bloquinhos de gesso branco. Seu rosto nas mãos das meninas, das mães, dos homens.
Rei, rei, abençoa, abençoa aqui.
Aqui.
Não aqui.
Aqui, rei.
Eu te amo, eu te amo.
Ele ergueu as mãos, abençoou. As pajens sacudiram os guizos e o som suave encheu a rua.
Os helicópteros desciam. Jogavam redes. Não me pegam. Os homens nos prédios em frente tentam me laçar. Eu rio deles. Não se laça um Rei. Não, não vou contar para vocês. Eu amo todo mundo. Mas ninguém me odeia. Eu me sufoco por ser tão amado.
Atirou para o ar um maço de fotos. Elas tinham o fundo prateado. O Rei se atirou também. Tudo flutuou no ar. O papel prateado brilhava ao sol. As pajens do Rei gritaram. Estavam alucinadas. O Rei gritou: Viva as minhas fãs. Eu vivo por vocês. Amo estas pajens.
E as pajens, firmes, à frente, enquanto o Rei descia. Rápido para elas; lento, uma eternidade para ele. O Rei, quando pequeno, na aula de educação física, saltava de cinco metros na lona. O professor mandava. Demorava muito para cair daquela altura.
Via os caminhões vermelhos furando lentamente a multidão. Mal se percebia se estavam andando. Fazia horas que os caminhões vermelhos dos bombeiros tinham aparecido no fim da rua. Não adiantava mais. Tiravam fotografias do prédio em frente, lá debaixo, de cada teto, de todos os edifícios. Lá em cima, tentavam arrombar. Fiz meu apartamento fortaleza. Minha porta de ferro onde nunca ninguém podia entrar.
A hora. Está chegando a hora. As pajens me esperam. Sempre me esperam, fiéis. Firmes nos auditórios, na compra dos discos, nas caravanas, nas estreias dos filmes. Com seus uniforminhos, ganhos no quarto de amor, que a companhia de decoração montou. Especial, cheio de bossas.
As faixas. Como tinham demorado a chegar. Mas quando chegaram, vieram aos montes. As faixas e fotografias e cartazes e as imagens de gesso. Tudo erguido para o alto.
As pajens começaram a aplaudir. Som das palmas e dos guizos das pulseiras Rei. E o Rei vinha voando. Parecia que vinha do céu, tão bonito ele vinha. Agora, as fotografias flutuavam acima dele, como uma nuvem prateada para proteger o Rei. Lindo, lindo, tudo que o Rei faz para nós é lindo, gritavam as pajens. Viva o Rei, o nosso Rei.
Não era publicidade, não era publicidade. A imprensa gritava.
Claro, ele não precisava mais de publicidade.
Foi amor, disse a velha, beijando a estatuetinha branca.
O Rei descia. Eu sempre quis voar, a vida inteira eu quis voar.
As mães choravam, alguns homens sorriam, os fotógrafos fotografavam, os laçadores guardavam os laços, o helicóptero subia, o carro de bombeiros desistia. Todos ficaram olhando para cima.
Para ele, a descida durou horas. Para a multidão, foi um raio. Caiu no meio das pajens. As pajens se atiraram. Beijaram o corpo. E começaram a arranhar a pulseira, o colar, o relógio, os anéis, o cinto, os botões da camisa, a botinha, as meias, a camisa rasgada em mil pedaços, a calça, a cueca.
E todo mundo quis. E todo mundo avançou. E todo mundo correu. E quando uns correram, os outros correram atrás, e a multidão inteira começou a correr. As pajens cantavam.
Viva nosso Rei.
Agora está no céu.
Os anjos estão contentes.
Nosso Rei canta para eles.
Os anjos.
Todos os anjos.
Louvem ao Rei para sempre.
Amém.
Cantavam, erguiam as faixas, mostravam os troféus. E corriam.
E ao correr pisavam o corpo do Rei, estendido na calçada. Do alto, ainda caíam as fotografias com fundo prateado.
Agora, estava escurecendo. E todos corriam pela rua, no meio dos prédios cinzentos, pisavam e repisavam o corpo do Rei. Que foi se transformando numa pasta. Cada vez mais fina.
Uma película apenas sobre a calçada. Pisavam sobre a película e ela se desmanchava. Mais e mais. Até que se dissolveu. Ficou apenas a mancha escura na calçada. Os sapatos pisavam a mancha, ainda úmida. E a mancha ia embora, aos poucos nos sapatos, sandálias, tênis, pés da multidão que corria para um ponto qualquer da cidade. Lá da frente, muito à frente, vinha o canto das pajens.
O Rei está com Deus.
Deus ouve o Rei cantar.
Agora, a calçada estava limpa, a rua vazia, nas árvores havia fotografias enroscadas nos galhos. O povo, longe, corria.
Sem saber para onde.
Ignácio de Loyola Brandão, in Cadeiras Proibidas

Sétimo sapato: a ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros

Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa mágica chamada televisão. Criam uma relação de virtual familiaridade. Aos poucos passamos a ser nós quem acredita estar vivendo fora, dançando nos braços de Janet Jackson. O que os vídeos e toda a sub-indústria televisiva nos vêm dizer não é apenas “comprem”. Há todo um outro convite que é este: “sejam como nós”. Este apelo à imitação cai como ouro sobre azul: a vergonha de sermos quem somos é um trampolim para vestirmos esta outra máscara.
O resultado é que a nossa produção cultural se está convertendo na reprodução macaqueada da cultura dos outros. O futuro da nossa música poderá ser uma espécie de hip hop tropical, o destino da nossa culinária poderá ser o McDonald’s.
Falamos da erosão dos solos, da desflorestação, mas a erosão das nossas culturas é ainda mais preocupante. A secundarização das línguas moçambicanas (incluindo da língua portuguesa) e a ideia de que só temos identidade naquilo que é folclórico são modos de nos soprarem ao ouvido a seguinte mensagem: só somos modernos se formos americanos.
A nossa sociedade tem uma história similar à de um indivíduo. Ambos os percursos são marcados por rituais de transição: o nascimento, o fim da adolescência, o casamento, o fim da vida.
Olho a nossa sociedade urbana e pergunto-me: será que queremos realmente ser diferentes? Porque vejo que esses rituais de passagem se reproduzem como fotocópia fiel daquilo que sempre conheci na sociedade colonial. Estamos dançando a valsa, com vestidos compridos, num baile de finalistas que é decalcado daquele do meu tempo. Estamos copiando as cerimônias de final do curso a partir de modelos europeus da Inglaterra medieval. Casamo-nos de véus e grinaldas e atiramos para longe da avenida Julius Nyerere tudo aquilo que possa sugerir uma cerimônia mais enraizada na terra e na tradição moçambicana.
Mia Couto, in Os sete sapatos sujos (Oração de Sapiência no ISCTEM, Maputo, 2006).

03/04/2020

Um Café Lá Em Casa | João Gaspar e Nelson Faria

A Fortuna cega

No golfo de uma privança, nunca o perigo é mais certo, que quando a fortuna é mais próspera. De duas maneiras cega a fortuna, porque cega como luz e cega como foice; com uma mão abraça, e com outra corta; com a que abraça introduz a cegueira, e com a que corta mostra o desengano. Consiste a prudência em que se temam os resplendores da luz, para que se não cegue aos rigores do golpe. Não faz mal à embarcação o penedo que sobressai por cima da água; porque para evitar o perigo sabe o piloto desviar a nau, por ver manifesto o perigo. Nos penedos que as águas escondem, aí naufraga sempre o baixel; porque cobriu com capa de cristal uma ruína de penhasco, e os que, navegando pelo mar, caminham com os olhos nas ondas, facilmente se esvaem, e quanto maior é na cabeça o esvaecimento, vem a ser mais no coração a fraqueza. Não sabe o que navega quanto tem vencido de distância, se do mesmo mar não tira os olhos, e só fazendo balizas na terra sabe o quanto no mar caminham. É um golfo grande o da privança, e a maior prudência consiste em que se divirtam de alguma vez os olhos, e que façam balizas em terra firme, que é a verdade.
Padre Antônio Vieira, in As sete propriedades da alma

Garoto de ouro


O essencial está na música. A gente lê a biografia ou autobiografia pelo trivial. Miles Davis escrevendo sobre o seu caso com a Juliette Greco: “Eu saía com Sartre e com Juliette e nós sentávamos nos cafés de calçada e bebíamos vinho e comíamos e conversávamos. Juliette me pediu para ficar. Até o Sartre disse: Por que você e Juliette não se casam?”. Ajuda se Jean-Paul Sartre faz parte do seu trivial. Chet Baker não tem nada parecido com Jean-Paul Sartre, Juliette Greco e cafés de calçada em Paris nas suas Memórias Perdidas. Ao contrário de Miles (cuja autobiografia, imagino, não saiu em português porque o tradutor não saberia o que fazer com tanto motherfuckers, ou saiu?), Chet também não conta muito do trivial que mais interessa a quem gosta de jazz: detalhes de gravações, histórias de outros músicos, preferências, influências. Tem-se, isto sim, muito detalhe sobre a sua luta diária por drogas, remédios que substituem drogas, como conseguir drogas em diferentes cidades europeias. E nada sobre o que levou a usá-las. Nem um chavão psicológico: infância infeliz, fragilidade emocional, dificuldade de relacionamento, frustração profissional. Chet foi uma criança amada e sem problemas, fez sucesso popular e crítico desde cedo, tinha cara de artista de cinema e também fazia sucesso com as mulheres. Começou com drogas, supõe-se, só porque elas eram parte da cultura do jazz. Durante um tempo, antes de se popularizar, maconha e heroína eram coisas de músico nos Estados Unidos, uma musa do barato correspondente à “musa sedenta” que deu título a um livro sobre os escritores americanos e a bebida. Chet não explica nem se desculpa pela trivialização das drogas na sua vida, mas elas eram claramente sua preocupação principal. Ele não conta nem como elas afetavam sua música. Para o leitor, é uma trivialidade apenas deprimente.
Miles, na sua autobiografia, conta que quando encontrou Chet pela primeira vez este se mostrou embaraçado por ter sido escolhido pela revista Downbeat como o melhor trompetista de 1953, já que os dois sabiam que o melhor de todos era Dizzy Gillespie. Repetia-se, um pouco, com eles o que tinha acontecido anos antes, quando Louis Armstrong era o grande trompetista do jazz mas o mais festejado pelo público — pelo menos por um curto espaço de tempo até sua morte precoce — era Bix Beiderbecke, bonito como Chet, outro motherfucker branco tirando o lugar de um negro melhor do que ele. Segundo Miles, Chet o copiava. Não é exatamente verdade. Chet tocava sem vibrato, como Miles, mas não dava para confundir os dois. O fraseado era diferente. Chet era um grande improvisador, um dos melhores da história do jazz, mas lhe faltava o que Miles tinha. Pegada, está aí. Musicalmente, não quer dizer nada, mas é a palavra exata.
Chet venceu o concurso da Downbeat pela primeira vez no ano da sua primeira gravação, com o famoso quarteto sem piano de Gerry Mulligan. Pequena trivialidade pessoal: foi o primeiro disco de “jazz moderno” que comprei, nos Estados Unidos. Pacific Jazz, 10 polegadas. Ainda me lembro do deslumbramento. Não era só a novidade da ausência de piano ou qualquer outro instrumento harmônico, com os dois sopros (Gerry no sax barítono, também uma novidade como instrumento solista) equilibrando-se em cima da linha do baixo. Era todo aquele clima ao mesmo tempo cool e lírico, a pretensão intelectual de solos em contraponto mais para música erudita do que para dixieland, uma revelação de possibilidades sonoras insuspeitadas para alguém que, como eu, ouvia Armstrong, Benny Goodman, Coleman Hawkins e nem sabia que existia o Charlie Parker. A origem do que veio a se chamar West Coast Jazz, jazz da costa ocidental, da Califórnia — do qual o quarteto de Gerry Mulligan foi uma das primeiras manifestações — era uma gravação feita por Miles e um noneto, arranjos de Gil Evans e Mulligan entre outros, no fim dos anos 40. Um refinamento do be-bop, com arranjos mais pensados e uma maior preocupação com matizes e combinações de som, baseados no trabalho de Gil Evans para a orquestra de Claude Thornhill. Mas o próprio Miles não foi para a Califórnia com o estilo que lançou, ficou no leste e ajudou a lançar o hard bop, a contrapartida negra e com pegada ao West Coast Jazz predominantemente branco e cerebral. Em 1953, quando Miles e Chet se encontraram, Miles estava no pior do seu período obscuro, com problemas de saúde pela dependência da heroína, e do qual saiu espetacularmente com uma apresentação triunfal no Festival de Jazz de Newport do ano seguinte. Daí em diante seria a maior e mais influente estrela do jazz, lançando estilos novos até o fim. Chet estava no auge, era o recém-descoberto garoto de ouro do jazz californiano, mas já era um dependente irreversível e em pouco tempo começaria a sua rotina de prisões, internamentos, exílios temporários, voltas catastróficas e novos exílios, até morrer em 1988, com a cara de quem já tinha morrido algumas vezes.
Chet fala um pouco de Charlie Parker, que lhe deu o primeiro trabalho, escolhendo-o para trompetista da sua banda quando se apresentou na Califórnia, e tentou protegê-lo da droga, apesar de ser um viciado lendário. E fala mais de Gerry Mulligan, da sua vinda de carro de Nova York, da formação do quarteto inesquecível (Carson Smith era o baixista, Chico Hamilton, o baterista), dos seus galhos com mulheres e drogas. Mas fala bem mais de uma certa lady Isabella MacDougal Frankau, uma mulher de 75 anos, cabelos brancos e porte de executiva, que apesar do nome e da aparência de grande personagem, só entra na história porque é quem fornece receitas de cocaína e heroína para Chet, dentro do programa de tratamento gradual de viciados na Inglaterra. O essencial está na música.
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

Street Art, em São Petersburgo, Rússia


Saltar para o outro lado

Nós estávamos sentados naquela mesa, nervosos, tristes, e descobrimos um novo mundo que nos fez esquecer aqueles sentimentos.”
Orhan Pamuk

A psique é extensa e nada sabe.”
Sigmund Freud

Portanto, no início está a recepção e a voz. Ler, apropriar-se dos livros, é reencontrar o eco longínquo de uma voz amada na infância, o apoio de sua presença sensível para atravessar a noite, enfrentar a escuridão e a separação. Como para essas crianças no hospital, que dizem ouvir, enquanto dormem, a voz da pessoa que leu histórias para elas durante o dia. Ou para Florence, em missão humanitária em Ruanda, que enfrenta, dia após dia, o sofrimento dos sobreviventes do genocídio, reacendendo o luto que ela mesma conheceu. Quando está no quarto de hotel, ou à noite, antes de dormir, ela lê: “Nunca estive tão só como então. Quando não tinha mais livros, estava perdida. Comprei um livro, retomei o prumo. Era alguém, uma presença viva, como quando à noite meus parentes me telefonavam. Uma voz humana. Era físico, uma presença. Eu estava como que com um amigo, uma amiga, e já não esperava”.
Como escreve Pascal Quignard: “Diz-se que os dois primeiros medos, pré-humanos, estão relacionados à solidão e à escuridão. Nós amamos poder fazer surgir à vontade um pouco de companhia e de luz artificial. São as histórias que lemos e que à noite trazemos entre as mãos”. Ou Variam Chalámov: “[...] os livros são também um mundo que não nos trai nunca”. Mesmo sozinhos, o interior de nós mesmos estaria ocupado; ao longo da vida inteira, é possível se fazer acompanhar.
Ler é também tornar-se autônomo: o livro é feito de signos, de linguagem, do registro simbólico que os psicanalistas situam mais do lado do pai, de uma terceira instância separadora. E o ato de chegar à leitura é, às vezes, descrito como a incorporação de algo que é próprio da mãe, em que o pai, ou o ser amado pela mãe, aquele com quem ela sonha, sem dúvida não está ausente. E dizer o quanto, para o psiquismo, aquilo que é apropriado tem um status complexo, heterogêneo.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

02/04/2020

Dos animais, das árvores

Esse tema dos animais precisa ser levantado com muita seriedade. É preciso nos perguntarmos sobre o seu destino, seu futuro. Não é justo, se há um céu para a humanidade, que não haja um céu para todos os animais, porque a vida é a vida. Eu diria que isso vale para os animais e também para as plantas. As árvores que secam e morrem, por que não podem ir para outro lugar? É que nós inventamos um céu apenas para nós porque nós é que sentimos medo, e não as árvores, as quais, portanto, não têm nenhuma necessidade de inventar um deus e muito menos uma religião, nem tampouco uma igreja — nem os meus cachorros a querem.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Curta: "The Kinematograph", de Tomasz Bagiński

Lavoura Arcaica - 28

A terra, o trigo, o pão, a mesa, a família (a terra); existe neste ciclo, dizia o pai nos seus sermões, amor, trabalho, tempo.
Raduan Nassar, in Lavoura Arcaica

Chegada à Califórnia

Fotograma do filme As vinhas da ira (1940), de John Ford

O caminhão rodava sobre a terra quente, as horas passavam. Ruthie e Winfield tinham adormecido. Connie puxou um cobertor, lançou-o sobre si e Rosa de Sharon, e apesar do calor eles se uniram apertados, retendo a respiração. Um pouquinho depois, Connie jogou de lado o cobertor, e o vento quente que peneirava pela fresta da lona armada acariciava-lhe os corpos molhados de suor.
Atrás, na ponta da carroceria, estava a mãe, deitada ao lado da avó. Ela nada podia enxergar, mas podia sentir o corpo se debater e o coração a lutar; a respiração arquejante chegava-lhe aos ouvidos. E a mãe dizia e repetia:
Vai ficar tudo bem; tudo se resolverá. — E continuava em voz rouca: — A gente tem que continuar, a gente tem que chegar.
Tio John perguntou:
Tudo bem?
Demorou um pouco a resposta dela:
Tudo bem. Acho que sim. Tava começando a dormir. — Pouco depois a avó ficou imóvel e a mãe jazia hirta ao lado dela.
As horas noturnas passavam e reinava completa escuridão no caminhão. Às vezes, carros passavam por ele, indo para o Oeste, e logo sumindo; outras vezes pesados caminhões vinham do Oeste e ribombavam rumo ao Leste. As estrelas desciam em lento cortejo para o ocidente. Era cerca de meia-noite quando chegaram às proximidades de Dagget, onde fica o posto de inspeção. A estrada estava fartamente iluminada naquele ponto, e havia uma grande tabuleta luminosa com os dizeres: “CONSERVE-SE À SUA DIREITA E PARE.” Os funcionários estavam no interior da casinha do posto quando chegou o caminhão dos Joad, e logo saíram para o comprido alpendre. Um deles anotou o número da placa de licença do caminhão e abriu o capô do motor.
Que é isto aqui? — perguntou Tom.
Fiscalização de Agricultura. Temos que dar uma busca nas suas coisas. Têm aí vegetais ou sementes?
Não — disse Tom.
Bom, temos que examinar a carga. Desçam todos!
A mãe, agora, saltou do caminhão. Seu rosto estava inchado e seus olhos com uma expressão endurecida.
Escute, seu — começou. — A gente está com uma senhora de idade muito doente aqui no caminhão. Ela tem que ir logo a um médico. Não podemos perder tempo assim. — Ela parecia lutar contra um ataque de histeria. — O senhor não tem o direito de fazer a gente perder tempo.
Ah, é? Pois tenha paciência, a busca tem que ser dada.
Juro que não temos nada disso! — exclamou a mãe. — Juro!... E a avó está muito doente.
A senhora também não parece que esteja muito bem — disse o funcionário.
A mãe trepou na carroceria e endireitou-se com grande esforço.
Aqui, olhe aqui! — disse ela.
O funcionário lançou um facho de luz de lanterna sobre o rosto rígido da anciã.
Meu Deus! — disse. — A senhora jura então que não levam nem vegetais nem sementes? Ou frutas, milho ou laranjas?
Não, não. Juro!
Bom, então vou indo. Em Barstow tem um médico. Fica daqui a uns dez quilômetros. Podem ir.
Tom subiu na cabine e o caminhão continuou a viagem.
O funcionário virou-se para os colegas.
Não achei que tinha o direito de atrasá-los
Quem sabe foi tapeação?... — disse o outro.
Não, garanto que não era. Queria só que você visse a cara da velha. Aquilo não era fingimento.
Tom aumentou a velocidade, e ao chegarem a Barstow parou, saltou e deu a volta no veículo. A mãe debruçou-se.
Tá tudo bem — disse ela. — Não precisa parar aqui. Eu só disse aquilo pra eles deixarem a gente passar.
É?... E como vai a avó?
Bem. Vai tocando pra frente. Vê se a gente chega logo. — Tom meneou a cabeça e voltou ao seu lugar.
Al — disse ele —, agora vamo encher o tanque e ocê vai guiar um pouco. — Estacionou junto a um posto de gasolina, mandou encher o tanque e o radiador, e também o tanque de óleo. Depois Al sentou-se ao volante e Tom tomou lugar junto à outra janela, deixando o pai no meio dos dois. O caminhão foi rodando, escuridão adentro, e as pequenas colinas das cercanias de Barstow foram ficando para trás.
Tom disse:
Não sei o que é que a mãe tem. Ela vive braba que nem cachorro com mosca na orelha. Não ia demorar tanto tempo assim para eles revistarem nossas coisas. E primeiro ela disse que a avó tava muito mal, agora diss’que tá boa. Não sei o que ela tem, acho que não se sente muito bem. Imagina se ela ficasse louca na viagem!
A mãe tá ficando que nem quando era mocinha — disse o pai. — Era braba que te digo! Não tinha medo de nada. Pensei que depois que tivesse filhos e ficasse mais velha a coisa passasse. Mas qual nada! Quando ela tava com aquele ferro na mão, eu é que não ia tirar ele.
Não sei o que ela tem — disse Tom. — Talvez seja só o cansaço.
Eu não posso pensar nisso. Tenho que pensar no carro — falou Al.
Foi uma boa compra que ocê fez — aduziu Tom. — Esse calhambeque quase não deu trabalho à gente.
A noite toda eles foram atravessando as trevas quentes; às vezes surgiam coelhos do mato à luz dos faróis e procuravam fugir em grandes saltos. A manhã cinzenta começava a nascer, atrás deles, quando à sua frente apareceram as luzes de Mojave. E o alvorecer alastrava-se deixando à mostra grandes montanhas a oeste. Em Mojave encheram o tanque de óleo e puseram água no radiador. Quando galgaram as montanhas, o alvorecer já os cobria de luz clara.
Tom disse:
Graças a Deus, passamos o deserto! Pai, Al, em nome de Deus! Atravessamos o deserto!
Para mim tanto faz; tô é cansado como o diabo — replicou Al.
Cê quer que eu dirija?
Não, pera um pouco.
Aos primeiros raios do sol que surgia, eles iam atravessando Tehachapi, e o sol crescia atrás deles... depois, de repente, viram diante de si o grande vale. Al pisou no freio e parou no meio da estrada.
Meu Deus, olha! — disse. — Os vinhedos, os pomares, o grande vale verdejante, fileiras de árvores, as casinhas brancas!
Grande Deus! — disse o pai.
As cidades ao longe, as aldeias entre os pomares e o sol matinal que dourava o vale. Um carro buzinou atrás deles. Al encostou o caminhão à beira da estrada.
Preciso olhar bem isso.
Os campos de trigo, cor de ouro, as fileiras de salgueiros, os pés de eucalipto, altos e retos.
O pai suspirou.
Eu não imaginava que tivesse uma coisa assim, tão bonita...
Os pessegueiros, os grupos de nogueira e as copas baixas, verde-escuras, das laranjeiras. E telhados vermelhos entre as árvores, e celeiros... celeiros cheios. Al saltou e estirou as pernas.
Mãe, chegamos! — gritou.
Ruthie e Winfield escorregaram de cima do caminhão até o chão e agora ali quedavam, silenciosos e assombrados, embaraçados diante do espetáculo do grande vale. Ao longe flutuava fina cerração, e as terras iam adquirindo contornos suaves ao longe. A roda de um moinho brilhou ao sol, e suas pás em movimento pareciam um pequeno heliógrafo. Ruthie e Winfield olhavam-no, e Ruthie sussurrou:
É a Califórnia.
John Steinbeck, in As vinhas da ira

Camelo declarado indesejável

Aceitam todos os pedidos de passagem de fronteira, mas Guk, camelo, inesperadamente declarado indesejável. Vai Guk à central de polícia onde lhe informam nada que fazer, volte para o oásis, declarado indesejável inútil tramitar pedido. Tristeza de Guk, retorno às terras da infância. E os camelos da família e os amigos rodeando-o e o que foi que aconteceu a você, e não é possível, por que precisamente você. Então, uma delegação ao Ministério de Trânsito, para apelar por Guk, com escândalo de funcionários de carreira: isto nunca se viu, voltem imediatamente para o oásis, vai-se abrir um inquérito.
Guk no oásis come capim um dia, outro dia. Todos os camelos passaram a fronteira, Guk continua esperando. Assim acaba o verão, o outono. Depois Guk de volta à cidade, parado numa praça vazia. Muito fotografado por turistas, respondendo aos repórteres. Vago prestígio de Guk na praça. Aproveitando procura sair, na porta tudo muda: declarado indesejável. Guk baixa a cabeça, procura os capinzinhos da praça. Um dia o chamam pelo alto-falante e ele entra feliz na central. Ali é declarado indesejável. Guk volta para o oásis e se deita. Come um pouco de capim, e depois encosta o focinho na areia. Vai fechando os olhos enquanto o sol se põe. De seu nariz brota uma bolha que dura um segundo mais do que ele.
Júlio Cortázar, in Histórias de Cronópios e de Famas

01/04/2020

O Capitalismo, na visão de Steve Cutts


Se falhares, recomeça

Não te aborreças, não desanimes, nem desistas se não fores bem sucedido em tudo de acordo com os princípios corretos; mas quando falhares, recomeça e dá-te por satisfeito se a maior parte do que fazes é condizente com a condição de homem, e ama aquilo a que voltas; não retornes à filosofia como se ela fosse um mestre, mas como aqueles, que sofrendo dos olhos, recorrem à esponja e ao ovo, co como os que aplicam cataplasma e compressas. Assim não deixarás de obedecer à razão, mas te apoiarás nela. E pondera que a filosofia quer apenas o que tua natureza quer, ao passo que tu desejarias algo mais, em desacordo com a natureza. E que seria mais atraente que isso? Mas essa não é a exata razão por que o prazer nos engana? E medita-se se a magnanimidade, liberdade, simplicidade, equanimidade, a piedade não são mais agradáveis. Com efeito, que é mais agradável que a própria sabedoria, se se tem em mente a clarividência e o sucesso que o entendimento e o conhecimento proporcionam?
Marco Aurélio, in Meditações

Digo, desdigo

Desistir de Diadorim, foi o que eu falei? Digo, desdigo. Pode até ser, por meu desmazelo de contar, o senhor esteja crendo que, no arrancho do acampo, eu pouco visse Diadorim, amizade nossa padecesse de descuido ou míngua. O engano.Tudo em contra. Diadorim e eu, a gente parava em som de voz e alcance dos olhos, constante um não muito longe do outro. De manhã à noite, a afeição nossa era duma cor e duma peça. Diadorim, sempre atencioso, esmarte, correto em seu bom proceder. Tão certo de si, ele repousava qualquer mau ânimo. Por que é, então, que eu salto isso, em resumo, como não devia de, nesta conversa minha abreviã? Veja o senhor, o que é muito e mil! estou errando. Estivesse contando ao senhor, por tudo, somente o que Diadorim viveu presente mim, o tempo ― em repetido igual, trivial ― assim era que eu explicava ao senhor aquela verdadeira situação de minha vida. Por que é, então, que deixo de lado? Acho que o espírito da gente é cavalo que escolhe estrada! quando ruma para tristeza e morte, vai não vendo o que é bonito e bom. Seja? E, aquele Garanço, olhe! o que eu dele disse, de bondade e amizade, não foi estrito. Sei que, naquela vez, não senti. Só senti e achei foi em recordação, que descobri, depois, muitos anos. Coitado do Garanço, ele queria relatar, me falava: ― Fui almocreve, no Serém.Tive três filhos... Mas, que sorte de jagunço recluta era ele ― assim meninoso, jalôfo e bom. ― Eta, e você já matou seus muitos homens, Garanço? ― pois perguntei. O riso dele ficava querendo ser mais grosso: ― Eh, eh, nós... Sou algum medroso? E mecê encomenda o quê, no rifle que está em minha mão, mano velho! Eh, não desprevino, não lhe envergonho o desse... O Garanço, mesmo afirmo, acho que nunca duvidou de coisa nenhuma. Toda tardeza dele não deixava. E só. Comum de benquistar e malquistar.
O senhor entenderá? Eu não entendo. Aquele Hermógenes me fazia agradados, demo que ele gostava de mim. Sempre me saudando com estimação, condizia um gracejo amistoso ou umas boas palavras, nem parecia ser o bedegueba. Por cortesia e por estatuto, eu tinha de responder. Mas, em mal. Me irava. Eu criava nôjo dele, já disse ao senhor. Aversão que revém de locas profundas. Nem olhei nunca nos olhos dele. Nôjo, pelos eternos ― razão de mais distâncias. Aquele homem, para mim, não estava definitivo. E arre que ele não desconfiava, não percebia! Queria conversa, me chamava; eu tinha de ir ― ele era o chefe. Fiquei de ensombro. Diadorim notou; me deu conselho: ― Modera esse gênio que você tem, Riobaldo. As pessoas não são tão ruins agrestes. ― Dele não me temo! ― eu respondi. Eu podia xingar com os olhos. Aí, o Hermógenes me presenteou com um nagã, e caixas de balas. Estive para nem aceitar. Eu já possuía revólver meu, carecia algum daquele, de tanto só cano, tão enorme? Por insistências dele, mesmo, com aquilo fiquei. Cuspi, depois. Dado que eu nunca ia retribuir! Queria eu lá viver perto de chefes? Careço é de pousar longe das pessoas de mando, mesmo de muita gente conhecida. Sou peixe de grotão. Quando gosto, é sem razão descoberta, quando desgosto, também. Ninguém, com dádivas e gabos, não me transforma. Aquele Hermógenes era matador ― o de judiar de criaturas filhos-de-deus ― felão de mau. Meus ouvidos expulsavam para fora a fala dele. Minha mão não tinha sido feita para encostar na dele. Ah, esse Hermógenes ― eu padecia que ele assistisse neste mundo... Quando ele vinha conversar comigo, no silêncio da minha raiva eu pedia até ao demônio para vir ficar de permeio entre nós dois, para dele me apartar. Eu podia rechear de balas aquele nagã próprio, e descarregar nele tiros, entre os todos olhos. O senhor tolere e releve estas palavras minhas de fúria; mas, disto, sei, era assim que eu sentia, sofria. Eu era assim. Hoje em dia, nem sei se sou assim mais.
Do ódio, sendo. Acho que, às vezes, é até com ajuda do ódio que se tem a uma pessoa que o amor tido a outra aumenta mais forte. Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores.Tudo cabe. Conforme contei ao senhor, quando Otacília comecei a conhecer, nas serras dos gerais, Buritís Altos, nascente de vereda, Fazenda Santa Catarina. Que quando só vislumbrei graça de carinha e riso e boca, e os compridos cabelos, num enquadro de janela, por o mal acêso de uma lamparina. Mas logo fomos para acomodar, numa rebaixa de engenho-de-pilões, lá pernoitamos. Eu, com Diadorim, Alaripe, João Vaqueiro e Jesualdo, e o Fafafa. No que repontávamos de dura viagem! tudo o que era corpo era bom cansaço. Mas eu dormi com dois anjos-da-guarda.
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

O Teatro Mágico - Não há de ser nada

Nossa amiga

Não é bastante alta para chegar ao botão da campainha.
O peixeiro presta-lhe esse serviço, tocando. Alguém abre. — Foi a garota que pediu para chamar...
Quando não é algum transeunte austero, senador ou ministro do Supremo, que atende à sua requisição.
Com pouco, a solução já não lhe satisfaz. Descobre na porta, a seu alcance, a abertura forrada de metal e coberta por uma tampa móvel, de matéria idêntica: por ali entram as cartas. Os dedos sacodem a tampa, desencadeando o necessário e aflitivo rumor. Antes de abrir, perguntam de dentro:
Quem está aí? É de paz ou de guerra?
De fora respondem:
É Luci Machado da Silva. Abre que eu quero entrar.
Ante a intimação peremptória, franqueia-se o recinto. Entra uma coisinha morena, despenteada, às vezes descalça, às vezes comendo pão com cocada, mas sempre séria, ar extremamente maduro das meninas de três anos.
À força de entrar, sair, tornar a entrar minutos depois, tornar a sair, lanchar, dormir na primeira poltrona, praticar pequenos atos domésticos, dissolveu a noção de residência, se é que não a retificou para os dicionários do futuro.
Qual é a sua casa?
Esta.
E a outra de onde você veio?
Também.
Quantas casas você tem?
Esta e aquela.
De qual você gosta mais?
Que é que você vai me dar?
Nada.
Gosto da outra.
Tem aqui esta pessegada, esta bananinha...
Gosto desta casa! Gosto de você!
Não é gulodice nem interesse mesquinho... Será antes prazer de sentir-se cortejada, mimada. Esquece a merenda para ficar na sala, de mão na boca, olhando os pés estendidos, enquanto alguém lhe acarinha os cabelos. Nem tudo são flores, no espaço entre as duas residências. Há Catarina e Pepino.
Catarina foi inventada à pressa, para frustrar certa depredação iminente. Os bichos de cristal na mesinha da sala de estar tentavam a mão viageira. Pressentia-se o momento em que as formas alongadas e frágeis se desfariam.
Na parede, esquecida, preta, pousara uma bruxa.
Não mexa nos bichinhos.
Mexia.
Não mexa, já disse... Em vão.
Você está vendo aquela bruxa ali? É Catarina.
Que Catarina?
Uma menina de sua idade, igualzinha a você, talvez até mais bonita. Muito mexedeira, mas tanto, tanto! Um dia foi brincar com o cachorrinho de vidro, a mãe não queria que ela brincasse. Catarina teimou, mexeu e quebrou o cachorrinho. Então, de castigo, Catarina virou aquela bruxinha preta, horrorosa. Para o resto da vida.
A mão imobiliza-se. A bruxa está presa tanto na parede como nos olhos fixos, grandes, pensativos. Entre os mitos do mundo (entre os seres reais?) existe mais um, alado, crepuscular, rebelde e decaído.
Pepino tem existência mais positiva. Circula na rua — a rua é o espaço entre as duas quadras, repleto de surpresas — geralmente à tarde. Vem bêbado, curvado, expondo em frases incoerentes seus problemas íntimos. Pegador de crianças.
Vou embora para minha casa. Você vai me levar.
Mas você mora tão pertinho...
E Pepino?
Pepino não pega ninguém. Ele é camarada.
Pega, sim. Eu sei.
Pois eu vou dar uma festa para as crianças desta rua e convido Pepino. Você vai ver se ele pega.
Eu não vou na festa.
Você é quem perde. Vem Elzinha, Nesinha, Heloísa, Alice, Maria Helena, Lourdes, Bárbara, Edison, Careca, João e Adão. Pepino vai dançar para as crianças. Você, como é uma boba, não toma parte. — Até logo!
Sai voando, a porta fecha-se com estrondo. Da varanda, ainda se vê o pequeno vulto desgrenhado.
Espere aí, você não tem medo do Pepino?
Não. Estou zangada com você.
Com a zanga, desaparece o temor. Seria realmente temor? Gosta de ser acompanhada, para dizer à mãe, quando chega em casa: — Espia quem me trouxe.
Volta meia hora depois, penteada, calçada, vestido limpo.
Espia minha roupa nova. Meu sapato branco.
Mas que beleza! Onde você vai?
Vou na festa.
Para tomar banho e trocar de vestido, é necessário que se anuncie sempre uma festa, jamais localizada ou realizada, mas que opera interiormente sua fascinação. Não há pressa em ir para ela. A merenda, a conversa grave com pessoas grandes, estranhamente preferidas a quaisquer outras, o brinquedo personalíssimo com o primeiro encontro do dia — um carretel, a galinha que salta do carrinho de feira — fazem esquecer a festa, se não a constituem. E resta saber se o enganado não será o adulto, que sugere terrores ou recompensas fantasiosas. Nas campinas da imaginação, esse galope de formas — será a verdade?
Senta-se no corredor, e com uns panos velhos, lápis vermelho, pedrinha, qualquer elemento poetizável, representa para si só a imemorial história das mães.
Comadre, seu filhinho como vai?
Tá bom, comadre, e o seu?
Tá com dedo machucado e dodói na barriga. Vai tomar injeção.
Então vou dar no meu também.
Perguntas e respostas, recolhidas em conversas de adulto, saem da mesma boca inexperiente. O objeto que serve de filho é embalado com seriedade. A doença existe, existem os sustos maternais. Mas tudo se desfaz, se acaso um intruso vem surpreender a criação, tirada em partes iguais da vida e do sonho, e que os prolonga.
Assim pudesse a mãe antiga tornar invisível seu filho, ante os soldados de Herodes.
Carlos Drummond de Andrade, in Os cem melhores contos brasileiros do século

Só palavras...

Na escola eu aprendi complicadas classificações botânicas, taxonomias, nomes latinos – que esqueci. Mas nenhum professor jamais chamou a minha atenção para a beleza de uma árvore ou para o curioso das simetrias das folhas. Parece que, naquele tempo, as escolas estavam mais preocupadas em fazer com que os alunos decorassem palavras que com a realidade para a qual elas apontam. As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver melhor o mundo. Aprendemos palavras para melhorar os olhos.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola