2.
A casa era um depósito dos vestígios
de muitas vidas. Diante da porta do quarto, havia uma sala pequena.
Das marcas retangulares nas paredes imaginei os quadros. Uma máquina
de costura em silêncio, uma cadeira sem assento e uma espessa camada
de poeira, que denunciava abandono. Um piano de madeira escura servia
agora apenas como a prateleira de retratos desbotados de casais,
mulheres, homens, crianças que partiram deste mundo muitos anos
antes.
Ao lado vi outra sala, um pouco menos
suja. E vi Fernando. A mesa posta contrastava com o cenário ao redor
porque, no meio dela, havia uma flor. Uma garrafa branca com água e
uma rosa amarela de Almofala, como eu saberia depois. Um dos dois
saiu no frio para buscá-la e dar outra ordem ao lugar do nosso
pequeno-almoço.
Florice estava cozinhando enquanto uma
mulher cantava no rádio. Fernando puxou uma cadeira para mim. A
menina conseguiu descansar? Sentiste alguma dor na cabeça, no corpo,
estás bem? O sono foi reparador, sim, mas não resgatou nenhum traço
de memória. Ele perguntaria isso a seguir e já adiantei que não
recuperei nada.
Interrompeu o exame, mudou de assunto,
alinhou a colher com a mão direita, o garfo com a esquerda e contou
que o capricho da mesa era graças a uma mala de apetrechos trazidos
pela esposa. Toalha de mesa, copos, chávenas, pratos, talheres, tudo
era deles. Florice só sabe estar cercada de beleza, ele disse, só
anda com as coisinhas dela. Os dois perfumados, penteados,
bem-vestidos. Especialmente ele, Fernando, e sua inabalável
elegância e olhar sempre atento a todos os meus gestos. Não era só
cuidado; havia curiosidade e um pouco de medo, um sentido de alerta.
As bagagens estavam no chão, uma mala
aberta e outra fechada. Perto delas, um pacote enrolado com plástico
preto e barbante, em cima de um cobertor dobrado, parecia um bebê
morto e preparado para um enterro. Não tive tempo de perguntar o que
era, nunca esqueci a sensação que me causou aquele embrulho,
aterrorizante como um choque frio. Durou segundos minha vista ali,
logo Florice encheu minha xícara de café e o cheiro me acordou. Só
depois de tomar metade e de comer algo comecei a falar e a fazer
perguntas: como fui parar naquele lugar, o que aconteceu, se eu
estava morta, se ela era a Morte e ele era Deus, ou a Morte e seu
auxiliar. Os dois riam, achavam divertida a minha confusão. Até que
veio a sentença:
— Você trouxe todas as palavras.
Foi Fernando quem disse. Perguntei de
novo o que tinha acontecido comigo e Florice foi direta: sabemos
muito pouco sobre isso, só recebemos o aviso de que alguém chegaria
no chão deste lugar, e foi preciso correr para o teu resgate. De
repente estávamos concentrados em falar a sério sobre todo aquele
absurdo.
— E como vocês souberam?
— Recebemos um telefonema.
— E o que disseram de mim? Não
explicaram nada?
— Nada. Foi uma conversa breve.
Mandaram que viéssemos à Almofala, esta aldeia, buscar uma mulher e
desligaram o telefone. Nós já sabíamos que iria acontecer um dia
conosco, mas demorou muito. Abrimos o mapa de Portugal, eu e Florice,
e vimos seis aldeias com o mesmo nome, cada uma menor que a outra,
seria um código? Almofala é uma palavra árabe, significa
acampamento temporário. Al mohala. Os mouros foram deixando muitos
pelo caminho. Ficamos sem saber o que fazer, imaginamos mil sentidos,
uma senha, um enigma. Estávamos perdidos.
— E como descobriram?
— Recebemos outra ligação pedindo
desculpas pela confusão e explicando que era a Almofala perto de
Caldas da Rainha.
— E só?
— Só. Falou do pó de café, mas
disso eu já sabia.
— O que pó de café tem a ver com
isso?
— Quando se recebe o aviso da
chegada do Ressurrecto a gente joga pó de café no lugar onde quer
que a terra se abra, ajuda no caminho. Meu avô fazia assim porque
alguém disse a ele.
— Ressurrecto? Eu sou isso?
— É como meu pai chamava. Pessoas
que iam morrer, mas por um triz escaparam e voltaram à vida em outro
lugar.
— E qual o sentido disso?
— A menina ainda não percebeu que
quase nada na vida faz sentido? Algumas coisas são obrigatórias, é
preciso fazer e já está. Desde pequena eu sei que temos de jogar o
pó de café no terreno e aguardar a criatura que vai chegar,
receber, cuidar de todas as maneiras até que a pessoa vá embora por
decisão própria, são as regras. E entre um acontecimento e outro,
rezar para que nada de mal nos ocorra. Achei que não aconteceria
mais, que por algum motivo eu poderia estar livre, mas tu vieste. Se
a gente começar com isso de entender ninguém termina mais essa
conversa e temos muito a fazer.
— Quem ligou, era homem ou mulher?
— Mulher. Apresentou-se como Regina,
nada mais.
— Quem é essa Regina? Por que ela
sabe de mim?
— Não faço ideia, menina, nunca a
vi na vida. Ela só disse essas coisas e desligou. Falava rápido
demais, um entusiasmo de ideias, mas consegui entender e cá estamos.
Chegamos semana passada e arranjamos esta casa. Fizemos vigília para
esperar teu desenterro, obedecendo à ordem da razão mística que
nunca entenderemos, como dizia meu pai.
— Mas por quê? O que vocês querem
comigo?
— Queremos nada. É uma obrigação
a cumprir, só isso. Salvamos a tua vida, a menina deveria agradecer.
Florice tentou encerrar a conversa,
aborrecida, irritada, resmungando. Ficou me perguntando se eu queria
algo mais, que era bom comer bastante pois devia ter perdido
vitaminas. Da bruma ao corpo, de novo. Fernando retomou a conversa:
— Lembraste teu nome, uma letra, um
som?
— Não.
— Vais lembrar. Mas escuta: esta
casa não é nossa, como já expliquei. Não somosdaqui, alugamos só
para te receber e já vamos embora amanhã. Ainda dá tempo de
passear um pouco pela aldeia, tu precisas andar para reequilibrar a
circulação, funções vitais. É necessário.
— Eu vou ficar aqui?
— Não, claro que não. Vamos te
levar para a casa da irmã de Florice, no Norte. De lá seguimos a
nossa vida, tu segues a tua e não estarás desamparada nesse começo.
Moramos em um apartamento em Lisboa, na casa de minha cunhada tu
terás mais conforto. Ela vive sozinha, vai gostar da tua companhia,
já falamos com ela. Depois tu decides teu destino, quando lembrar.
Alguns voltam para casa, outros ficam, é escolha tua, mas por
enquanto é nossa responsabilidade cuidar de ti até que essa fase de
confusão passe.
Então eles cuidariam de mim, mas eu
deveria seguir a minha vida em breve. Eu, que não sabia que vida
tive, sem pistas daquilo que fui e não sei. Voltei para o quarto,
peguei um dos casacos, o verde, de veludo, e calcei um par de botas
que cabiam três pés dentro de cada uma.
Na porta, Fernando disse que iria
comigo caminhar, mas que seria rápido para não despertar a
curiosidade das pessoas. Almofala era uma aldeia pequena, uma e outra
casa habitada, com roseiras no jardim, flores saindo dos muros, datas
antigas sobre as portas, tomada por gatos peludos de todos os tipos.
A maioria das construções estava
abandonada. O som das pedras sob nossos sapatos quebrava o silêncio
frio e triste. Estávamos no alto de uma montanha, o cume do mundo, o
mais perto possível do céu.
Dobrando à esquerda da casa vimos uma
igrejinha no alto, em formato triangular, vazia e de portas fechadas.
Um homem que arrancava mato das pedras do muro veio falar com
Fernando. Entendi que se conheciam do primeiro dia, trataram do
aluguel, ele perguntou se estava tudo bem na casa, acho que tentava
entender o que fazíamos ali, porque metralhava as perguntas olhando
para mim. Fernando explicou que procurou uma aldeia tranquila e alta
para uns dias de descanso com a sobrinha doente.
Para evitar seu olhar estupefato,
achei prudente subir os degraus, entrar na igreja e me sentar um
pouco, mas estava trancada. Havia uma rosa vermelha no batente,
fresca, recém-colhida. Talvez deixada por alguém que iria levá-la
para algum santo e deu com a porta fechada.
Os dois conversavam e o homem falava
de Almofala, contava que os idosos foram morrendo e que as famílias
nunca voltaram para reclamar as casas, que tudo morria junto com quem
partia e talvez fosse culpa das almas do fosso, os mortos da Santa
Inquisição. Os enforcamentos aconteciam ali, os corpos eram jogados
lá — ele apontava com precisão, colocando seus olhos nas palavras
para explicar a geografia do desterro, sem precisar a data, parecia
um ato de sempre, enforcar, jogar no buraco da morte.
Dei a volta para não ouvir mais.
Encontrei uma portinha lateral, talvez estivesse aberta. Quando subi
os degraus, todas as portas começaram a sacudir, várias mãos ao
mesmo tempo, um movimento orquestrado pelo vento. Continuei subindo e
com mais um passo, mais de perto, estavam sacolejando a madeira com
violência, implorando para sair, mais forte e mais alto. Isso
acontecia com a porta principal, a lateral e as janelas,
sincronizadas, e teria de ser, então, trabalho de umas tantas
pessoas. Eu ouvia um murmurar de longe, confuso, tive medo, mas os
homens conversavam normalmente, não pareciam ouvir nada. Desci
correndo e escorreguei na areia.
Fernando olhou para mim espantado,
ajudou-me a levantar e adiantou nosso retorno, sem entender meu
susto, minhas palavras desconexas, em voz bem alta, repetindo que
estavam tentando abrir as portas e as janelas, que era preciso salvar
as almas presas dos enforcados. Alguns moradores começaram a
aparecer pelas ruelas, e o rumor da forasteira louca já estava se
espalhando, pelo visto, coisa fácil de acontecer em um lugar morto,
onde nunca há novidades e são tão poucos os vivos. Despediu-se
explicando ao homem que precisava cuidar da sobrinha doente, que já
iríamos embora. Voltei para casa chorando e amaldiçoando o fosso
vazio da minha memória.
Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

Nenhum comentário:
Postar um comentário