05/10/2026

Parte I – Você trouxe todas as palavras

 


2.

A casa era um depósito dos vestígios de muitas vidas. Diante da porta do quarto, havia uma sala pequena. Das marcas retangulares nas paredes imaginei os quadros. Uma máquina de costura em silêncio, uma cadeira sem assento e uma espessa camada de poeira, que denunciava abandono. Um piano de madeira escura servia agora apenas como a prateleira de retratos desbotados de casais, mulheres, homens, crianças que partiram deste mundo muitos anos antes.
Ao lado vi outra sala, um pouco menos suja. E vi Fernando. A mesa posta contrastava com o cenário ao redor porque, no meio dela, havia uma flor. Uma garrafa branca com água e uma rosa amarela de Almofala, como eu saberia depois. Um dos dois saiu no frio para buscá-la e dar outra ordem ao lugar do nosso pequeno-almoço.
Florice estava cozinhando enquanto uma mulher cantava no rádio. Fernando puxou uma cadeira para mim. A menina conseguiu descansar? Sentiste alguma dor na cabeça, no corpo, estás bem? O sono foi reparador, sim, mas não resgatou nenhum traço de memória. Ele perguntaria isso a seguir e já adiantei que não recuperei nada.
Interrompeu o exame, mudou de assunto, alinhou a colher com a mão direita, o garfo com a esquerda e contou que o capricho da mesa era graças a uma mala de apetrechos trazidos pela esposa. Toalha de mesa, copos, chávenas, pratos, talheres, tudo era deles. Florice só sabe estar cercada de beleza, ele disse, só anda com as coisinhas dela. Os dois perfumados, penteados, bem-vestidos. Especialmente ele, Fernando, e sua inabalável elegância e olhar sempre atento a todos os meus gestos. Não era só cuidado; havia curiosidade e um pouco de medo, um sentido de alerta.
As bagagens estavam no chão, uma mala aberta e outra fechada. Perto delas, um pacote enrolado com plástico preto e barbante, em cima de um cobertor dobrado, parecia um bebê morto e preparado para um enterro. Não tive tempo de perguntar o que era, nunca esqueci a sensação que me causou aquele embrulho, aterrorizante como um choque frio. Durou segundos minha vista ali, logo Florice encheu minha xícara de café e o cheiro me acordou. Só depois de tomar metade e de comer algo comecei a falar e a fazer perguntas: como fui parar naquele lugar, o que aconteceu, se eu estava morta, se ela era a Morte e ele era Deus, ou a Morte e seu auxiliar. Os dois riam, achavam divertida a minha confusão. Até que veio a sentença:
— Você trouxe todas as palavras.
Foi Fernando quem disse. Perguntei de novo o que tinha acontecido comigo e Florice foi direta: sabemos muito pouco sobre isso, só recebemos o aviso de que alguém chegaria no chão deste lugar, e foi preciso correr para o teu resgate. De repente estávamos concentrados em falar a sério sobre todo aquele absurdo.
— E como vocês souberam?
— Recebemos um telefonema.
— E o que disseram de mim? Não explicaram nada?
— Nada. Foi uma conversa breve. Mandaram que viéssemos à Almofala, esta aldeia, buscar uma mulher e desligaram o telefone. Nós já sabíamos que iria acontecer um dia conosco, mas demorou muito. Abrimos o mapa de Portugal, eu e Florice, e vimos seis aldeias com o mesmo nome, cada uma menor que a outra, seria um código? Almofala é uma palavra árabe, significa acampamento temporário. Al mohala. Os mouros foram deixando muitos pelo caminho. Ficamos sem saber o que fazer, imaginamos mil sentidos, uma senha, um enigma. Estávamos perdidos.
— E como descobriram?
— Recebemos outra ligação pedindo desculpas pela confusão e explicando que era a Almofala perto de Caldas da Rainha.
— E só?
— Só. Falou do pó de café, mas disso eu já sabia.
— O que pó de café tem a ver com isso?
— Quando se recebe o aviso da chegada do Ressurrecto a gente joga pó de café no lugar onde quer que a terra se abra, ajuda no caminho. Meu avô fazia assim porque alguém disse a ele.
— Ressurrecto? Eu sou isso?
— É como meu pai chamava. Pessoas que iam morrer, mas por um triz escaparam e voltaram à vida em outro lugar.
— E qual o sentido disso?
— A menina ainda não percebeu que quase nada na vida faz sentido? Algumas coisas são obrigatórias, é preciso fazer e já está. Desde pequena eu sei que temos de jogar o pó de café no terreno e aguardar a criatura que vai chegar, receber, cuidar de todas as maneiras até que a pessoa vá embora por decisão própria, são as regras. E entre um acontecimento e outro, rezar para que nada de mal nos ocorra. Achei que não aconteceria mais, que por algum motivo eu poderia estar livre, mas tu vieste. Se a gente começar com isso de entender ninguém termina mais essa conversa e temos muito a fazer.
— Quem ligou, era homem ou mulher?
— Mulher. Apresentou-se como Regina, nada mais.
— Quem é essa Regina? Por que ela sabe de mim?
— Não faço ideia, menina, nunca a vi na vida. Ela só disse essas coisas e desligou. Falava rápido demais, um entusiasmo de ideias, mas consegui entender e cá estamos. Chegamos semana passada e arranjamos esta casa. Fizemos vigília para esperar teu desenterro, obedecendo à ordem da razão mística que nunca entenderemos, como dizia meu pai.
— Mas por quê? O que vocês querem comigo?
— Queremos nada. É uma obrigação a cumprir, só isso. Salvamos a tua vida, a menina deveria agradecer.
Florice tentou encerrar a conversa, aborrecida, irritada, resmungando. Ficou me perguntando se eu queria algo mais, que era bom comer bastante pois devia ter perdido vitaminas. Da bruma ao corpo, de novo. Fernando retomou a conversa:
— Lembraste teu nome, uma letra, um som?
— Não.
— Vais lembrar. Mas escuta: esta casa não é nossa, como já expliquei. Não somosdaqui, alugamos só para te receber e já vamos embora amanhã. Ainda dá tempo de passear um pouco pela aldeia, tu precisas andar para reequilibrar a circulação, funções vitais. É necessário.
— Eu vou ficar aqui?
— Não, claro que não. Vamos te levar para a casa da irmã de Florice, no Norte. De lá seguimos a nossa vida, tu segues a tua e não estarás desamparada nesse começo. Moramos em um apartamento em Lisboa, na casa de minha cunhada tu terás mais conforto. Ela vive sozinha, vai gostar da tua companhia, já falamos com ela. Depois tu decides teu destino, quando lembrar. Alguns voltam para casa, outros ficam, é escolha tua, mas por enquanto é nossa responsabilidade cuidar de ti até que essa fase de confusão passe.
Então eles cuidariam de mim, mas eu deveria seguir a minha vida em breve. Eu, que não sabia que vida tive, sem pistas daquilo que fui e não sei. Voltei para o quarto, peguei um dos casacos, o verde, de veludo, e calcei um par de botas que cabiam três pés dentro de cada uma.
Na porta, Fernando disse que iria comigo caminhar, mas que seria rápido para não despertar a curiosidade das pessoas. Almofala era uma aldeia pequena, uma e outra casa habitada, com roseiras no jardim, flores saindo dos muros, datas antigas sobre as portas, tomada por gatos peludos de todos os tipos.
A maioria das construções estava abandonada. O som das pedras sob nossos sapatos quebrava o silêncio frio e triste. Estávamos no alto de uma montanha, o cume do mundo, o mais perto possível do céu.
Dobrando à esquerda da casa vimos uma igrejinha no alto, em formato triangular, vazia e de portas fechadas. Um homem que arrancava mato das pedras do muro veio falar com Fernando. Entendi que se conheciam do primeiro dia, trataram do aluguel, ele perguntou se estava tudo bem na casa, acho que tentava entender o que fazíamos ali, porque metralhava as perguntas olhando para mim. Fernando explicou que procurou uma aldeia tranquila e alta para uns dias de descanso com a sobrinha doente.
Para evitar seu olhar estupefato, achei prudente subir os degraus, entrar na igreja e me sentar um pouco, mas estava trancada. Havia uma rosa vermelha no batente, fresca, recém-colhida. Talvez deixada por alguém que iria levá-la para algum santo e deu com a porta fechada.
Os dois conversavam e o homem falava de Almofala, contava que os idosos foram morrendo e que as famílias nunca voltaram para reclamar as casas, que tudo morria junto com quem partia e talvez fosse culpa das almas do fosso, os mortos da Santa Inquisição. Os enforcamentos aconteciam ali, os corpos eram jogados lá — ele apontava com precisão, colocando seus olhos nas palavras para explicar a geografia do desterro, sem precisar a data, parecia um ato de sempre, enforcar, jogar no buraco da morte.
Dei a volta para não ouvir mais. Encontrei uma portinha lateral, talvez estivesse aberta. Quando subi os degraus, todas as portas começaram a sacudir, várias mãos ao mesmo tempo, um movimento orquestrado pelo vento. Continuei subindo e com mais um passo, mais de perto, estavam sacolejando a madeira com violência, implorando para sair, mais forte e mais alto. Isso acontecia com a porta principal, a lateral e as janelas, sincronizadas, e teria de ser, então, trabalho de umas tantas pessoas. Eu ouvia um murmurar de longe, confuso, tive medo, mas os homens conversavam normalmente, não pareciam ouvir nada. Desci correndo e escorreguei na areia.
Fernando olhou para mim espantado, ajudou-me a levantar e adiantou nosso retorno, sem entender meu susto, minhas palavras desconexas, em voz bem alta, repetindo que estavam tentando abrir as portas e as janelas, que era preciso salvar as almas presas dos enforcados. Alguns moradores começaram a aparecer pelas ruelas, e o rumor da forasteira louca já estava se espalhando, pelo visto, coisa fácil de acontecer em um lugar morto, onde nunca há novidades e são tão poucos os vivos. Despediu-se explicando ao homem que precisava cuidar da sobrinha doente, que já iríamos embora. Voltei para casa chorando e amaldiçoando o fosso vazio da minha memória.

Socorro Acioli, em Oração para Desaparecer

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