Cenário
Apartamento velho, construído há
mais de trinta anos. O cenário deve ser construído apenas em sua
estrutura básica, isto é, vazado, de modo que se veja em conjunto
alguns dos cômodos – sala, parte do banheiro – necessários à
ação. O apartamento tem ar de abandonado – ar que perde no
decorrer da ação – mas não há muito tempo. Posse familiar, de
certa forma invendável – pois o prédio está num processo de
afundamento lentíssimo mas talvez inexorável – ficou disponível
para qualquer membro da família que o quiser, precariamente,
habitar. Rachaduras nas paredes, onde houver paredes visíveis.
Importante: em frente, a porta que dá para o corredor externo é de
vidro grosso, por onde se vê a sombra de pessoas que se aproximam.
Mas não mais que isso! Muitos móveis esparsos e muitas estantes
vazias – há intelectuais na família! Uma bela escrivaninha, peça,
hoje, de antiquário. Essa escrivaninha está em posição diferente
em cada cena. No início da peça, no fim do primeiro ato e no fim do
segundo ato, está mais ou menos na mesma posição, no centro da
cena.
À direita, no proscênio, outra parte
da casa, indefinível. E uma simples parede, mais alta, com janela
permanentemente fechada, como se desse para um pátio interno.
Andaimes de ferro, remontáveis. Até certo ponto da ação há uma
lâmpada nua pendente do teto, no centro da sala, esperando
luminária. Deve estar um pouco abaixo da altura de uma pessoa
normal. Depois de uma certa cena, mais alta.
Há 15 cenas nesta história. Entre
cada uma delas acontecem no cenário pequenas – ou grandes –
alterações. Coisas que são retiradas, coisas que são
acrescentadas ou mudadas de lugar. Pois há uma reforma em andamento
e se sente o progresso do trabalho através dessas alterações.
Assim, um móvel que estava já não está. Um que não havia antes,
aparece. Uma estante vazia já está com livros. Coisas são
rearrumadas. Uma parede branca já ficou azul, ou vice-versa. As
mudanças maiores ou menores devem ser feitas de acordo com o tempo
decorrido entre uma cena e outra, conforme indicado.
Millôr Fernandes, em Duas tábuas e uma paixão

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