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Alguns se perguntarão por que meu pai
não ia, ele mesmo, ao cinema; pelo menos quando passassem um filme
mexicano. Meu pai não conseguia andar. Tinha sofrido um acidente de
trabalho que o deixou paralítico da cintura para baixo. Não
trabalhava mais. Recebia uma pensão de invalidez que era uma
miséria, mal dava para comer.
Nem preciso dizer que a gente não
tinha nem para uma cadeira de rodas. Para levá-lo da sala para o
quarto, ou do quarto para a porta da rua – onde ele gostava de
beber sua garrafa de vinho tinto vendo passarem a tarde e seus amigos
–, meus irmãos tinham adaptado as rodas de um velho triciclo na
poltrona. O triciclo tinha sido o primeiro presente de páscoa do meu
irmão mais velho e as rodas não aguentavam muito o peso do meu pai,
dobravam, e era preciso ficar consertando tudo o tempo inteiro.
E a minha mãe? Bom, minha mãe,
depois do acidente, abandonou meu pai. Abandonou meu pai e nos
abandonou, os seus cinco filhos. Assim, num vupt! Por isso lá em
casa meu pai tinha nos proibido de falar dela; da “sirigaita”,
como a chamava com desdém.
“Não me falem dessa sirigaita” –
dizia ele, quando algum de nós, sem querer, deixava escapar a
palavra mamãe.
Depois, entrava no silêncio e a gente
levava horas até conseguir tirá-lo de lá.
Hernán Rivera Letelier, em A Contadora de Filmes

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