124.
(Chapter on Indifference or something
like that)
Toda a alma digna de si própria
deseja viver a vida em Extremo.
Contentar-se com o que lhe dão é
próprio dos escravos. Pedir mais é próprio das crianças.
Conquistar mais é próprio dos loucos, porque toda a conquista é
Viver a vida em Extremo significa
vivê-la até ao limite, mas há três maneiras de o fazer, e a cada
alma elevada compete escolher uma das maneiras. Pode viver-se a vida
em extremo pela posse extrema dela, pela viagem Ulisseia através de
todas as sensações vividas, através de todas as formas de energia
exteriorizada. Raros, porém, são, em todas as épocas do mundo, os
que podem fechar os olhos cheios do cansaço soma de todos os
cansaços, os que possuíram tudo de todas as maneiras.
Raros podem assim exigir da vida,
conseguindo-o, que ela se lhes entregue corpo e alma; sabendo não
ser ciumentos dela por saber ter-lhe o amor inteiramente. Mas este
deve ser, sem dúvida, o desejo de toda a alma elevada e forte.
Quando essa alma, porém, verifica que lhe é impossível tal
realização, que não tem forças para a conquista de todas as
partes do Todo, tem dois outros caminhos que siga — um, a abdicação
inteira, a abstenção formal, completa, relegando para a esfera da
sensibilidade aquilo que não pode possuir integralmente na região
da atividade e da energia. Mais vale supremamente não agir que agir
inutilmente, fragmentariamente, imbastantemente, como a inúmera
supérflua maioria inane dos homens; outro, o caminho do perfeito
equilíbrio, a busca do Limite na Proporção Absoluta, por onde a
ânsia de Extremo passa da vontade e da emoção para a Inteligência,
sendo toda a ambição não de viver toda a vida, não de sentir toda
a vida, mas de ordenar toda a vida, de a cumprir em Harmonia e
Coordenação inteligente.
A ânsia de compreender, que para
tantas almas nobres substitui a de agir, pertence à esfera da
sensibilidade. Substituir a Inteligência à energia, quebrar o elo
entre a vontade e a emoção, despindo de interesse todos os gestos
da vida material, eis o que, conseguido, vale mais que a vida, tão
difícil de possuir completa, e tão triste de possuir parcial.
Diziam os argonautas que navegar é
preciso, mas que viver não é preciso.
Argonautas, nós, da sensibilidade
doentia, digamos que sentir é preciso, mas que não é preciso
viver.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

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