Como sempre sucedeu, e há-de suceder
sempre, a questão central de qualquer tipo de organização social
humana, da qual todas as outras decorrem e para a qual todas acabam
por concorrer, é a questão do poder, e o problema teórico e
prático com que nos enfrentamos é identificar quem o detém,
averiguar como chegou a ele, verificar o uso que dele faz, os meios
de que se serve e os fins a que aponta. Se a democracia fosse, de
facto, o que com autêntica ou fingida ingenuidade continuamos a
dizer que é, o governo do povo pelo povo e para o povo, qualquer
debate sobre a questão do poder perderia muito do seu sentido, uma
vez que, residindo o poder no povo, era ao povo que competiria a
administração dele, e, sendo o povo a administrar o poder, está
claro que só o deveria fazer para seu próprio bem e para sua
própria felicidade, pois a isso o estaria obrigando aquilo a que
chamo, sem nenhuma pretensão de rigor conceptual, a lei da
conservação da vida. Ora, só um espírito perverso, panglossiano
até ao cinismo, ousaria apregoar a felicidade de um mundo que, pelo
contrário, ninguém deveria pretender que o aceitemos tal qual é,
só pelo facto de ser, supostamente, o melhor dos mundos possíveis.
É a própria e concreta situação do mundo chamado democrático,
que se é verdade serem os povos governados, verdade é também que
não o são por si mesmos nem para si mesmos. Não é em democracia
que vivemos, mas sim numa plutocracia que deixou de ser local e
próxima para tornar-se universal e inacessível.
Por definição, o poder democrático
terá de ser sempre provisório e conjuntural, dependerá da
estabilidade do voto, da flutuação das ideologias ou dos interesses
de classe, e, como tal, pode ser entendido como um barómetro
orgânico que vai registando as variações da vontade política da
sociedade. Mas, ontem como hoje, e hoje com uma amplitude cada vez
maior, abundam os casos de mudanças políticas aparentemente
radicais que tiveram como efeito radicais mudanças de governo, mas a
que não se seguiram as mudanças económicas, culturais e sociais
radicais que o resultado do sufrágio havia prometido. Dizer hoje
governo “socialista”, ou “social-democrata”, ou
“conservador”, ou “liberal”, e chamar-lhe poder, é pretender
nomear algo que em realidade não está onde parece, mas em um outro
inalcançável lugar — o do poder económico e financeiro cujos
contornos podemos perceber em filigrana, mas que invariavelmente se
nos escapa quando tentamos chegar-lhe mais perto e inevitavelmente
contra-ataca se tivermos a veleidade de querer reduzir ou regular o
seu domínio, subordinando-o ao interesse geral. Por outras e mais
claras palavras, digo que os povos não elegeram os seus governos
para que eles os “levassem” ao Mercado, mas que é o Mercado que
condiciona por todos os modos os governos para que lhe “levem” os
povos. E se falo assim do Mercado é porque é ele, hoje, e mais que
nunca em cada dia que passa, o instrumento por excelência do
autêntico, único e insofismável poder, o poder económico e
financeiro mundial, esse que não é democrático porque não o
elegeu o povo, que não é democrático porque não é regido pelo
povo, que finalmente não é democrático porque não visa a
felicidade do povo.
O nosso antepassado das cavernas
diria: “É água”. Nós, um pouco mais sábios, avisamos: “Sim,
mas está contaminada”.
José Saramago, em O caderno
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