No fundo da selva amazônica, um
pescador da tribo dos desana senta sobre uma rocha alta e contempla o
rio. As águas deslizam, levam peixes, polem pedras, águas douradas
pelas primeiras luzes do dia. O pescador olha e olha e sente que o
velho rio se faz fluxo de seu sangue pelas veias. Não pescará o
pescador até que tenha cativado as mulheres dos peixes.
Pertinho, na aldeia, se prepara o
caçador. Já vomitou, já banhou-se no rio, está limpo por dentro e
por fora. Bebe agora infusões de plantas que têm a cor do veado,
para que seus aromas impregnem seu corpo, e pinta a cara com a
máscara que o veado prefere. Depois de soprar fumaça de tabaco
sobre suas armas, caminha suavemente até o manancial onde o veado
bebe. Ali derrama suco de abacaxi, que é leite da filha do sol.
O caçador dormiu sozinho estas
últimas noites. Não esteve com mulheres nem sonhou com elas, para
não provocar ciúmes ao animal que perseguirá e penetrará com sua
lança ou suas flechas.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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