68.
O cansaço de todas as ilusões e de
tudo que há nas ilusões — a perda delas, a inutilidade de as ter,
o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter
tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal
fim.
A consciência da inconsciência da
vida é o mais antigo imposto à inteligência. Há inteligências
inconscientes — brilhos do espírito, correntes do entendimento,
mistérios e filosofias — que têm o mesmo automatismo que os
reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem das
suas secreções.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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