17/12/2024

Pelego

E sabido que todo psicanalista deve, ele mesmo, fazer análise antes de começar a analisar os outros. Segundo o analista de Bagé, isto acontece pela mesma razão que um cirurgião desinfeta as mãos “antes de mexê em tripa alheia” e para “o vivente descobri se não ta na profissão só pra ouvi bandalheira”. O próprio analista de Bagé precisou se analisar, mas não passou da primeira sessão e teve que ser contido para não cumprir sua ameaça de sangrar seu analista, porque “esse aí só serve pra morcilha”.
– Mas morcilha de sangue de gente não presta.
– Então não serve pra nada!
Nunca se soube muito bem o que houve durante a sessão, mas por muito tempo o analista de Bagé só se referia ao outro como “más bisbilhoteiro que filho de empregada”.
A solução foi o próprio analista de Bagé se autoanalisar. Ele mesmo conta que foi um pouco cansativo ficar pulando do banquinho para o pelego e do pelego para o banquinho durante cinquenta minutos, mas valeu a pena.
– Hoje me conheço de me tratar por tu e dividi palheiro, tchê.
Ninguém esteve presente, é claro, mas foi possível fazer uma razoável reconstituição do diálogo entre o analista de Bagé e ele mesmo, logo depois da formatura.
– Mas então, tchê?
– Pos to aqui.
– Que venham os loco?
– Que venham os loco que eu reparto de pechada, tchê.
– Oigalê!
– Por Freud e Silveira Martins.
– Oigatê!
– Se corcoveá, eu monto.
– E dá de relho.
– Bueno, de relho não. De relho, só cavalo aporreado e china respondona.
– Guasca velho! E tu não tem nada pra botar pra fora? Recalque, complexo ou arroto?
– Mas o que é isso, índio velho? Tu sabe que bageense é como vitrine de belchior, ta tudo ali na frente. Escondido só bragueta de gordo.
– Não é como essas outra raça.
– Pos não é. Tem raça que é que nem cestinha de morango. Por baixo é tudo podre.
– Bueno, se todo mundo fosse gaúcho, ser gaúcho não era vantagem.
– E ia faltar mate.
– Deus fez os outros primeiro e o gaúcho quando pegou a pratica.
– Por isso é que tem tanto índio desajustado.
– Teu trabalho é cura esses desgarrado.
– E tu acha que eu to pronto, tchê?
– Mas tu ta virando carvão, tchê! Salta daí e vai trabalhar.

Luís Fernando Veríssimo, em O analista de Bagé

Nenhum comentário:

Postar um comentário