17/10/2023

Tristessa | PARTE UM


Trêmulo e casto

Estou em um táxi com Tristessa, bêbado, com uma garrafa de uísque Juarez Bourbon no malote de dinheiro da ferrovia que eles me acusaram de roubar da estrada de ferro em 1952 – aqui estou eu na Cidade do México, um sábado à noite chuvoso, mistérios, velhas ruas laterais de sonho e sem nomes passam vertiginosamente, a ruazinha onde eu caminhara por entre multidões de vagabundos índios enrolados em mantas trágicas, suficientes para fazer você chorar, e você achou ter visto facas reluzindo sob as dobras – sonhos lúgubres tão trágicos quanto aquele da Velha Noite da Estrada de Ferro, com meu pai sentado com suas coxas grandes no vagão de fumantes da noite, cochilando enquanto seguia pelos trilhos vastos, enevoados e tristes da vida – mas agora estou no alto daquele platô vegetal que é o México, a lua de Citlapol com quem eu esbarrara algumas noites antes no telhado sonolento a caminho do antigo banheiro de pedra com goteira – Tristessa está doidona, linda como sempre. Vai alegre para casa deitar na cama e curtir sua morfina.
Noite anterior tive uma discussão silenciosa na chuva sentado com ela nos balcões sombrios da meia-noite comendo pão com sopa e bebendo Delaware Punch. Saí dessa conversa com a visão de Tristessa em minha cama, em meus braços, a estranheza de seu rosto amoroso, asteca, garota índia com olhos de Billie Holliday misteriosos e semicerrados e com uma grande voz melancólica como as atrizes vienenses de rostos tristes como Luise Rainer que fizeram toda a Ucrânia chorar em 1910.
Curvas lindas em forma de pera moldam a pele de seu rosto, que tem pestanas compridas e tristes, e uma resignação de Virgem Maria, e uma compleição cor de café e textura de pêssego e olhos de um mistério impressionante com uma falta de expressão de profundidade rasteira, meio desdém meio um lamento de dor pesaroso. “Estou doente”, ela sempre diz para mim e Bull enroscada na almofada. Estou na Cidade do México em um táxi com os cabelos desgrenhados, e enlouquecido. Passo pelo Cine México em meio a engarrafamentos chuvosos bebendo da garrafa. Tristessa tenta se explicar em arengas longas que na noite anterior, quando a botei em um táxi, o motorista tentou agarrá-la e ela deu um soco nele, uma notícia que o motorista atual recebeu sem comentários. Vamos até a casa de Tristessa para sentar e ficarmos doidões. Tristessa já me avisou que a casa estará uma bagunça porque sua irmã está bêbada e doente e El Indio estará lá sentado majestosamente com uma agulha de morfina espetada no braço moreno, os olhos vidrados olhando para você, ou esperando que a espetada da agulha traga a própria chama e falando “Hmmm, za... a agulha asteca em minha carne flamejante”. Muito parecido com o gato grande em Culiao que me apresentou O na vez em que eu vim ao México para ver outras visões. Minha garrafa de uísque tem uma tampa mexicana frouxa estranha. O tempo todo eu acho que ela vai se soltar e deixar toda a minha bolsa afogada em uísque com 43% de álcool.
Pelas ruas enlouquecidas de sábado à noite com chuva como Hong Kong, nosso táxi avança devagar por entre os caminhos do Mercado e saímos no bairro da rua das putas e saltamos atrás das barracas perfumadas de frutas e dos quiosques de tortillas, feijão e tacos com bancos fixos de madeira – o bairro pobre de Roma.
Pago os 3,33 do táxi com dez pesos e peço “seis” de troco, que recebo sem qualquer comentário e me pergunto se Tristessa acha que ostento e sou perdulário demais, o grande John Bêbado no México – Mas não tenho tempo para pensar, andamos apressados pelas calçadas escorregadias com reflexos de néon e da luz das velas dos ambulantes que vendiam castanhas sobre um pano sentados no chão – entramos rapidamente na viela fedorenta onde ficava a casa de cômodos de um andar – Quando entramos, passamos por torneiras gotejantes, baldes e meninos. Nós nos abaixamos para passar por baixo de roupa pendurada e chegamos à sua porta de ferro, que está destrancada naquele interior de adobe, e nós entramos na cozinha, a chuva ainda pingando das chapas de metal e tábuas que serviam como telhado da cozinha – e permitiam que gotinhas caíssem ruidosamente na cozinha sobre o lixo da galinha no canto úmido – Onde agora, miraculosamente, vejo o gatinho rosa dando uma mijadinha sobre pilhas de restos de quiabo e comida de galinha. O quarto lá dentro está completamente imundo e bagunçado, como se tivesse sido saqueado por loucos, com jornais rasgados espalhados e galinhas comendo arroz e pedacinhos de sanduíches do chão – A irmã de Tristessa está na cama, doente, enrolada em uma colcha rosa – é tão trágico quanto a noite em que Eddy levou um tiro na chuvosa Russia Street –.

Tristessa está sentada na beira da cama arrumando as meias de náilon. Ela as puxa de dentro dos sapatos de um jeito esquisito, com o rosto grande e triste observando seus esforços, com os lábios franzidos. Observo a maneira como ela torce os pés para dentro convulsivamente quando olha para os sapatos.
Ela é uma garota bonita demais. Eu me pergunto o que todos os meus amigos iam dizer lá em Nova York e em San Francisco, e o que aconteceria em Nola quando você a visse atravessar a Canal Street sob o sol quente, ela de óculos escuros e um andar preguiçoso, tentando amarrar o quimono ao sobretudo fino como se o quimono devesse amarrar o casaco, dando puxões convulsivos e brincando na rua, dizendo “Olha ali o táxi – eei, é eeleee que – lá vai você – Eu traago de bolta yur moany.” Moa-ny, dinheiro. Ela fala de um jeito parecido com minha velha tia franco-canadense lá em Lawrence. “Não quero su moa-ny, o que quero é yur loave.” Loave, amor. “Es yur lawv.” Lawv, a lei. – Acontece a mesma coisa com Tristessa, ela está o tempo todo tão doidona, e passando mal.
Ela se aplica dez gramas de morfina por mês – sai cambaleando pelas ruas da cidade tão bela que as pessoas continuam a se virar para olhar para ela – Seus olhos são radiantes e reluzem e seu rosto está úmido com o sereno e seu cabelo índio está negro, bem legal, é dividido em dois rabos-de-cavalo na parte de trás, enrolados em coques na nuca (o próprio penteado catedral das índias) – Seus sapatos, para os quais ela sempre está olhando, são novos em folha, não surrados, mas ela deixa que suas meias de náilon caiam o tempo todo, e as puxa insistentemente, e torce os pés convulsivamente – você visualiza uma garota bonita igual em Nova York, vestindo uma saia rodada florida a la New Look com um suéter de cashmere Dior e seios retos, e seus lábios e olhos fazem o mesmo e fazem o resto. Aqui ela está reduzida às roupas empobrecidas e sombrias de senhora índia – Você vê as senhoras índias no negro inescrutável dos umbrais, olhando como se fossem buracos nas paredes não as mulheres – suas roupas – e você olha outra vez e vê a mujer nobre e brava, a mãe, a mulher, a Virgem Maria do México. – Tristessa tem um ícone enorme em um canto de seu quarto.
Ele fica de frente para o quarto, de costas para a parede da cozinha, no canto direito de quem olha para aquela cozinha lamentável com suas goteiras que chovem de forma indescritível dos galhos de árvore do telhado e dos compensados (o telhado explodido do abrigo) – Seu ícone representa a Santa Maria a olhar de dentro de seus chadores azuis, sua túnica e seus objetos de Damema, para os quais El Indio reza com devoção quando sai para descolar uma parada. El Indio diz ser um vendedor de suvenires – nunca o vi vendendo crucifixos em San Juan Letrán, nunca vi El Indio na rua, nem em Redondas, em lugar nenhum.
A Virgem Maria está com uma vela, um monte de velas econômicas que queimam a cera dentro de vidros e duram semanas, como rodas de oração tibetanas – a ajuda incansável de nosso Amida – eu sorrio ao ver esse ícone adorável –
Ele está rodeado de retratos dos mortos – Quando Tristessa quer dizer “mortos”, ela junta as mãos em uma atitude santificada, indicando sua crença asteca na santidade da morte, e da mesma maneira a santidade da essência – Então ela tem uma foto do Dave morto meu velho camarada de muitos anos que agora está morto, de pressão alta aos 55 anos – Seu rosto vagamente índio–grego salta da fotografia pálida indefinível. Não consigo vê-la em meio a toda aquela neve. Sem dúvida ele está no Céu, as mãos juntas em posição de oração em um êxtase eterno de Nirvana. É por isso que Tristessa continua a juntar as mãos e rezar, dizendo, também: “Eu amo o Dave”, ela tinha amado seu antigo senhor – Era um velho apaixonado por uma garota. Ela estava viciada aos dezesseis. Ele a tirou das ruas e, ele também um viciado das ruas, redobrou seus esforços para conseguir, finalmente, entrar em contato com viciados de grana, e mostrou a ela como viver – uma vez por ano iam juntos de carona até Chalmas, na montanha, escalar parte dela de joelhos para chegar ao santuário com sua enorme pilha de muletas deixadas ali por romeiros curados de suas doenças, as milhares de esteiras abertas no sereno onde dormem à noite em cobertores e sobretudos – retomando, devotos, famintos, saudáveis, para acender novas velas para a Mãe e caindo outra vez nas ruas em busca de sua morfina – Só Deus sabe onde eles a conseguiam.
Eu me sento e admiro a mãe majestosa dos amantes.

Jack Kerouac, in Tristessa

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