No
passado, lá está ela de novo, sem saber de absolutamente nada, pois
nem a respiração de Waldek Lesciuszko sugeria qualquer coisa do que
estava tramando.
O
homem era meticuloso.
Absolutamente
inabalável.
Um
concerto em Viena? Não.
Vivo
me perguntando como deve ter sido para ele comprar a passagem
obrigatória de ida e volta, sabendo que a filha só faria a viagem
de ida. Eu me pergunto como deve ter sido mentir e fazê-la
requisitar o passaporte novamente, seguindo o protocolo exigido a
cada vez que alguém decidia deixar o país, ainda que por pouco
tempo. Então foi o que Penélope fez, como sempre.
Como
mencionei antes, não seria o primeiro concerto dela.
Ela
já havia passado pela Cracóvia. Por Gdańsk. Pela Alemanha
Oriental.
Viajara
uma vez também para uma cidadezinha chamada Nebenstadt, a oeste da
Cortina, mas ainda perto demais do Oriente. Os concertos tinham uma
aura de requinte, mas não muito, pois ela era uma boa pianista,
brilhante, mas não brilhante. Costumava ir sozinha, mas nunca
deixava de voltar no horário estipulado.
Até
então.
***
Daquela
vez, o pai a convenceu a levar uma mala maior e um casaco extra. À
noite, ele acrescentou algumas meias e roupas de baixo. Também
colocou um envelope entre as páginas de um livro — de capa dura
preta, primeiro volume de dois. O envelope continha palavras e
dinheiro:
Uma
carta e dólares americanos.
Os
livros foram embalados em papel pardo.
No
topo, em letras garrafais, estava escrito: PARA A RAINHA DOS ERROS,
QUE TOCA CHOPIN COM PERFEIÇÃO, E MOZART, E BACH.
Ao
pegar a bagagem pela manhã, ela sentiu na hora que estava mais
pesada, óbvio. Começou a abrir a mala para ver o que era, mas o pai
na mesma hora a interrompeu:
— Coloquei
um presentinho para você abrir no caminho. Já estamos em cima da
hora, vamos. — Ele a apressou. — No trem você vê.
E
ela acreditou nele.
Usava
um vestido azul de lã com botões grandes e finos.
O
cabelo batia na cintura.
O
semblante era confiante e afável.
Por
fim, as mãos, frias e firmes, e perfeitamente lavadas.
Ela
não se parecia em nada com uma refugiada.
***
Na
estação foi estranho, pois o homem que jamais demonstrara um pingo
de emoção de repente estava trêmulo, com os olhos marejados. O
bigode estava vulnerável pela primeira vez em sua vida resoluta.
— Tato?
— Porcaria
de frio!
— Mas
nem está tão frio hoje.
Ela
tinha razão, não estava. O clima estava ameno, fazia sol, a luz
intensa pintando a cidade com seu cinza glorioso.
— Você
quer discutir comigo agora? Não devemos brigar quando alguém está
de partida.
— Verdade,
Tato.
Quando
o trem parou na plataforma, o pai se afastou. Em retrospecto, é
claro que ele estava se segurando para não desabar na frente dela,
quase rasgando os bolsos da calça. Mexia neles para se distrair,
para manter as emoções sob controle.
— Tato,
chegou.
— Estou
vendo. Sou velho, não cego.
— Pensei
que era para não brigarmos.
— Agora
você está discutindo comigo de novo!
Ele
jamais levantava a voz assim, nem em casa, quanto mais em público.
Aquilo não fazia sentido.
— Desculpa,
Tato.
Então
deram três beijinhos, um em cada bochecha e o terceiro na direita.
— Do
widzenia.
— Na
razie.
Nos
vemos em breve.
Não
vão, não.
— Tak,
tak. Na razie.
Até
o fim da vida, ela sentiu um alívio descomunal por ter se virado e
falado para ele:
— Não
sei como vou tocar sem você batendo em mim com aquele galho.
Era
o que ela dizia todas as vezes.
O
homem apenas meneou a cabeça, sem deixar a filha ver seu rosto se
desmanchar e se derramar, tão ruidoso quanto o mar Báltico.
O
Báltico.
Era
assim que ela sempre explicava. Contava que o rosto do pai tinha
virado um corpo de água. As rugas profundas, os olhos. Até o
bigode. Tudo afogado em luz do sol e água fria, muito fria.
***
Ela
passou quase uma hora olhando pela janela do vagão, observando a
Europa Oriental se estendendo ao seu lado. Pensou muitas vezes no
pai, mas foi só quando viu outro homem — um tipo parecido com
Lênin — que ela se lembrou do presente. A mala.
O
trem seguia seu rumo.
Os
olhos dela encontraram as roupas de baixo primeiro, depois as meias,
e então o pacote pardo, e ela ainda não tinha ligado os pontos. As
roupas adicionais possivelmente se explicavam pelas excentricidades
de um senhor. Ela foi tomada por uma grande felicidade ao ler o
bilhete sobre Chopin, e Mozart e Bach.
Então
abriu o pacote.
E
viu os dois livros pretos.
A
impressão nas capas não estava em seu idioma.
Ambos
tinham Homero escrito no topo, e abaixo, respectivamente,
Ilíada e Odisseia.
Quando
folheou o primeiro e se deparou com o envelope, o baque foi repentino
e severo. Ela se levantou com um sobressalto e murmurou “Nie”
para o trem não muito cheio.
Querida
Penélope,
Imagino
que você esteja lendo esta carta na viagem a Viena, e quero deixar
claro desde o princípio: não dê meia-volta. Não volte. Eu não a
receberei de braços abertos e ainda me afastarei. Acho que você já
sabe que há outra vida para você agora, outra forma de ser.
Dentro
deste envelope estão todos os documentos necessários. Quando chegar
a Viena, não pegue um táxi até o acampamento. É caro demais, e
você chegaria muito cedo. Tem um ônibus que vai até lá. Além
disso, não diga que está tentando sair do país por motivos
financeiros. Diga apenas o seguinte: você teme represálias do
governo.
Imagino
que não será fácil, mas você vai conseguir. Você vai sobreviver
e ter uma vida, e um dia, espero, vamos nos rever, e você vai ler
estes livros para mim em inglês — pois é o idioma que espero que
estará falando. Se por acaso você nunca mais voltar, peço que leia
para seus filhos, caso seja esse o seu rumo mundo afora, no mar
vinoso.
A
última coisa que direi é que ensinei apenas uma pessoa neste mundo
a tocar piano, e embora você seja a grande rainha dos erros, foi um
prazer e um privilégio para mim. Foi o que melhor amei, o que mais
amei.
Atenciosamente
e com amor,
Waldek
Lesciuszko
Bem,
o que você faria? O que você diria?
Penélope,
a Rainha dos Erros, permaneceu de pé mais alguns segundos e então
afundou lentamente em seu assento. Permaneceu calada, trêmula, a
carta em mãos e os livros no colo. Sem emitir qualquer som, começou
a chorar.
Diante
da paisagem transitória da Europa lá fora, Penélope Lesciuszko
chorou lágrimas errantes, silenciosas. Ela chorou a viagem toda até
Viena.
Markus Zusak, in O construtor de pontes

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