20/10/2023

Ela chorou a viagem toda até Viena


No passado, lá está ela de novo, sem saber de absolutamente nada, pois nem a respiração de Waldek Lesciuszko sugeria qualquer coisa do que estava tramando.
O homem era meticuloso.
Absolutamente inabalável.
Um concerto em Viena? Não.
Vivo me perguntando como deve ter sido para ele comprar a passagem obrigatória de ida e volta, sabendo que a filha só faria a viagem de ida. Eu me pergunto como deve ter sido mentir e fazê-la requisitar o passaporte novamente, seguindo o protocolo exigido a cada vez que alguém decidia deixar o país, ainda que por pouco tempo. Então foi o que Penélope fez, como sempre.
Como mencionei antes, não seria o primeiro concerto dela.
Ela já havia passado pela Cracóvia. Por Gdańsk. Pela Alemanha Oriental.
Viajara uma vez também para uma cidadezinha chamada Nebenstadt, a oeste da Cortina, mas ainda perto demais do Oriente. Os concertos tinham uma aura de requinte, mas não muito, pois ela era uma boa pianista, brilhante, mas não brilhante. Costumava ir sozinha, mas nunca deixava de voltar no horário estipulado.
Até então.

***

Daquela vez, o pai a convenceu a levar uma mala maior e um casaco extra. À noite, ele acrescentou algumas meias e roupas de baixo. Também colocou um envelope entre as páginas de um livro — de capa dura preta, primeiro volume de dois. O envelope continha palavras e dinheiro:
Uma carta e dólares americanos.
Os livros foram embalados em papel pardo.
No topo, em letras garrafais, estava escrito: PARA A RAINHA DOS ERROS, QUE TOCA CHOPIN COM PERFEIÇÃO, E MOZART, E BACH.
Ao pegar a bagagem pela manhã, ela sentiu na hora que estava mais pesada, óbvio. Começou a abrir a mala para ver o que era, mas o pai na mesma hora a interrompeu:
Coloquei um presentinho para você abrir no caminho. Já estamos em cima da hora, vamos. — Ele a apressou. — No trem você vê.
E ela acreditou nele.
Usava um vestido azul de lã com botões grandes e finos.
O cabelo batia na cintura.
O semblante era confiante e afável.
Por fim, as mãos, frias e firmes, e perfeitamente lavadas.
Ela não se parecia em nada com uma refugiada.

***

Na estação foi estranho, pois o homem que jamais demonstrara um pingo de emoção de repente estava trêmulo, com os olhos marejados. O bigode estava vulnerável pela primeira vez em sua vida resoluta.
Tato?
Porcaria de frio!
Mas nem está tão frio hoje.
Ela tinha razão, não estava. O clima estava ameno, fazia sol, a luz intensa pintando a cidade com seu cinza glorioso.
Você quer discutir comigo agora? Não devemos brigar quando alguém está de partida.
Verdade, Tato.
Quando o trem parou na plataforma, o pai se afastou. Em retrospecto, é claro que ele estava se segurando para não desabar na frente dela, quase rasgando os bolsos da calça. Mexia neles para se distrair, para manter as emoções sob controle.
Tato, chegou.
Estou vendo. Sou velho, não cego.
Pensei que era para não brigarmos.
Agora você está discutindo comigo de novo!
Ele jamais levantava a voz assim, nem em casa, quanto mais em público. Aquilo não fazia sentido.
Desculpa, Tato.
Então deram três beijinhos, um em cada bochecha e o terceiro na direita.
Do widzenia.
Na razie.
Nos vemos em breve.
Não vão, não.
Tak, tak. Na razie.
Até o fim da vida, ela sentiu um alívio descomunal por ter se virado e falado para ele:
Não sei como vou tocar sem você batendo em mim com aquele galho.
Era o que ela dizia todas as vezes.
O homem apenas meneou a cabeça, sem deixar a filha ver seu rosto se desmanchar e se derramar, tão ruidoso quanto o mar Báltico.
O Báltico.
Era assim que ela sempre explicava. Contava que o rosto do pai tinha virado um corpo de água. As rugas profundas, os olhos. Até o bigode. Tudo afogado em luz do sol e água fria, muito fria.

***

Ela passou quase uma hora olhando pela janela do vagão, observando a Europa Oriental se estendendo ao seu lado. Pensou muitas vezes no pai, mas foi só quando viu outro homem — um tipo parecido com Lênin — que ela se lembrou do presente. A mala.
O trem seguia seu rumo.
Os olhos dela encontraram as roupas de baixo primeiro, depois as meias, e então o pacote pardo, e ela ainda não tinha ligado os pontos. As roupas adicionais possivelmente se explicavam pelas excentricidades de um senhor. Ela foi tomada por uma grande felicidade ao ler o bilhete sobre Chopin, e Mozart e Bach.
Então abriu o pacote.
E viu os dois livros pretos.
A impressão nas capas não estava em seu idioma.
Ambos tinham Homero escrito no topo, e abaixo, respectivamente, Ilíada e Odisseia.
Quando folheou o primeiro e se deparou com o envelope, o baque foi repentino e severo. Ela se levantou com um sobressalto e murmurou “Nie” para o trem não muito cheio.

Querida Penélope,
Imagino que você esteja lendo esta carta na viagem a Viena, e quero deixar claro desde o princípio: não dê meia-volta. Não volte. Eu não a receberei de braços abertos e ainda me afastarei. Acho que você já sabe que há outra vida para você agora, outra forma de ser.
Dentro deste envelope estão todos os documentos necessários. Quando chegar a Viena, não pegue um táxi até o acampamento. É caro demais, e você chegaria muito cedo. Tem um ônibus que vai até lá. Além disso, não diga que está tentando sair do país por motivos financeiros. Diga apenas o seguinte: você teme represálias do governo.
Imagino que não será fácil, mas você vai conseguir. Você vai sobreviver e ter uma vida, e um dia, espero, vamos nos rever, e você vai ler estes livros para mim em inglês — pois é o idioma que espero que estará falando. Se por acaso você nunca mais voltar, peço que leia para seus filhos, caso seja esse o seu rumo mundo afora, no mar vinoso.
A última coisa que direi é que ensinei apenas uma pessoa neste mundo a tocar piano, e embora você seja a grande rainha dos erros, foi um prazer e um privilégio para mim. Foi o que melhor amei, o que mais amei.
Atenciosamente e com amor,
Waldek Lesciuszko

Bem, o que você faria? O que você diria?
Penélope, a Rainha dos Erros, permaneceu de pé mais alguns segundos e então afundou lentamente em seu assento. Permaneceu calada, trêmula, a carta em mãos e os livros no colo. Sem emitir qualquer som, começou a chorar.
Diante da paisagem transitória da Europa lá fora, Penélope Lesciuszko chorou lágrimas errantes, silenciosas. Ela chorou a viagem toda até Viena.

Markus Zusak, in O construtor de pontes

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