19/07/2023

Reforma das persianas

Modesto beneficiário do INPS, X. foi ao banco receber o benefício aumentado de fim de ano. Junto ao guichê, o desconhecido de cara aberta catucou-o:
— Dá-me o prazer de aceitar uma pequenina lembrança?
(Mais um chato querendo me impingir um brinde que não servirá para nada e me custará cinquenta cruzeiros.)
O homem estendeu-lhe um desses calendários de bolso, que reduzem o ano às proporções de um dia de folhinha de desfolhar.
(Em breve, a que se reduzirá o tempo?)
— Obrigado — e recebeu o presente.
— Quem agradece sou eu. Sinto verdadeira satisfação em oferecer calendários a determinados cavalheiros.
(Esse cara é gozado. Por que fica satisfeito com uma coisa dessas? Pensa que está me dando um lote de ações do Banco do Brasil?)
— A estampa é bonita — comentou, para dizer qualquer coisa.
— Não é? Eu que bolei. A janela aberta para o céu e para o mar. Janela de cobertura, vê-se logo. Repare que não se enxerga nem a praia nem a rua. Só o essencial, o infinito.
(Além do mais, com babados de literato.)
— Não preciso chamar a atenção do amigo para os símbolos. Sei que beliscou imediatamente a minha ideia.
(Não precisa chamar, mas está chamando, para o que ele chama de símbolos.)
— Perfeito. Vejo pelo anúncio que o senhor é técnico…
— Em restauração de persianas e venezianas, e também de gelosias, para servi-lo. Minha especialidade.
— Pois quando eu precisar lá em casa, sr. Teopompo, me lembrarei do senhor.
— Quero que se lembre sempre de mim. Pode parecer que estou botando banca, mas não é à toa que me chamo Teopompo.
(Matusquela.)
— Como assim?
— Enviado de Deus, sabe? Foi o professor Nascentes que me explicou. Claro que não me atribuo tamanha importância. Mas um nome assim influi na gente, é responsabilidade. Ele ditou minha profissão.
(É; diagnóstico perfeito.)
— Não sirvo para missionário, me faltam as luzes, aquele saber, mas restaurando janelas abro um horizonte para os meus semelhantes, não lhe parece?
— E fecha também.
— Não diga isso. Quando a persiana desce, está abrindo para o espaço, como direi… interior. O mesmo que fechar os olhos. Fechar os olhos é abri-los para o miolo da gente. É cavar um túnel dentro de nós mesmos. De vez em quando, ou melhor, frequentemente, é ótimo fazer isto.
(Onde que ele quer chegar com esse papo furado?)
— Com licença. O caixa vai me pagar.
— Toda. Como eu dizia, os homens têm necessidade de usar uma janela, coisa que pouco se faz hoje em dia. Quem é que chega à janela do apartamento para ver, não digo a batida de carro na rua, mas as nuvens, o sol rompendo ou baixando, as gaivotas, os pombos, as cores, os reflexos? Quem vê mais a Lua? O senhor? Duvido. Não leve a mal, mas a gente, o senhor inclusive, só espia o que está a meio metro de distância, nem isso. Hoje tudo é televisão, é cassete, se vê e se ouve por tabela. Troço sem graça.
(E daí?)
— Bom, vou me despedir.
— Se permite, mais uma palavrinha. Cuide bem de suas janelas.
— Terei presente.
— No material e no moral. Pessoas de sua idade…
(Minha idade? Que diabo ele tem com isso?)
— Como?
— É quando se deve olhar mais em redor, reparar bem, para descobrir o que vale a pena, o coração de cada coisa. Janeiro está estourando aí, vamos abrir a janela para janeiro.
— Isso todo mundo abre, queira ou não queira.
— Falo de um modo particular de abrir. Com jeito, com mansidão. Não escancarar logo, entende? Aos golinhos, não deixando as réguas da persiana se embaralhar, os cordões embolar. Descobrir o ano novo como… posso dizer?
— Não sendo contra a segurança nacional, pode.
— Como se despe a mulher amada, ou ela se despe pra gente. Valorizando as coisas.
(Até que ele tem ensino.)
— Olhe devagar, saboreando a novidade das coisas que embaçaram com o ano velho e voltam a ficar lustrosas no ano novo. Não gaste com o olhar, hem? para que elas durem o ano inteiro. Se é bom, dura até mais. Mas doze meses é prazo regular de duração. Tempo de restaurar a janela.
(Pronto. Entra a mensagem.)
— Restaurar a janela é um meio de restaurar a vista e o visto. Não digo isto para vender o meu peixe. Pergunto por perguntar: há muito tempo que não reforma suas persianas?
— Francamente, não me recordo.
— Então, meu caro, elas devem estar caindo de cansadas. Neste caso…
— Agora percebi.
— O quê?
— O senhor fica junto ao guichê dos aposentados porque acha que eles devem morar em apartamentos adquiridos há mais de trinta anos, portanto com persianas gastas. Fatalmente serão seus clientes.
— E haverá mal nisso? Não acha que eu faço bem aos aposentados? A reforma das persianas é um começo de reforma de vida. Vamos, comece bem o ano! Quem lhe fala é Teopompo Cardoso, semienviado de Deus!
X. aprendeu a lição mais simples de ano novo.

Carlos Drummond de Andrade, in De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

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