11/07/2023

Hollywood | 21


Passaram-se três ou quatro semanas.
Uma noite, o telefone tocou. Era Jon.
– Como está você? Como está Sarah?
– Estamos bem. Você está vivo?
– Estou. A Dança de Jim Beam também. Francine Bowers leu o argumento e adorou. Chegou a reduzir uma fatia de seu salário habitual pra fazer ele. Jack também, mas não diga a ninguém.
– Claro, mas por que essas reduções?
– Estamos negociando com a Firepower Productions, Harry Friedman e Nate Fischman. Eles negociam duro, mas está tudo assinado. Teve um problema, porque o agente de Jack exigiu no contrato uma cláusula “faça ou pague”.
– Que é isso?
– Isso quer dizer que Jack receberá a grana dele quer o filme seja feito ou não. A maioria dos grandes astros tem essa cláusula nos contratos.
– É difícil acreditar que vá existir um filme.
– Tom Pell teve muito a ver com isso, quando se ofereceu pra fazer a coisa por um dólar. Deu ao projeto um pouco de crédito.
– Eu gostaria que a gente tivesse o Tom...
– Bem, ele ajudou. Quando Jack soube que Tom queria fazer o filme por um dólar, se interessou. A Firepower se interessou. Tivemos sorte.
– Sabe o que disse Lippy Leo Durocher?
– Quem é esse?
– Um jogador de bêisebol dos velhos tempos. Ele disse: “Prefiro ter sorte a ser bom de bola.”
– Eu acho que a gente tem sorte e é bom de bola.
– Talvez. Mas quem são esses caras da Firepower?
– São novos em Hollywood. Marginais. Ninguém sabe qual é a deles. Faziam filmes de exploração na Europa. Chegaram aqui da noite pro dia e começaram a fazer filmes às dezenas, um atrás do outro. Todo mundo odeia eles. Mas eles fazem negócios, embora negociem duro.
– Pelo menos pegaram Jim Beam.
– É, quando ninguém mais queria. Eles têm um prédio enorme em North Hollywood. Entrei no escritório e lá estava Harry Friedman sentado. “Você tem Bledsoe e Bowers?”, perguntou. “Tenho”, eu disse. “Tudo bem”, ele disse, “a gente tem um filme.” “Mas não quer ler o argumento?”, eu perguntei. “Não”, ele disse.
– Cara interessante.
– Hollywood odeia ele.
– É uma pena...
– Você devia ver ele. Um homem gordão. A propósito, vai dar uma festa de aniversário na casa dele quinta à noite. Você e Sarah devem ir. O sócio dele, Nate Fischman, vai estar lá também...
– Nós iremos. Me dê o endereço...
Dez minutos depois, o telefone tornou a tocar.
– Hank, aqui é Tim Ruddy, eu sou um dos produtores de Jim Beam.
– Trabalha pra Firepower?
– Não, trabalho com Jon. Somos coprodutores. Eu e Lance Edwards.
– Oh...
– De qualquer modo, você conhece Victor Norman?
– Li os livros dele.
– É, ele leu os seus também. Ele vai escrever e dirigir um filme pra Firepower. E vai à festa. Quer saber se você pode dar uma passada no Chateau Marmont pra se encontrar com ele e irem à festa juntos.
– Qual é o número da suíte dele?

Naquela quinta-feira, fomos até o Chateau Marmont. O criado pegou nosso carro e nos dirigimos à entrada. Um homem sorridente, meio calvo, nos aguardava. Era Tim Ruddy. Fizeram-se as apresentações, e entramos atrás dele. Victor Norman respondeu à nossa batida. Gostei dos olhos dele. Parecia calmo e por dentro.
Apresentações. Sarah estava com uma ótima aparência. Norman mostrou-se radiante com ela.
Apertei a mão dele e disse:
– O bebum conhece o campeão.
Ele gostou disso.
Victor Norman era talvez o romancista mais conhecido dos Estados Unidos. Aparecia constantemente na TV. Era volúvel e hábil com a palavra. O que eu mais gostava nele era que não tinha medo das feministas. Era um dos últimos defensores da masculinidade e dos colhões no país. Para isso era preciso ter raça. Eu nem sempre gostava de sua produção literária, mas tampouco gostava sempre da minha.
– Me deram a maior suíte da casa com desconto. Disseram que era boa publicidade. Mas, de qualquer maneira, a Firepower paga a conta.
Fomos com ele para a sacada. Uma puta de uma vista de uma puta de uma cidade.
Fazia frio ali fora.
– Escuta, cara – perguntei – a gente não tem nada pra beber por aqui?
Acompanhamos Victor pelos vastos aposentos intercomunicantes. Ali dentro, a gente se sentia protegido de tudo. Uma fortaleza de segurança. Legal, legal.
Victor voltou com uma garrafa de vinho.
– Achei uma garrafa mas nenhum saca-rolhas dando sopa...
– Ah, deus – suspirei. Um bêbado amador.
Victor Norman estava no telefone.
– Precisamos de um abridor. Um saca-rolhas... Um pouco mais de vinho... Algumas garrafas de...
Olhou-nos.
O vinho demorou algum tempo a chegar.
– Vou fazer dois filmes pra Firepower. Vou escrever e dirigir um. E vou atuar no outro. Jon-Luc Modard é quem vai dirigir. Espero me dar bem com ele.
– Boa sorte – eu disse.
Seguiu-se uma conversa sem importância. Victor nos contou como conhecera Charlie Chaplin. Era uma história boa, louca e engraçada.
O vinho chegou e nos sentamos. Sarah e Tim Ruddy puseram-se a conversar. Ela sentia que ele se sentia de fora e tentava animá-lo. Era boa nisso. Eu, não tanto.
Victor olhou-me.
– Está fazendo alguma coisa agora?
– Fodendo com um poema.
Ele pareceu um pouco triste.
– Me pagaram um milhão de dólares pra escrever meu próximo romance. Isso foi há um ano. Não escrevi uma página e o dinheiro já acabou.
– Nossa.
– Nossa não vai ajudar.
– Eu soube das pensões alimentícias, todas as ex-esposas...
– Ééé...
Aproximei meu copo dele. Estava vazio. Ele tornou a enchê-lo.
– Eu soube de suas bebedeiras...
– Ééé...
– Que são essas coisas que você fuma?
– Beedi’s. Da Índia. Enrolados por leprosos.
– É mesmo?
O vinho rolava e o tempo passava.
– Bem, acho que é melhor irmos indo pra festa – disse Victor Norman.
– Podemos ir no meu carro.
– Tá legal.
Descemos. Tim Ruddy queria ir no seu próprio carro.
O criado trouxe meu carro. Dei-lhe uma gorjeta e Sarah entrou. Arranquei e fomos para a festa de aniversário de Harry Friedman.
– Eu também tenho um BMW preto – disse Victor Norman.
– Os caras durões dirigem BMWs pretos – eu disse.

Charles Bukowski, in Hollywood

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