06/05/2022

Você beijou Lilly

Era uma noite de quarta-feira. A televisão não estava muito boa. Theodore tinha cinquenta e seis anos. Sua esposa, Margaret, cinquenta. Os dois estavam casados há vinte anos e não tinham filhos. Ted apagou a luz. Os dois ficaram estirados no escuro.
– Bem – disse Margy –, não vai me dar um beijo de boa-noite?
Ted deu um suspiro e voltou-se para ela. Deu-lhe um beijinho de leve.
– Você chama isso de beijo?
Ted não respondeu.
– Aquela mulher no programa parecia Lilly, não parecia?
– Não sei.
– Você sabe.
– Escuta, não comece nada, que não acontece nada.
– Você simplesmente não quer discutir as coisas. Só quer se fechar em sua concha. Seja honesto. A mulher do programa parecia Lilly, não parecia?
– Tudo bem. Tinha uma certa semelhança.
– Isso fez você se lembrar de Lilly?
– Oh, Deus...
– Não fuja. Fez você se lembrar dela?
– Por um momento, sim...
– Foi bom?
– Não, escuta, Margy, isso aconteceu há cinco anos!
– O tempo muda o que acontece?
– Eu pedi desculpas a você.
– Desculpas! Você sabe o que fez comigo? E se eu tivesse feito isso com algum homem? Como é que você ia se sentir?
– Eu não sei. Faça, e aí eu vou saber.
– Oh, agora você está sendo gozador. É uma piada!
– Margy, nós já discutimos essa coisa quatrocentas ou quinhentas noites.
– Quando você fazia amor com Lilly, beijava ela como me beijou esta noite?
– Não, acho que não...
– Como, então? Como?
– Nossa, pare com isso!
– Como?
– Bem, diferente.
– Diferente como?
– Bem, era uma novidade. Eu estava excitado...
Margy sentou-se na cama e deu um grito. Depois parou.
– E quando você me beija não é excitante, é isso?
– Estamos acostumados um ao outro.
– Mas é isso que é amor: viver e crescer juntos.
– Tudo bem.
– “Tudo bem”? Que quer dizer com “tudo bem”?
– Quero dizer que você tem razão.
– Não diga isso como se estivesse falando sério. Você simplesmente não gosta de conversar. Tem vivido comigo esses anos todos. Sabe por quê?
– Não tenho certeza. As pessoas simplesmente se acomodam com as coisas, como o emprego. As pessoas simplesmente se acomodam com as coisas. Acontece.
– Quer dizer que estar comigo é como um emprego? É como um emprego?
– A gente bate o ponto no emprego.
– Lá vem você de novo. Isso é uma discussão séria!
– Tudo bem.
– “Tudo bem”? Seu asno nojento! Está quase dormindo!
– Margy, que você quer que eu faça? Isso aconteceu há anos!
– Tudo bem, eu lhe digo o que quero que faça! Quero que você me beije como beijava Lilly. Quero que me foda como fodia com Lilly!
– Eu não posso fazer isso...
– Por quê? Por que eu não excito você como Lilly excitava? Por que eu não sou nova?
– Eu mal me lembro de Lilly.
– Deve se lembrar bastante. Tudo bem, não precisa me foder! Só me beije como beijava Lilly!
– Oh, meu deus, Margy, por favor dá uma folga, eu lhe imploro!
– Eu quero saber por que temos vivido todos esses anos juntos! Será que eu desperdicei minha vida?
– Todo mundo desperdiça, quase todo mundo desperdiça.
– Desperdiçam a vida?
– Eu acho.
– Se você ao menos adivinhasse o quanto eu odeio você!
– Quer o divórcio?
– Se eu quero o divórcio? Oh, meu deus, que calma a sua! Você arruína toda a porra da minha vida e depois me pergunta se eu quero o divórcio! Eu estou com cinquenta anos! Dei minha vida a você! Pra onde eu vou daqui?
– Pode ir pro inferno! Estou cheio de sua voz. Estou cheio de sua encheção de saco.
– E se eu tivesse feito isso com um homem?
– Eu gostaria que tivesse. Gostaria que tivesse!
Theodore fechou os olhos. Margaret soluçava. Lá fora, um cachorro latiu. Alguém tentava fazer um carro pegar. Não pegava. Fazia dezoito graus e meio numa cidadezinha de Illinois. James Carter era presidente dos Estados Unidos.
Theodore começou a roncar. Margaret foi à gaveta de baixo da cômoda e pegou o revólver. Calibre .22. Carregado. Voltou para junto do marido na cama.
Margaret sacudiu-o.
– Ted, querido, você está roncando...
Tornou a sacudi-lo.
– Que é...? – perguntou Ted.
Ela destravou o revólver e encostou-o na parte do peito dele mais perto dela e puxou o gatilho. A cama estremeceu e ela afastou o revólver. Um som muito parecido a um peido escapou da boca de Theodore. Ele não pareceu sentir dor. O luar entrava pela janela. Ela olhou, e o buraco era pequeno e não saía muito sangue. Margaret passou o revólver para o outro lado do peito de Theodore. Tornou a puxar o gatilho. Desta vez ele não emitiu nenhum som. Mas continuou respirando. Ela o observava. O sangue escorria. Tinha um fedor horrível.
Agora que ele agonizava, ela quase o amava. Mas Lilly, quando ela pensava em Lilly... a boca de Ted na dela, e todo o resto, aí queria atirar nele de novo... Ted sempre fora bonito de gola rulê e de verde, e quando peidava na cama sempre se virava primeiro – nunca peidava contra ela. Raramente faltava um dia ao trabalho. Ia faltar amanhã...
Margaret soluçou durante algum tempo, depois adormeceu.

****

Quando Theodore acordou, sentiu como se tivesse agudos caniços enfiados em cada lado do peito. Não sentia dor. Levou as mãos ao peito e ergueu-as para a luz do luar. Estavam cobertas de sangue. Isso o confundiu. Ele olhou para Margaret. Ela dormia e tinha na mão a arma que ele lhe ensinara a usar para proteger-se.
Ele sentou-se e o sangue começou a sair mais rápido dos dois buracos em seu peito. Margaret atirara nele quando ele dormia. Por foder com Lilly. Ele não conseguira nem atingir o clímax com Lilly.
Ele pensou: Estou quase morto, mas se conseguir escapar dela, tenho uma chance.
Theodore estendeu delicadamente o braço e desgrudou os dedos de Margaret do revólver. Ainda estava destravado.
Não quero matá-la, ele pensou, só quero escapar. Acho que tenho querido escapar no mínimo há quinze anos.
Conseguiu sair da cama. Pegou o revólver e apontou-o para o alto da coxa de Margaret, perna direita. Disparou.
Margy gritou e ele tapou-lhe a boca com a mão. Esperou alguns minutos, e tirou a mão.
– Que está fazendo, Theodore?
Ele apontou o revólver para o alto da coxa dela, perna esquerda. Disparou. Deteve o novo grito dela tapando-lhe de novo a boca com a mão. Manteve-a ali durante alguns minutos, depois tirou-a.
– Você beijou Lilly – disse Margaret.
Restavam duas balas no revólver. Ted empertigou-se e olhou os buracos em seu peito. O buraco do lado direito parara de sangrar. Do buraco do lado esquerdo esguichava uma fina linha vermelha, parecendo uma agulha, em intervalos regulares.
– Vou matar você! – disse-lhe Margaret, da cama.
– Você quer mesmo, não quer?
– Sim, sim! E vou!
Ted começou a sentir-se tonto e nauseado. Onde estava a polícia? Sem dúvida teriam ouvido todos aqueles tiros. Onde estavam eles? Será que ninguém ouvia tiros?
Ele viu a janela. Disparou contra a janela. Estava ficando mais fraco. Caiu de joelhos. Foi de joelhos para a outra janela. Tornou a disparar. A bala fez um buraco no vidro mas não o despedaçou. Uma sombra negra passou na frente dele. Depois sumiu.
Ele pensou: Preciso tirar esse revólver daqui!
Theodore reuniu suas últimas forças. Atirou o revólver contra a vidraça. O vidro quebrou-se mas o revólver caiu de volta dentro de casa...

Quando recuperou a consciência, a esposa estava parada de pé acima dele. Estava na verdade de pé sobre as duas pernas em que ele atirara. Recarregava o revólver.
– Vou matar você – ela disse.
– Margy, pelo amor de Deus, escuta! Eu amo você!
– Rasteje, seu cão mentiroso!
– Margy, por favor...
Theodore começou a rastejar para outro quarto.
Ela seguiu-o.
– Então, excitava você beijar Lilly?
– Não, não! Eu não gostei! Eu odiei!
– Vou estourar esses malditos lábios beijadores da sua boca!
– Margy, meu deus!
Ela pôs o revólver na boca dele.
– Toma aí um beijo pra você!
Disparou. A bala estourou parte do lábio inferior e parte do maxilar. Ele continuou consciente. Viu um dos sapatos dela no chão. Tornou a reunir suas forças e jogou o sapato contra outra janela. O vidro quebrou-se e o sapato caiu lá fora.
Margaret voltou o revólver contra o próprio peito. Puxou o gatilho...


Quando a polícia arrombou a porta, Margaret estava de pé, segurando o revólver.
– Tudo bem, madame, solte essa arma! – disse um dos tiras. Theodore ainda tentava afastar-se rastejando. Margaret apontou-lhe o revólver, disparou e errou. Depois caiu no chão, em sua camisola roxa.
– Que diabos aconteceu? – perguntou um dos tiras, curvando-se sobre Theodore.
Theodore virou a cabeça. A boca era uma bolha de sangue.
– Annn... – disse Theodore – annn...
– Eu detesto essas brigas domésticas – disse o outro tira.
– Uma verdadeira bagunça...
– É – disse o primeiro tira.
– Eu tive uma briga com minha esposa ainda hoje de manhã. A gente nunca sabe.
– Annn... – disse Theodore.

Lilly estava em casa vendo um velho filme de Marlon Brando na televisão. Sozinha. Sempre fora apaixonada por Marlon.
Soltou um peido baixinho. Levantou o vestido e começou a masturbar-se.

Charles Bukowski, in Numa Fria

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