25/03/2022

Viúva loura

— “Viúva, vinte e um anos…”
— Tadinha. A vida é isso.
— “Loura…”
— Melhorou.
— “Fazendeira, rica…”
— Epa, muda completamente de figura.
— “Pertencente a tradicional família mineira…”
— Corta essa!
— “Recém-chegada do interior…”
— Então, não custa sondar a barra.
— “Procura companhia masculina…”
— Ainda bem que é masculina. Tou às ordens.
— “Que seja jovem…”
— Você acha que trinta e oito anos está na pauta?
— “Bem-intencionado…”
— Nunca fui outra coisa na vida.
— “De fino trato…”
— Não é por me gabar, mas…
— “Conhecedor dos pontos pitorescos do Rio…”
— Que é que ela entende por pontos pitorescos? Eu prefiro pontos estratégicos.
— “Para passeios e…”
— Etc., lógico.
— “Futuro compromisso matrimonial…”
— Corta! Corta!
— É mesmo.
— Aliás, eu não tenho mais trinta e oito. Tinha, semana passada.
— E rica… Rica de quê? Talvez de predicados, apenas.
— Poxa, até parece que você está querendo a viúva pro seu bico. Pera aí, mau-caráter.
— Eu? Vê lá se eu vou nessa onda de anúncio. Tou prevenindo pra você não se grilar. Viúva mineira, loura… Se é mineira, não deve ser loura. Se é loura, é artificial. Se é artificial…
— Deixa a viuvinha ser loura e mineira, deixa.
— Olhe, eu conheci uma loura que, além de outros negativos, era careca.
— Ora, peruca resolve.
— Sei não, mas tudo isso junto — mineira, viúva, loura, vinte e um anos, rica…
— Que é que tem?
— É exagero. Não precisava ter tantas qualidades.
— Foi uma graça de Deus.
— Você não merece tanto.
— Será outra graça de Deus.
— Deus não deve ser assim tão desperdiçado com suas graças.
— Lá vem você querendo dar instruções ao Altíssimo. Perde essa mania.
— Bom, mas você não sabe que mineiro esconde milho até do monjolo?
— Continua.
— “Cartas com sigilo absoluto…”
— Evidente.
— “Indicações pessoais…”
— Minha ficha é mais limpa do que caixa-d’água de edifício quando o síndico vai ao terraço.
— “E fotos…”
— Arrgh! Só tenho 3x4, muito fajuta. Mas tiro de calção, frente, perfil e fundos.
— “Para a portaria deste jornal, sob no 019 834.”
— Pera aí. Tou anotando. 019?
— 834.
— Legal. 834 é o número do meu edifício, dezenove é pavão, que tem a perna dourada. Lê mais.
— Já li tudo, ué.
— Lê outra vez. Repete.
— Vai decorar?
— Vou gravar melhor na cuca, vou raciocinar em bloco, vou…
— Se habilitar, né?
— Correto.
— Calma, rapaz. Sabe lá que espécie de viúva é essa?
— Vou ver pra conferir.
— Pode nem ser viúva.
— E daí?
— Diz que tem vinte e um anos, mas quem garante que não é modéstia? Às vezes tem três vezes vinte e um.
— Então você admite que ela é mineira.
— E que cria galinha sem ração, na base da parapsicologia?
— Também sou mineiro, uai.
— E nunca me confessou! Eu jurava que você fosse capixaba.
— Fui. Questão de limites, minha terra passou pra banda de cá. Não espalha, sim?
— Me tapeou esse tempo todo!
— Esquece.
— Vai ser dura a parada: mineira loura versus mineiro mascarado.
— Fica em família, né?
— A tradicional?
— As duas. Eu na minha, ela na dela.
— Agora sou eu que digo: tadinha.
— Por quê? Se ela botou anúncio, quer transar. Eu transo. No figurino.
— É verdade que tem muito carioca por aí, muito paulista, muito nortista, espiando maré. Talvez você chegue tarde.
— Duvido. Você sabe que nessas coisas sou meio Fittipaldi. Comigo é Fórmula 1.
— Mineiro contando prosa? Nunca vi isso.
— Bem, mineiro é capaz de contar prosa só pra esconder que é mineiro…
— Chega, amizade, você já ganhou a viuvinha com fazenda e tudo, podes crer!

Carlos Drummond de Andrade, in De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

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