15/03/2022

Colecionadora

Colecionadora dos mais lindos guarda-chuvas se desfaz de toda coleção.
Avenida X, tel…

— Desculpe, a senhora é mineira?
— Não senhor. Catarinense. Por que pergunta?
— Porque os mineiros é que apreciam particularmente guarda-chuvas.
— Os catarinenses não podem também interessar-se por eles, como colecionadores?
— Claro que sim. Perguntei por perguntar. Como lhe veio o gosto da coleção?
— Ah, não sei. Por que é que uma pessoa gosta de sorvete de tamarindo, e passa a vida inteira só tomando sorvete de tamarindo?
— Perdão, mas esse é o anticolecionador por excelência.
— Colecionar guarda-chuvas também é uma forma de excluir todas as outras coleções possíveis.
— Como assim?
— Não vê que não combina? Guarda-chuva tem muita personalidade. Mesmo colocado entre outros objetos, não se mistura. É um sozinho.
— De fato, guarda-chuva é triste.
— Triste? Engano seu. Orgulhoso, talvez. Orgulho discreto, com base na utilidade e na beleza, coisas que nem sempre andam juntas.
— Mas a cor preta…
— Quem lhe disse que o guarda-chuva há de ser preto, e que o preto é necessariamente uma cor desolada? A alegria dos pretos, a musicalidade, o samba, o senhor acha isso triste? E tem guarda-chuva de toda cor, não é só guarda-sol que pode se enfeitar de cores. A gente é que não sabe colorir a vida, e cria o preconceito de que a determinadas coisas devem corresponder determinadas cores.
— É mesmo. Começo a ver o guarda-chuva sob outro prisma.
— Fico satisfeita de saber. Meu marido era como o senhor. Não ligava para guarda-chuva, dizia que é acessório incômodo, até ridículo. Acabou zelador da coleção, e chegou a descobrir exemplares raros, que enriqueceram o conjunto.
— Já sei que vai sentir falta de sua coleção.
— Muita. Nem calcula. São trinta anos de convivência com eles, ouviu? De certa maneira é como se fossem… O senhor vai rir de mim.
— Absolutamente.
— Como se fossem meus filhos. Isso mesmo. Filhos. Nós não tivemos nenhum. A menina que adotamos cresceu, casou e mudou para longe. Eu tinha o sentimento disponível, pouco a pouco fui derivando para os guarda-chuvas. A princípio gostava mais da sombrinha de mamãe. Natural, era lembrança de família. Depois, comecei a sentir qualquer coisa diferente nas peças que já colecionava. Por que colecionava, não sei. Achava engraçado, entende?
— Que havia de diferente?
— Havia o sentido, a natureza, a alma do guarda-chuva, se posso dizer assim. São tão diferentes de todos os objetos de uma casa. Os outros se deixam usar. Eles, de natural recolhidos, abrem-se em festa, já reparou? Reparou nada. Guarda-chuva aberto é uma explosão de alegria, que pouca gente percebe. E se for uma peça de arte, como esse da China, que eu tenho…
— Será dos antiquíssimos, daqueles usados só por imperadores e príncipes?
— Bom, o que posso lhe garantir é que ele é mais velho do que o Brasil. Esses assim, a gente venera, não se ousa abrir nem para visitas. Só em grandes dias, num ritual…
— Compreendo.
— Sempre sonhei ter um egípcio, um assírio, dos tempos mais remotos. Como não foi possível, consolo-me com estampas. Mas o senhor verá uma peça francesa do século XVI, quando a corte de lá começou a usá-lo.
— E vai vender tudo isso?
— Não vou vender, vou me desfazer. Não posso mais conservar a coleção. Chega um dia em que o colecionador tem de decidir sobre o futuro do que lhe é caro. Estou velha e viúva, sem herdeiros. Tentei conseguir do governo a criação do Museu do Guarda-Chuva; eu doaria tudo. Disseram-me que nem pensasse nisso. Doar a um dos museus existentes seria misturar meus guarda-chuvas com uma parafernália incompatível. Eles seriam subestimados, sofreriam. Então me desfaço, me desligo deles, passando-os a um colecionador que tenha no máximo quarenta anos. Que idade tem o senhor?
— Sessenta e cinco.
— Lamento, mas o senhor não vai ficar com os meus guarda-chuvas.

Carlos Drummond de Andrade, in De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

Nenhum comentário:

Postar um comentário