23/03/2021

A descoberta

— Bom-dia. Eu sou o pai do Buscapé.
— Do Buscapé?
— Do Otávio.
— Ah, do Otávio. Pois não.
— Ele é um demônio.
— Eu sei. Quer dizer, não. Ele é um menino, vamos dizer, hiperativo.
— “Hiper” é pouco.
— Eu não acho que...
— Por favor. Não precisa se constranger. Eu sou o pai e sei. Ele é um demônio.
— É.
— E é sobre isso que eu queria lhe falar.
— Ele contou que eu gritei com ele na aula...
— Não, não. Isso ele nem nota. Está acostumado. É que a mãe dele está preocupada.
— Eu não me preocuparia. Todas as crianças são hiperativas nessa fase. O Buscapé... O Otávio só é um pouco mais do que as outras. A sua senhora não deve...
— Mas ela está preocupada com outra coisa.
— O quê?
— O Busca não pára de ler.
— Não pára de ler? Mas isso é ótimo.
— Desde que começou a ler, anda sempre com um livro debaixo do braço. Quando a gente estranha o silêncio dentro de casa, vai ver é ele não fazendo barulho. Está atirado no chão, soletrando um livro, muito compenetrado.
— Mas eu não vejo qual o problema.
— É a mãe dele que... Bom, ela sente falta.
— Do quê?
— Da agitação do Busca. Ela não está acostumada, entende? A ter um intelectual em casa. Outro dia até brigou com ele.
— Por quê?
— Ele estava quieto demais. Ela gritou: “Eu não aguento mais. Quebra alguma coisa!”.
— Mas eu não entendo o que eu posso...
— Bom, se a senhora pudesse, sei lá. Não digo desencorajar o Busca. Só dizer que ele não precisa exagerar.
— Mas ele está descobrindo o mundo maravilhoso dos livros. Isso é formidável.
— É, só que a gente fica, não é?, com um certo ciúme.

Luís Fernando Veríssimo, in O santinho

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