26/03/2020

Jorge e Benny

Do baú. Jorge Luis Borges e Benny Goodman morreram ao mesmo tempo, em junho de 1986. Há 19 anos. Na época, imaginei-os esbarrando um no outro, na chegada.

— Perdona-me.

— Sorry.

— Es por aqui?

— Não sei. Também acabei de chegar.

— Borges. Argentina.

— Goodman. Estados Unidos.

— Goodman... Goodman...

— O Rei do Swing.

— Ah!

— E você?

— Bem, eu inventei este labirinto. Modestamente.

— Como, inventou, se eu estou nele?

— É difícil explicar. Escrevi vários livros não explicando exatamente isto. Minha ideia da morte era esta: o último labirinto. Por alguma razão, encontro você aqui. Tem certeza que eu não o inventei também?

— Pouco provável. Judeu? Brooklyn? Tocava clarinete?

— É, acho que não. Às vezes penso que eu inventei tudo. Que a vida foi só uma coisa que eu imaginei. As estrelas, o universo, eu mesmo. Tudo imaginação minha.

— Se você inventou este labirinto, como é que não sabe o caminho?

— Se fosse um caminho, não seria um labirinto. Você tem pouca imaginação, para um rei.

— Pouca imaginação? O que você me diz disto: spiriapau-bupi-pidau-cacapidau-bop!

— O que foi isso?

— Uma frase musical. Inventei na hora. Se eu tivesse o meu clarinete aqui você ia ver imaginação.

— A música sempre me pareceu a forma mais árida de retórica. A literatura é um labirinto sem saída. A música não tem nem entrada. É uma geometria inútil.

— E o tango?

— O tango não é nem literatura nem música. É o contrário.

— A música é um caminho, com começo, meio e fim. E o jazz é um atalho secreto.

— Sempre desconfiei da espontaneidade. Nossas vidas seriam mais suportáveis se as pudéssemos viver só depois da terceira revisão.

— Olha, é melhor ir cada um para um lado. Um de nós encontrará o caminho. Ou você inventará um e eu improvisarei outro.

— Mas você não vê? Não há caminhos. Este é o último labirinto, o que leva sempre ao lugar em que a gente já está. É o que eu chamo de “eternidade”.

— E eu vim cair logo na sua ideia de morte...

— Qual era a sua?

— Sei lá. Algo com o chão vitrificado, cortinas, bem anos 30. Uma banda, algumas garotas...

— Jesus.

— Onde?!

— Não, foi um comentário. Acho que só há uma saída.

— Qual?

— Eu estar imaginando tudo isto.

Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

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