04/01/2019

O homem que atravessava portas de vidro

Quando chegou à casa do amigo, encontrou-o atravessando o vidro da porta. Era uma casa de concreto aparente, com uma porta larga, em blindex fumê. O amigo ia e voltava, com uma expressão de surpresa.
– Por que está fazendo isso? indagou o que chegava.
– Não sei, mas é divertido!
Ia, de cá para lá, como se não houvesse vidro, fosse apenas uma projeção, um reflexo.
– Faz tempo que descobriu que podia atravessar o vidro?
– Ontem de manhã, quando cheguei bêbado em casa. Tropecei no capacho de entrada, caí de cabeça, pensei que ia me arrebentar. No entanto, meu corpo ultrapassou o vidro, fiquei meio para fora, meio para dentro.
– Terá sido alguma coisa especial que você bebeu?
– Chope.
– Só chope?
– E alguns genebras.
– Mais nada?
– Nada.
– Sentiu alguma coisa diferente?
– Só as reações normais. Aperto na bexiga, cabeça zonza. Posso aguentar muito chope.
– Será que o vidro da porta não presta? (O homem que tinha chegado pensou em mil chavões: a indústria moderna que não se preocupa com o consumidor; produtos mal-acabados, material de carregação etc.)
– Como não presta? Custou dez mil pratas!
(O homem que atravessava também pensava por chavões: o que é caro, é bom.)
Os dois sentaram-se no meio-fio. Não eram inteligentes, mas tentavam pensar no que podia estar ocorrendo. Nenhuma solução, nenhuma ideia. O que tinha chegado era um comerciante médio, o que atravessava o vidro era um dono de confeitaria que tinha enriquecido e possuía casa, dois carros, era sócio do Tênis Clube, do Rotary e Lions, possuía cartões de crédito diversos, cheques especiais e nome limpo no serviço de proteção ao crédito da associação comercial. Então, enquanto pensava, falaram. De loteria esportiva, imaginando o que fariam com o dinheiro, caso ganhassem.
Sentados, viam o dia passar. Não se importavam. Queriam descobrir o que estava acontecendo. Continuaram conversando de futebol e mulheres e preços dos novos carros.
Não tiveram fome, nem sede. O dia se acabou. Aí, cansado, o homem que tinha chegado exclamou:
– Acho que sei.
– Então, o que é?
– É um mistério.
– Mistério?
– Claro, é um mistério. Não vamos descobrir, nunca! Vamos nos calar. Você para de atravessar a porta. Esquece. Senão, começam a falar da gente. Como se tivéssemos visto disco voador. A vida vira um inferno.
– Eu estava gostando, achei engraçado. Gostaria de atravessar portas para as pessoas verem.
– Você nem sabe em que mundo vai entrar. Muda tudo. Você se torna marginal, excêntrico. Esquece. Os enigmas e as coisas sem resposta só prejudicam um homem sadio, normal, pai de família como você.
– Quer dizer que esqueço?
– Esquece. Manda trocar a porta. E não se atire pelas janelas, só de brincadeira.
– Vou esquecer, é pena! Estava começando a gostar do meu mistério.
Ignácio de Loyola Brandão, in Cadeiras proibidas

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