08/12/2018

Os seios da Maria Alice

O irmão da noiva foi encarregado de fazer o vídeo do casamento e apareceu no altar com um negro grande chamado Rosca para segurar as luzes. O irmão e o Rosca passaram todo o tempo circundando o casal e o padre, com o irmão sinalizando onde queria as luzes e o Rosca tirando padrinhos e madrinhas do caminho, subindo em nichos do altar e se agarrando em santos para se colocar, e a certa altura da cerimônia batendo no ombro do padre e pedindo “Qué dá licença?”, porque o padre estava fazendo sombra.
* * *

Na fila dos cumprimentos, a Maria Alice, com quem o noivo quase se casara, se aproximava, com seus seios portentosos. Mais de uma amiga, depois de beijar a noiva, avisou: “Viu quem está na fila?”, e a noiva firme, só pensando “Cadela”. Quando Maria Alice e seu decote chegaram na frente do noivo ele, de olho no decote, perguntou “Como vão vocês?” e depois não pôde se corrigir porque a Maria Alice estava abraçando-o e beijando-o e desejando toda a felicidade do mundo, viu? De coração. E para a noiva: você também, querida.
* * *

Na recepção, depois, a mãe da noiva dançou com o noivo, o pai do noivo dançou com a noiva, a mãe do noivo dançou com o pai da noiva, a nova mulher do pai da noiva dançou com o namorado da mãe do noivo, a terceira mulher do pai do noivo dançou com o Rosca e o padrasto da noiva, felizmente, estava com um problema na perna.
* * *

— Você, quando viu a Maria Alice, não...
— Não!
— Jura?
— Juro.
— Porque com todo aquele enchimento...
— Enchimento? Você acha?
— Pelo amor de Deus! Silicone!
— Sei não...
Ele ia dizer que conhecia os seios da Maria Alice pessoalmente, que botava as mãos no fogo pelo... Mas ela tinha começado a chorar.
— Bitutinha! O que é isso?
— Não sei...
— Chorando por causa dos seios postiços da Maria Alice, Bitutinha?!
— É insegurança, entende?
* * *

Quarta ou quinta noite da lua de mel. Bom como nunca tinha sido antes, nem no namoro. A janela aberta, um único grilo prendendo a noite lá longe, como um alfinete de som, e os dois suados e abraçados na cama do hotel-fazenda. Tão apertado que um parecia querer atravessar o outro, porque não sabiam o que dizer, não sabiam o que era aquilo, aquele se gostar tanto. Bom de doer, bom de assustar. E ele pensando: vai dar certo, vai ser sempre assim, nós vamos ser sempre assim, a felicidade é esta coisa meio muda e desesperada que a gente não quer que acabe, ela vai ser minha mulher para sempre e vai ser bom, eu não precisava ter me preocupado tanto só porque ela pediu para tocarem Feelings no casamento.
* * *

— Só dá a Maria Alice!
No teipe do casamento, era mesmo a Maria Alice, no seu vestido vermelho, quem mais aparecia. Mais, até, do que a noiva. O irmão tentou se explicar:
— O vermelho atrai a câmera.
E prometeu um parecer científico que comprovava o fenômeno.
* * *

— Lembra do Rosca pedindo para o padre se afastar porque estava atrapalhando a filmagem?
— Parece que faz tanto tempo, né?
— Bom. Brincando, brincando, lá se vão...
Brincando, brincando, lá se tinham ido dois anos. Depois foram mais cinco, depois mais três...
— Você se dá conta que nós estamos casados há doze anos? Doze anos já se passaram!
E ele, distraído:
— Essas coisas, quando começam, não param.
* * *

— Como é que você me chamava?
— Eu?
— É. Você tinha um apelido pra mim. Na cama. Lembra?
— Tem certeza que era eu?
— Burungunga. Não, Burungunga não. Tutuzinha? Não...
— Pokémon?
— Não, nem existia, na época. Era alguma coisa como... Xurububa.
— Duvido.
* * *

E um dia ele leu no jornal que a Maria Alice faria uma palestra sobre Psicologia Motivacional. Tinha fotografia da doutora Maria Alice: óculos, papada, busto matronal. O tempo, pensou ele. O tempo é isso, o que transforma os seios da Maria Alice em busto matronal. A destruição de impérios e civilizações é só efeito colateral, e não nos diz respeito.
Luís Fernando Veríssimo, in Amor veríssimo

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