08/05/2018

O amor acaba

— “O amor às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes.”

— O que é isso?

— Paulo Mendes Campos.

— Paulo Mendes Campos?!

— Estou relendo. Eu nunca mais tinha lido esta crônica. “O amor acaba”. Uma vez nós lemos juntos, você se lembra?

— Não.

— Faz tempo.

— Você e eu lendo uma crônica juntos é difícil de acreditar.

— Eu sei. Não fazemos mais nada que fazíamos juntos. Mas eu, pelo menos, me lembro.

— Só você, mesmo, pra desenterrar esse livro velho.

— Foi você que me deu.

— Eu?!

— Olha a dedicatória. “Amor eterno”.

— Meu Deus. “Amor eterno”?!

— Uma coisa que existia antigamente.
— Ih, lá vem drama...
— “Diante dos mesmos cisnes...” O que seriam os cisnes, no nosso caso? Que eu me lembre, começamos a namorar numa reunião dançante e eu pedi você em casamento numa fila de cinema. Não havia nenhum cisne por perto.
— Aposto que você se lembra até do filme.
— Era, era...
— Eu não acredito. Você vive no passado. Na outra noite, foi o único do grupo que se lembrava de toda a letra de “Marcianita”.
— Sabe o que o Ernestão me contou? Olha que história triste. Ninguém entendia por que ele e a Vanda nunca tinham se separado. Não podia ser para manter as aparências. Todo mundo sabia que o casamento deles era um fracasso, nem um nem outro escondiam isso. Os filhos já tinham saído de casa, já eram adultos, a separação não os afetaria. Os amigos do casal não se surpreenderiam com um divórcio, era óbvio que o amor entre eles tinha acabado havia muito tempo. Era até bom que se separassem, para nos poupar dos seus constantes bate-bocas na nossa frente. Você mesmo dizia que não entendia como eles ainda se aturavam, vivendo na mesma casa e se odiando daquele jeito. A gente até especulava: uns achavam que era ela que não dava o divórcio, para infernizar a vida dele, outros achavam que era o contrário. Finalmente se separaram, e ontem o Ernestão me contou por que tinha demorado tanto, e o que o levou a concordar com o divórcio. Foi uma descoberta que ele fez.
— Que descoberta?
— Uma coisa banal. Uma coisa que existe há anos, mas ele não sabia.
— O quê?
— O cortador de unha. Entende? Durante anos, mesmo se odiando, a Vanda cortava as unhas dele com tesourinha. Ele precisava dela para cortar as unhas da sua mão direita. Ela talvez usasse a tesourinha como um símbolo do seu domínio sobre ele. Por isso escondera a existência do cortador de unha, com o qual ele poderia cortar suas próprias unhas, inclusive as da mão direita, e que a tornaria obsoleta. A tesourinha era a última coisa que os unia. Não é uma história triste?
— Não, é uma história ridícula.
— Acho que foi por isso que eu procurei esta crônica do Paulo Mendes Campos. O amor acaba com o tempo. O amor acaba com o esquecimento. O amor acaba como começou, mesmo que com outros cisnes. E o amor também acaba entre dois “clics” de uma tesourinha.
— Literatice.
— Olha o fim da crônica: “Em todos os lugares o amor acaba, a qualquer hora o amor acaba, por qualquer motivo o amor acaba, para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.”
— Me poupe.
Luís Fernando Veríssimo, in Amor veríssimo

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