22/05/2017

Você vai comigo, Bugra

Noite. Muito além da meia-noite. E as vozes:
— ... Pois eu digo que se o milho deste ano der bem, a gente vai ter como pagar você. Agora, se o milho se perder, pois você vai ter de aguentar mais.
— Não exijo. Você sabe muito bem que fui razoável com você. Mas a terra não é sua. Você se pôs a trabalhar em terreno alheio. Vai tirar de onde para poder me pagar?
— E quem foi que disse que a terra não é minha?
— O que se afirma por aí é que você vendeu para Pedro Páramo.
— Eu nem cheguei perto desse senhor. A terra continua sendo minha.
— Isso é o que você diz. Mas por aí o que se diz é que tudo é dele.
— Pois que venham dizer a mim.
— Olha bem, Galileo, eu, aqui em confiança, aprecio você. Não é à toa que você é o marido da minha irmã. E que você a trata bem, não há quem duvide. Mas não venha me negar que vendeu as terras.
— Estou dizendo que não vendi.
— Só que elas são de Pedro Páramo. Na certa ele decidiu assim. Dom Fulgor não veio ver você?
— Não.
— Na certa você vai ver ele chegando amanhã. Se não amanhã, qualquer outro dia.
— Pois me mata ou morre; mas não vai sair do jeito que chegou.
— Requiescat in pace, amém, cunhado. Por via das dúvidas.
— Pode deixar, que você vai voltar a me ver. Não se preocupe por mim. Não foi à toa que minha mãe curtiu bem meu couro, para que aguentasse.
— Até amanhã então. Diga a Felícitas que esta noite não venho jantar. Eu não gostaria de poder contar depois: “Eu estive com ele na véspera.”
— Vamos guardar alguma coisa, se você na última hora mudar de ideia.
Ouviram-se os pesados passos que iam embora entre um ruído de esporas.

— ... Amanhã, ao amanhecer, você vai comigo, Bugra. Já aparelhei os animais.
— E se meu pai morrer de raiva? Velho do jeito que está... Eu nunca me perdoaria se, por minha causa, acontecesse alguma coisa com ele. Sou a única pessoa que ele tem para fazer as necessidades. E não tem mais ninguém. Qual é essa pressa de me roubar? Aguenta mais um pouquinho. Ele já não demora para morrer.
— Você me disse isso mesmo há um ano. E até jogou na minha cara a minha falta de valentia, pois já estava, você mesma disse, farta de tudo. Preparei as mulas, que estão prontas. Você vem comigo?
— Deixa eu pensar.
— Bugra! Você não sabe quanto eu gosto de você. Não aguento mais de vontade, Bugra. E então você vem comigo ou vem comigo, e já.
— Deixa eu pensar. Entenda. Temos de esperar que ele morra. Falta um pouquinho. Daí eu vou com você e você não vai nem precisar me roubar.
— Isso você também me disse faz um ano.
— E daí?
— E daí que precisei alugar as mulas. Eu não tenho mais nenhuma. Elas estão lá esperando. Deixa que ele se arranje sozinho! Você está bonita. E é jovem. Não vai faltar uma velha qualquer que venha cuidar dele. Aqui tem alma caritativa de sobra.
— Não posso.
— Claro que pode.
— Não posso. É que me dá pena, sabe? Afinal, ele é meu pai.
— Então está resolvido. Vou lá ver Juliana, que se derrete por mim.
— Muito bem. Já não digo mais nada.
— Não vai querer me ver amanhã?
— Não. Não quero ver você mais.

Ruídos. Vozes. Rumores. Canções distantes:

Minha querida me deu um lenço
com bainhas de choro...

Em falsete. Como se fossem mulheres cantando.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

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