27/08/2021

Torto Arado | 14

Bibiana e Severo retornaram com seus quatro filhos para a fazenda, alguns anos depois. No intervalo desse tempo, vieram para as festas de fim de ano e de São Sebastião com certa frequência. Numa dessas visitas batizei dois de seus filhos, como havia prometido: Inácio, o mais velho, que havia crescido e tinha quase minha altura; e Maria, a terceira. Domingas batizou a segunda, Flora, e Zezé também foi escolhido padrinho dela. Santa, filha de Tonha, batizou Ana, a caçula, que havia recebido o nome de nossa avó, e que já havia completado três anos. Minha mãe havia viajado para fazer o parto da segunda, e também acompanhou Bibiana no hospital no parto das duas últimas. O ano do regresso foi o ano em que chegou a primeira televisão à fazenda. Ela havia sido dada a Damião por um dos filhos, que trabalhava na cidade. Era uma televisão em preto e branco com uma caixa cinza, com antenas que mal serviam e uma esponja de aço na ponta. No começo, víamos mais os chuviscos do que qualquer imagem. Depois chegou a primeira antena parabólica, “um prato grande virado para as estrelas”, Damião disse a meu pai, numa de suas visitas ao jarê. Recordo da cara de espanto e riso do povo de Água Negra, conhecíamos a televisão de andarmos pela cidade e por outros lugares, mas nunca havíamos tido uma por ali. Chegou antes da energia elétrica, e na casa de Damião a faziam funcionar com uma bateria de veículo antiga, que precisava ser recarregada sempre. Ou seja, assistíamos uma novela por quinze dias e passávamos mais quinze sem ver nada, até que alguém da família fosse à cidade levando o peso da bateria. A partir de então, o povo passou a se reunir na casa à noite; quando acabava a bateria ouvíamos queixa na roça, na feira e em todo canto, até que retornassem com ela carregada de novo. Até mesmo Sutério vinha, mancando, de vez em quando, “para espiar”, como dizia. Formava uma aglomeração de gente conversando, outros pedindo silêncio. Outras pessoas começaram a se debruçar na janela porque não havia mais lugar nem no chão da sala. Bibiana disse que quando tivéssemos energia elétrica compraria uma para nossos pais.
Antes do retorno de minha irmã, havíamos passado por novos tempos de cheia e estiagem. Aos poucos, a paisagem foi mudando também. As grandes roças que os homens trabalhavam foram reduzidas, ano a ano. A família Peixoto já não tinha interesse em produzir. Um dos irmãos, que ficava à frente do trabalho instruindo Sutério, havia falecido. Já tinha a idade avançada e os filhos pareciam não ter interesse de continuar cuidando da fazenda. As estiagens tinham sido duras, não se plantava mais arroz, eles diziam que faltava dinheiro para comprar adubo e sementes. As únicas coisas que vicejavam eram as nossas roças na vazante, os marimbus, a televisão de Damião e as brincadeiras de jarê. Meu pai estava envelhecendo, se encurvando com o tempo, os cabelos ficando brancos de forma lenta, mas ainda trabalhava de domingo a domingo. Não falava em parar. Ele e outros trabalhadores pioneiros que chegaram nos primeiros anos à Água Negra estavam se aposentando. Foram orientados pelo próprio Sutério a requerer o benefício – ele mesmo sem registro de trabalho, confessou –, o que era de muita ajuda e mudava em parte a situação dos moradores. Passaram cópia do documento do imposto da terra de mão em mão para que os mais velhos pudessem ter o que nunca tiveram, como se todo tempo de espera e trabalho tivessem sido para este momento derradeiro, quando iriam receber seus parcos recursos no banco da cidade. Era como se, passado tanto tempo trabalhando sem qualquer remuneração, agora entendessem que tinham direito a receber um ordenado todo mês. Continuavam a trabalhar nos seus roçados, a cultivar seus alimentos, muitos continuavam a montar banca na feira da cidade, mas não existiam mais as empreitadas fatigantes que retiraram a saúde de muitos e que significavam a servidão dos antigos, dos avós e bisavós, a sujeição que gostariam de poder esquecer.
Apesar das mudanças lentas, muitas interdições impostas pelos fazendeiros ainda continuavam a valer. O dinheiro não era usado para melhoria das casas que continuavam a ser de barro, continuávamos sem poder construir casa de alvenaria. Mas o povo começou a melhorar o seu interior: colchões de espuma para substituir os colchões de palha de milho, uma cama, mesa e cadeiras, remédios, roupas e alimentos. Panelas e colchas que os ciganos vendiam de tempos em tempos em nossas portas.
Bibiana havia se formado professora, falava diferente, bonito, via o orgulho de meu pai ao vê-la ensinar aos filhos. Dizia que queria a filha professora da escola de Água Negra. Que falaria com o prefeito numa festa de jarê para que desse o cargo de professora à filha, se assim fosse possível. Ela e Severo construíram uma casa perto de nossos pais, como a maioria costumava fazer quando casava e não seguia para outros rumos. Eu continuei a morar perto do rio Santo Antônio, mas passava os finais de semana entre eles. Gostava de estar com as crianças, de escutar Severo sobre nossa situação na fazenda. Aprendia coisas novas. Meu primo continuava a deixar a fazenda para reuniões do sindicato, de movimentos, para congressos. Gostava de sua companhia, mas guardava certa distância porque sentia que minha irmã tinha ciúmes do marido, mesmo de mim. Ou talvez eu tenha ficado com essa impressão ao ver seus olhos crisparem quando alguma mulher, atraída pelo discurso de Severo, pela sabedoria que ele emanava, deslumbrada diante de sua oratória e do sorriso, que parecia ser do mesmo menino que havia me encantado e havia me feito querer ser como ele na minha mocidade.
Quando Severo viajava para encontrar o povo que lhe ensinava as coisas, sobre a precariedade do trabalho, sobre o sofrimento do povo do campo, eu dormia na casa de Bibiana para lhe fazer companhia. Inácio, meu afilhado, já era menino crescido, tinha corpo de homem, gostava de me ajudar a plantar no quintal de casa. Ele mesmo tomava a enxada da minha mão ou da mão da mãe, cavava cova, fazia coivara, com nossa vigília. Tinha o mesmo interesse pelos livros da mãe e do pai. Maria, minha outra afilhada, era traquina, vivia surpreendendo a todos. Se pendurava nos umbuzeiros e cajueiros, sumia nos matos. No dia em que caiu e quebrou o braço, me lembrei da Rural que nos levou para o hospital na infância que se distanciava, mas que em momentos como esse retornava como um sonho. Minha mãe olhava para a neta e dizia “essa teve a quem puxar, nunca vou me esquecer do que vocês me fizeram passar, correndo para o hospital”. Bibiana ficava aflita, mas eu ria em silêncio, pensava como era engraçado poder ver a vida se repetir como uma história antiga. Meu pai se juntava a Bibiana na preocupação, dizia para que não castigasse a menina, que ela tinha os Cosmes que ele não quis cuidar. Por isso nós duas tínhamos sofrido na infância, porque ele não quis cuidar do São Cosme e Damião, ou, quando cuidava, fazia com malgrado. Ficava contrariado quando incorporava os santos, quando agia como criança, quando subia nas árvores ou pulava as janelas, e se fosse o telhado da casa de cerâmica teria corrido por cima dela como um menino irrequieto.
O ano do retorno da filha foi a última vez em que meu pai e minha mãe viajaram para os festejos de Bom Jesus da Lapa, terra de Salu, em caminhada e romaria, promessa feita por ocasião da partida de Bibiana e Severo, para que retornassem à fazenda. Só soubemos da promessa quando se aproximou agosto e eles partiram a pé até seu destino, com moradores de Água Negra e fazendas vizinhas. A romaria também era para agradecer a chuva, ainda que cada vez mais parca. Por isso, muitos moradores, principalmente os mais antigos, partiram naquela viagem. Caminharam por dezessete dias, ida e volta, e todos nós nos sentimos aflitos com a segurança dos romeiros, principalmente Bibiana, sentindo-se culpada pelo fardo da promessa, temendo que algo ocorresse e ela levasse a culpa pelo resto da vida. Mas retornaram bem, queimados de sol, cansados, no entanto revigorados, como sempre acontecia após uma viagem às terras do Bom Jesus, agradecendo ao santo pela romaria, por terem pernas e saúde para caminhar. Voltaram, como sempre, carregados de graça, com imagens, terços e promessas. Voltaram mais velhos na carne, com dores que os acompanharam por semanas, anos, talvez por toda a vida, mas os olhos reluziam como o lume de uma vela, e isso bastava para sabermos que era o que devia ser feito.
Mas depois dessa viagem meu pai nunca mais foi o mesmo. Suas forças foram declinando. Talvez a força despendida numa caminhada tão longa como aquela fosse demais para sua idade. Minha mãe retornou com o corpo abatido, mas Zeca Chapéu Grande voltou muito mais fraco. Sentir o sol no caminho do asfalto, entre rezas e encantos, reviver a caminhada que o trouxe à Água Negra, talvez a emoção de ver o santo, filhos e netos à sua volta, houvesse preparado seu corpo para a partida.

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

Calvin e Haroldo

 

Quien supiera escribir!

O menino de joelhos sujos que chega em casa correndo e mal pode falar...
A velha dama que é agora obrigada a fazer renda para vender... de casa em casa, a coitada!... e que senta na ponta da cadeira, suspira discretamente e murmura: “A minha vida é um romance...”.
Aquela moça que diz: “Não quero ouvir isto!” e tapa os olhos...
Ah, quanta coisa deliciosamente quotidiana, quanto efêmero instante, eu não gravaria para sempre na memória dos homens, se…

Mário Quintana, in Sapato florido

Recordações pernambucanas

Morei no Recife alguns meses, em 1935. Primeiro numa água-furtada na rua da União, com Ulisses Braga, o crítico Waldemar Cavalcanti e o sociólogo Manuel Diegues Júnior, o pai do Caca; depois na rua dos Pires, em casa do Sr. Salomão e Dona Bertha, pais do saudoso médico-indígena-volante e benemérito brasileiro Noel Nutels, judeu-russo, antigo animador do jazz-band acadêmico de Pernambuco. Também moravam Lourenço, funcionário do Banco do Brasil, que já era o grande compositor Capiba, de frevos e maracatus; lá o senhor mancebo de espinhas na cara, que é hoje o colunista e compositor Fernando Lobo (mais conhecido como o pai do Edu); e os irmãos Suassuna, então estudantes de Medicina, que sabiam cantar umas coisas pungentíssimas e engraçadíssimas do sertão — me lembro tanto deles, João e Saulo, não conheci foi esse Ariano, irmão mais moço deles, que haveria de soprar um vento violento novo, no teatro e na literatura do Brasil.
Sábado à noite, a gente ia para a casa de Alfredo Medeiros ouvir violas e ouvir Leda Baltar cantar maracatus de Ascenso Ferreira. Lembro-me da impressão de espanto que me produziu Ascenso — o bruto volume do corpo, a extensão da cara de ladrão de cavalo e bom sujeito, cara de bêbado com pesados encargos de família, cara de revolucionário mexicano preso por engano na Guatemala, cara de pintor de gênio e de prefeito português ao mesmo tempo.
Cara que eu vi vastamente desconsolada, uma vez que ele cantou uma coisa e o chofer de táxi comentou candidamente: “Isso é bonito é cantado...”
Não, Ascenso não cantava, mas dizia seus versos como ninguém, a voz parecia vir de seu grande coração de boi, generoso e lerdo. “Nunca mais”, me disse ele certa vez, “nunca mais posso fazer um poema como este que recitei agora; gastei vinte anos para fazer isto.” O poema era aquele do trem de ferro que vai pra Catende, danado pra chegar, passa pelo mangue, pelo partido de cana, pela morena de cabelo cacheado. Ascenso queria dizer que foram vinte anos de viagens pela Great Western, que criaram o poema. Porque o poeta explicava seus poemas, isto é, explicava o que se pode explicar em um poema. O resto, o “mistério”, isso não é essencialmente seu, é do profundo mundo do Nordeste, esse Nordeste rico de povo, onde às vezes acontece...
Às vezes acontece, por exemplo, o que três rapazes me contaram: que, uma noite, no mato, ouviram de longe uma cantoria muito triste que se repetia sem parar, e então foram no rumo daquela música, na escuridão. Andaram muito, errado e certo, até que toparam um casebre no meio do mato e havia um negro velho que cantava esta coisa apenas: “Um milheiro de tijolos — custando duas pataca”; e havia umas mulheres de vozes esganiçadas, agudíssimas, como gritos de dor, que respondiam: “Ai minha Mãe de Deus — mas que coisa tão barata.”
E no meio da sala, num caixão de pinho sem forro, aberto, o defunto que eles velavam.
Eu não posso continuar a discutir com você porque você é um reles almocreve paraibano e eu sou um gentil-homem pernambucano!”
Esta frase foi dita no cabaré Taco de Ouro, há 47 anos. Quem a disse foi Anibal Fernandes; e a disse para Olívio Montenegro. Antes, Olívio chamara, ironicamente, a Anibal de gentil-homem. Anibal ripostara — dedo em riste, com veemência. Nós todos tínhamos bebido alguma coisa — aquilo era, se bem me lembro, uma despedida do Ganot Chateaubriand, o bom Ganot, que pagara uma cervejada para todo o pessoal do Diário de Pernambuco naquele bar que havia embaixo da redação, e depois levara alguns redatores e colaboradores para tomar uísque e um champanha no cabaré. Tivemos medo de que aquelas ironias se azedassem e os dois amigos acabassem brigando; lembro-me de que Gilberto Freyre estava acalmando (talvez também atiçando...) Anibal, e eu tomando conta do Olívio. Tomando conta sem necessidade nenhuma: lento, a cabeçorra a balançar devagar, Olívio não pensava em briga: “Paraibano com muita honra, ouviu? Almocreve e com muita honra, já ouviu?”
Esse seu fim de frase “já ouviu” às vezes se reduzia a um “joviu”.
Era, na verdade, um gentil-homem. Os dois eram gentis-homens autênticos, desses que o Nordeste os tem, mas pouco exporta para o Sul. Homens presos a uma região, a uma cidade; presos, quem sabe, à brisa entre coqueiros, ao gosto e ao cheiro de certas frutas, a um estilo de vida meio largado e ainda cavalheiresco, capaz de dar a esse escravo que é todo trabalhador intelectual um ar de grão-senhor entre cajueiros, como o saudoso Antiógenes Chaves, como o sempre vivo Gilberto Freyre.
Gilberto naquele tempo andava pelos 35 anos, já publicara Casa Grande & Senzala e estava acabando de escrever Sobrados e Mocambos; e era solteiro. E eu também era, o Cícero Dias também era. Assim que fomos os três, num trenzinho da Great Western, à estação de Prazeres para subir o morro e participar da festa de Nossa Senhora, naquela igreja que domina as colinas de Guararapes, onde brasileiros e holandeses se guerrearam. Usava-se ir às antigas trincheiras apanhar folhas para benzer, pois as plantas dali tinham sido regadas pelo sangue dos heróis. E nas trincheiras aconteciam casos de amor. A certa altura Gilberto sumiu e, depois de muito procurá-lo, Cícero Dias e eu fomos até a estação: lá estava ele preso por um sargento, pois atentara contra o pudor público fazendo amor com uma jovem mulata no capim de uma trincheira.
Custou muita conversa e algum dinheiro, mas libertamos o sociólogo. Coisa que convém referir para que não seja esquecida em sua biografia. Nestes seus maravilhosos 82 anos de idade.

Rubem Braga, in Recado de primavera

26/08/2021

Chico: Artista Brasileiro

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado

A benfazeja

Sei que não atentaram na mulher; nem fosse possível. Vive-se perto demais, num lugarejo, às sombras frouxas, a gente se afaz ao devagar das pessoas. A gente não revê os que não valem a pena. Acham ainda que não valia a pena? Se, pois, se. No que nem pensaram; e não se indagou, a muita coisa. Para quê? A mulher — malandraja, a malacafar, suja de si, misericordiada, tão em velha e feia, feita tonta, no crime não arrependida — e guia de um cego. Vocês todos nunca suspeitaram que ela pudesse arcar-se no mais fechado extremo, nos domínios do demasiado?
Soubessem-lhe ao menos o nome. Não; pergunto, e ninguém o intéira. Chamavam-na de a “Mula-Marmela”, somente, a abominada. A que tinha dores nas cadeiras: andava meio se agachando; com os joelhos para diante. Vivesse embrenhada, mesmo quando ao claro, na rua. Qualquer ponto em que passasse, parecia apertado. Viam-lhe vocês a mesmez — furibunda de magra, de esticado esqueleto, e o se sumir de sanguexuga, fugidos os olhos, lobunos cabelos, a cara —; as sombras carecem de qualquer conta ou relevo. Sabe-se se assustava-os seu ser: as fauces de jejuadora, os modos, contidos, de ensalmeira? Às vezes, tinha o queixo trêmulo. Apanhem-lhe o andar em ponta, em sestro de égua solitária; e a selvagem compostura. Seja-se exato.
E nem desconfiaram, hem, de que poderiam estar em tudo e por tudo enganados? Não diziam, também, que ela ocultava dinheiro, rapinicado às tantas esmolas que o cego costumava arrecadar? Rica, outromodo, sim, pelo que do destino, o terrível. Nem fosse reles feiosa, isto vocês poderiam notar, se capazes de desencobrir-lhe as feições, de sob o sórdido desarrumo, do sarro e crasso; e desfixar-lhe os rugamentos, que não de idade, senão de crispa expressão. Lembrem-se bem, façam um esforço. Compesem-lhe as palavras parcas, os gestos, uns atos, e tereis que ela se desvendava antes ladina, atilada em exacerbo. Seu antigo crime? Mas sempre escutei que o assassinado por ela era um hediondo, o cão de homem, calamidade horribilíssima, perigo e castigo para os habitantes deste lugar. Do que ouvi, a vocês mesmos, entendo que, por aquilo, todos lhe estariam em grande dívida, se bem que de tanto não tomando tento, nem essa gratidão externassem. Tudo se compensa. Por que, então, invocar, contra as mãos de alguém, as sombras de outroras coisas?
O cego pedia suas esmolas rudemente. Xingava, arrogava, desensofrido, dando com o bordão nas portas das casas, no balcão das vendas. Respeitavam-no, mesmo por isso, jamais se viu que o desatendessem, ou censurassem ou ralhassem, repondo-o em seu nada. Piedade? Escrúpulo? Mais seria como se percebessem nele, de obscuro, um mando de alma, qualidade de poder. Chamava-se “o Retrupé”, sem adiante. Como a Mula-Marmela, os dois, ambos: uns pobres, de apelido. E vocês não veem que, negando-lhes o de cristão, comunicavam, à rebelde indigência de um e outra, estranha eficácia de ser, à parte, já causada?
Ao Retrupé, com seu encanzinar-se, blasfemífero, e prepotente esmolar, ninguém demorava para dar dinheiro, comida, o que ele quisesse, o pão-por-deus. — “Ele é um tranca!” — o cínico e canalha, vilão. Mas só, às vezes, alguém, depois e longe, se desabafava. O homem maligno, com cara de matador de gente. Sobre os trapos, trazia um facão, pendente. Estendia, imperioso, sua mão de tamanho. E gritava, com uma voz de cão, superlativa. Se alguém falasse, ou risse, ele parava, esperava o silêncio. Escutava muito, ao redor de si. Mas nunca ouvia tudo; não sabia nem podia.
Tinha medo, também; disso vocês nunca desconfiaram. Temia-a, a ela, à mulher que o guiava. A Mula-Marmela chamava-o, com simples sílaba, entre dentes, quase esguichado um “ei” ou “hã” — e o Retrupé se movia de lá, agora apalpante, pisando com ajuda; balançava o facão, a bainha presa a um barbante, na cintura. Sei que ele, leve, breve, se sacudira. Desciam a rua, dobraram o beco, acompanharam-se por lá, os dois, em sobrossoso séquito. Rezam-se ódio. Lé e cré, pelas ora voltas, que qual, que tal, loba e cão. Como era que ficavam nesse acordo de incomunhão, malquerentes, parando entre eles um frio figadal? O cego Retrupé era filho do finado marido dela, o “Mumbungo”, que a Mula-Marmela assassinara.
Vocês sabem, o que foi há tantos anos. Esse Mumbungo era célebre-cruel e iníquo, muito criminoso, homem de gostar do sabor de sangue, monstro de perversias. Esse nunca perdoou, emprestava ao diabo a alma dos outros. Matava, afligia, matava. Dizem que esfaqueava rasgado, só pelo ancho de ver a vítima caretear. Será a sua verdade? Nos tempos, e por causa dele, todos estremeciam, sem pausa de remédio. Diziam-no maltratado do miolo. Era o punir de Deus, o avultado demo — o “cão”. E, no entanto, com a mulher, davam-se bem, amavam-se. Como? O amor é a vaga, indecisa palavra. Mas, eu, indaguei. Sou de fora. O Mumbungo queria à sua mulher, a Mula-Marmela, e, contudo, incertamente, ela o amedrontava. Do temor que não se sabe. Talvez pressentisse que só ela seria capaz de destruí-lo, de cortar, com um ato de “não”, sua existência doidamente celerada. Talvez adivinhasse que em suas mãos, dela, estivesse já decretado e pronto o seu fim. Queria-lhe, e temia-a — de um temor igual ao que agora incessante sente o cego Retrupé. Soubessem, porém, nem de nada. A gente é portador.
O cego Retrupé é grande, forte. Surge, de lá, trazido pela Mula-Marmela; agora se conduz firme, não vacila. Dizem que bebe? Vejam vocês mesmos, porém, como essas petas escondem a coisa singular. Todos sabem que ele não bebia, nunca, porque a Mula-Marmela não deixava. Nem carecia de falar-lhe a paz da probição: dava-lhe, apenas, um silêncio, terrível. E ele cumpria, tinha a marca da coleira. Curtia afogados desejos, indecifrava-os. Aspirava, à porta dos botequins, febril, o espírito das cachaças. Seguia, enfim, perfidiado e remisso, mal-agradecido, raivoso, os dentes do rato rangiam-no. Porque, ele mesmo, não sabendo que não havia de beber, o que não fosse — ah, se! — o sangue das pessoas. Porque sua sede e embriaguez eram fatais, medonhas outras, para lá do ponto. Seria ele, realmente, uma alma de Deus, hão certeza? Ah, nem sabem. Podia também ser de outra essência — a mandada, manchada, malfadada. Dizem-se, estórias. Assim mesmo, no tredo estado em que tacteia, privo, mal-existente, o que é, cabidamente, é o filho tal-pai-tal; o “cão”, também, na prática verdade.
O pai, o Mumbungo, se vivia bem com a mulher, a Mula-Marmela, e se ela precisava dele, como os pobres precisam uns dos outros, por que, então, o matou? Vocês nunca pensaram nisso, e culparam-na. Por que hão de ser tão infundados e poltrões, sem espécie de perceber e reconhecer? Mas, quando ela matou o marido, sem que se saiba a clara e externa razão, todos aqui respiraram, e bendisseram a Deus. Agora, a gente podia viver o sossego, o mal se vazara, tão felizmente de repente. O Mumbungo; esse, foi o que tivera de se revoltar a um outro lugar, foi como alma que caiu no inferno. Mas não a recompensaram, a ela, a Mula-Marmela; ao contrário: deixaram-na no escárnio de apontada à amargura, e na muda miséria, pois que eis. Matou o marido, e, depois, própria temeu, forte demais, o pavor que se lhe refluía, caída, dado ataque, quase fria de assombro de estupefazimento, com o cachorro uivar. E ela, então, não riu. Vocês, os que não a ouviram não rir, nem suportam se lembrar direito do delirido daquela risada.
Se eu disser o que sei e pensam, vocês inquietos se desgostarão. Nem consintam, talvez, que eu explique, acabe. A mulher tinha de matar, tinha de cumprir por suas mãos o necessário bem de todos, só ela mesma poderia ser a executora — da obra altíssima, que todos nem ousavam conceber, mas que, em seus escondidos corações, imploravam. Só ela mesma, a Marmela, que viera ao mundo com a sina presa de amar aquele homem, e de ser amada dele; e, juntos, enviados. Por quê? Em volta de nós, o que há, é a sombra mais fechada — coisas gerais. A Mula-Marmela e o Mumbungo, no fio a fio de sua afeição, suspeitassem antecipadamente da sanção, e sentença? Temia-a, ele, sim, e o amor que tinha a ela colocava-o à mercê de sua justiça. A Marmela, pobre mulher, que sentia mais que todos, talvez, e, sem o saber, sentia por todos, pelos ameaçados e vexados, pelos que choravam os seus entes parentes, que o Mumbungo, mandatário de não sei que poderes, atroz sacrificara. Se só ela poderia matar o homem que era o seu, ela teria de matá-lo. Se não cumprisse assim — se se recusasse a satisfazer o que todos, a sós, a todos os instantes, suplicavam enormemente — ela enlouqueceria? A cor do carvão é um mistério; a gente pensa que ele é preto, ou branco.
E outra vez vejo que vêm, pela indiferente rua, e passam, em esmolambos, os dois, tão fora da vida exemplar de todos, dos que são os moradores deste sereno nosso lugar. O cego Retrupé avança, fingindo-se de seguro, não dá à Mula-Marmela a ponta do bordão para segurar, ela o guia apenas com sua dianteira presença, ele segue-a pelo jeito, pelo se deslocar do ar — como em trasvoo se vão os pássaros; ou o que ele percebe à sua frente é a essência vivaz da mulher, sua sombra-da-alma, fareja-lhe o odor, o lobum? Notem que o cego Retrupé mantém sempre muito levantada a cabeça, por inexplicado orgulho: que ele provém de um reino de orgulho, sua maligna índole, o poder de mandar, que estarrece. E ele traz um chapéu chato, nem branco nem preto. Viram como esse chapéu lhe cai muitas vezes da cabeça, principalmente quando ele mais se exalta, gestilongado abarbarado e maldoso, reclamando com urgência suas esmolas do povo. Mas, notaram como é que a Mula-Marmela lhe apanha do chão o chapéu, e procura limpá-lo com seus dedos, antes de lho entregar, o chapéu que ele mesmo nunca tira, por não respeitar a ninguém? Sei que vocês não se interessam nulo por ela, não reparam como essa mulher anda, e sente, e vive e faz. Repararam como olha para as casas com olhos simples, livres do amaldiçoamento de pedidor? E não põe, no olhar as crianças, o soturno de cativeiro que destinaria aos adultos. Ela olha para tudo com singeleza de admiração. Mas vocês não podem gostar dela, nem sequer sua proximidade tolerem, porque não sabem que uma sina forçosa demais apartou-a de todos, soltou-a. Apara, em seu de-cor de dever, o ódio que deveria ir só para os dois homens. Dizem-na maldita: será; e? Porém, isto, nunca mais repitam, não me digam: do lobo, a pele; e olhe lá! Há sobrepesos, que se levam, outros, e são a vida.
Mas, com tanto, está que ninguém sabe o que entre os dois verdadeiramente se compassa — do desconchavo e desacerto de assim perambularem, torvos, no monótono, em farrapos, semoventes: do que vocês apenas se divertem, tiram graças e chocarra. Se o que os há é apenas embruxar e odiar, loba contra cão, ojeriza e osga; convocam demônios? Ou algum encoberto ultrapassar, — posto o que também há: uma irmandade das almas más, alcatéia e matilha? Não, não há ódio; engano. Ela, não. Ela cuida dele, guia-o, trata-o — como a um mais infeliz, mais feroz, mais fraco. Desde que morreu o homem-marido, o Mumbungo, ela tomou conta deste. Passou a cuidá-lo, na reobriga, sem buscar sossego. Ela não tinha filhos. — “Ela nunca pariu...” — vocês culpam-na. Vocês, creio, gostariam de que ela também se fosse, desaparecesse no não, depois de ter assassinado o marido. Vocês odeiam-na, destarte.
Mas, se ela também se tivesse matado, que seria de vocês, de nós, às muitas mãos do Retrupé, que ainda não estava cegado, nos tempos; e que seria tão pronto para ser sanguinaz e cruel-perverso quanto o pai — e o que renega de Deus — da pele de Judas, de tão desumana e tremenda estirpe, de apavor?
Seus os-olhos, do Retrupé, ainda eram sãos: para espelhar inevitável ódio, para cumprir o dardejar, e para o prazer de escolher as vítimas mais fáceis, mais frescas. Só aí, se deu que, em algum comum dia, o Retrupé cegou, de ambos aqueles olhos. Souberam vocês como foi? Procuraram achar? Sabem, contudo, que há leites e pós, de plantas, venenos que ocultamente retiram, retomam a visão, de olhos que não devem ver. Só com isso, sem precisão de mais, e já o Retrupé parava, um ser quase inócuo, um renunciado. E vocês, bons moradores do lugar, ficavam defendidos, a cobro de suas infrenes celeradezas. Talvez, ele não precisasse de danado morrer como o Mumbungo, seu pai. Talvez, me pergunto, o próprio Mumbungo descarecesse de ser morto, se acaso, por ponto, alguém pensasse antes nessas ervas cegadoras, ou soubesse já então de sua aplicação e efeito. Se assim, pois, haver-se-ia agora a Mula-Marmela guiando a dois, pelas ruas, e deles com terrível dever-de-amor cuidando, como se fossem os filhos que ela queria, os que ela não pariu nem parirá, nunca — o dócil morto e o impedido cego. A pacto de tolher-lhes as ainda possíveis malícias, e dar-lhes, como em sua antiquíssima linguagem ela diz: gasalhado e emparo. Vocês, porém, fio que nem nunca lhe escutaram a voz — à surda.
Também o cego Retrupé se intimida dessa voz, rara tanto. Sabem o que é tão estúrdio? — que, mesmo um que não vê, sabe que precisa de apartar a cabeça: ele faz isso, para não encarar com a mulher odiosa. O cego Retrupé volta-se de frente para o ponto onde estão as sensatas, quietas pessoas, que ele odeia em si, pelo desprezamento de todos, na pacatez e concórdia. Ele precisava de matar, para a fundo se cumprir, desafogado e bem. Mas, não pode. Porque é cego, apenas. O cego Retrupé, sedicioso, então, insulta, brada espumas, ruge — nas gargantas do cão. Sabe que é de outra raça, que vem do ainda horroroso, informe; que ainda não entendeu a mansidão, pelo temor? Então, o cego Retrupé esbarra com o impoder da cegueira; agora, ele não pode alcançar ninguém, se a raiva mais o cega; pode? O cego Retrupé cochicha consigo — ele ofende o invisível. Para ele, graças à cegueira, este nosso mundo já é algum além. E se assim não fosse? Alguém seria capaz de querer ir pôr o açamo no cão em dana? E vocês ainda podem culpar esta mulher, a Marmela, julgá-la, achá-la vituperável? Deixem-na, se não a entendem, nem a ele. Cada qual com sua baixeza; cada um com sua altura.
Saibam ver como ela sabe dar descargo a si. Sim, ela é inobservável; vocês não poderiam. Mas, reparando com mais tento, veriam, pelo menos, como ela não é capaz de pegar estouvadamente em alguma coisa; nem deixa de curvar-se para apanhar um caco de vidro no chão da rua, e pô-lo de lado, por perigoso. Ela abaixa assaz os olhos. Pelo marido, seu morto; pode, porque o matou sem inúteis sofrimentos. Se não o matasse, ele se teria condenado ainda mais? Ela afasta do botequim o cego Retrupé, turbador, remisso e bulhento. Só este é o seu, deles, diálogo: um pigarro e um impropério. Ele a segue, caninamente. Vão-se; nunca nenhum de vocês os observou, a gente não consegue nem persegue os fios feixes dos fatos. Vivem em aterrador, em coisa de silêncio, tão juntos, de morar em esconderijos. A luz é para todos; as escuridões é que são apartadas e diversas.
Diziam que, em outro tempo, ao menos, entre eles teria havido alguma concubinagem. Cambonda? Vocês sabem que isso é falso; e como a gente gosta de aceitar essas simples, apaziguadoras suposições. Sabem que o cego Retrupé, canhim e discordioso, ela mesma o conduz, paciente, às mulheres, e espera-o cá fora, zela para que não o maltratem. Isto, porém, faz tempo. Hoje ele está envelhecido, virou em macilento, grisalho, as cãs assentam-lhe bem, quando o chapéu cai. Estes tempos, durante que deixamos de conhecê-los e averiguá-los. O cego Retrupé anda meio caído, amorviado, em escanifro e escanzelo. Parece que, ao mesmo passo, seu modo de medo da Mula-Marmela muda e aumenta. Fraqueia-lhe também a fúria alastradora e áspera de viver: não exerce com o mesmo entono puxar pelo seu direito — o feroz direito de pedir.
Parece que seu temor fazia-o murmurar queixumes, súplicas, à Mula-Marmela. E, no entanto, ela cada dia para com ele mais se abranda, apiedada de seu desvalor. Mas ele não crê, não pode saber, não confia dela, nem da gente. O entressentir-se, entre as pessoas, vem de regra com exageros, erro, e retardo. Ele sussurra disfarçada e impessoalmente seus pedidos de perdão; vocês notaram? A Mula-Marmela ouvia-o, sem parecer que. Fugia de olhá-lo. Sei, vocês não notaram, nada. E, mesmo, agora, vocês se sentem um pouco mais garantidos, tranquilos estamos. É de crer que, breve, estaremos livres do que não amamos, do que danadamente nos enoja, pasma.
Conta-se-me que ele quis matá-la. Em hora em que seu medo se derramou maior, saber-se-á lá por quê? Tido que já se estava maltreito, quando adoeceu, mal, de febre acesa. Sentara-se à beira da rua, para arquejar. De repente, levantou-se, sem bordão, estorvinhado, gritou, bramou: exaltado como um cão que é acordado de repente. Sacou o facão, tacava-o, avançava às doidas, às mesmo cegas, tentando golpeá-la, em seu desatinado furor. E ela, erguida onde estava, permaneceu, não se moveu, não se intimidava? Olhava na direção do não. Se ele acertasse, poderia em carnes trucidá-la. Mas, aos poucos, acreditou que o facão não a encontraria nunca, sentiu-se desamparado demais e sozinho. Temeu, de todo em pé. O facão lhe caiu da mão. Seu medo não tinha olhos para encher.
Parece que gemeu e chorou: — “Mãe... Mamãe... Minha mãe!”... — esganiçado implorava, quando retombou sentado no chão, cessada a furibundância; e tremia estremecidamente, feito os capins dos pastos. Estava já no fino do funil, é de crer que. A Mula-Marmela, ela veio, se chegou, sem dizer nem o sussurrar. Apanhou-lhe o chapéu, limpou-o, tornou-o a pôr na cabeça dele, e trouxe também o facão, recolocou-o em sua cintura, na velha bainha. Ele, com o se apequenar de sofrer e tremer, semelhava um bicho do fundo da floresta. Diz-se que ela teria lágrimas nos olhos; que falou, soturna de ternuras terríveis: — “Meu filho...” E olhou para uma banda, disse a alguma coisa mais, como se falando ao outro; soluçava, também, pelo Mumbungo, seu reconduzido marido, por sua parte, de seu ato. Disse, vocês não quererão saber, são em-diabas confusões, disso vocês não sabem. E, se, para quê? Se ninguém entende ninguém; e ninguém entenderá nada, jamais; esta é a prática verdade.
Sim, os dois, ficaram, até ao anoitecer, e pela noite entrada, naquela solidão próxima, numa beira de cerca. Alguém os acudiu? Diz-se que ele padecia uma dor terrivelmente, de demasiado castigo, e uma sufocação medonha de ar, conforme nem por uma esperança ainda nem não agoniava. Só estrebuchava. Não viram, na madrugada, quando ele lançou o último mau suspiro. Sim, mas o que vocês creem saber, isto, seriamente afirmam: que ela, a Mula-Marmela, no decorrer das trevas, foi quem esganou estranguladamente o pobre-diabo, que parou de se sofrer, pelos pescoços; no cujo, no corpo defunto, após, se viram marcas de suas unhas e dedos, craváveis. Só não a acusaram e prenderam, porque maior era o alívio de a ver partir, para nunca, daí que, silenciosa toda, como era sempre, no cemitério, acompanhou o cego Retrupé às consolações. Vocês, distantemente, ainda a odiavam?
E ela ia se indo, amargã, sem ter de se despedir de ninguém, tropeçante e cansada. Sem lhe oferecer ao menos qualquer espontânea esmola, vocês a viram partir: o que figurava a expedição do bode — seu expiar. Feia, furtiva, lupina, tão magra. Vocês, de seus decretantes corações, a expulsavam. Agora, não vão sair a procurar-lhe o corpo morto, para, contritos, enterrá-lo, em festa e pranto, em preito? Não será custoso achá-lo, por aí, caído, nem légua adiante. Ela ia para qualquer longe, ia longamente, ardente, a só e só, tinha finas pernas de andar, andar. É caso, o que agora direi. E, nunca se esqueçam, tomem na lembrança, narrem aos seus filhos, havidos ou vindouros, o que vocês viram com esses seus olhos terrivorosos, e não souberam impedir, nem compreender, nem agraciar. De como, quando ia a partir, ela avistou aquele um cachorro morto, abandonado e meio já podre, na ponta-da-rua, e pegou-o às costas, o foi levando —: se para livrar o logradouro e lugar de sua pestilência perigosa, se para piedade de dar-lhe cova em terra, se para com ele ter com quem ou quê se abraçar, na hora de sua grande morte solitária? Pensem, meditem nela, entanto.

Guimarães Rosa, in Primeiras estórias

A Arte retratista de Guignard

 

Os Noivos (1937), de Alberto da Veiga Guignard

A força insana da fé

Não se pode dizer que estamos carentes de fé. O simples fato de nossa vida é, por si só, inesgotável em seu valor de fé.”
Seria isso um valor de fé? Não é possível não-viver.”
Já nesse ‘não é possível’ reside a força insana da fé; é nessa negação que ela assume sua forma.”
Não é necessário que você saia de casa. Fique junto à sua mesa e escute. Nem mesmo escute, só espere. Nem mesmo espere, fique totalmente em silêncio e sozinho. O mundo irá oferecer-se a você para o próprio desmascaramento, não pode fazer outra coisa, extasiado ele irá contorcer-se a seus pés.

Franz Kafka, in Aforismos reunidos

A vida não é senão um relâmpago

Quem teria criado esse labirinto de incertezas, esse templo de presunção, essa jarra de pecados, esse campo semeado de mil ardis, essa porta do inferno, essa cesta transbordante de astúcias, esse veneno que parece mel, essa corrente que prende os mortais a terra: a mulher?
Eu copiava lentamente, silenciosamente, esse cântico budista, sentado no chão, perto do braseiro aceso. Estava encarniçado, amontoando exorcismo sobre exorcismo, a expulsar de meu espírito um corpo encharcado de água, balançando os quadris, que durante todas essas noites de inverno passava e repassava diante de mim no ar úmido. Não sei como, logo depois do desmoronamento da galeria, onde quase minha vida foi diminuída, a viúva havia surgido em meu sangue; ela tocava-me como um animal feroz, imperiosa, cheia de acusações.
Venha, venha! — gritava ela. — a vida não é senão um relâmpago. Venha depressa, venha, venha, antes que seja muito tarde!
Eu sabia bem que era Mara, o espírito do cão, sob a aparência de um corpo de mulher de quadris possantes. Eu lutava. Havia-me posto a escrever Buda, como os selvagens que, em suas grutas gravavam com uma pedra pontuda ou pintavam em vermelho e branco os animais ferozes que rondavam, esfomeados, em volta deles. Eles se esforçavam também ao gravá-los e pintá-los, em fixá-los na rocha; se não o tivessem feito, as feras se teriam precipitado sobre eles.
Desde o dia em que escapei de ser esmagado, a viúva passava no ar inflamado de minha solidão e me fazia sinais balançando voluptuosamente os flancos. De dia eu era forte, meu espírito estava alerta, eu conseguia afugentá-la. Escrevia sob que forma o tentador se apresentou a Buda, como ele se vestiu de mulher, como ele apoiou sobre os joelhos do asceta os seios duros, enfim, como Buda viu o perigo, proclamou a mobilização de todo o seu corpo e pôs em fuga o cão. Eu conseguia, também, fazê-lo afastar-se.
A cada frase que eu escrevia, ficava aliviado, tomava coragem, sentia o cão se retirar, afugentando pelo exorcismo todo poderoso, a palavra. Eu lutava, de dia, com todas as minhas forças, mas de noite, meu espírito depunha as armas, as portas interiores se abriam e a viúva entrava.
De manhã, acordava esgotado e vencido e a guerra recomeçava. Às vezes erguia a cabeça: era o fim da tarde; a luz, escorraçava, fugia, a obscuridade caía sobre mim bruscamente. Os dias se encurtavam, o Natal estava perto, eu me encarniçava na luta e me dizia: “Eu não estou só. Uma grande força, a luz, combate, ela também, ora vencida ora vitoriosa, não perde as esperanças. Eu luto e espero com ela!”.
Parecia-me, e isso me dava coragem, que lutando contra a viúva eu estava obedecendo a um grande ritmo universal. É esse corpo, pensava eu, que a matéria astuciosa escolheu para abater docemente e extinguir a chama livre que existia em mim. Eu me dizia: “divina é a força imortal que transforma a matéria em espírito.
Cada homem tem em si um fragmento desse turbilhão divino e é por isso que ele pode converter o pão, a água e a carne em pensamento e ação. Zorba tem razão: diz-me o que fazes do que comes e eu te direi quem és!”
Eu me esforçava então, dolorosamente, para transformar em Buda esse violento desejo da carne.
Em que pensa? Você não está com a cabeça aqui, patrão — me disse Zorba uma noite, na véspera do Natal, duvidando do demônio contra o qual eu me debatia.
Fingi não ouvir. Mas Zorba não abandonava tão facilmente a partida.
Você é jovem, patrão — disse ele.
E, subitamente, sua voz teve uma ressonância amarga e irritada:
Você é jovem, sólido, como bem, bebe bem, respira o ar do mar que lhe revigora, você armazena forças, e o que você faz? Dorme sozinho. É pena! Vá, agora, essa noite mesmo, não perca tempo, tudo é simples neste mundo, patrão. Quantas vezes terei que repetir? Não complique tudo!
Eu tinha todo aberto diante de mim o manuscrito sobre Buda e o folheava; ouvia as palavras de Zorba e sabia que elas abriam um caminho seguro. Com elas, estava também o espírito de Mara, o astucioso intermédio, que chamava.
Escutava sem dizer nada, resolvido a resistir folheando lentamente o manuscrito e assobiava para esconder minha preocupação. Mas, Zorba, vendo que eu permanecia silencioso, estourou:
Esta noite é a noite de Natal, meu velho, apresse-se, vá encontrá-la antes de ela ir para a igreja. É essa noite que Cristo vai nascer, patrão, faça o seu milagre também!
Eu me levantei aborrecido:
Chega, Zorba — disse eu. — cada um segue seu próprio caminho. O homem, fique sabendo, parece à árvore. Você alguma vez foi perguntar à figueira por que ela não dá cerejas? Então, cale-se! É quase meia-noite, vamos também à igreja ver nascer o Cristo.
Zorba enfiou na cabeça seu grosso capuz de inverno.
Está bem — disse ele, amolado. — vamos! Mas, faço questão de informá-lo de que o bom Deus ficaria mais contente se você fosse essa noite a casa da viúva, como o arcanjo Gabriel. Se o bom Deus tivesse seguido seu caminho, patrão, ele não teria nunca ido à casa de Maria e Cristo não teria nascido nunca. Se você me perguntar que caminho segue o bom Deus, eu diria: aquele que conduz a Maria.
Maria é a viúva.
Ele se calou e esperou em vão a resposta. Abriu a porta com força e saímos; com a ponta de seu bastão batia com impaciência nas pedras do caminho.
Sim, sim — repetia ele obstinado, — Maria é a viúva.
Vamos, a caminho! — disse eu, — não resmungue!
Andávamos com passadas largas na noite de inverno, o céu era de uma pureza extraordinária, as estrelas brilhavam, grandes, baixas, como bolas de fogo pregadas no ar. A noite rugia, à medida em que avançávamos pela beira da praia, como um animal negro estendido à beira do mar.
A partir dessa noite, dizia-me, a luz que o inverno acuou começava a levar vantagem. Como se ela nascesse essa noite com o menino-Deus.”
Todos os aldeões se haviam acumulado no alvéolo quente e perfumado da igreja. Na frente os homens; atrás, de mãos cruzadas, as mulheres. O padre Stefânio, grande, exasperado pelo seu jejum de quarenta dias, vestido com sua pesada casula de ouro, corria, de cá para lá, em grandes passadas, agitava o turíbulo, cantava aos gritos, apressado de ver nascer o Cristo e de voltar para casa a fim de atirar-se sobre a sopa gorda, os salsichões e as carnes defumadas...
Se se dissesse: “hoje nasce à luz”, isso não teria emocionado o coração do homem; a ideia não se teria transformado em lenda e não teria conquistado o mundo. Teria expressado apenas um fenômeno físico normal e não teria inflamado nossa imaginação, quero dizer, nossa alma. Mas, a luz que nasce no coração do inverno transformou-se em criança, a criança transformou-se em Deus, e eis que por vinte séculos nossa alma o guarda em seu seio e o acalenta...
Pouco depois da meia-noite, a cerimônia mística chegava ao fim. Cristo havia nascido. Os aldeões correram às suas casas, esfomeados, alegres, para as comilanças e para sentir no mais fundo de suas entranhas o mistério da encarnação. O ventre é a base sólida: pão, vinho e carne, antes de tudo; só com pão, vinho e carne se pode criar Deus.
As estrelas brilhavam, grande como anjos, por cima da cúpula toda branca da igreja. A Via-Láctea, igual a um rio, corria de um lado a outro do céu. Uma estrela verde cintilava sobre nos como uma esmeralda. Eu suspirava, emocionado.
Zorba virou-se para mim:
Você acredita nisso, patrão, que Deus virou homem e nasceu num estábulo? Você acredita ou não liga para o mundo?
Zorba, é difícil responder — disse eu. — Eu não posso dizer que creio nem que não creio. E você?
Palavra, eu também já não sei mais onde estou. Quando era criança, eu não acreditava nem um pouco nos contos de fadas que minha avó me contava, e, no entanto, eu tremia de emoção, eu ria, eu chorava, com se acreditasse. Quando apareceu barba em meu queixo, deixei de lado todas essas bobagens, e só fazia rir delas. Mas agora, na minha velhice, eu amoleci, patrão, e creio de novo... o homem é uma máquina engraçada!

Nikos Kazantzakis, in Zorba, o Grego

25/08/2021

Marisa Monte | Totalmente Seu

Obstáculos

Um obstáculo à sensação é um mal para a natureza animal. Há outra coisa que pode ser igualmente um obstáculo e um mal para a constituição vegetal. Assim, então, um obstáculo para a inteligência seria um mal para uma natureza inteligente. Então, transfere tudo isso para ti mesmo. Uma dor ou um prazer te afeta? A sensação cuidará disso. Surgiram obstáculos a teus impulsos? Se te deixas levar incondicionalmente pelo impulso, isso é um mal para ti na qualidade de ser racional; mas se sustentas a razão, então não haverá dano nem impedimento. Quanto ao que é próprio da razão, nada costuma ser obstáculo para ela senão ela mesma; nem o fogo, nem o ferro, nem o tirano, nem a blasfêmia, nem coisa alguma a atinge. Quando ela se torna uma esfera perfeita, permanece assim.

Marco Aurélio, in Meditações

Sinais da idade

Antes de começar a falar da idade, quero falar rapidamente da “pele”. Árvores e pele? Sim, vamos tratar do assunto da perspectiva humana. A pele é uma barreira que protege nosso interior do mundo exterior, retém líquidos, conserva os órgãos no corpo e expele e absorve gases e umidade. Além disso, bloqueia agentes patógenos que se disseminariam em nosso sistema circulatório. É sensível a toques, que podem ser agradáveis ou causar dor e, com isso, provocar uma reação defensiva. Ela não se mantém sempre firme, como na juventude, e com o passar do tempo essa complexa estrutura se torna cada vez mais flácida. Como resultado, surgem rugas e dobras, que “entregam” nossa idade aproximada.
Se olharmos com atenção, veremos que o necessário processo de renovação da pele não é nada prazeroso: por dia, cada pessoa perde cerca de 1,5 grama em escamas de pele. Em um ano, chega-se a mais de meio quilo. Mas a matemática pode ser ainda mais impressionante: por dia perdemos 10 bilhões de partículas de pele. Não parece um processo muito atraente, mas ele é necessário para manter nosso órgão superficial em boas condições. E na infância é essencial para o crescimento, do contrário nossa vestimenta natural acabaria rasgando.
No caso das árvores, o processo é semelhante; a diferença fundamental é apenas terminológica: a pele delas se chama casca, mas cumpre exatamente a mesma função que tem a pele humana: protege os órgãos internos do mundo exterior. Sem casca, a árvore ressecaria e poderia sofrer ataques de fungos, que na madeira úmida e saudável não têm chance alguma, mas podem destruir a madeira um pouco mais ressecada. Os insetos também precisam de níveis mais baixos de umidade, portanto não têm chance caso a casca esteja intacta. Percentualmente a árvore contém quase tanto líquido quanto o corpo humano, por isso não desperta o interesse de parasitas, que literalmente morreriam afogados. Ou seja: para a árvore, um buraco na casca é tão incômodo quanto um ferimento na nossa pele. Por isso ela se vale de mecanismos semelhantes aos nossos para curá-lo.
Por ano, um espécime repleto de seiva aumenta de 1,5 a 3 centímetros em diâmetro. Em tese isso bastaria para a casca se romper. Para evitar que isso aconteça, as árvores também renovam a pele perdendo uma enorme quantidade de escamas, que têm tamanho proporcional à estatura da árvore: medem até 20 centímetros. Se quiser vê-las, observe o chão ao pé de uma árvore depois de uma ventania e você encontrará esses restos (no caso dos pinheiros é fácil reconhecê-los por causa da casca avermelhada).
No entanto, nem toda árvore descasca da mesma forma. Algumas o fazem continuamente, enquanto outras perdem pouco material. Nesse caso, a casca dá sinais de como age cada espécime. Ela também serve para diferenciar as espécies. Em árvores jovens de qualquer espécie a cortiça é extremamente lisa. Quando elas envelhecem, as rugas começam a surgir de baixo para cima e se aprofundam com o passar do tempo. A velocidade do processo depende da espécie. Pinheiros, carvalhos, bétulas ou douglásias começam cedo, enquanto faias e abetos-brancos permanecem lisos por muito tempo. Tudo depende da velocidade de queda das escamas. No caso da faia, cuja casca acinzentada permanece lisa até os 200 anos, a taxa de renovação é muito alta. Por isso sua pele permanece fina, encaixa-se exatamente à idade (ou seja, seu diâmetro) e não precisa rachar para se expandir. O mesmo vale para o abeto-branco.
Por outro lado, pinheiros e outras coníferas demoram para renovar a pele, talvez porque essa couraça mais grossa aumente sua proteção. Demoram tanto a perder a casca que formam uma cortiça espessa, cujas camadas mais externas (as que foram criadas quando ela era jovem) permanecem por séculos. Com o tempo, o diâmetro do tronco aumenta e as camadas externas caem de fora para dentro, e só ao fim a árvore exibe seu verdadeiro diâmetro. Ou seja, quanto mais profundas as rugas, mais lenta é a espécie para realizar esse processo. Isso também vale para as faias, que, ao chegar à metade da vida, começam a mostrar fissuras na casca de baixo para cima. Como se quisesse exibir a ferida, a árvore começa a permitir a proliferação de musgo nas fendas, onde a água da chuva fica retida por mais tempo e proporciona a umidade necessária ao desenvolvimento do musgo. Dessa forma, para estimar a idade das matas de faias basta olhar para a cobertura verde nos troncos: quanto mais houver, mais antigas serão.
Árvores são indivíduos, e suas rugas variam. Muitos espécimes de uma mesma espécie apresentam essas marcas ainda jovens, enquanto outros demoram mais. Algumas faias da nossa reserva chegaram aos 100 anos com a cortiça já totalmente enrugada, o que só costuma acontecer aos 150. Nenhuma pesquisa determinou se isso só depende da genética ou se uma mudança drástica nas condições de vida exerce alguma influência. Mais uma vez as árvores exibem características humanas.
Os pinheiros da nossa floresta têm sulcos bastante profundos. Isso não pode ser resultante apenas da idade; eles têm idade estimada em 100 anos, ainda são jovens. Desde 1934, ano em que foi construída nossa cabana florestal, eles têm se desenvolvido bem. Parte das árvores do terreno foi derrubada para a construção da cabana, e desde então os pinheiros que restaram recebem mais luz. Mais luz, mais sol, mais raios ultravioleta (que envelhecem a pele humana e, ao que parece, a das árvores). Nesse sentido, é importante ressaltar que a cortiça do lado voltado para o sol é mais dura – portanto, menos flexível e mais propensa a descolamento.
No entanto, essas alterações também podem ser apenas “doenças de pele”. Assim como na puberdade a acne podem causar cicatrizes permanentes, um ataque de piolhos de casca de árvore pode marcar o tronco de forma definitiva. Em sua superfície surgem milhares de furinhos e pústulas que não desaparecem mais. Os espécimes mais adoentados também desenvolvem ferimentos purulentos, úmidos, dos quais escorre uma secreção preta e infestada de bactérias. Não é apenas no ser humanos que a pele é um espelho da alma (ou do bem-estar).
Árvores antigas podem realizar outra função especial para o ecossistema da floresta. No entanto, na Europa Central não existem mais florestas ancestrais – a idade da mata mais antiga está entre 200 e 300 anos. Até essas reservas se tornarem florestas ancestrais, precisaremos olhar para a costa ocidental do Canadá a fim de compreender o verdadeiro papel de árvores antigas. Lá, a Dra. Zoë Lindo, da Universidade McGill, em Montreal, pesquisou a Picea sitchensis, espécie de abeto, com idade mínima de 500 anos. Como resultado, encontrou grandes quantidades de musgo nos galhos e nas forquilhas dos espécimes idosos. O musgo havia sido colonizado por cianobactérias, que captavam nitrogênio do ar e o convertiam para que as árvores pudessem absorvê-lo. A chuva leva fertilizante natural pelo tronco até o solo e o põe à disposição das raízes. Dessa forma as árvores antigas fertilizam a floresta e, com isso, ajudam a prole a ter um começo de vida mais auspicioso. E, apesar do contato, a prole não acumula musgo, que cresce muito devagar e só se instala na árvore depois de décadas.
Além das rugas e do crescimento de musgo, outras alterações físicas mostram a idade das árvores. Por exemplo, na copa: dependendo da espécie, entre os 100 e os 300 anos os brotos começam a nascer mais curtos e em quantidade cada vez menor, e a copa acaba “careca”. Em árvores frondosas, a sobreposição desses brotos provoca o crescimento de galhos curvados como garras, que lembram mãos reumáticas.
No caso das coníferas, o tronco reto termina em brotos altos que desaparecem aos poucos. Enquanto o topo do abeto para de crescer, o do abeto-branco cresce em largura, como se um pássaro tivesse construído seu ninho ali. O pinheiro também cresce para o lado na parte superior do tronco, mas começa o processo mais cedo. Assim, quando idosas, a copa das coníferas é larga e sua ponta não é identificável.
De qualquer forma, em algum momento toda árvore para de crescer em altura. Suas raízes e seu sistema vascular não conseguem bombear água e nutrientes para cima, pois o esforço seria grande demais. Em vez disso, ela passa a engrossar cada vez mais (outro paralelo com seres humanos em idade avançada). No entanto, ela não é capaz de manter a altura por muito tempo, porque ao longo dos anos vai perdendo a força e, com isso, não consegue mais alimentar os galhos mais altos, que começam a morrer. Então, como os idosos humanos, as árvores vão perdendo altura. As tempestades levam os galhos mortos da copa e, depois dessa limpeza, por um período curto, a árvore volta a parecer nova. Esse processo se repete todo ano, diminuindo a copa de forma quase imperceptível. Quando todos os galhos superiores caem, restam os mais grossos. Eles também morrem, mas não caem com tanta facilidade. Nesse estágio, a árvore já não é mais capaz de esconder sua idade avançada nem sua decadência.
Nesse período, talvez até antes, sua casca volta a chamar atenção, pois seus ferimentos pequenos e úmidos se transformam em porta de entrada para fungos, que “comemoram” sua vitória produzindo frutos exuberantes em formato de semicírculo que se aderem ao tronco e crescem ano após ano. No interior da árvore, os fungos atravessam todas as barreiras e alcançam o núcleo da madeira. Ali, dependendo da espécie, devoram os compostos de açúcar depositados ou, pior, a celulose e a lignina. Com isso, decompõem o esqueleto da árvore, que, apesar disso, se defende bravamente durante muitas décadas. Nas laterais dos ferimentos cada vez maiores, ela forma madeira nova e cria protuberâncias, numa tentativa de proporcionar equilíbrio a esse ponto do tronco.
Por um tempo, isso ajuda a árvore em deterioração a aguentar as fortes tempestades de inverno. No entanto, chega o dia em que o tronco quebra e a árvore morre. “Finalmente”, parecem dizer as árvores jovens e esperançosas, que nos anos seguintes começarão a crescer ao lado do toco da árvore caída, que mesmo morta tem uma função na floresta, pois seu cadáver em putrefação ainda desempenhará um papel importante no ecossistema durante séculos.

Peter Wohlleben, in A vida secreta das árvores: O que elas sentem e como se comunicam

Quase Nada

 

O fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski — seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

Manoel de Barros

O café da manhã

A gente recendia um cheiro fresco quando entramos no terraço, onde sua bolsa a tiracolo estava ainda aberta sobre a mesa, e enquanto ela se sentava numa das cadeiras de vime eu fui abrindo as cortinas que estavam por abrir, e meio escondido atrás de uma das colunas amassei o nariz no vidro e pude ver, apesar da cerração, a dona Mariana agachada junto a um canteiro da horta lá embaixo, as mãos na terra, o regador ao lado, espreitando de espaço a espaço e discretamente na direção dos vidros altos do terraço, e foi então que saí pro patamar da escada e, prendendo as mãos na cerâmica da mureta, gritei seu nome pedindo por café, mas logo tornei a entrar no foco dos seus olhos, sua cabeça reclinada no encosto da almofada, a pele cor-de-rosa e apaziguada, um suspiro breve e denso como se dissesse “eu não tive o bastante, mas tive o suficiente” (que era o que ela me dizia sempre), e eu sem dizer nada me curvei sobre o tampo da mesa de sucupira, deslocando pr’um canto sua bolsa de couro e meus pesados cinzeiros de ferro, e foi nesse momento que a dona Mariana entrou com seu jeitão de mulata protestante, as manchas na pele parda e desbotada, os óculos de lentes grossas, nos cumprimentando como sempre encabulada, mas sem dar bola pro seu embaraço eu imediatamente encomendei “o café”, e ela sabia muito bem, pelo tom, que que eu queria dizer com isso, e sabia perfeitamente em que dias é que devia servi-lo assim completo (minha cama larga quase sempre escancarada), por isso ela tratou envergonhada de correr rápida pra cozinha, e eu ali no terraço corri os vidros do vão central, logo puxando uma cadeira e me sentando junto da abertura e, com os olhos pendurados na paisagem imprecisa que tinha em frente, comecei a pensar quase com cuidado no que poderia passar pela sua cabeça de purezas, e fui concluindo como sempre “bolas! pra sua confusão, dona Mariana, bolas! pra sua falta de entendimento, dona Mariana, sim, a mesma cama escancarada, mas bolas! pro que a senhora pensa” e eu ia mexendo nesses cascalhos aqui dentro (na verdade me exercitando na magia do exorcismo), e a minha caseira já tinha estendido na mesa a toalha xadrez, e em cima já estavam as louças, o pote de mel, a cumbuca com frutas, o cesto de pão e a manteigueira, e mais o canecão de barro com margaridas e melindros, e a dona Mariana, sempre sem nos olhar, já tinha voltado quem sabe mais tranquila pra cozinha, e no terraço a gente só ouvia o ruído alegre do alumínio das panelas, e eu estava achando muito bom que fosse tudo exatamente assim, quando ela me perguntou “que que você tem?”, mas eu, sentindo o cheiro poderoso do café que já vinha em grossas ondas do coador lá na cozinha, eu não disse nada, sequer lhe virei o rosto, continuei alisando o Bingo, meu vira-lata, e fui pensando que o primeiro cigarro da manhã, aquele que eu acenderia dali a pouco depois do café, era, sem a menor sombra de dúvida, uma das sete maravilhas.

Raduan Nassar, in Um copo de cólera

Espaço vazio

Quando a fonte do significado e da autoridade foi realocada do céu para os sentimentos humanos, toda a natureza do cosmo mudou. O universo exterior — até então enxameado de deuses, musas, fadas e demônios lendários — tornou-se um espaço vazio. O mundo interior — até então um enclave insignificante de paixões grosseiras — tornou-se profundo e rico além de qualquer medida. Anjos e demônios foram transformados de entidades reais que vagavam por florestas e desertos em forças interiores de nossa própria psique. Céu e inferno também deixaram de ser lugares reais acima das nuvens e abaixo dos vulcões e passaram a ser interpretados como estados mentais interiores. Você experimenta o inferno toda vez que incendeia os fogos da raiva e do ódio em seu coração e curte a felicidade celestial quando perdoa seus inimigos, se arrepende dos próprios malfeitos e partilha sua riqueza com os pobres.
Quando Nietzsche declarou que Deus estava morto, era isso que ele realmente estava pensando. Ao menos no Ocidente, Deus tornou-se uma ideia abstrata que alguns aceitam e outros rejeitam, o que faz pouca diferença. Na Idade Média, sem um deus eu não teria uma fonte de autoridade política, moral e estética. Não poderia dizer o que era correto, bom ou bonito. Quem poderia viver assim? Hoje, em contraste, é muito fácil não acreditar em Deus porque não tenho um preço a pagar por minha descrença. Posso ser um completo ateu e, ainda assim, extrair uma rica mistura de valores políticos, morais e estéticos de minha experiência interior.
Se eu acredito em Deus afinal, foi opção minha acreditar. Se meu eu interior me diz para acreditar em Deus — então eu acredito. Acredito porque sinto a presença de Deus, e meu coração me diz que Ele está presente. Mas, se não mais sentir a presença de Deus, e se meu coração subitamente me disser que Deus não existe — deixarei de acreditar. Seja como for, a fonte real de autoridade são os meus sentimentos. Assim, mesmo quando digo que acredito em Deus, a verdade é que tenho uma crença muito mais forte na minha voz interior.

Yuval Noah Harari, in Homo Deus: uma breve história do amanhã

24/08/2021

Jon Batiste | What A Wonderful World

Nietzschiana

Meu pai, ah que me esmaga a sensação do nada!
Já sei, minha filha... É atavismo.
E ela reluzia com as mil cintilações do Êxito intacto.

Manuel Bandeira, in Estrela da manhã

Questão de idade

Perdão, cavalheiro. O senhor não pode.
Não posso por quê? Tá aqui a entrada que eu comprei.
O filme é proibido para setenta e cinco anos, não viu na bilheteria?
Vi. Eu tenho setenta e seis.
Então me mostre a carteira de identidade, por gentileza.
A carteira de identidade está na minha cara.
Ah, é? Parece ter cinquenta e cinco, sessenta no mais tardar. Infelizmente não pode.
Este bom aspecto que o senhor achou em mim — aliás, eu lhe agradeço, viu? — é porque eu me cuido: ioga, meditação transcendental, cooper, macrobiótica.
Tá bom, mas sem documento não insista.
Espere aí, me deixe argumentar.
O gerente aproxima-se:
Que que há?
É esse jovem aí que quer entrar e não tem idade suficiente.
Jovem? O senhor me chamou de jovem? Agora está debochando de mim?
Não senhor. Se o cara não tem condição de ver o filme, eu chamo ele de jovem.
Cara! O chefe de seção aposentado de uma das mais importantes repartições federais, ser tratado de cara!
Meu amigo, calma. O rapaz está cumprindo com o dever. São ordens superiores. Compreenda a nossa posição. A frequência está baixando devido às últimas disposições sobre idade-limite. Já pensamos mesmo em transformar este estabelecimento em edifício-garagem.
E eu com isso?
Se o senhor entra, vem o fiscal e fecha o cinema por infração.
Melhor até. Facilita a mudança de ramo.
Não brinque com essas coisas. Colabore conosco. Inclusive a fila está aumentando, e o senhor bloqueou a entrada.
Se a fila aumenta, como é que diminui a frequência?
Este filme é dos raros, entende? Que ainda lotam a casa. Claro: proibido até setenta e cinco anos.
Por isso mesmo é que eu quero ver.
Mas se não atingiu a idade, se ainda não conquistou esse direito, como é que eu posso permitir essa… como direi, essa inconstitucionalidade? Seja razoável.
Seja razoável também. Sou uma pessoa respeitável, está para nascer quem tenha me visto mentir uma vez na vida. Completei setenta e seis anos em 15 de fevereiro, sou um homem de Aquário, e Aquário não é de embromar ninguém.
Acredito, mas e a carteira?
A carteira estava no carro, o carro saiu com meu neto, sei lá onde ele anda a esta hora.
A fila começa a impacientar-se. Pigarros. Tosses. Irritação sonora.
Entra ou sai logo!
Por que não deixam ele entrar? Será que veio nova portaria, proibindo até oitenta?
Aquele ali? Coitado, já passou da idade de frequentar cinema. Por isso é que foi barrado.
Só a gente criando uma associação de frequentadores de cinema, para garantir nossos direitos.
Garantir como? E quem garante a associação?
Esse velho está enchendo.
O gerente também.
Velho por quê? Quem é velho aqui? Eu não me considero velho. Velhice é estado de espírito.
Acaba com isso! Decide logo!
O gerente, nervoso:
Viu o que o senhor me arranjou? Essa turma de setenta e cinco, quando se chateia, é capaz de arrebentar o cinema. E eu não tenho nada com o peixe, eu cumpro determinações do alto, eu nem sequer posso entrar na sala de projeção, ainda não fiz quarenta! Nem eu nem o porteiro… Os vaga-lumes, um tem setenta e sete e o outro setenta e oito anos, por causa da proibição, o senhor sabia? Pelo amor de Deus, suma da minha presença!

Carlos Drummond de Andrade, in De notícias e não notícias faz-se a crônica