24/08/2021

Questão de idade

— Perdão, cavalheiro. O senhor não pode.
— Não posso por quê? Tá aqui a entrada que eu comprei.
— O filme é proibido para setenta e cinco anos, não viu na bilheteria?
— Vi. Eu tenho setenta e seis.
— Então me mostre a carteira de identidade, por gentileza.
— A carteira de identidade está na minha cara.
— Ah, é? Parece ter cinquenta e cinco, sessenta no mais tardar. Infelizmente não pode.
— Este bom aspecto que o senhor achou em mim — aliás, eu lhe agradeço, viu? — é porque eu me cuido: ioga, meditação transcendental, cooper, macrobiótica.
— Tá bom, mas sem documento não insista.
— Espere aí, me deixe argumentar.
O gerente aproxima-se:
— Que que há?
— É esse jovem aí que quer entrar e não tem idade suficiente.
— Jovem? O senhor me chamou de jovem? Agora está debochando de mim?
— Não senhor. Se o cara não tem condição de ver o filme, eu chamo ele de jovem.
— Cara! O chefe de seção aposentado de uma das mais importantes repartições federais, ser tratado de cara!
— Meu amigo, calma. O rapaz está cumprindo com o dever. São ordens superiores. Compreenda a nossa posição. A frequência está baixando devido às últimas disposições sobre idade-limite. Já pensamos mesmo em transformar este estabelecimento em edifício-garagem.
— E eu com isso?
— Se o senhor entra, vem o fiscal e fecha o cinema por infração.
— Melhor até. Facilita a mudança de ramo.
— Não brinque com essas coisas. Colabore conosco. Inclusive a fila está aumentando, e o senhor bloqueou a entrada.
— Se a fila aumenta, como é que diminui a frequência?
— Este filme é dos raros, entende? Que ainda lotam a casa. Claro: proibido até setenta e cinco anos.
— Por isso mesmo é que eu quero ver.
— Mas se não atingiu a idade, se ainda não conquistou esse direito, como é que eu posso permitir essa… como direi, essa inconstitucionalidade? Seja razoável.
— Seja razoável também. Sou uma pessoa respeitável, está para nascer quem tenha me visto mentir uma vez na vida. Completei setenta e seis anos em 15 de fevereiro, sou um homem de Aquário, e Aquário não é de embromar ninguém.
— Acredito, mas e a carteira?
— A carteira estava no carro, o carro saiu com meu neto, sei lá onde ele anda a esta hora.
A fila começa a impacientar-se. Pigarros. Tosses. Irritação sonora.
— Entra ou sai logo!
— Por que não deixam ele entrar? Será que veio nova portaria, proibindo até oitenta?
— Aquele ali? Coitado, já passou da idade de frequentar cinema. Por isso é que foi barrado.
— Só a gente criando uma associação de frequentadores de cinema, para garantir nossos direitos.
— Garantir como? E quem garante a associação?
— Esse velho está enchendo.
— O gerente também.
— Velho por quê? Quem é velho aqui? Eu não me considero velho. Velhice é estado de espírito.
— Acaba com isso! Decide logo!
O gerente, nervoso:
— Viu o que o senhor me arranjou? Essa turma de setenta e cinco, quando se chateia, é capaz de arrebentar o cinema. E eu não tenho nada com o peixe, eu cumpro determinações do alto, eu nem sequer posso entrar na sala de projeção, ainda não fiz quarenta! Nem eu nem o porteiro… Os vaga-lumes, um tem setenta e sete e o outro setenta e oito anos, por causa da proibição, o senhor sabia? Pelo amor de Deus, suma da minha presença!

Carlos Drummond de Andrade, in De notícias e não notícias faz-se a crônica

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