26/04/2019

Amor feinho

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.
Adélia Prado

03/11/91 - 00:48


Fiquei em casa em vez de ir ao hipódromo hoje. Estava com a garganta inflamada e uma dor no topo da cabeça, um pouco para o lado direito. Quando você chega aos 71 anos, nunca se pode adivinhar quando sua cabeça vai explodir através do para-brisa. Ainda vou atrás de uma boa bebedeira de vez em quando e fumo cigarros demais. O corpo fica puto da cara comigo quando faço isso, mas a mente também tem que ser alimentada. E o espírito. Beber alimenta minha mente e meu espírito. De qualquer forma, fiquei em casa, dormi até as 12:20.
Dia frouxo. Entrei na piscina de hidromassagem como um boa-vida. O sol estava brilhando e a água borbulhava e fazia redemoinhos, quente. Relaxei. Por que não? Dê um tempo. Tente se sentir melhor. O mundo inteiro é um saco de merda se rasgando. Não posso salvá-lo. Mas recebi muitas cartas de pessoas que disseram que meus livros salvaram suas vidas. Mas não escrevi para isso, escrevi para salvar a minha própria vida. Sempre estive por fora, nunca me adaptei. Descobri isso nos pátios das escolas. E outra coisa que aprendi foi que eu aprendia muito devagar. Os outros caras sabiam tudo; eu não sabia merda nenhuma. Tudo estava imerso numa luz branca e estonteante. Eu era um idiota. No entanto, mesmo quando eu era um idiota, sabia que não era um idiota completo. Eu tinha algum cantinho de mim que estava protegendo, havia alguma coisa lá. Não importa. Aqui estava eu na piscina e minha vida estava terminando. Não me importava, já tinha visto o circo. Ainda assim, sempre haverá mais coisas para escrever até que me atirem na escuridão ou seja o que for. Isto é que é legal sobre a palavra, permanece indo em frente, buscando coisas, formando frases, se divertindo. Eu estava cheio de palavras e elas ainda saíam em boa forma. Eu tinha sorte. Na piscina. Garganta ruim, dor de cabeça, eu tinha sorte. Velho escritor na piscina, meditando. Legal, legal. Mas o inferno está sempre lá, esperando para se abrir.
Meu velho gato amarelo veio e me olhou na água. Olhamos um para o outro. Sabíamos tudo e nada. Daí, foi embora.
O dia continuou. Linda e eu almoçamos em algum lugar, não lembro onde. A comida não estava muito boa, cheio de pessoas de sábado. Estavam vivas, mas não estavam vivas. Sentadas nas mesas e nos reservados, comendo e falando. Espere, Jesus, isso me lembra alguma coisa. Almocei aqui outro dia antes de ir ao hipódromo. Sentei no balcão, estava completamente vazio. Fiz meu pedido e estava comendo. Homem entrou e sentou no banco BEM AO MEU LADO. Havia outros 20 ou 25 bancos vazios. Ele sentou no que estava ao meu lado. Não gosto tanto assim de pessoas. Quanto mais longe estou delas, melhor eu me sinto. Fez o pedido e começou a falar com a garçonete. Sobre futebol americano profissional. Eu mesmo vejo às vezes, mas falar disso num café? Eles falaram sem parar, tagarelaram sobre isso e aquilo. Sem parar. Jogador predileto. Quem deveria ganhar etc. Daí, alguém de um reservado entrou na conversa. Acho que não teria me incomodado tanto se não estivesse roçando os cotovelos com aquele desgraçado ao meu lado. Um bom tipo, com certeza. Ele gostava de futebol. Seguro. Americano. Sentado ao meu lado. Esqueça. Então, sim, almoçamos, Linda e eu, voltamos e a tarde passou calma, e logo depois que escureceu a Linda reparou em alguma coisa. Ela era boa nesse tipo de coisa. Eu a vi voltando pelo pátio e ela disse: “O Velho Charlie caiu, os bombeiros estão lá”.
O Velho Charlie é o cara de 96 anos que mora na grande casa ao lado da nossa. A mulher morreu na semana passada. Estavam casados há 47 anos. Fui até a frente e lá estava o caminhão dos bombeiros. Havia um cara parado lá.
Sou vizinho do Charley. Ele está vivo?”
Está”, disse ele.
Era evidente que estavam esperando pela ambulância. O caminhão dos bombeiros tinha chegado antes. Linda e eu esperamos. A ambulância chegou. Foi estranho. Dois baixinhos saíram, pareciam muito pequenos. Ficaram lado a lado. Três caras do caminhão de bombeiros ficaram ao seu redor. Um deles começou a falar com os baixinhos. Ficaram ali e concordaram com a cabeça. Daí, aquilo acabou. Foram e pegaram a maca. Levaram-na pela longa escadaria até a casa.
Ficaram lá um tempão. Daí, saíram. O Velho Charley estava preso na maca. Quando estavam prontos para colocá-lo na ambulância, demos um passo à frente. “Aguenta firme, Charley”, eu disse. “Estaremos esperando por você quando voltar”, disse Linda.
Quem são vocês?”, Charley perguntou.
Somos seus vizinhos”, Linda respondeu.
Daí, foi colocado na ambulância e se foi. Um carro vermelho, com dois parentes, os seguiu.
Meu vizinho veio do outro lado da rua. Nos demos as mãos. Tomamos algumas bebedeiras juntos. Contei a ele sobre Charley. E estávamos todos chateados porque os parentes o deixavam muito tempo sozinho. Mas não havia muito que pudéssemos fazer.
Vocês têm que ver a minha cachoeira”, disse meu vizinho.
Tudo bem”, eu disse. “Vamos lá.”
Atravessamos a rua, passamos por sua mulher, pelos filhos, saímos pela porta dos fundos para o pátio, passando pela piscina e, com certeza, lá no fundo, havia uma ENORME cachoeira. Subia toda uma escarpa e parte da água parecia estar saindo de um tronco de árvore. Era imensa. E construída de pedras lindas e enormes de cores diferentes. A água rugia, inundada de luzes. Era difícil de acreditar. Havia um operário lá, ainda trabalhando na cachoeira. Havia mais coisas a serem feitas.
Apertei a mão do operário.
Ele leu todos os seus livros”, meu vizinho disse.
Tá brincando”, eu disse.
O operário sorriu para mim.
Então, voltamos para a casa. Meu vizinho me convidou: “Que tal um copo de vinho?”.
Disse para ele: “Não, obrigado”. Daí expliquei sobre a garganta inflamada e a dor no topo da minha cabeça.
Linda e eu atravessamos a rua e voltamos para casa.
E, basicamente, foi isso sobre o dia e a noite.
Charles Bukowski, in O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio

Chorinho para a amiga

Se fosses louca por mim, ah eu dava pantana, eu corria na praça, eu te chamava para ver o afogado. Se fosses louca por mim, eu nem sei, eu subia na pedra mais alto, altivo e parado, vendo o mundo pousado a meus pés. Oh, por que não me dizes, morena, que és louca varrida por mim? Eu te conto um segredo, te levo à boate, eu dou vodca pra você beber! Teu amor é tão grande, parece um luar, mas lhe falta a loucura do meu. Olhos doces os teus, com esse olhar de você, mas por que tão distante de mim? Lindos braços e um colo macio, mas porque tão ausentes dos meus? Ah, se fosses louca por mim, eu comprava pipoca, saía correndo, de repente me punha a cantar. Dançaria convosco, senhora, um bailado nervoso e sutil. Se fosses louca por mim, eu me batia em duelo sorrindo, caía a fundo num golpe mortal. Estudava contigo o mistério dos astros, a geometria dos pássaros, declamando poemas assim: "Se eu morresse amanhã... Se fosses louca por mim... ". Se você fosse louca por mim, ô maninha, a gente ia ao Mercado, ao nascer da manhã, ia ver o avião levantar. Tanta coisa eu fazia, ó delícia, se fosses louca por mim! Olha aqui, por exemplo, eu pegava e comprava um lindo peignoir pra você. Te tirava da fila, te abrigava em chinchila, dava até um gasô pra você. Diz por que, meu anjinho, por que tu não és louca-louca por mim? Ai, meu Deus, como é triste viver nesta dura incerteza cruel! Perco a fome, não vou ao cinema, só de achar que não és louca por mim. (E no entanto direi num aparte que até gostas bastante de mim...). Mas não sei, eu queria sentir teu olhar fulgurar contra o meu. Mas não sei, eu queria te ver uma escrava morena de mim. Vamos ser, meu amor, vamos ser um do outro de um modo total? Vamos nós, meu carinho, viver num barraco, e um luar, um coqueiro e um violão? Vamos brincar no Carnaval, hein, neguinha, vamos andar atrás do batalhão? Vamos, amor, fazer miséria, espetar uma conta no bar? Você quer quer eu provoque uma briga pra você torcer muito por mim? Vamos subir no elevador, hein, doçura, nós dois juntos subindo, que bom! Vamos entrar numa casa de pasto, beber pinga e cerveja e xingar? Vamos, neguinha, vamos na praia passear? Vamos ver o dirigível, que é o assombro nacional? Vamos, maninha, vamos, na rua do Tampico, onde o pai matou a filha, ô maninha, com a tampa do maçarico? Vamos maninha, vamos morar em jurujuba, andar de barco a vela, ô maninha, comer camarão graúdo? Vem cá, meu bem, vem cá, meu bem, vem cá, vem cá, vem cá, se não vens bem depressinha, meu bem, vou contar para o seu pai. Ah, minha flor, que linda, a embriaguez do amor, dá um frio pela espinha, prenda minha, e em seguida dá calor. És tão linda, menina, se te chamasses Marina, eu te levava no banho de mar. És tão doce, beleza, se te chamasses Teresa, eu teria certeza, meu bem. Mas não tenho certeza de nada, ó desgraça, ó ruína, ó Tupá! Tu sabias que em ti tem taiti, linda ilha do amor e do adeus? tem mandinga, tem mascate, pão-de-açúcar com café, tem chimborazo, kamtchaka, tabor, popocatepel? tem juras, tem jetaturas e até danúbios azuis, tem igapós, jamundás, içás, tapajós, purus! - tens, tens, tens, ah se tens! tens, tens tens, ah se tens! Meu amor, meu amor, meu amor, que carinho tão bom por você, quantos beijos alados fugindo, quanto sangue no meu coração! Ah, se fosses louca por mim, eu me estirava na areia, ficava mirando as estrelas. Se fosses louca por mim, eu saía correndo de súbito, entre o pasmo da turba inconsútil. Eu dizia: Woe is me! Eu dizia: helàs! pra você Tanta coisa eu diria que não há poesia de longe capaz de exprimir. Eu inventava linguagem, só falando bobagem, só fazia bobagem, meu bem. Ó fatal pentagrama, ó lomas valentinas, ó tetrarca, ó sevícia, ó letargo! Mas não há nada a fazer, meu destino é sofrer: e seria tão bom não sofrer. Porque toda a alegria tua e minha seria, se você fosse louca por mim Mas você não é louca por mim... Mas você não é louca por mim…
Vinicius de Moraes, in Prosa

25/04/2019

É - Gilberto Gil e Banda Refavela40

Psicologia de bisbilhoteiro

Não cultivar uma psicologia de bisbilhoteiro! Nunca observar só por observar! Isso provoca uma óptica falsa, uma perspectiva vesga, algo que resulta forçado e que exagera as coisas. O ter experiências, quando é um querer-ter-experiências, — não resulta bem. Na experiência não é lícito olhar para si mesmo, todo o olhar se converte então num “mau-olhado”.
Um psicólogo nato guarda-se, por instinto, de ver por ver; o mesmo se pode dizer do pintor nato. Este não trabalha jamais “segundo a natureza”, encomenda ao seu instinto, à sua câmara escura o crivar e exprimir o “caso”, a “natureza”, o “vivido”... Até à sua consciência chega só o universal, a conclusão, o resultado: não conhece esse arbitrário abstrair do caso individual. — Que é que resulta quando se procede de outro modo? Quando se cultiva, por exemplo, uma psicologia de bisbilhoteiro, à maneira dos romanciers parisienses, grandes e pequenos?
Essa gente anda, por assim dizê-lo, à espreita da realidade, essa gente leva para casa cada noite um punhado de curiosidades... Porém veja-se o que acaba por sair daí — um montão de borrões, um mosaico no melhor dos casos, e de qualquer forma algo que é o resultado da soma de várias coisas, algo turbulento, de cores berrantes. O pior aqui conseguem-no os Goncourt: não juntam três frases que não causem simplesmente dano à vista, à vista do psicólogo. — A natureza, avaliada artisticamente, não é um modelo. Ela exagera, deforma, deixa vazios. A natureza é o acaso. O estudo “segundo a natureza” parece-me um mau sinal: denuncia submissão, debilidade, fatalismo, — esse jazer-no-pó ante os petits faits é indigno de um artista inteiro. Ver o que é — isso é próprio de um gênero distinto de espíritos, dos antiartísticos, dos homens de fatos. Há que saber quem se é…
Friedrich Nietzsche, in Crepúsculo dos Ídolos

Cisão

Todos, enquanto vivendo, estão se separando, para muitos diferentes lugares.”
Guimarães Rosa, in Noites do sertão

Capítulo 91 - Uma Carta Extraordinária

Por esse tempo recebi uma carta extraordinária, acompanhada de um objeto não menos extraordinário. Eis o que a carta dizia:

Meu caro Brás Cubas,

Há tempos, no Passeio Público, tomei-lhe de empréstimo um relógio. Tenho a satisfação de restituir-lho com esta carta. A diferença é que não é o mesmo, porém outro, não digo superior, mas igual ao primeiro. Que voulez-vous, monseigneur - como dizia Figaro, - c'est la misère. Muitas coisas se deram depois do nosso encontro; irei contá-las pelo miúdo, se me não fechar a porta. Saiba que já não trago aquelas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau da escada de São Francisco; finalmente, almoço.
Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe um trabalho, fruto de longo estudo, um novo sistema de filosofia, que não só explica e descreve a origem e a consumação das coisas, como faz dar um grande passo adiante de Zenon e Sêneca, cujo estoicismo era um verdadeiro brinco ao pé da minha receita moral. E singularmente espantoso este meu sistema; retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, enche de imensa glória o nosso país. Chamo-lhe Humanitismo, de Humanitas princípio das coisas. Minha primeira ideia revela uma grande enfatuação; era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia menos. Verá, meu caro Brás Cubas, verá que é deveras um monumento; e se alguma coisa há que possa fazer-me esquecer as amarguras da vida, é o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a felicidade. Ei-las na minha mão, essas duas esquivas; após tantos séculos de lutas, pesquisas, descobertas, sistemas e quedas, ei-las nas mãos do homem. Até breve, meu caro Brás Cubas.
Saudades do Velho amigo

Joaquim Borba dos Santos.”

Li esta carta sem entendê-la. Vinha com ela uma boceta contendo um bonito relógio com as minhas iniciais gravadas, e esta frase: Lembrança do velho Quincas. Voltei à carta, reli-a com pausa, com atenção. A restituição do relógio excluía toda a ideia de burla; a lucidez, a serenidade, a convicção, - um pouco jactanciosa, é certo, - pareciam excluir a suspeita de insensatez. Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; há coisas que se não podem reaver integralmente; mas enfim a regeneração não era impossível.
Guardei a carta e o relógio, e esperei a filosofia.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

A Arte da sátira do cartunista austríaco Gerhard Haderer


Joãotónio, no enquanto

Por enquanto, sou Joãotónio. Lhe digo e desdigo, mano: com mulheres me ponho em modos de ser tropa. Pois todo o encontro com elas se me aparenta uma batalha. Assim, quando olho uma eu já adianto adivinhação: como será sua voz? Não me intriga a voz visível mas a outra, silenciosa, subcorpórea, capaz de tantas linguagens como a água. Outrodizendo: eu quero adivinhar é os gemidos delas, esse resvalar de asas na frente do abismo, o arrepio da alma perdendo morada.
Você sabe, mano: a voz da pessoa esconde o doce sabor do sussurro. A voz encobre o suspiro. E agora já ouço a sua pergunta: porquê esta mania de adivinhar suspiros? É a mesma vontade do general, mano. É o gosto de antecipar a rendição do adversário. É o desejo de antescutar como elas se podem requebrar, vencidas e abandonadas.
Às vezes, penso: no fundo, eu tenho medo de mulher. E você não tem? Tem, bem que eu sei. As ideias delas nascem num lugar que está fora do pensamento. Daí vem nosso medo: nós não deciframos o entendimento das mulheres. Suas superioridades nos medonham, mano. Por isso, as concebemos em tratos de batalha, versadas adversárias. Mas volto aos começos, veja você, já eu rangia como uma curva, derraspado em filosofices. Agora recomece também sua audição.
Ainda e por enquanto: sou Joãotónio. Lhe conto, agora, a ficção da minha tristeza. Não é para espalhar por aí. Confio-lhe, mano. Porque não é um qualquer que publica assim as suas dores. O que vou escrever é motivo das vergonhas.
Começo com Maria Zeitona, causadora de todos motivos. Escrevo o nome dessa mulher e ainda me sucede ouvir sua voz, suavezinha que nem asa. Já disse: voz de mulher vale tanto como a carne dela. Pelo menos, a mim me abre os apetites mais que as visões e as tentações.
Como não ia dizendo: Maria Zeitona me apareceu intacta e intacteável. Dela se soltava a suspeita da brasa sob a cinza. Seu corpo falava pelos olhos. E que olhos cristalindos! Casámos, instantâneos. Eu queria sofrer a promessa daquele fogo. Esposava para consumar aquelas ardências que tanto enxamearam meus sonhos. Contudo, meu mano: Maria Zeitona era fria, calafrígida! Eu fazia amores era como se fosse com uma defunta. O que eu com ela praticava eram relações assexuais. E assim ela se foi mantendo mais virgem que Maria. Tentei, retentei, usei as técnicas da minha total experiência. Contudo, mano: não valeu a pena. Zeitona era lenha molhada: o fogo lhe desvalia.
Girei as táticas, lhe ofereci valiosas surpresas. Experimentei os namoros muito prévios. Até lhe beijei desde a terminal dos pés. Não arrebitou resultado. Beijo não se dá nem se recebe. A vida é que beija, recíproca. Repito, mano: a vida é que nos beija, dois seres se resumindo num único infinito. Conversa afilhada? Está certo, mano, regresso ao cujo assunto de Maria Zeitona.
No final das campanhas, lhe dei um penúltimato: ou ela se açucarava ou eu tomaria as medidas inconvenientes. E foi o que não se sucedeu. Então, mano, me decidi: entregaria Zeitona a uma prostituta. Sim, Zeitoninha faria um estágio com uma dessas profissionais de roça e destroca. Assim ela aprenderia a enrodilhar lençóis. Enfim, ela cometeria o pecado imortal.
Não demorei a escolher a adequada mestra: seria Maria Mercante, a mais famosa bacanaleira, mulher bastante inata nas artes de deitar. Escura, retintadinha, dona de deliciosos recheios. Neste mundo há dois seres que se apoiam no rabo para subir na vida: o javali e Maria Mercante. Falei bem com a rabuda:
Por favor, lhe ensine as viragens de núpcias!
Se descanse, senhor. Corpo de mulher não basta ter qualidades: é preciso ter qualificações.
E a qualificada prostituta prosseguiu. Falou conversas deslocadas, quem sabe se para aumentar o preço das lições. Zeitona deixaria as virgindades mais arrependida que aquela, única que concebeu sem pecado. Pois, ela conhecia era a versão do exato: Virgem Maria tinha, afinal, recusado a visita do Espírito do Santo. Respondera nestes termos: ter filho sem fazer amor? Qual o gozo? Deitar fora o prato e ficar com o arroto? É essa a lição que vou dar a Zeitona: nada de platonismos: sexo à primeira vista.
Lhe interrompi, desviando a conversa dos anjos para minhas materiais aflições. Consoante pagamentos antecipados, Maria Mercante aceitou o serviço. Eu que ficasse repousado: minha esposa sairia do curso mais acesa que o pino do meio-dia. Que eu me haveria tanto de despentear com ela que até o colchão reclamaria urgentes remendos. E Zeitona lá foi para um lugar desses, de baixa seriedade. Vamos lá: um pronto-a-despir.
Passaram semanas, o curso terminado, minha esposa regressou a casa. Vinha, de facto, mudada. Seus modos eram demasiado estranhos mas não da maneira que eu esperava. Caramba, mano, até ponho vergonha nesta confissão: Zeitoninha vinha com jeitos de homem! Ela que era tão metida nos ombros dela agora parecia uma manda-bátegas. Isto é, isto foi: minha Zeitona se inchara de masculina. E não era só no momento dos namoros. Era sempre e em tudo. Na voz, inclusive. Tudo nela se emendara, mano, a pontos de eu ter que coçar as minhas machas partes para me confirmar. Digo mesmo: ela é que me empurrava a deitar, acredite, ela é que me desapertava, me ia roubando os ares. Eu ficava para ali sem nenhuma iniciativa, executado e mandado como se fosse rapariga iniciada. E a coisa continua até ao presente atual. O problema, mano, é o seguinte: eu até gosto! Me custa admitir, tanto que hesito em escrever. Mas a verdade é que me agrada esta nova condição, sendo-me dada a passiva idade, o lugar de baixo, a vergonha e o receio.
E é isto, mano. Me explique, caso lhe chegue o entendimento. Eu não sei qual pensamento hei-de escolher. Primeiro, ainda me justifiquei: afinal, a verdade tem versões que até são verdadeiras. Como, por um exemplo: nos amores sexuais não há macho nem fêmea. Os dois amantes se fundem num único e bipartido ser. Não haveria, portanto, razões para meu rebaixamento. Está-me a seguir, meu irmão?
Mas agora, no momento que lhe escrevo, nem mais me apetece explicação. Quero desraciocinar. Em cada dia não espero senão a noite, as brandas tempestades em que eu sou Joãotónio e Joanantónia, masculina e feminino, nos braços viris de minha esposa. Por enquanto, mano, ainda sou Joãotónio. Me vou despedindo, vagarinhoso, do meu verdadeiro nome.
Mia Couto, in Estórias abensonhadas

24/04/2019

Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.
Mário de Andrade

E vamos à luta - Gonzaguinha

Sem coração

Muitos não têm o coração dentro em si, senão fora de si e muito longe. Fora de si, porque não cuidam em si e muito longe de si, porque todos os seus cuidados andam só atentos e aplicados às coisas temporais e mundanas que amam.”
Padre Antônio Vieira, in Sermões

O homem que passou a amontoar sacos

Pela manhã, ele começou a amontoar os sacos de areia, diante de sua casa. Tinha levado anos na preparação deste momento. Começou estocando sacos vazios. Primeiro de farinha de trigo, depois de estopa. Finalmente se contentou com sacos de cimento e cal. Era preciso frequentar padarias, pedir, comprar, rondar construções, escolher, passar por armazéns, ficar amigo dos atacadistas de cereais, de arroz, de batata.
Tinha se tornado profundo conhecedor de sacos. O melhor tipo para açúcar refinado, a melhor malha para cebola e batata. Como devia ser a trama para o de arroz. Era preciso examinar bem, ver se não havia fios soltos, fios que se puxavam, remendos que podiam estourar.
Os sacos vazios de cal e cimento eram um problema. Os pedreiros não tinham cuidado ao abrir. Dilaceravam a boca, inutilizavam a embalagem inteira. Ele pensou em fazer um curso especial, para ensinar pedreiro a abrir saco, puxando-se o fio da boca, depois tirando a faixa de papel grosso. Desistiu ao ver que nenhum empreiteiro aprovou, nem ia permitir aos empregados perder quinze minutos diários com o curso.
A princípio, para guardar os sacos, utilizou um antigo quarto de empregada. Depois, um depósito de garrafas, jornais velhos, bujões de gás, móveis quebrados que ninguém nunca joga fora, vasos rachados, pratos desbeiçados, caixotes, arames, tapetes, livros sem capa, revistas, ferramentas, bocais de lâmpada, pedaços de fios de luz, roupas, sapatos. Amontoou tudo na calçada para o lixeiro. E viu os vizinhos ciscando e levando um chinelo só, uma pilha gasta, latas vazias, vidros de geleia.
O depósito lotou. E também o antigo quarto do filho. Um canto da cozinha. O próprio quarto. A sala de visitas. De jantar. A garagem. Vendeu o carro, os móveis, os quadros, conservou apenas o fogão, onde todos os dias fazia café, omelete e fritava bifes prontos de supermercado.
Quando a casa se encheu, ele alugou a do vizinho. Fez um puxado nos fundos. Um dia, verificou que tinha 82.354 sacos. Precisava ainda de 17.698. Descobriu que fabricavam sacos plásticos, resistentes. Mas era preciso comprar, os usados nunca eram bons. Arranjou horas extras, alugava-se aos sábados e domingos para qualquer tipo de trabalho. Era hábil com as mãos, sabia fazer coisas excelentes que agradavam as donas de casa. Homem sociável, oferecia-se aos domingos para distrair convidados de almoços, churrascos, feijoadas. Tinha a função de não deixar a conversa cair. Fornecia temas, contava piadas. Chegou a cantar durante uma festa de crianças.
Cuidava de bebês, contava histórias, levava as pessoas ao teatro, explicava as peças, escolhia presentes de aniversário, pintava casas, consertava rádio, televisão, colocava vidros, trocava lâmpadas, apontava lápis, regava jardins, formava hortas, comprava passagens, dava informações sobre horários de trens, ônibus, aviões, conhecia o leite bom, o aguado, sabia fazer coalhada, inventava jogos, pulava amarelinha, uma na mula, desenhava, construía aviões e barcos dobrando papéis. Fazia, com prazer, todas as coisas que detestava e que formavam o seu mundo.
Um dia, deu a tarefa por terminada. Naquela manhã, ao olhar-se no espelho, sentiu-se contente, rosto transformado. Viu, com alegria, que o brilho satisfeito dos olhos tinha desaparecido, que a boca era retorcida, como se sofresse uma grande dor. Descobriu rugas profundas e olheiras. Estava na hora.
Encheu o primeiro saco de areia. Colocou diante da casa. A tarefa agora tinha mudado. Precisava apenas de areia. Os próximos anos passou procurando areia, roubando de construções, buscando na praia. E quando terminou, tinha amontoado, em volta de sua casa, cem mil e cinquenta e dois sacos de areia.
Ignácio de Loyola Brandão, in Cadeiras proibidas

A Arte satírica de Gunduz Agayev


Honra e glória da pesca baleeira

Há certas empreitadas em que uma desordem cuidadosa é o método mais eficaz. Quanto mais mergulho neste assunto da pesca baleeira e faço avançar minha pesquisa até as suas mais remotas fontes, muito mais me impressiona a sua grande respeitabilidade e antiguidade; especialmente quando encontro tantos semideuses, heróis e profetas de todos os tipos, que, de um jeito ou de outro, lhe conferiram distinção, sou arrebatado pela ideia de que eu mesmo pertenço, embora como subalterno, a uma muito ilustre confraria.
O audaz Perseu, um dos filhos de Júpiter, foi o primeiro baleeiro; e, pela honra eterna da nossa profissão, seja dito que a primeira baleia atacada pela nossa irmandade não foi morta por nenhum motivo sórdido. Aqueles eram tempos cavalheirescos da nossa profissão, quando nos armávamos apenas para socorrer os necessitados, e não para abastecer as lamparinas dos homens. Todos conhecem a bela história de Perseu e Andrômeda; como a adorável Andrômeda, a filha de um rei, estava presa a um rochedo à beira-mar, e quando o Leviatã estava a ponto de levá-la embora Perseu, o príncipe dos baleeiros, avançou intrépido, arremessou o seu arpão contra o monstro, e salvou e se casou com a donzela. Foi uma proeza artística admirável, raras vezes realizada pelos melhores arpoadores dos dias de hoje; uma vez que o Leviatã foi morto ao primeiro arremesso. E que ninguém duvide deste conto arqueu, pois na antiga Jope, hoje Jafa, na costa da Síria, em um dos templos pagãos, por muitos séculos, viu-se o esqueleto imenso de uma baleia, que as lendas da cidade e todos os seus habitantes afirmavam ser os ossos do monstro que Perseu tinha matado. Quando os romanos tomaram Jope, o mesmo esqueleto foi levado para a Itália em triunfo. O que parece mais extraordinário, sugestivo e importante nesta história é o seguinte: foi a partir de Jope que Jonas se fez ao mar.
Semelhante à aventura de Perseu e Andrômeda – de fato, certas pessoas acreditam que indiretamente dela se origine – é a famosa história de São Jorge e o dragão; cujo dragão eu sustento que era uma baleia; pois em muitas crônicas antigas as baleias e os dragões se confundem de modo estranho, e amiúde se tomam uns pelos outros: “És como um leão das águas, e como o dragão do mar”, diz Ezequiel, querendo claramente dizer uma baleia; na verdade, algumas versões da Bíblia usam essa palavra. Além disso, seria uma diminuição da glória da sua proeza se São Jorge tivesse encontrado apenas um réptil terrestre rastejante, em vez de ter lutado contra um monstro das profundezas. Qualquer homem poderia ter matado uma serpente, mas somente um Perseu, um São Jorge, um Coffin teriam a valentia de enfrentar bravamente uma baleia.
Não deixemos que essas pinturas modernas nos enganem; pois ainda que a criatura encontrada pelo valoroso baleeiro de outrora esteja representada vagamente com a forma de um grifo, ainda que a batalha esteja pintada na terra e o santo a cavalo, se considerarmos a ignorância enorme daqueles tempos, quando a verdadeira forma da baleia não era conhecida pelos artistas; e se considerarmos que, como no caso de Perseu, a baleia de São Jorge deve ter saído do mar para a praia; e se considerarmos que o animal que São Jorge cavalgava poderia ser apenas uma foca enorme, ou um cavalo marinho; levando-se tudo isso em conta, não parecerá incompatível com a lenda sagrada, nem com os desenhos mais antigos da cena, interpretar que o assim chamado dragão não é outro senão o grande Leviatã. De fato, se colocada diante da verdade mais estrita e transparente, essa história se parece com a do ídolo dos filisteus, um peixe, bicho e ave, chamado Dagon, que ao ser colocado diante da arca de Israel, lhe caíram a cabeça de cavalo e as duas palmas das mãos, restando apenas o coto ou sua parte de peixe. Tal e qual, pois, um dos nossos nobres, mesmo sendo baleeiro, é o guardião tutelar da Inglaterra, e por legítimo direito, nós, arpoadores de Nantucket, deveríamos ser alistados na mui nobre Ordem de São Jorge. Por isso, os cavaleiros daquela venerável companhia (nenhum dos quais, ouso dizer, jamais teve de enfrentar uma baleia, como o seu grande patrono) nunca deveriam olhar com desdém para um nativo de Nantucket, visto que, mesmo nas nossas roupas de lã e nas calças de marinheiro, temos mais direito à insígnia de São Jorge do que eles.
Quanto a admitir Hércules entre nós ou não, isso por muito tempo me deixou na dúvida: pois, embora de acordo com a mitologia grega, esse antigo Crockett e Kit Carson, esse executor robusto de grandes feitos tenha sido engolido e expelido por uma baleia, é discutível se isso o torna um baleeiro. Em nenhum lugar está escrito que ele lançou um arpão contra o peixe, a não ser, de fato, que o haja feito de dentro. Não obstante, pode ser considerado um tipo de baleeiro involuntário; de qualquer modo, se ele não pegou, foi pego por uma baleia. Reivindico-o pois para o nosso clã.
Mas, segundo as melhores autoridades contraditórias, essa história grega de Hércules e a baleia é considerada uma derivação da história hebraica ainda mais antiga de Jonas e a baleia; e vice-versa; certamente são muito parecidas. Se reivindico o semideus, por que não o profeta?
Não são apenas os heróis, santos, semideuses e profetas os incluídos no rol da nossa ordem. Nosso grão-mestre ainda não foi nomeado; pois, como os monarcas de outrora, as origens da nossa irmandade remontam simplesmente aos próprios grandes deuses. A história oriental maravilhosa do Sutra deve ser contada, a que nos apresenta o terrível Vixnu, uma das três personalidades da divindade dos hindus; que nos apresenta esse divino Vixnu como o nosso Senhor - Vixnu, que na primeira das suas dez encarnações terrenas distinguiu e santificou a baleia para todo o sempre. Quando Brama, ou o deus dos deuses, segundo o Sutra, depois de uma das dissoluções periódicas, resolveu recriar o mundo, deu à luz Vixnu, para que presidisse a sua obra; mas os Vedas, ou livros místicos, cuja leitura atenta parecia indispensável a Vixnu antes de iniciar a criação, e que, portanto, deviam conter algo na forma de sugestão prática para jovens arquitetos, esses Vedas estavam no fundo do mar; então Vixnu encarnou numa baleia e mergulhou nas profundezas das águas para resgatar os volumes sagrados. Pois, então, não era esse Vixnu um baleeiro? Alguém que monta um cavalo não é chamado de cavaleiro?
Perseu, São Jorge, Hércules, Jonas e Vixnu! Eis um belo elenco! Que círculo, senão o dos baleeiros, poderia ter um começo desses?
Herman Melville, in Moby Dick

23/04/2019

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ter melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos.

A paz sem vencedor e sem vencidos.

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ter melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos.

A paz sem vencedor e sem vencidos.

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos.

A paz sem vencedor e sem vencidos.
 
Sophia de Mello Breyner Andresen

A procura da palavra no escuro

Sim, estou apaixonado por Macabéa a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiúra e anonimato total pois ela não é para ninguém. Apaixonado por seus pulmões frágeis, a magricela. Quisera eu tanto que ela abrisse a boca e dissesse:
Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém; todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha. Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra. E acontece que não tinha consciência de si e não reclamava nada, até pensava que era feliz. Não se tratava de uma idiota mas tinha a felicidade pura dos idiotas. E também não prestava atenção em si mesma: ela não sabia. (Vejo que tentei dar a Maca uma situação minha: eu preciso de algumas horas de solidão por dia senão “me muero”.)
Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho. Quando eu era pequeno pensava que de um momento para outro eu cairia para fora do mundo. Por que as nuvens não caem, já que tudo cai? É que a gravidade é menor que a força do ar que as levanta. Inteligente, não é? Sim, mas caem um dia em chuva. É a minha vingança.
Nada contou a Glória porque de um modo geral mentia: tinha vergonha da verdade. A mentira era tão mais decente. Achava que boa educação é saber mentir. Mentia também para si mesma em devaneio volátil na sua inveja da colega. Glória, por exemplo, era inventiva: Macabéa viu-a se despedir de Olímpico beijando a ponta dos próprios dedos e jogando o beijo no ar como se solta passarinho, o que Macabéa nunca pensaria em fazer.
(Esta história são apenas fatos não trabalhados de matéria-prima e que me atingem direto antes de eu pensar. Sei muita coisa que não posso dizer. Aliás pensar o quê?) Glória, talvez por remorso, disse-lhe:
Olímpico é meu mas na certa você arranja outro namorado: Eu digo que ele é meu porque foi o que a minha cartomante me disse e eu não quero desobedecer porque ela é médium e nunca erra. Por que você não paga uma consulta e pede pra ela te pôr as cartas?
É muito caro?
Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez me faz companhia. Se ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte. A procura da palavra no escuro. O pequeno sucesso me invade e me põe no olho da rua. Eu queria chafurdar no lodo, minha necessidade de baixeza eu mal controlo, a necessidade da orgia e do pior gozo absoluto. O pecado me atrai, o que é proibido me fascina. Quero ser porco e galinha e depois matá-los e beber-lhes o sangue. Penso no sexo de Macabéa, miúdo mas inesperadamente coberto de grossos e abundantes pêlos negros — seu sexo era a única marca veemente de sua existência. Ela nada pedia mas seu sexo exigia, como um nascido girassol num túmulo. Quanto a mim, estou cansado. Talvez da companhia de Macabéa, Glória, Olímpico. O médico me enjoou com sua cerveja. Tenho que interromper esta história por uns três dias.
Nestes últimos três dias, sozinho, sem personagens, despersonalizo-me e tiro-me de mim como quem tira uma roupa. Despersonalizo-me a ponto de adormecer.
Clarice Lispector, in A hora da estrela

Pedido de Casamento - Arnaldo Antunes (Acústico MTV)

Sonho

O sábio adormeceu debaixo de uma árvore e sonhou. Sonhou que era uma libélula que dormia num galho daquela árvore. A libélula que dormia, sonhava... Sonhava que era um sábio que dormia debaixo daquela árvore. O sábio com que a libélula sonhava, sonhava também. Sonhava que era uma libélula que dormia num galho daquela árvore... Desde esse dia, o sábio nunca chegou a uma conclusão. Tinha sempre a suspeita de que ele era o sonho de uma libélula. Assim, a qualquer momento, quando a libélula acordasse, descobriria que ele não era um sábio. Era o sonho de uma libélula... Seremos nós sonhos ou pesadelos dos deuses? Um dia os deuses acordam…
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

Um jogo de cartas por um velório

[…] Além das elucubrações sobre possíveis transferências e mudanças no departamento, resultantes da morte de Ivan Ilitch, a simples ideia da morte de um companheiro tão próximo fazia surgir naqueles que ouviram a notícia aquele tipo de sentimento de alívio ao pensar que “foi ele quem morreu e não eu”.
Agora era ele quem tinha de morrer. Comigo vai ser diferente – eu estou vivo”, pensava cada um deles, enquanto as pessoas mais próximas, os assim chamados amigos, lembravam que agora teriam de cumprir todos aqueles cansativos rituais que exigiam as normas de bom comportamento, assistindo ao funeral e fazendo uma visita de condolências para a viúva.
Fiodr Vassilyevich e Piotr Ivanovich tinham sido seus amigos mais próximos. Piotr Ivanovich fora seu colega na Escola de Direito e lhe devia obrigações.
Em casa, depois de contar para a esposa sobre a morte de Ivan Ilitch, e sua esperança de que talvez conseguisse a transferência de seu cunhado, Piotr Ivanovich abriu mão de sua sesta habitual, vestiu o casaco e saiu.
Do lado de fora da casa de Ivan Ilitch havia uma carruagem e dois trenós de aluguel. Encostado na parede do hall, ao lado do porta-chapéus, via-se a tampa de um caixão coberta por um manto em cujas franjas haviam acabado de borrifar um pó dourado. Havia duas mulheres de preto recolhendo os casacos, e uma delas, a irmã de Ivan Ilitch, Piotr Ivanovich já conhecia, mas a outra era-lhe totalmente estranha.
Seu colega Schwartz já estava descendo, mas ao ver Piotr Ivanovich parou no topo da escada e deu uma piscada, como quem diz: “Veja só que confusão foi arrumar nosso amigo Ivan Ilitch – tão diferente de nós!”.
O rosto de Schwartz, com aquelas costeletas, sua figura esguia naquele casaco, tinham como sempre, um ar elegante e solene que contrastava com sua natureza jovial, mas que nessa situação parecia a Piotr Ivanovich adquirir um tempero todo especial.
Piotr Ivanovich deixou que as duas mulheres passassem e as seguiu. Schwartz não fez menção de descer e Piotr Ivanovich sabia por quê: certamente queria combinar o local do whist naquela noite. As mulheres subiram para falar com a viúva, enquanto Schwartz, com os lábios cerrados, mas um olhar malicioso, indicava a Piotr Ivanovich o quarto à direita onde estava o corpo. Piotr Ivanovich entrou, em dúvida, como as pessoas sempre se sentem nessas ocasiões, quanto à melhor atitude a tomar ali dentro. A única coisa que lhe ocorria era que fazer o sinal-da-cruz nunca vinha mal nessas horas. Mas como não tinha certeza se era necessário curvar-se ou não, optou por um meio-termo: ao entrar no quarto, começou o sinal-da-cruz e fez um movimento que lembrava vagamente uma inclinação; ao mesmo tempo, tanto quanto o permitiram os movimentos de mão e de cabeça, deu uma checada no ambiente em volta. Dois rapazes, um deles estudante, que deviam ser sobrinhos, vinham saindo do quarto fazendo o sinal-da-cruz e ele aproveitou e fez o mesmo. Uma senhora de idade estava parada, enquanto uma outra com as sobrancelhas arqueadas cochichava-lhe alguma coisa. Um membro da igreja lia em voz alta, com sinceridade e determinação e uma expressão que não admitia discordâncias. Gerassim, o criado, caminhando com seu passo suave em frente a Piotr Ivanovich, espalhava alguma coisa pelo chão. Ao ver isso, Piotr Ivanovich sentiu imediatamente um cheiro de corpo em decomposição. Na sua última visita a Ivan Ilitch, Piotr Ivanovich vira Gerassim no quarto, fazendo as vezes de enfermeiro, e percebia-se que Ivan Ilitch gostava muito dele.
Piotr Ivanovich continuou fazendo o sinal-da-cruz e inclinando a cabeça numa direção intermediária entre o caixão, o orador e as imagens sobre a mesa do canto. Em seguida, quando achava que o sinal da cruz já havia durado tempo suficiente, parava e punha-se a olhar para o defunto.
O morto jazia, como os mortos sempre jazem, pesadamente, seus membros endurecidos afundados dentro do caixão, a cabeça recostada eternamente no travesseiro, sua testa de cera amarelada, com sulcos acima das têmporas afundadas, sobressaía-se, como acontece nos mortos, e o nariz proeminente parecia pressionar fortemente o lábio superior. Estava bastante diferente e ainda mais magro do que da última vez que o vira, mas, como sempre acontece com os mortos, o rosto estava mais bonito e principalmente mais expressivo do que quando vivo. A expressão do rosto parecia dizer que tudo o que podia ter sido feito fora feito e da melhor maneira possível. Havia também reprovação nessa expressão e uma espécie de advertência para os vivos, advertência esta que parecia completamente sem propósito para Piotr Ivanovich, ou, pelo menos, não ser dirigida a ele. Teve uma sensação desagradável e, mais do que depressa, fez outro sinal-da-cruz e, ainda que lhe parecesse depressa demais e incompatível com a ocasião, virou as costas e saiu. Schwartz o esperava de pé no corredor, com as pernas afastadas e as duas mãos mexendo no chapéu às suas costas. A simples visão daquela figura leve e jovial reanimou Piotr Ivanovich. Sentia que Schwartz estava acima desse tipo de acontecimento, que jamais se deixaria dominar por qualquer ambiente depressivo. Seu olhar dizia que o mero incidente de um velório para Ivan Ilitch não poderia, em hipótese alguma, constituir motivo suficiente para interromper o curso natural das coisas – em outras palavras, nada poderia interferir no desembrulhar e cortar de um novo pacote de cartas naquela mesma noite. Na verdade, não havia razão alguma para supor que este simples contratempo os impediria de passar uma noite tão agradável quanto as outras.
Absolutamente – cochichou Schwartz para Piotr Ivanovich que passava, propondo que se encontrassem para um joguinho na casa de Fiodr Vassilyevich.
Mas pelo jeito não era o destino de Piotr Ivanovich jogar naquela noite. Praskovya Fiodorovna, uma mulher de estatura baixa, gorda, que apesar de todos os esforços em contrário continuara a alargar resolutamente dos ombros para baixo, toda de preto, com um véu cobrindo-lhe a cabeça, as sobrancelhas tão arqueadas quanto as da mulher ao lado do caixão, saiu do seu quarto com outras senhoras e, conduzindo-as até a porta do quarto onde estava o morto, falou: “A cerimônia já vai começar. Entrem, por favor”.
Schwartz, inclinando-se levemente, lembrou de onde estava, sem obviamente aceitar ou declinar do convite. Praskovya, reconhecendo Piotr Ivanovich, suspirou, aproximou-se dele, pegou sua mão e falou: “Eu sei o quanto vocês eram amigos...!” e fixou-o esperando uma resposta adequada ao que acabava de dizer. Piotr Ivanovich sabia que, assim como minutos antes, naquela mesma sala, adequado era se benzer, agora fazia-se necessário apertar a mão da viúva, suspirar e dizer: “Sim, é verdade!”. E foi o que fez, sentindo que alcançava o resultado esperado: ambos estavam comovidos.
Venha – disse a viúva. – Eles ainda não começaram. Preciso falar com você. Me dê o braço.
Piotr Ivanovich ofereceu-lhe seu braço e saíram em direção a um apartamento interno passando por Schwartz, que piscou solidário. “Tudo acertado para o nosso jogo. Não reclame se arrumarmos outro parceiro. Talvez você possa se juntar a nós quando conseguir escapar!,” dizia seu olhar provocador.
Leon Tolstoi, in A Morte de Ivan Ilitch