25/03/2012

Um ano de Rapadura Cult na Rede

O Rapadura Cult completa hoje o seu primeiro ano, divulgando a Arte e a Cultura em suas diversas formas: conto, crônica, poema, romance, filosofia, teatro, cinema, fotografia, artes plásticas, tiras de humor, charge...
Obrigado a todos pelos acessos, especialmente aos 101 seguidores deste blog.

A Felicidade, de Tom Jobim



Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
e tudo se acabar na quarta feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Prá que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor


Tristeza não tem fim
Felicidade sim.

Quase Nada 147

Quase Nada 147 
Tira de Fábio Moon e Gabriel Bá, in 10paezinhos.com.br

Vinicius de Moraes em Manchete


 

Trechos da Entrevista a Odacir Nunes, publicada na Revista Manchete, em 18 de setembro de 1965.

Odacir: Você se considera um homem triste ou alegre?
Vinicius: Sou um homem triste, com grande vocação para a alegria. Aliás, como pode ser alguém alegre com tanta miséria à volta?

Odacir: Reza algumas vezes?
Vinicius: Sempre. Um homem como eu, que está sempre apaixonado, vive em prece.

Odacir: Faz músicas por quê? Para esquecer?
Vinicius: Ao contrário, para lembrar. Lembrar a mim mesmo e aos outros.

O corpo, o espírito, a liberdade

“De fato, o corpo precisa de muitas coisas para estar bem; o espírito, ao contrário, cresce por si mesmo, se alimenta e se exercita sozinho. Os atletas precisam de muita comida, muita bebida, muito óleo, enfim, de muito exercício. Tu podes ter a virtude sem nenhum aparato nem despesa. O que quer que te faça virtuoso já está contigo.
De que precisas para tornar-te bom? Apenas de vontade! O que, pois, tu mais deves querer do que se libertares desta servidão que oprime a todos, que até os escravos, que estão em condições extremas, nascidos na sordidez, desejam de todo o modo se libertar? Gastam todo seu dinheiro, mesmo tendo que passar fome, para obter a liberdade; e tu, que pensas ter nascido livre, não desejas ter a todo custo a liberdade?
Por que olhas para o cofre? A liberdade não pode ser comprada. Assim, é inútil colocar o nome de liberdade em documentos: não pode ser comprada nem vendida. Esse bem deve dar a ti mesmo, peça-o para ti. Primeiro, livra-te do medo da morte, pois ela nos impõe o seu jugo, e, depois, deves perder o medo da pobreza.”
Sêneca

A fotografia "costurada" de Seung Hoon Park

O fotógrafo sul-coreano Seung Hoon Park criou a série "textus", na qual utiliza um processo de sobreposição de tiras de filme. Confira:



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Fonte: www.obviousmag.org

Tudo, nesta vida, é muito cantável.

“Essas desordenadas da vida da gente: tudo o que estoura manso e guampa quieto, e que só tem a razoável explicação para quem está mesmo longe dos motivos. Ao meio do meio duma coisa eu tinha certeza: que Diadorim não ia me mentir. O amor só mente para dizer maior verdade. Diadorim me compensava; por força. Mas, para mandar à minha Otacília assim aquela embaixada, era porque ele soubesse, no zelo de seu coração, que então Otacília me tinha amor. E tanto igual sabia também de mim? Naqueles dias, era. Abrandei minha lembrança em Otacília, que sincera me aguardasse, em sua casa, em seu meigo estar. Agora eu ia indo às avessas de lá, de Santa Catarina, mas, de arribada, minha intenção de saudade vinha voltando. Tudo, nesta vida, é muito cantável.”
Fala de Riobaldo, in Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa

A solidão

“Raramente um homem sozinho sente vontade de rir. Incomoda-me estar só. Gostaria de falar com alguém sobre o que está me acontecendo, antes que seja tarde demais, antes que eu comece a assustar os garotinhos. Nunca como hoje tive o sentimento tão forte de ser alguém sem dimensões secretas, limitado a meu corpo, aos pensamentos superficiais que sobem dele como bolhas. Construo minhas lembranças com meu presente. Sou repelido para o presente, abandonado nele. Tento em vão ir ter com o passado: não posso fugir de mim mesmo. Para que o mais banal dos acontecimentos se torne uma aventura, basta que nos ponhamos a narrá-lo. Quando se vive, nada acontece. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem, eis tudo. Nunca há começo. Os dias se sucedem aos dias, sem rima, nem solução: é uma soma monótona e interminável. De quando em quando, chega-se a um total parcial, dizendo: faz três anos que viajo, três anos que estou em Bouville. Também não há fim: nunca deixamos uma mulher, um amigo, uma cidade, de uma só vez. E todos os lugares se parecem: Xangai, Moscou, Argel, ao fim de uma quinzena é tudo igual. Por alguns momentos - raramente - avaliamos a situação, percebemos que nos envolvemos com uma mulher, que nos metemos numa confusão. Por um átimo. Depois disso o desfile recomeça, voltamos a fazer as contas das horas e dos dias. Segunda, terça, quarta. Abril, maio, junho. 1924, 1925, 1926...”
Sartre, in A Náusea

24/03/2012

Se qualquer coisa pode ser obra de arte, todos podem ser artistas?

 
Porco - Nelson Leirner – 1967 

“Nos tempos em que vivemos, sabemos que tudo pode ser obra de arte. Ou melhor, tudo pode ser transformado em obra de arte por um artista. Não há nenhuma possibilidade de o espectador distinguir entre uma obra de arte e uma ‘simples coisa’ com base só na experiência visual. Ele deve primeiro conhecer um determinado objeto que será usado por um artista no contexto de sua prática artística, a fim de identificá-lo como obra de arte ou parte de uma obra de arte. Mas quem é esse artista, e como se pode distingui-lo de um não artista – se é que essa distinção é mesmo possível? Para mim, essa parece ser uma questão bem mais interessante que a de como distinguir entre uma obra de arte e uma ‘simples coisa’.”
Trecho de O Universalismo Fraco, ensaio do filósofo alemão Boris Groys, in www.substantivoplural.com.br

Charge, de Samuca (Diário de Pernambuco)

 

Tiê: Sangue novo na MPB



"O homem verdadeiramente livre apenas quer o que pode e faz o que lhe agrada."
Jean Jacques Rousseau

Vida abaixo da superfície*










*Projeto do fotógrafo Andreas Franke. Veja mais: http://www.staudinger-franke.at/vandenberg/view/galery.php

Explicação de um poema


Uma noite — eu tinha dezessete anos — Otávio de Faria e eu fomos tocando a pé da Galeria Cruzeiro até a Gávea, onde ficava minha casa, na rua Lopes Quintas. Não era infrequente fazermos isso, à base da conversa. Era um hábito da amizade entre o calouro e o veterano da Faculdade de Direito do Catete, aquele passeio noturno povoado das sombras de Nietzsche e da pantomima de Chaplin. Lembro-me que à meia-noite, bem alto, na estrada de Órion, brilhava uma lua como nunca vi mais cheia, a cabeleira solta, os seios nus, o olhar de louca a me varar o peito de súplicas e doestos.
Era tal o mistério dessa noite que agora mesmo, escrevendo na minha sala noturna, sinto os cabelos se me içarem de leve, como se fosse sentir novamente sobre eles a mão macia da lua cheia.
Deixei Otávio de Faria no seu bonde de volta e subi Lopes Quintas, rumo a casa. O sossego era perfeito, total o sono do mundo. Só, às vezes, subitamente, dos espaços descia um braço de vento que varria as folhas secas da rua e empinava papéis velhos como hipocampos. Transpus, ansiado,
a distância familiar que me levava para alguma coisa que sentia vir mas não sabia o que era. Em casa, galguei rápido as escadas para o meu quarto no primeiro andar, e fui sentar-me ofegante à escrivaninha antiga, a mesma que tenho hoje, a mesma que suportou na infância o peso da minha ambição de ser poeta. A janela estava aberta, e em sua moldura a lua viera se postar, os olhos cravados em mim.
Não sei como foi, mas sei que foi diferente de tudo o que sentira antes. Meus ouvidos, como conchas, pareciam recolher os ruídos mais longínquos do mar que estilhaçava em mim. Ouvi o sopro da noite, o cair das folhas, o germinar das plantas que buliam fora, na mata próxima ao Corcovado, e ali perto, no jardim. Pombas vazaram do meu coração, deixando--me dentro, a se debater, a grande ave inimiga que me feria com suas asas querendo sair também, fugir, voar para longe. Senti-me sem peso, sem dimensão, sem matéria. Meu ser volatilizou-se para a lua, transformado ele próprio em substância lunar. E comecei a escrever como nunca dantes, liberto de métrica e rima, algo que era eu mas que era também diferente de mim; algo que eu tinha e de que não participava, como um fogo-fátuo a crepitar da minha carne em agonia.
Linha por linha, como psicografado, o poema — o meu primeiro poema — começou a brotar de mim.
O ar está cheio de murmúrios misteriosos...

Vinicius de Moraes, trecho de O Aprendiz de Poesia, in Para uma Menina com uma Flor

Místico, de Vinícius de Moraes*

O ar está cheio de murmúrios misteriosos 
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização… 
Tudo está cheio de ruídos sonolentos 
Que vêm do céu, que vêm do chão 
E que esmagam o infinito do meu desespero. 

Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre 
Eu sinto a luz desesperadamente 
Bater no fosco da bruma que a suspende. 
As grandes nuvens brancas e paradas - 
Suspensas e paradas 
Como aves solícitas de luz - 
Ritmam interiormente o movimento da luz: 
Dão ao lago do céu 
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo. 

No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto 
Há todo um amor à divindade. 
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto 
Há todo um amor ao mundo. 
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto 
Há toda uma compreensão. 

Almas que povoais o caminho de luz 
Que, longas, passeais nas noites lindas 
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz 
O que buscais, almas irmãs da minha? 
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa 
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase? 
Vedes alguma coisa 
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão? 
Sentis alguma coisa 
Que eu não sinta talvez? 
Por que as vossas mãos de nuvem e névoa 
Se espalmam na suprema adoração? 
É o castigo, talvez? 

Eu já de há muito tempo vos espio 
Na vossa estranha caminhada. 
Como quisera estar entre o vosso cortejo 
Para viver entre vós a minha vida humana... 
Talvez, unido a vós, solto por entre vós 
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem... 

Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas 
Porque eu também estou acorrentado 
E nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio. 
Eu estou acorrentado à noite murmurosa 
E não me libertais... 
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade. 
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco. 

Eu sei que ela já tem o seu lugar 
Bem junto ao trono da divindade 
Para a verdadeira adoração. 

Tem o lugar dos escolhidos 
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.


*Vinicius considera este o seu primeiro poema, aos 17 anos (já demonstrando o talento precoce)! Veja a postagem acima Explicação de um poema (Elilson Batista).

Sobre nossa função social

“A maior parte de nossos ofícios são farsas. É preciso representar devidamente nosso papel, mas como papel de um personagem emprestado. Da máscara e da aparência não é preciso fazer uma essência real, nem do estranho o próprio. Não sabemos distinguir a pele da camisa. É bastante enfarinhar o rosto, sem enfarinhar o peito. Vejo os que se transformam e se transubstanciam em tantas novas figuras e novos seres quantos cargos que assumem e que se enfarpelam até o fígado e os intestinos e arrastam seu oficio até seu guarda-roupa. Não posso ensiná-los a distinguir as barretadas que dizem respeito a eles e eles das que visam sua comissão ou séquito, ou sua mula. Inflam e engrandecem sua alma e seu discurso magistral à altura de sua cátedra magistral. O Prefeito e Montaigne sempre foram dois, com uma separação bem clara. Para ser advogado ou financista, não é de se desconhecer a patifaria que há em tais ofícios. Um homem honesto não é contador do vício ou insensatez de sua profissão, e não deve, contudo, recusar seu exercício; é o uso de seu país e há vantagem. É preciso viver do mundo e prevalecer-se dele, tal como o encontramos. Mas o juízo de um Imperador deve estar acima de seu império, e vê-lo considerá-lo como acidente estrangeiro; e deve saber gozar de si à parte e comunicar-se como Jacques e Pierre, ao menos a si mesmo”.
Montaigne, in Ensaios (Livro III)

23/03/2012

Retinas, com Maciel Melo


Um dia se eu mergulhasse
E num mergulho penetrasse
Através dessas retinas
Através dessas meninas
Dos teus olhos colibris
Tão flutuantes fluentes
Tão cantantes tão contentes
Meninas tão... meninas tão bem...
Meninas tão bem-te-vis
Desataria da garganta
Esse travor de fogo e sol
E cantaria o rouxinol
Decantaria juritis
Galo de campina
Sabiá, xexéu, rolinha
Grava tua voz na minha
Canta o fogo se apagou
Que no Sertão do meu penar
Brotaram mágoas
Que o meu pranto hoje deságua
Na cacimba que secou.

Composição: Virgílio Siqueira e Maciel Melo

Charge, de Alecrim (Charge Online)

 

"Pouca ou nenhuma vez se realiza com a ambição coisa que não prejudique terceiros."
Miguel de Cervantes

Tributo a Raul Seixas: imperdível, hoje, no Cafezal

Matéria digitalizada pelo blogueiro do caderno Comida, Diversão & Arte, do Jornal de fato