07/12/2017

Come, meu filho

Google Imagens

- O mundo parece chato mas eu sei que não é. Sabe por que parece chato? Porque, sempre que a gente olha, o céu está em cima, nunca está embaixo, nunca está de lado. Eu sei que o mundo é redondo porque disseram, mas só ia parecer redondo se a gente olhasse e às vezes o céu estivesse lá embaixo. Eu sei que é redondo, mas para mim é chato, mas Ronaldo só sabe que o mundo é redondo, para ele não parece chato.
-...
- Porque eu estive em muitos países e vi que nos Estados Unidos o céu também é em cima, por isso o mundo parecia todo reto para mim. Mas Ronaldo nunca saiu do Brasil e pode pensar que só aqui é que o céu é lá em cima, que nos outros lugares não é chato, que só é chato no Brasil, que nos outros lugares que ele não viu vai arredondando. Quando dizem para ele, é só acreditar, pra ele nada precisa parecer. Você prefere prato fundo ou prato chato, mamãe?
- Chat... raso, quer dizer.
- Eu também. No fundo, parece que cabe mais, mas é só para o fundo, no chato cabe para os lados e a gente vê logo tudo o que tem. Pepino não parece inreal?
- Irreal.
- Por que você acha? - Se diz assim.
- Não, por que é que você também achou que pepino parece inreal? Eu também. A gente olha e vê um pouco do outro lado, é cheio de desenho bem igual, é frio na boca, faz barulho de um pouco de vidro quando se mastiga. Você não acha que pepino parece inventado?
- Parece.
- Onde foi inventado feijão com arroz?
- Aqui.
- Ou no árabe, igual que Pedrinho disse de outra coisa?
- Aqui.
- Na Sorveteria Gatão o sorvete é bom porque tem gosto igual da cor. Para você carne tem gosto de carne?
- Às vezes.
- Duvido! Só quero ver: da carne pendurada no açougue?!
- Não.
- E nem da carne que a gente fala. Não tem gosto de quando você diz que carne tem vitamina.
- Não fala tanto, come.
- Mas você está olhando desse jeito para mim, mas não é para eu comer, é porque você está gostando muito de mim, adivinhei ou errei?
- Adivinhou. Come, Paulinho.
- Você só pensa nisso. Eu falei muito para você não pensar só em comida, mas você vai e não esquece.
Clarice Lispector, in Felicidade clandestina

06/12/2017

Um barco cheio de vozes

Cinco mil dólares em notas grandes.
Félix Ventura rasgou o envelope num gesto rápido, nervoso, e as notas saltaram, como borboletas verdes, adejaram um momento no ar nocturno, e espalharam-se depois pelo soalho, sobre os livros, sob as cadeiras e os sofás. O albino ficou aflito. Ainda abriu a porta, disposto a perseguir o estrangeiro, mas na noite imensa, inerte, não havia ninguém.
Viste isto?!. – Falava comigo. – E agora, o que faço?
Recolheu as notas uma a uma, contou-as, e voltou a guardá-las. Só então reparou que havia um bilhete dentro do envelope. Leu-o alto:
Caro senhor, tenciono entregar-lhe mais cinco mil dólares quando receber todo o material. Deixo-lhe algumas fotografias minhas, do tipo passe, para utilizar nos documentos. Volto a passar por aqui dentro de três semanas.”
Félix deitou-se e tentou ler um livro – a biografia de Bruce Chatwin, de Nicholas Shakespeare, na edição portuguesa da Quetzal. Ao fim de dez minutos poisou-o na mesa de cabeceira e levantou-se. Girou pela casa até ao alvorecer murmurando frases soltas. As mãozinhas de viúva, ternas e minúsculas, volteavam à toa, autônomas, enquanto ele falava. A carapinha, cortada rente, irradiava em redor uma aura miraculosa. Se alguém o visse da rua, através das janelas, haveria de pensar que era uma assombração.
Não, que disparate! Não o farei.”
(...)
O passaporte não seria difícil, nem sequer arriscado, e ficaria barato. Posso fazê-lo, por que não?, um dia teria de o fazer, é o prolongamento inevitável deste jogo.”
(...)
Cuidado meu camba, cuidado com os caminhos que escolhes. Não és um falsário. Tem paciência, inventa uma desculpa, devolve-lhe os dólares e diz-lhe que não pode ser.”
(...)
Dez mil dólares não se deitam fora. Passo dois ou três meses em Nova Iorque. Vou visitar os alfarrabistas de Lisboa. Vou ao Rio, às rodas de samba, vou às gafieiras, aos sebos, ou a Paris comprar discos e livros. Há quanto tempo não vou a Paris?”
(...)
A inquietação de Félix Ventura perturbou a minha atividade cinegética. Sou um caçador noturno. Localizadas as presas persigo-as, forçando-as a subir até ao tecto. Uma vez lá em cima os mosquitos já não descem. Corro então à volta deles, em círculos cada vez mais fechados, encurralo-os num canto, e devoro-os. Já vinha nascendo a madrugada quando o albino, atirado para um dos sofás da sala, me contou a história da sua vida.
Costumo pensar nesta casa como sendo um barco. Um velho navio a vapor cortando a custo a lama pesada de um rio. A floresta imensa. A noite em volta. – Félix disse isto e baixou a voz. Apontou num gesto vago os vagos livros: – Está cheio de vozes, o meu barco.
Podia ouvir a noite a deslizar lá fora. Latidos. Garras arranhando os vidros. Olhando pelas janelas não me era difícil adivinhar o rio, as estrelas girando no seu dorso, aves esquivas escapando entre as ramagens. O mulato Fausto Bendito Ventura, alfarrabista, filho e neto de alfarrabistas, encontrou numa manhã de domingo um caixote à porta de casa. Lá dentro, estendido sobre vários exemplares d’ A Relíquia de Eça de Queirós, estava uma criaturinha nua, muito magra e deslavada, com um cabelo de espuma incandescente, e um límpido sorriso de triunfo. Viúvo, sem filhos, o alfarrabista recolheu o menino, criou-o e educou-o, seguro de que um desígnio superior armara a improvável trama. Guardou o caixote, bem como os respectivos livros. O albino falou-me disto com orgulho:
Eça foi o meu primeiro berço.


Fausto Bendito Ventura fez-se alfarrabista por distração. Orgulhava-se de nunca ter trabalhado na vida. Saia de manhã cedo a passear pela baixa, malembe-malembe, muito aprumado no seu fato de linho, chapéu de palha, laço e bengala, cumprimentando amigos e conhecidos com um leve toque do dedo indicador na aba do chapéu. Se acaso se cruzava com alguma senhora do seu tempo dedicava-lhe a luz de um sorriso galante. Soprava: bom-dia, poesia. Atirava piropos apimentados às empregadas dos bares. Conta-se (contou-me Félix) que um dia um invejoso o provocou:
Afinal, o que faz o senhor nos dias úteis?
A réplica de Fausto Bendito, todos os meus dias são inúteis, cavalheiro, eu os passeio, ainda hoje desperta palmas e gargalhadas entre o magro círculo de antigos funcionários coloniais que, nas tardes exânimes da gloriosa Cervejaria Biker, persistem em iludir a morte, jogando cartas e contando casos. Fausto almoçava em casa, dormia a sesta, e depois sentava-se à varanda, a fruir a fresca brisa da tarde. Naquela época, antes da independência, ainda não havia o muro alto, a separar o jardim do passeio, e o portão estava sempre aberto. Aos clientes bastava galgar um lance de escadas para ter livre acesso aos livros, pilhas e pilhas deles, dispostos ao acaso no forte soalho do salão.



Partilho com Félix Ventura um amor (no meu caso sem esperança) pelas palavras antigas. A Félix Ventura quem o educou neste sentimento foi, primeiro, o pai, Fausto Bendito, e a seguir um velho professor, dos primeiros anos do liceu, sujeito de modos melancólicos, alto, e de tal forma delgado que parecia caminhar sempre de perfil, como uma gravura egípcia. Gaspar, assim se chamava o professor, comovia-se com o desamparo de certos vocábulos. Dava com eles abandonados à sua sorte, nalgum lugar ermo da língua, e procurava resgatá-los. Usava-os com ostentação e persistência, o que consternava uns e desconcertava outros. Creio que triunfou. Os seus alunos começaram por utilizar esses vocábulos, primeiro por troça, e a seguir como uma gíria íntima, uma tatuagem tribal, que os fazia distintos da restante juventude. Hoje, assegurou-me Félix, são ainda capazes de se reconhecerem uns aos outros, mesmo quando nunca se viram antes, às primeiras palavras.
Ainda tremo de cada vez que ouço alguém dizer edredom, um galicismo hediondo, em vez de frouxel, que a mim me parece, e estou certo que você concordará, palavra muito bela e muito nobre. Mas já me conformei com sutiã. Estrofião tem uma outra dignidade histórica. Soa, todavia, um pouco estranho – não concorda?
José Eduardo Agualusa, in O vendedor de passados

Um copo de felicidade

A felicidade é o cheio de um copo de se beber meio-por-meio.”
Guimarães Rosa, in Dão-Lalalão (O Devente)

O santo que não acreditava em Deus (trecho final)

[…] E então tivemos um belo dia, porque depois da apresentação parece que Quinca já tinha tomado algumas e fomos comer um sarapatel, tudo na maior camaradagem, porque estava se vendo que Quinca tinha gostado de Deus e Deus tinha gostado dele, de maneira que ficaram logo muitíssimo amigos e foi uma conversa animada que até às vezes eu ficava meio de fora, eles tinham muita coisa a palestrar. Nisso tome sarapatel até as três e todo mundo já de barriga altamente estufada, quando que Quinca me resolve tomar uma saideira com Deus e essa saideira é nada mais nada menos do que na casa de Adalberta, a qual tem mulheres putas. Nessa hora, minha obrigação, porque estou vendo que Deus está muito distraído e possa ser que não esteja acostumado com essas aguardentes de Santo Amaro que ele tomou mais de uma vintena, é alertar. Chamei assim Deus para o canto da barraca enquanto Quinca urinava e disse olhe, você é novo por aqui, pelo menos só conhecíamos de missa, de maneira que essa Adalberta, não sei se você sabe, é cafetina, não deve ficar bem, não tenho nada com isso, mas não custa um amigo avisar. Ora, rapaz, você tem medo de mulher, disse Deus, que estava mais do que felicíssimo e, se não fosse Deus, eu até achava que era um pouco do efeito da bebida. Mas, se é ele que fala assim, não sou eu que fala assado, vá ver que temos lá alguma rapariga chamada Madalena, resolvi seguir e não perguntar mais nada.
Pois tomaram mais e fizeram muito grande sucesso com as mulheres e era uma risadaria, uma coisa mesmo desproporcionada, havendo mesmo um serviço de molho pardo depois das seis, que a fome apertou de novo, e bastantes músicas. Cada refrão que Quinca mandava, cada refrão Deus repicava, estava uma farra lindíssima, porém sem maldade, e Deus sabia mais sambas de roda que qualquer pessoa, leu mãos, recitou, contou passagens, imitou passarinho com perfeição, tirou versos, ficou logo estimadíssimo. Eu, que estava de reboque bebendo de graça e já tinha aprendido que era melhor ficar calado, pude ver com o rabo do olho que ele estava fazendo uns milagres disfarçados, a mim ele não engana. As mulheres todas parece que melhoraram de beleza, o ambiente ficou de uma grande leveza, a cerveja parecia que tinha saído do congelador porém sem empedrar e, certeza eu tenho mas não posso provar, pelo menos umas duas blenorragias ele deve de ter curado, só pelo olhar de simpatia que ele dava. E tivemos assim belas trocas de palavras e já era mais do que onze quando Quinca convidou Deus para ver as mulas e foram vendo mulas que parecia que Deus, antes de fazer o mundo, tinha sido tropeiro. E só essa tropica e essa não tropica, essa empaca e essa não empaca, essa tem a andadura rija, essa pisa pesado, essa está velha, um congresso de muleiros, essa é que é a verdade.
É assim que vemos a injustiça, porque, a estas alturas, eu já estou sabendo que Deus veio chamar Quinca para santo e que dava um trabalho mais do que lascado, só o que ele teve de estudar sobre mulas e decorar de sambas de roda deve ter sido uma esfrega. Mas eu já estava esperando que, de uma hora para outra, Deus desse o recado para esse Quinca das Mulas. Como de fato, numa hora que a conversa parou e Quinca estava só estalando a língua da cachaça e olhando para o espaço, Deus, como quem não quer nada, puxou a prosa de que era Deus e tal e coisa.
Ah, para quê? Para Quinca dizer que não acreditava em Deus. E para Deus, no começo com muita paciência, dizer que era Deus mesmo e que provava. Fez uns dois milagres só de efeito, mas Quinca disse que era truques e que, acima de tudo, o homem era homem e, se precisasse de milagre, não era homem. Deus, por uma questão de honestidade, embora o coração pedisse contra nessa hora, concordou. Então ande logo por cima da água e não me abuse, disse Quinca. E eu só preocupado com a falta de paciência de Deus, porque, se ele se aborrecesse, eu queria pelo menos estar em Valença, não aqui nesta hora. Mas ele só patati-patatá, que porque ser santo era ótimo, que tinha sacrifícios mas também tinha recompensas, que deixasse daquela besteira de Deus não existir, só faltou prometer dez por cento. Mas Quinca negaceava e a coisa foi ficando preta e os dois foram andando para fora, num particular e, de repente, se desentenderam. Eu, que fiquei sentado longe, só ouvia os gritos, meio dispersados pelo vento.
Você tem que ser santo, seu desgraçado! — gritava Deus. — Faz-se de besta! — dizia Quinca.
E só quebrando portada, pelo barulho, e eu achando que, se Deus não ganhasse na conversa, pelo menos ganhava na portada, eu já conhecia. Mas não era coisa fácil. De volta de meia-noite e meia até umas quatro, só se ouvia aquele cacete: deixe de ser burro, infeliz! cale essa boca, mentiroso! E por aí ia. Eu só sei que, umas cinco horas mais ou menos, com Gerdásia do mercado trazendo um mingau do que ela ia vender na praça e fazendo a caridade de dar um pouco para mim e para Deus, por sinal que ele toma mingau como se fosse acabar amanhã e não tivesse mais tempo, os dois resolveram apertar a mão, porém não resolveram mais nada: nem Deus desistia de chamar Quinca para o cargo de santo, nem Quinca queria aceitar esse cargo. — Muito bem — disse Deus, depois de uma porção de vezes que todo mundo dizia que já ia, mas enganchava num resto de conversa e regressava. — Eu volto aqui outra vez.
Voltar, pode voltar, terá comida e bebida — disse Quinca. — Mas não vai me convencer!
Rapaz, deixe de ser que nem suas mulas!
Posso ser mula, mas não tenho cara de jegue!
E aí mais pau, mas, quando o dia já estava moço, aí por umas seis ou sete horas da manhã, estamos Deus e eu navegando de volta para Itaparica, nenhum dos dois falando nada, ele porque fracassou na missão e eu porque não gosto de ver um amigo derrotado. Mas, na hora que nós vamos passando pelas encostas do Forte, quase nos esquecendo da vida pela beleza, ele me olhou com grande simpatia e disse: fracasso nada, rapaz. Não falei nada, disse eu. Mas sentiu, disse ele. Se incomode não, disse ele, nem toda pesca rende peixes. E então ficou azul, esvoaçou, subiu nos ares e desapareceu no céu.
João Ubaldo Ribeiro, in Os cem melhores contos brasileiros do século

O Impressionismo de Monet

Mulher com sombrinha virada para a esquerda (1886), de Claude Monet

Suspense

Depois que o orador oficial deu conta do seu discurso, há um momento de atroz suspense. É quando o presidente da mesa, como quem não quer nada, ergue-se e diz, sadicamente: Se alguém mais quiser fazer uso da palavra…
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

05/12/2017

Citação

O poeta Kin disse:
Como escrever obras imortais, se não sou conhecido?
Como responder, se não me fazem perguntas?
Por que perdem tempo com versos, se o tempo os perde?
Escrevo minhas proposições numa língua durável
Pois temo passe muito tempo antes que se executem.
Para alcançar o grandioso são necessárias grandes transformações.
Pequenas transformações são inimigas de grandes transformações.
Tenho inimigos. Logo, devo ser conhecido.
Bertolt Brecht (tradução de Haroldo de Campos)

Sentido de Destino Pessoal

Todos nós sofremos de uma avidez infinita. As nossas vidas são-nos preciosas, estamos sempre alerta contra os desperdícios. Ou talvez fosse melhor chamar a isso Sentido de Destino Pessoal. Sim. Creio que é melhor do que avidez. Deverá a minha vida perder um milésimo de polegada da sua plenitude? É uma coisa diferente avaliar-se a si próprio ou vangloriar-se loucamente. E há então os nossos planos, os nossos ideais. Também eles são perigosos. Podem consumir-nos como parasitas, comer-nos, sorver-nos e deixar-nos exangues e prostrados. E no entanto estamos constantemente a convidar os parasitas, como se estivéssemos ansiosos por sermos sorvidos e comidos. Isto porque nos ensinaram que não há limites para o que um homem pode ser.
Há seiscentos anos um homem era o que o seu nascimento demarcava para ele. Satanás e a Igreja, representante de Deus, lutavam por ele. Ele, pela sua escolha, decidia em parte qual seria o resultado. Mas quer fosse, depois da morte, para o céu ou para o inferno, o seu lugar entre os vivos estava marcado. Não podia ser contestado. Desde então o palco foi novamente arranjado e os seres humanos apenas passeiam nele e, sob este novo ponto de vista, temos uma história à qual responder. Éramos outrora suficientemente importantes para que as nossas almas fossem objeto de luta. Agora cada qual é responsável pela sua própria salvação, que está na sua grandeza. E isso, essa grandeza, é a rocha sobre a qual se fere o nosso coração. Rodeiam-nos grandes inteligências, grandes belezas, grandes amantes e criminosos. Da grande tristeza e desespero dos Werthers e dos Don Juans passamos para as grandes figuras dominantes dos Napoleões; desses passamos para os assassinos que tinham que tinham esse direito sobre as vítimas; aos homens que se sentiam privilegiados por se aproximarem dos outros com um chicote; aos rapazes das escolas e aos funcionários que rugem como leões enfurecidos; a esses proxenetas e outras criaturas dos bas-fond oradores nas cafeterias noturnas que acreditavam que poderiam ser grandes na traição e que poderiam torcer o pescoço daqueles que sentiam ser puros e bons com o laço da sua morbidez; aos sonhos de sombras lindíssimas que se abraçavam num ecrã impecável. Odiamo-nos terrivelmente e punimo-nos por causa destas coisas. O medo de ficar para trás persegue-nos e enlouquece-nos. O medo está em nós como uma nuvem. Forma um clima interior de escuridão. E há ocasionalmente uma tempestade, e ódio, e chuva que fere, a brotar de nós.
Saul Bellow, in Na corda bamba

Um Café Lá em Casa com Oswaldo Amorim e Nelson Faria

Com o tempo

Certo dia, quando recolhia espécimes por baixo de um carvalho, encontrei, entre as outras plantas e ervas daninhas, e do mesmo tamanho que elas, uma planta de cor escura com folhas contraídas e um caule direito e rígido. Quando ia tocar-lhe, disse-me com voz firme: “Deixa-me em paz! Não sou uma erva para o teu herbário, como as outras a quem a natureza deu apenas um ano de vida. A minha vida mede-se em séculos. Sou um pequeno carvalho.”
Assim é aquele cuja influência se fará sentir ao longo dos séculos, quando criança, quando jovem, muitas vezes já quando homem, uma criatura viva aparentemente igual às restantes e tão insignificante como elas. Mas basta que lhe deem tempo e, com o tempo, pessoas que saibam reconhecê-lo. Não morrerá como os restantes.
Arthur Schopenhauer, in Aforismos

Notícias sobre o fim do livro


I
Sobre o fim do livro e da era Gutenberg, tenho duas breves histórias para contar.
A primeira é um sonho, ou um pesadelo: um chip armazena a biblioteca do universo, uma biblioteca cujo acervo seria renovado por um piscar de olhos, um esgar ou grunhido, quem sabe um soluço. Esse chip seria implantado no ombro, na perna ou no órgão mais vital do corpo: o coração do leitor. Bilhões de palavras no coração: há algo mais poético? Mais sublime?
Um chip implantado no cérebro seria robótico demais, além de ser uma cena comum de ficção científica, algo bem menos estranho que uma serpente de fogo numa montanha de gelo.
Com esse chip cravado no corpo, o leitor não teria necessidade de olhar para uma tela: a página escrita apareceria no ar, como se fosse uma holografia. Textos soltos no espaço, sem qualquer suporte. A mais fina e diminuta tela será um objeto anacrônico.
Meu sonho (ou pesadelo) parou por aí.

II
A outra história é coisa do passado.
No amanhecer de um dia de 1979, conheci um piauiense que migrara para São Paulo na década de 1960. Ele era dono de uma pequena pastelaria na antiga rodoviária, onde eu comia pastel às cinco da manhã, antes de pegar o ônibus para Taubaté.
Donato me contou passagens de sua vida em um povoado miserável, próximo a Santo Antônio dos Milagres. Aprendeu a ler com uma velha, que era uma vizinha da tapera onde ele morava. Lia bula de medicamentos, lia jornais velhíssimos que embrulhavam latas de leite enviadas pelo governo, lia as palavras impressas nessas latas.
E um dia eu li um livro”, disse Donato, emocionado. “Um livro que um vendedor de bugigangas deixou para mim. Lia devagar, duas, três vezes cada frase, cada parágrafo. De vez em quando, parava de ler para pensar. Li tantas vezes meu único livro que decorei os trechos mais bonitos. Minha vida não valia nada, nem uma casca de cebola. Eu era um jovem que não tinha onde cair morto, como se diz. Aí consegui um emprego em Santo Antônio. Trabalhei quatro anos no balcão de uma mercearia, economizei uns tostões e vim para São Paulo. Quando ganhei um dinheirinho, abri essa pastelaria. E um dia viajei para o Rio. Queria conhecer quem tinha publicado aquele livro, queria ver o edifício da editora, as pessoas que trabalhavam com livros. Não tive coragem de entrar, fiquei espiando na calçada, olhando a placa com o nome da editora. Aí me deu vontade de fazer uma coisa, e fiz mesmo. Abracei as paredes, beijei as paredes da editora e beijei o livro que mudou minha vida.”
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

Dos hábitos que duram

Gosto dos hábitos que não duram; são de um valor inapreciável se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que é feita de breves hábitos, mesmo nas necessidades de saúde física, e, de uma maneira geral, tão longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente - porque o próprio hábito breve acredita na eternidade, nesta fé da paixão; imagino que sou invejável por ter descoberto tal objeto: devoro-o de manhã à noite, e ele espalha em mim uma satisfação, cujas delícias me penetram até a medula dos ossos, não posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar.
E depois um belo dia, aí está: o hábito acabou o seu tempo; o objeto querido deixa-me então, não sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos devêssemos gratidão e estendemo-nos a mão para nos despedirmos. E já um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha fé - a indestrutível louca... e sábia! - em que este novo objeto será o bom, o verdadeiro, o último... Assim acontece com tudo, alimentos, pensamentos, pessoas, cidades, poemas, músicas, doutrinas, ordens do dia, maneiras de viver.
Em compensação, odeio os hábitos que duram, parece-me que tiranos se aproximam de mim para inquinar o meu ar vital com o seu hálito, logo que os acontecimentos se orientam de tal maneira que parece deverem sair deles hábitos definitivos: por exemplo, devido a uma função social, à frequência constante do mesmo meio, de uma residência determinada, de um gênero de saúde exclusivo. Confessarei até que, no mais fundo da minha alma, estou grato às minhas misérias físicas, à minha doença e a todas as minhas imperfeições, porque me deixam mil portas de saída que me permitem escapar aos hábitos definitivos. O que me seria, para falar verdade, mais insuportável, o que verdadeiramente me aterraria, seria uma vida totalmente despojada de hábitos, uma vida que exigisse uma improvisação constante; isso seria o meu exílio, seria a minha Sibéria.
Friedrich Nietzsche, in A gaia ciência

04/12/2017

Caso de escolha


O padrinho foi ao colégio, na Muda, e tirou Guilherme para passear. Olhos de inveja do irmão, também interno, mas sem direito a sair, porque seu comportamento era do tipo “deixa muito a desejar”, na linguagem do padre-reitor. Desejar o quê — ele não sabia. Sabia que o irmão ia gozar a vida lá fora, ar, ruas, cinemas, tudo aquilo que vale a pena, enquanto ele, Gustavo, continuaria mergulhado no mar-morto do pátio, dos corredores, do nhe-nhe-nhem cotidiano.
Guilherme tinha planos para a emergência, e todos se resumiam em tirar o máximo possível da liberalidade do padrinho.
O senhor me dá um presente de aniversário?
Seu aniversário é daqui a oito meses.
É, mas…
Bem, eu dou.
O padrinho propôs-lhe um blusão alinhado, mas ele entendia que roupa é obrigação de pai e mãe — não vale. Livro também não. Nas férias aceitaria a coleção de science fiction, mas em pleno ano letivo, para descanso de tanta labuta no campo da ciência e das letras, o que lhe convinha mesmo era um brinquedo bem legal.
Brinquedo? Mas você pode brincar com essas coisas no colégio?
Posso.
Talvez não pudesse, mas isso eram outros quinhentos. Foram à loja de brinquedos. O problema era escolher entre o trem elétrico, o foguete cósmico, a caixa de aquarela, o equipamento de Bat Masterson, o cérebro eletrônico e outras infinitas tentações.
Vamos, escolhe — dizia o padrinho, disposto a tudo, menos a esperar.
Ele comparava, meditava, decidia, arrependia-se. E como era impossível levar todos os brinquedos que o atraíam, pois cada um tinha seu inconveniente, que era não ter as qualidades dos demais, repeliu todos:
Quero aquela gaitinha. Aquela verde, ali.
O padrinho fez-lhe a vontade, sem compreender. Uma bobagem de oitenta cruzeiros!
No colégio, Gustavo queria saber. E sabendo, escarneceu:
Você é mesmo uma besta. Tanta coisa bacana para escolher, e vem com essa gaitinha mixa.
Guilherme quis provar que não era mixa coisa nenhuma, tinha um engaste de pedrinhas faiscantes, som espetacular. O irmão voltou-lhe as costas, com desprezo:
Palhaço!
Ah, se fosse com ele… E Gustavo passou a comportar-se melhor, na esperança de também ir à cidade.
Um dia o padrinho dele apareceu, saíram. Aplicou o golpe do aniversário. O padrinho, igual a todos os padrinhos do mundo, pensou em oferecer-lhe um blusão alinhado. Recusou, e foram parar na loja de brinquedos.
Gustavo olhou superiormente para o monte de coisas que derrotara Guilherme. Sabia escolher, e preferiu logo a metralhadora japonesa. Mas pensou que se cansaria depressa do seu papoco; trocou-a por um marciano com bateria; os marcianos passam de moda; quem sabe se esse laboratório de química? Não, chega a química do programa. Foi escolhendo, refugando, substituindo. O padrinho consultava o relógio: “Escolhe, menino!”. Era preciso escolher para sempre. E nada lhe agradava para sempre, nada valia verdadeiramente a pena. Com angústia lembrou-se do irmão, procurou aflito uma coisa no milheiro de coisas e, apontando-a, murmurou:
Quero aquela gaitinha.
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

Lição de anatomia

Não leve a mal.
É a minha emoção coxo-femural
que desliza cálida,
buscando atávica
o equilíbrio da coluna vertebral.
Se encontrar o caminho ascendente,
vai tanger e lambiscar o lugar exato
que fica entre o bom senso e o palato.
Caso contrário, vai descer fremente,
numa roda-viva inconsequente,
sem qualquer noção de itinerário.
Quando estiver perto do final,
já vai estar intumescida e visceral.
Recomendo então que, numa ode à vida,
você possa ser seu usufrutuário.
Flora Figueiredo

Baboseiras

O motoboy entregou o pacote de cartas e disse:
Ele falou que tinha resposta.
Espera — disse ela.
E pôs-se a examinar as cartas. Procurava uma em especial, que não encontrou. Fez um sinal para o motoboy aguardar enquanto telefonava.
Alô...
Amauri, cadê a carta do ursinho?
Era uma das primeiras cartas que ela tinha lhe mandado. Ainda eram namorados. Uma carta toda escrita como se fosse de uma criança para o seu ursinho de pelúcia.
Eu mandei. Não mandei?
Não. E se você não mandar a carta do ursinho eu não mando as suas.
Heleninha...
Não tem “Heleninha”, Amauri. Ou você manda todas as minhas cartas ou eu começo a mostrar as suas. Sou capaz até de publicá-las. Quero ver como fica a sua reputação no meio.
Eu pensei em guardar pelo menos uma carta sua, Heleninha.
Logo a mais ridícula? Devolve a minha carta, Amauri. Nosso trato foi esse. Todas as cartas.
Deixa eu ficar só com esta. É a minha favorita.
Eu sei o que você está pensando, Amauri. Quer ficar com a carta para me chantagear depois.
Chantagear, Heleninha?!
Chantagear. Eu conheço você.
Heleninha! Eu acho essa carta linda. Uma lembrança do tempo em que a gente se amava.
Não banca o sentimental comigo, Amauri. Essa carta é só um exemplo das baboseiras que a gente diz e escreve quando acha que o amor nunca vai acabar. Mas o amor acaba e fica a baboseira. Me devolve essa carta, Amauri!
Heleninha, você lembra como eu chamava você? Na cama?
Eu não quero ouvir!
Lembra? Está certo, era baboseira. Mas era bonito. Era carinhoso. Eu era o seu ursinho e você era a minha...
Amauri, manda essa carta ou eu publico as suas. Já sei exatamente para quem mandar a primeira.
Está bem, Heleninha. Manda o motoboy de volta.
Luís Fernando Veríssimo, in Amor Veríssimo

A brasilidade no traço de Portinari

Pau Brasil, de Cândido Portinari

Quem somos?

O dia seguinte foi o da partida de Mwadia. Sempre calado, o marido ajudou-a a aparelhar o burro. Madzero também não disse palavra à despedida. Adeuses são assunto de mulheres. De costas viradas, a esposa agachou-se e com o indicador desenhou na areia uma estrela. Era a sua maneira de escrever a promessa: regressaria antes que o desenho ficasse desfeito pelo vento e pela poeira.
Não tomou, de imediato, o atalho em direção ao rio. Ela queria, primeiro, passar por casa do curandeiro Lázaro Vivo. Quando o enfrentou, falou-lhe assim:
É por causa de Zero, meu marido.
E o que há com ele?
Queria que tomasse conta dele na minha ausência.
O curandeiro baixou a cabeça, encheu o peito a alimentar paciência. Ia dizer algo de que se arrependeu. Passou a mão pela testa num gesto redondo antes de prometer que cuidaria do lunático pastor de burros.
Há coisa que nunca entendi: por que é que esse homem foge? Foi crime que ele cometeu?
Não, compadre. É um crime que ele não quer cometer.
Lázaro segurou as mãos de Mwadia, abençoando a viagem e dando-lhe as devidas instruções: — O barco está lá, na curva do rio. Lá dentro está o remo.
E, depois, onde guardo a canoa?
Não se preocupe, ela vem sozinha de volta.
Mwadia sorriu, sem esconder alguma desconfiança. O curandeiro enrugou a voz, realçando o tom de desagrado.
Você está a duvidar, comadre?
Deixe, Lázaro. Não me dê importância.
Há muito que lhe queria dizer isto, Mwadia Malunga: você ficou muito tempo lá no seminário, perdeu o espírito das nossas coisas, nem parece uma africana.
Há muitas maneiras de ser africana.
É preciso não esquecer quem somos...
E quem somos, compadre Lázaro? Quem somos?
Você não sabe?
Mwadia baixou o rosto, sentindo que tinha ido longe de mais. Uma mulher não se confronta daquela maneira, olhos nos olhos, voz na voz. Pediu desculpa, o curandeiro parece nem ter escutado, ocupado em fazer render a despedida.
Você não tem aparecido a entregar cabritos.
Não tem dado.
Ainda tem aí sal e petróleo que é da última venda dos bichos.
Deixe ficar mais uns tempos.
Mas venha estes dias porque eu estou para viajar para o Zimbabwe. Tenho encomendas lá, aquela gente está mal, coitada. Mas ligue-me, minha filha, ligue-me...
Ligar-lhe?
A partir da fronteira tenho rede de telemóvel, você pode-me ligar dos correios de Vila Longe. Se for preciso, é claro.
Não vai ser preciso.
Eu só tenho mais um assuntozito, aliás, um pedido...
Diga o que precisa, compadre Lázaro.
Quero que saiba como é que, lá na capital, se pode meter anúncio na televisão para os meus serviços de curandeiro.
O adivinho fez o que não fazia com mulher alguma: acompanhou Mwadia à porta e ficou a vê-la desaparecer por entre os atalhos de areia. Uma ruga lhe agravava o rosto: saberia a filha de Constança o que a esperava em Vila Longe? Ou recorria à mesma ilusão que produzia com os panos pendurados à porta de sua casa: inventaria vidas para preencher o vazio do seu coração natal?
Mia Couto, in O outro pé da sereia