05/01/2017
Moral: mais sacrifícios do que vale
Podemos dizer sem contemplações à
sociedade que aquilo a que ela chama a sua moral custa mais
sacrifícios do que o que vale, e que os seus modos de proceder são
falhos tanto de sinceridade como de sabedoria.
(...) Dir-se-ia que basta um grande
número, que milhões de homens se encontrem reunidos, para que todas
as aquisições morais dos indivíduos que os compõem se desvaneçam
por completo e não restem já em seu lugar senão as atitudes
psíquicas mais primitivas, mais antigas, mais brutais.
Sigmund
Freud, in As
Palavras de Freud
04/01/2017
Esta é a forma fêmea
Esta
é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a ação correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jatos límpidos de amor
quentes e enormes, trêmula geleia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.
Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.
Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.
A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e ativa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a ação correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jatos límpidos de amor
quentes e enormes, trêmula geleia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.
Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.
Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.
A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e ativa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.
Walt
Whitman
A vitória dos néscios
“Não
nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis
triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm
por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse,
contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de
superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os
seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo
instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos
vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e
aprovado por todos, ao passo que o gênio tem o vício terrível de
se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente
com o pensamento, a vida da maioria dos outros.
Isto
explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão
abundante e solicitamente louvadas - os juízes são, quase na
totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com
entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um
pouco menos medíocre do que eles.
Este
favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída
e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande,
ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que
são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo
esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da
maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa
frequência, os sábios a atuar e falar deles, quer para levar uma
vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da
loucura universal.”
Giovanni
Papini, in Relatório sobre os homens
As onças...
Tem
uma emoção nova no ar de Pocinhos do Rio Verde, lugar onde planto
árvores para meus amigos que partiram para o outro mundo. Agora até
mudei de ideia: estou plantando árvores para amigos que ainda não
partiram. A minha própria árvore já está com mais de três
metros. Pois a nova emoção é um cheiro diferente. É só ir lá
para sentir. Antes era só tranquilidade, os cheiros conhecidos do
capim-gordura, dos assa-peixes, dos lírios-do-brejo. Pois agora tem
um cheiro novo, cheiro de onça... “Eu senti o cheiro dela, quando
andava na minha roça de mandioca”, contou-me um sitiante. É, as
onças estão voltando. Confesso que fiquei feliz. Minha felicidade é
porque estou me sentindo transportado para o passado, os lugares da
minha meninice. Naqueles tempos, sim, as onças estavam por toda
parte. Jeca Tatuzinho que o diga! Porque, depois de curado de suas
lombrigas e de ter tomado três vidros do Biotônico, ele topou com
um par de onças no mato. Ouviu o miado. “E eu aqui, sem nem mesmo
uma faca...”, ele pensou. Mas medo não teve. Fincou firme as
botinas no chão e esperou. A onça chegou, arreganhou a dentuça e
pulou com um miado de fazer pedra tremer. Jeca Tatuzinho pregou-lhe
um murro nas fuças que fez com que ela rolasse pelo chão.
“Conheceu, papuda?!” – foi isso que ele foi dizendo enquanto a
estrangulava com suas próprias mãos. A outra onça, vendo o que
acontecia, tratou de pôr-se a salvo, e, se os boatos são
verdadeiros, está correndo até hoje. Até o Pedrinho, neto da dona
Benta, do Sítio do Pica-pau Amarelo, teve uma aventura com uma
delas, das pintadas, numa de suas caçadas. Antigamente, quem morava
na roça pensava em onça. Me lembro, lá na fazenda velha onde vivi.
Todo mundo já tinha topado com onças, todo mundo contava estórias
de onças. “Pois eu vinha pela trilha quando, de repente, a cara de
uma onça apareceu atráis duma pedra. Peguei a espingarda, mirei no
meio dos zoio e pum! – era uma veiz uma onça. Mas aí não
aquerditei no que vi. A onça apareceu de novo. Imaginei que estava
ruim dos zoio, que estava perdendo a pontaria. Mirei de novo. Pum! –
era uma veiz uma onça! Pois não é quela apareceu de novo? E assim
foi, a onça aparecendo, eu atirando, ela aparecendo de novo – seis
veiz, seis veiz. Aí, ela num apareceu mais. Fui chegando, matreiro,
descunfiado, pra vê atráis da pedra. E ocê num vai aquerditá nu
qui eu vi: seis onça morta com um tiro no meio da testa...” Pois
uma onça, daquelas cinzentas, suçuarana, tamanho de um cão pastor,
matou a mula de um homem lá em Pocinhos. Ele chamou os amigos,
reuniu a cachorrada, e lá foram em perseguição da onça.
Encontraram. Mataram. Mas não adiantou. Apareceu uma outra, igual.
Amigos e cachorrada encurralaram a dita. Ela subiu numa árvore. A
cachorrada ficou embaixo, latindo. Aí um dos caçadores ponderou que
era melhor chamar a Polícia Florestal. Veio o polícia, olhou para a
onça encarapitada no galho alto da árvore, e deu o veredito: “Este
lugar é terra da onça. Vocês são invasores. A onça fica. Ninguém
mata. Vocês se mudem para outro lugar”. Não sei se foi isso mesmo
que ele disse, mas foi o que me relataram. Mas, como quem conta um
conto aumenta um ponto, como mineiro acredito desacreditando. Me
contaram do jeito seguro para saber se a onça está na tocaia.
Primeiro é o cheiro. Quem quiser saber qual é o cheiro da onça é
só visitar um zoológico. Depois é o barulhinho. Quando a onça
está tocaiando, os entendidos me informaram, ela vai mexendo as
orelhas para ouvir melhor. E quando ela mexe as orelhas, as orelhas
fazem um barulho característico, um “clique” seco, como se fosse
um galho quebrado. Assim, quem for andar por trilhas em Pocinhos, que
preste atenção nos “cliques”. E cuidado se algum mineiro o
convidar para pescar. Pois dizem que aconteceu de verdade. Um mineiro
e um paulista estavam pescando, assentados à beira do rio, pitando
um cigarrinho de palha, bebendo uma pinguinha, vida que se pediu a
Deus – até que se ouviu um miado no mato. “Que miado é esse?”,
perguntou assustado o paulista. “Acho que é miado de onça...”,
respondeu o mineiro sem se mexer. Outro miado mais forte. “Parece
que a onça está vindo pra cá”, disse o paulista. “É, está
vindo pra cá”, disse calmamente o mineiro. Um outro rugido
terrível. O paulista se apavorou. O mineiro calmamente abriu o
embornal, tirou lá de dentro um par de tênis que se pôs a calçar.
“Você está louco?”, disse o paulista. “Acha que vai correr
mais depressa que a onça?” “Não, não vou correr mais depressa
que a onça. O que eu quero é correr mais depressa que você...”
Rubem
Alves, in Ostra feliz não faz pérola
Sabedoria
“Entre
outras vantagens, a sabedoria também tem isto de bom: só se pode
ser ultrapassado por outro durante a fase de ascensão. Quando se
chega ao cume, não mais subsistem diferenças: a sabedoria é um
estado constante, não passível de qualquer incremento. Acaso o Sol
pode aumentar de tamanho ou a Lua sair da sua órbita? Os oceanos
também não crescem; o mundo conserva sempre a sua forma e as suas
medidas. Todos os seres que atingiram as suas dimensões ideais já
não podem aumentar e, por isso, todos os homens que atingirem a
sapiência são de valor inteiramente idêntico. De entre eles, cada
um terá as suas qualidades próprias: um poderá ser mais afável,
outro mais desembaraçado, outro de palavra mais pronta, outro dotado
de maior eloquência. Mas o ponto que nos interessa - a sapiência
que gera a beatitude - essa será igual em todos eles.”
Sêneca,
in Cartas a Lucílio
Realejo, gaita de boca e outras musiquinhas...
Há
quase um século, escrevia Stéphane Mallarmé, de Londres, numa
carta a seu amigo Henri:
“...
Interrompi um instante esta carta para atirar uma moeda a um pobre
realejo que se lamenta na praça. São dez horas. O pobre-diabo ainda
espera talvez a sua primeira refeição do dia e conta com a sua
Marselhesa para comprar um penny de pão no vendeiro da
esquina. Que tristes reflexões não tem ele a fazer diante de todas
essas janelas fechadas e como deve desesperar — vendo esses
postigos aferrolhados, essas cortinas descidas — de que qualquer
mão aquecida a um bom fogo abra e atravesse tudo isso para lhe
lançar o que comer! Tocar diante de uma janela acesa, ainda bem:
vê-se vida e portanto bondade atrás das vidraças, mas tocar
manivela diante dos postigos sombrios como o muro e indiferentes como
ele! Marie diz que esse homem é um preguiçoso e que os verdadeiros
pobres merecem mais os nossos pence. Isto não. Esse homem faz
música nas ruas, é um ofício como o de notário e que tem sobre
este último a vantagem de ser inútil.
“Pode-se
acaso sonhar uma vida mais bela do que essa que consiste em errar
pelos caminhos e fazer a esmola de uma ária triste ou alegre à
primeira janela que se avista, sem saber quem ali porá a cabeça, se
um anjo ou uma megera, em tocar para as calçadas, para os pardais,
para as árvores doentias das praças?! São aedos, esses homens...
Seu instrumento é grotesco? Seja, mas a intenção permanece.”
A
intenção... Mallarmé acertou no ponto: é na intenção que está
o supremo encanto de todos esses instrumentos frustros... O realejo,
a gaitinha de boca... É verdade que existem os virtuosi da gaitinha
de boca, mas atrevo-me a dizer que esses não sabem tocar... Gaitinha
de boca bem tocada não é gaitinha de boca. E outra coisa: falta-lhe
o poder de sugestão, a graça melancólica do inatingido...
E
havia, nos pátios da minha meninice, um outro instrumento, o mais
humilde de todos, tão humilde que nem chegava a ser um
instrumento... Mas, por isso mesmo era tão da gente que não se
queria outro... E fico a lembrar o negrinho Filó; era um artista no
pente.
Mário
Quintana, in A vaca e o hipogrifo
03/01/2017
Poema V
Companheiro,
morto desassombrado, rosácea ensolarada
quem senão eu, te cantará primeiro. Quem senão eu
pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu
que bebi na tua boca a fúria de umas águas
eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei
porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”.
Ah! Se soubesses como ficou difícil a Poesia.
Triste garganta o nosso tempo, TRISTE TRISTE.
E mais um tempo, nem será lícito ao poeta ter memória
e cantar de repente: “os arados van e vên
dende a Santiago a Belén”.
Os cardos, companheiro, a aspereza, o luto
a tua morte outra vez, a nossa morte, assim o mundo:
deglutindo a palavra cada vez e cada vez mais fundo.
Que dor de te saber tão morto. Alguns dirão:
Mas se está vivo, não vês? Está vivo! Se todos o celebram
Se tu cantas! ESTÁS MORTO. Sabes por quê?
“El passado se pone
su coraza de hierro
y tapa sus oídos
con algodón del viento.
Nunca podrá arrancársele
un secreto.”
E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
azuis, braços e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
de infância, de plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.
quem senão eu, te cantará primeiro. Quem senão eu
pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu
que bebi na tua boca a fúria de umas águas
eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei
porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”.
Ah! Se soubesses como ficou difícil a Poesia.
Triste garganta o nosso tempo, TRISTE TRISTE.
E mais um tempo, nem será lícito ao poeta ter memória
e cantar de repente: “os arados van e vên
dende a Santiago a Belén”.
Os cardos, companheiro, a aspereza, o luto
a tua morte outra vez, a nossa morte, assim o mundo:
deglutindo a palavra cada vez e cada vez mais fundo.
Que dor de te saber tão morto. Alguns dirão:
Mas se está vivo, não vês? Está vivo! Se todos o celebram
Se tu cantas! ESTÁS MORTO. Sabes por quê?
“El passado se pone
su coraza de hierro
y tapa sus oídos
con algodón del viento.
Nunca podrá arrancársele
un secreto.”
E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
azuis, braços e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
de infância, de plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.
Hilda
Hilst
Frida
Tina
Modotti não está sozinha frente aos inquisidores. Está
acompanhada, de cada braço, por seus camaradas Diego Rivera e Frida
Kahlo: o imenso buda pintor e sua pequena Frida, pintora também, a
melhor amiga de Tina, que parece uma misteriosa princesa do Oriente
mas diz mais palavrões e bebe mais tequila que um mariachi de
Jalisco.
Frida
ri às gargalhadas e pinta esplêndidas telas desde o dia em que foi
condenada à dor incessante.
A
primeira dor ocorreu lá longe, na infância, quando seus pais a
disfarçaram de anjo e ela quis voar com asas de palha; mas a dor de
nunca acabar chegou num acidente de rua, quando um ferro de bonde
cravou-se de um lado a outro em seu corpo, como uma lança, e
triturou seus ossos. Desde então ela é uma dor que sobrevive. Foi
operada, em vão, muitas vezes; e na cama de hospital começou a
pintar seus autorretratos, que são desesperadas homenagens à vida
que lhe sobra.
Eduardo
Galeano, in Mulheres
O cavalo que bebia cerveja
Essa
chácara do homem ficava meio ocultada, escurecida pelas árvores,
que nunca se viu plantar tamanhas tantas em roda de uma casa. Era
homem estrangeiro. De minha mãe ouvi como, no ano da espanhola, ele
chegou, acautelado e espantado, para adquirir aquele lugar de todo
defendimento, e a morada, donde de qualquer janela alcançasse de
vigiar a distância, mãos na espingarda; nesse tempo, não sendo
ainda tão gordo, de fazer nojo. Falavam que comia a quanta
imundície: caramujo, até rã, com as braçadas de alfaces,
embebidas num balde de água. Ver, que almoçava e jantava, da parte
de fora, sentado na soleira da porta, o balde entre suas grossas
pernas, no chão, mais as alfaces; tirante que, a carne, essa,
legítima de vaca, cozinhada. Demais gastasse era com cerveja, que
não bebia à vista da gente. Eu passava por lá, ele me pedia: —
“Irivalíni, bisonha outra garrafa, é para o cavalo...”
Não gosto de perguntar, não achava graça. Às vezes eu não
trazia, às vezes trazia, e ele me indenizava o dinheiro, me
gratificando. Tudo nele me dava raiva. Não aprendia a referir meu
nome direito. Desfeita ou ofensa, não sou o de perdoar — a nenhum
de nenhuma.
Minha
mãe e eu sendo das poucas pessoas que atravessávamos por diante da
porteira, para pegar a pinguela do riacho. — “Dei’stá,
coitado, penou na guerra...” — minha mãe explicando. Ele se
rodeava de diversos cachorros, graúdos, para vigiarem a chácara. De
um, mesmo não gostasse, a gente via, o bicho em sustos, antipático
— o menos bem tratado; e que fazia, ainda assim, por não se
arredar de ao pé dele, que estava, a toda a hora, de desprezo,
chamando o endiabrado do cão: por nome “Mussulino”. Eu
remoía o rancor: de que, um homem desses, cogotudo, panturro, rouco
de catarros, estrangeiro às náuseas — se era justo que possuísse
o dinheiro e estado, vindo comprar terra cristã, sem honrar a
pobreza dos outros, e encomendando dúzias de cerveja, para
pronunciar a feia fala. Cerveja? Pelo fato, tivesse seus cavalos, os
quatro ou três, sempre descansados, neles não amontava, nem
aguentasse montar. Nem caminhar, quase, não conseguia. Cabrão!
Parava pitando, uns charutos pequenos, catinguentos, muito mascados e
babados. Merecia um bom corrigimento. Sujeito sistemático, com sua
casa fechada, pensasse que todo o mundo era ladrão.
Isto
é, minha mãe ele estimava, tratava com as benevolências. Comigo,
não adiantava — não dispunha de minha ira. Nem quando minha mãe
grave adoeceu, e ele ofertou dinheiro, para os remédios. Aceitei;
quem é que vive de não? Mas não agradeci. Decerto ele tinha
remorso, de ser estrangeiro e rico. E, mesmo, não adiantou, a santa
de minha mãe se foi para as escuridões, o danado do homem se dando
de pagar o enterro. Depois, indagou se eu queria vir trabalhar para
ele. Sofismei, o quê. Sabia que sou sem temor, em meus altos, e que
enfrento uns e outros, no lugar a gente pouco me encarava. Só se
fosse para ter a minha proteção, dia e noite, contra os issos e
vindiços. Tanto, que não me deu nem meio serviço por cumprir,
senão que eu era para burliquear por lá, contanto que com as armas.
Mas, as compras para ele, eu fazia. — “Cerveja, Irivalíni. É
para o cavalo...” — o que dizia, a sério, naquela língua de
bater ovos. Tomara ele me xingasse! Aquele homem ainda havia de me
ver.
Do
que mais estranhei, foram esses encobrimentos. Na casa, grande,
antiga, trancada de noite e de dia, não se entrava; nem para comer,
nem para cozinhar. Tudo se passava da banda de cá das portas. Ele
mesmo, figuro que raras vezes por lá se introduzia, a não ser para
dormir, ou para guardar a cerveja — ah, ah, ah — a que era
para o cavalo. E eu, comigo: — “Tu espera, porco, para se,
mais dia menos dia, eu não estou bem aí, no haja o que há!”
Seja que, por essa altura, eu devia ter procurado as corretas
pessoas, narrar os absurdos, pedindo providências, soprar minhas
dúvidas. O que fácil não fiz. Sou de nem palavras. Mas, por aí,
também, apareceram aqueles — os de fora.
Sonsos
os dois homens, vindos da capital. Quem para eles me chamou, foi o
seo Priscílio, subdelegado. Me disse: — “Reivalino Belarmino,
estes aqui são de autoridade, por ponto de confiança.” E os
de fora, me pegando à parte, puxaram por mim, às muitas perguntas.
Tudo, para tirar tradição do homem, queriam saber, em pautas
ninharias. Tolerei que sim; mas nada não fornecendo. Quem sou eu,
quati, para cachorro me latir? Só cismei escrúpulos, pelas más
caras desses, sujeitos embuçados, salafrados também. Mas, me
pagaram, o bom quanto. O principal deles dois, o de mão no queixo,
me encarregou: que, meu patrão, sendo homem muito perigoso, se ele
vivia mesmo sozinho? E que eu reparasse, na primeira ocasião, se ele
não tinha numa perna, em baixo, sinal velho de coleira, argolão de
ferro, de criminoso fugido de prisão. Pois sim, piei prometi.
Perigoso,
para mim? — ah, ah. Pelo que, vá, em sua mocidade, podendo
ter sido homem. Mas, agora, em pança, regalão, remanchão, somente
quisesse a cerveja — para o cavalo. Desgraçado, dele. Não que eu
me queixasse, por mim, que nunca apreciei cerveja; gostasse,
comprava, bebia, ou pedia, ele mesmo me dava. Ele falava que também
não gostava, não. De verdade. Consumia só a quantidade de alfaces,
com carne, boquicheio, enjooso, mediante muito azeite, lambia que
espumava. Por derradeiro, estava meio estramontado, soubesse da vinda
dos de fora? Marca de escravo em perna dele, não observei, nem fiz
por isso. Sou lá serviçal de meirinho-mor, desses, escogitados, de
tantos visares? Mas eu queria jeito de entender, nem que por uma
fresta, aquela casa, debaixo de chaves, espreitada. Os cachorros já
estando mansos amigáveis. Mas, parece que seo Giovânio desconfiou.
Pois, por minha hora de surpresa, me chamou, abriu a porta. Lá
dentro, até fedia a coisa sempre em tampa, não dava bom ar. A sala,
grande, vazia de qualquer amobiliado, só para espaços. Ele, nem que
de propósito, me deixou olhar à minha conta, andou comigo, por
diversos cômodos, me satisfiz. Ah, mas, depois, cá comigo, ganhei
conselho, ao fim da idéia: e os quartos? Havia muitos desses, eu não
tinha entrado em todos, resguardados. Por detrás de alguma daquelas
portas, pressenti bafo de presença — só mais tarde? Ah, o
carcamano queria se birbar de esperto; e eu não era mais?
Demais
que, uns dias depois, se soube de ouvidos, tarde da noite, diferentes
vezes, galopes no ermo da várzea, de cavaleiro saído da porteira da
chácara. Pudesse ser? Então, o homem tanto me enganava, de formar
uma fantasmagoria, de lobisomem. Só aquela divagação, que eu não
acabava de entender, para dar razão de alguma coisa: se ele tivesse,
mesmo, um estranho cavalo, sempre escondido ali dentro, no escuro da
casa?
Seo
Priscílio me chamou, justo, outra vez, naquela semana. Os de fora
estavam lá, de colondria, só entrei a meio na conversa; um deles
dois, escutei que trabalhava para o “Consulado”. Mas contei tudo,
ou tanto, por vingança, com muito caso. Os de fora, então, instaram
com o seo Priscílio. Eles queriam permanecer no oculto, seo
Priscílio devia de ir sozinho. Mais me pagaram.
Eu
estava por ali, fingindo não ser nem saber, de mão-posta. Seo
Priscílio apareceu, falou com seo Giovânio: se que estórias seriam
aquelas, de um cavalo beber cerveja? Apurava com ele, apertava. Seo
Giovânio permanecia muito cansado, sacudia devagar a cabeça,
fungando o escorrido do nariz, até o toco do charuto; mas não fez
mau rosto ao outro. Passou muito a mão na testa: — “Lei, quer
ver?” Saiu, para surgir com um cesto com as garrafas cheias, e
uma gamela, nela despejou tudo, às espumas. Me mandou buscar o
cavalo: o alazão canela-clara, bela-face. O qual — era de se dar a
fé? — já avançou, avispado, de atreitas orelhas, arredondando as
ventas, se lambendo: e grosso bebeu o rumor daquilo, gostado, até o
fundo; a gente vendo que ele já era manhudo, cevado naquilo! Quando
era que tinha sido ensinado, possível? Pois, o cavalo ainda queria
mais e mais cerveja. Seo Priscílio se vexava, no que agradeceu e se
foi. Meu patrão assoviou de esguicho, olhou para mim: —
“Irivalíni, que estes tempos vão cambiando mal. Não laxa as
armas!” Aprovei. Sorri de que ele tivesse as todas manhas e
patranhas. Mesmo assim, meio me desgostava.
Sobre
o tanto, quando os de fora tornaram a vir, eu falei, o que eu
especulava: que alguma outra razão devia de haver, nos quartos da
casa. Seo Priscílio, dessa vez, veio com um soldado. Só pronunciou:
que queria revistar os cômodos, pela justiça! Seo Giovânio, em pé
de paz, acendeu outro charuto, ele estava sempre cordo. Abriu a casa,
para seo Priscílio entrar, o soldado; eu, também. Os quartos? Foi
direto a um, que estava duro de trancado. O do pasmoso: que, ali
dentro, enorme, só tinha o singular — isto é, a coisa a não
existir! — um cavalão branco, empalhado. Tão perfeito, a cara
quadrada, que nem um de brinquedo, de menino; reclaro, branquinho,
limpo, crinado e ancudo, alto feito um de igreja — cavalo de São
Jorge. Como podiam ter trazido aquilo, ou mandado vir, e entrado ali
acondicionado? Seo Priscílio se desenxaviu, sobre toda a admiração.
Apalpou ainda o cavalo, muito, não achando nele oco nem contento.
Seo Giovânio, no que ficou sozinho comigo, mascou o charuto: —
“Irivalíni, pecado que nós dois não gostemos de cerveja,
hem?” Eu aprovei. Tive a vontade de contar a ele o que por
detrás estava se passando.
Seo
Priscílio, e os de fora, estivessem agora purgados de curiosidades.
Mas eu não tirava o sentido disto: e os outros quartos, da casa, o
atrás de portas? Deviam ter dado a busca por inteiro, nela, de uma
vez. Seja que eu não ia lembrar esse rumo a eles, não sou mestre de
quinaus. Seo Giovânio conversava mais comigo, banzativo: —
“Irivalíni, eco, a vida é bruta, os homens são cativos...”
Eu não queria perguntar a respeito do cavalo branco, frioleiras,
devia de ter sido o dele, na guerra, de suma estimação. — “Mas,
Irivalíni, nós gostamos demais da vida...” Queria que eu
comesse com ele, mas o nariz dele pingava, o ranho daquele monco,
fungando, em mal assôo, e ele fedia a charuto, por todo lado. Coisa
terrível, assistir aquele homem, no não dizer suas lástimas. Saí,
então, fui no seo Priscílio, falei: que eu não queria saber de
nada, daqueles, os de fora, de coscuvilho, nem jogar com o pau de
dois bicos! Se tornassem a vir, eu corria com eles, despauterava,
escaramuçava — alto aí! — isto aqui é Brasil, eles também
eram estrangeiros. Sou para sacar faca e arma. Seo Priscílio sabia.
Só não soubesse das surpresas.
Sendo
que foi de repente. Seo Giovânio abriu de em par a casa. Me chamou:
na sala, no meio do chão, jazia um corpo de homem, debaixo de
lençol. — “Josepe, meu irmão”... — ele me disse,
embargado. Quis o padre, quis o sino da igreja para badalar as vezes
dos três dobres, para o tristemente. Ninguém tinha sabido nunca o
qual irmão, o que se fechava escondido, em fuga da comunicação das
pessoas. Aquele enterro foi muito conceituado. Seo Giovânio pudesse
se gabar, ante todos. Só que, antes, seo Priscílio chegou, figuro
que os de fora a ele tinham prometido dinheiro; exigiu que se
levantasse o lençol, para examinar. Mas, aí, se viu só o horror,
de nós todos, com caridade de olhos: o morto não tinha cara, a bem
dizer — só um buracão, enorme, cicatrizado antigo, medonho, sem
nariz, sem faces — a gente devassava alvos ossos, o começo da
goela, gargomilhos, golas. — “Que esta é a guerra...” —
seu Giovânio explicou — boca de bobo, que se esqueceu de fechar,
toda doçuras.
Agora,
eu queria tomar rumo, ir puxando, ali não me servia mais, na chácara
estúrdia e desditosa, com o escuro das árvores, tão em volta. Seo
Giovânio estava da banda de fora, conforme seu costume de tantos
anos. Mais achacoso, envelhecido, subitamente, no trespassamento da
manifesta dor. Mas comia, sua carne, as cabeças de alfaces, no
balde, fungava. — “Irivalíni... que esta vida... bisonha.
Caspité?” — perguntava, em todo tom de canto. Ele
avermelhadamente me olhava. — “Cá eu pisco...” —
respondi. Não por nojo, não dei um abraço nele, por vergonha, para
não ter também as vistas lagrimadas. E, então, ele fez a mais
extravagada coisa: abriu cerveja, a que quanta se espumejasse. —
“Andamos, Irivalíni, contadino, bambino?” — propôs. Eu
quis. Aos copos, aos vintes e trintas, eu ia por aquela cerveja,
toda. Sereno, ele me pediu para levar comigo, no ir-m’embora, o
cavalo — alazão bebedor — e aquele tristoso cachorro magro,
Mussulino.
Não
avistei mais o meu Patrão. Soube que ele morreu, quando em
testamento deixou a chácara para mim. Mandei erguer sepulturas,
dizer as missas, por ele, pelo irmão, por minha mãe. Mandei vender
o lugar, mas, primeiro, cortarem abaixo as árvores, e enterrar no
campo o trem, que se achava, naquele referido quarto. Lá nunca
voltei. Não, que não me esqueço daquele dado dia — o que foi uma
compaixão. Nós dois, e as muitas, muitas garrafas, na hora cismei
que um outro ainda vinha sobrevir, por detrás da gente, também, por
sua parte: o alazão façalvo; ou o branco enorme, de São Jorge; ou
o irmão, infeliz medonhamente. Ilusão, que foi, nenhum ali não
estava. Eu, Reivalino Belarmino, capisquei. Vim bebendo as garrafas
todas, que restavam, faço que fui eu que tomei consumida a cerveja
toda daquela casa, para fecho de engano.
Guimarães
Rosa, in Primeiras estórias
Mas há a vida
Mas
há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o
amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo.
Não mata.
Clarice
Lispector, in Aprendendo a viver
O livro da memória (trecho)
Estou
nas ruínas de Cartago, na Tunísia. As pedras são romanas, pedaços
de muros construídos depois que a cidade foi destruída por Cipião
Emiliano, em 346 a.C., quando o império cartaginês tornou-se
província de Roma e foi rebatizado de África. Aqui, santo
Agostinho, quando era jovem, ensinou retórica antes de ir para
Milão. Perto dos quarenta anos de idade, atravessou o Mediterrâneo
novamente, para estabelecer-se em Hipona, onde hoje é a Argélia;
morreu ali em 430 d.C., quando os vândalos montavam o cerco à
cidade.
Trouxe
comigo minha edição escolar das Confissões, um volume fino
Classiques Roma, de capa cor de laranja, que meu professor de latim
preferia a todas as outras edições.
Nestas
ruínas, com o livro nas mãos, experimento um certo sentimento de
camaradagem para com o grande poeta renascentista Francesco Petrarca,
que sempre levava consigo uma edição de bolso de Agostinho. Ao ler
as Confissões, sentiu que a voz de Agostinho falava tão
intimamente com ele que, perto do fim da vida, compôs três diálogos
imaginários com o santo, publicados postumamente com o título de
Secretum meum.
Uma
observação a lápis na margem de minha edição comenta os
comentários de Petrarca, como se continuasse aqueles diálogos
imaginários.
É
verdade que algo no tom de Agostinho sugere uma intimidade
confortável, propícia a compartilhar segredos. Quando abro o livro,
minhas anotações na margem trazem-me à lembrança a ampla sala de
aula do Colégio Nacional de Buenos Aires, onde as paredes tinham a
cor da areia cartaginesa, e recordo a voz de meu professor recitando
as palavras de Agostinho, recordo nossos debates pomposos (tínhamos
quatorze, quinze, dezesseis anos?) sobre responsabilidade política e
realidade metafísica. O livro preserva não só a memória daquela
adolescência distante, de meu professor (já morto), das leituras de
Agostinho por Petrarca, que nosso professor lia com aprovação, mas
também de Agostinho e suas salas de aula, da Cartago que foi
construída sobre a Cartago destruída, para ser destruída
novamente. A poeira dessas ruínas é muito mais velha que o livro,
mas o livro também as contém, Agostinho observou e depois escreveu
o que recordava. Entre minhas mãos, o livro relembra duas vezes.
Talvez
tenha sido a sensualidade (que ele tanto tentou reprimir) que fez de
Agostinho um observador tão agudo. Ele parece ter passado a parte
final de sua vida num estado paradoxal de descoberta e distração,
maravilhando-se com o que seus sentidos lhe ensinavam e, no entanto,
pedindo a Deus que afastasse dele as tentações do prazer físico. O
hábito de ler em silêncio de Ambrósio foi observado porque
Agostinho cedeu à curiosidade de seus olhos, e as palavras no jardim
foram ouvidas porque ele se entregou aos odores da relva e à canção
de pássaros invisíveis.
Não
foi apenas a possibilidade de ler em silêncio que surpreendeu
Agostinho. Escrevendo sobre um antigo colega de escola, ele chamou a
atenção para a extraordinária memória do homem, a qual lhe
permitia compor e recompor textos que lera e decorara havia muito
tempo. Era capaz, diz Agostinho, de citar o penúltimo verso de cada
livro de Virgílio “rapidamente, em ordem e de memória.[...] Se
pedíamos então que recitasse o verso anterior a cada um daqueles,
fazia-o. E acreditávamos que seria capaz de recitar Vírgílio de
trás para a frente.[...] Se quiséssemos até mesmo trechos em prosa
de discursos de Cícero que havia armazenado na memória, também
isso era capaz de fazer”. Lendo em silêncio ou em voz alta, esse
homem era capaz de imprimir o texto (na expressão de Cícero que
Agostinho gostava de citar) “nas tabuletas de cera da memória”,
para relembrá-lo e recitá-lo quando quisesse, na ordem que
escolhesse, como se estivesse folheando as páginas de um livro. Ao
recordar o texto, ao trazer à mente um livro que um dia teve nas
mãos, esse leitor pode tornar-se o livro, no qual ele e os outros
podem ler.
Em
1658, aos dezoito anos de idade, estudando na abadia de Port Royal
sob o olhar vigilante dos monges cistercienses, Jean Racine descobriu
por acaso um antigo romance grego, Os amores de Teagenes e
Carícleia, cujas noções de amor trágico ele talvez tenha
relembrado anos depois, ao escrever Andrômaco e Berenice.
Racine levou o livro para a floresta que cercava a abadia e começara
a ler com avidez quando foi surpreendido pelo sacristão, que
arrancou o livro das mãos do rapaz e jogou-o numa fogueira. Pouco
depois, Racine conseguiu achar um outro exemplar, que também foi
descoberto e lançado às chamas. Isso o estimulou a comprar um
terceiro exemplar e a decorar o romance inteiro.
Então
entregou-o ao feroz sacristão, dizendo: “Agora podes queimar este
também, como fizeste com os outros”.
Alberto
Manguel, in Uma história da leitura
02/01/2017
O menino que escrevia versos
De
que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que
vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(Versos
do menino que fazia versos)
–
Ele
escreve versos!
Apontou
o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou
os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de
montanha.
–
Há
antecedentes na família?
–
Desculpe,
doutor?
O
médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O
pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino,
nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias.
Tratava-a bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que
conseguira tinha sido em noite de núpcias:
–
Serafina,
você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela
hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade
qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias,
para ela, tinham sido lua-de-mel.
Para
ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado
nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o
lençol. E oleosas confissões de amor.
Tudo
corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do
miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa,
papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a
autoria do feito.
–
São
meus versos, sim.
O
pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era
coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois
o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se
acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se
passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias
dessas que a vida do homem se queda em ponto morto? Dona Serafina
defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele
que fosse examinado.
– O
médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte elétrica.
Queria
tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo,
lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar
por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela
vergonha familiar.
Olhos
baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel.
Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico
se dirigiu ao menino:
–
Dói-te
alguma coisa?
–
Dói-me
a vida, doutor. O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida,
o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Esta a ver,
doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o
miúdo:
– E
o que fazes quando te assaltam essas dores?
– O
que melhor sei fazer, excelência.
– E
o que é?
– É
sonhar.
Serafina
voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não
lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar
longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria
alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o
braço da mãe.
O
médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o
moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada,
inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de
bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou
a começar. O doutor o interrompeu:
–
Não
tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica.
A
mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma
vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o
motivo de tão grave distúrbio.
Contrafeito,
o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse
na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na
semana seguinte, foram os últimos a ser atendidos. O médico,
sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O
menino não entendeu.
–
Não
continuas a escrever?
–
Isto
que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este
pedaço de vida – disse, apontando um novo caderninho – quase a
meio.
O
médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se
poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
–
Não
temos dinheiro, fungou a mãe entre soluços.
–
Não
importa, respondeu o doutor.
Que
ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua
clínica que o menino seria sujeito a devido tratamento.
Hoje
quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e
tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino.
Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai
lendo, verso a verso, o seu próprio coração.
Mia
Couto,
in O
fio das missangas
Poema
A
poesia está guardada nas palavras —
é
tudo que eu sei.
Meu
fado é o de não saber quase tudo.
Sobre
o nada eu tenho profundidades.
Não
tenho conexões com a realidade.
Poderoso
para mim não é aquele que descobre ouro.
Para
mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias
(do mundo e as nossas).
Por
essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei
emocionado e chorei.
Sou
fraco para elogios.
Manoel
de Barros
O homem: selvagem e terrível
O homem no fundo é um animal selvagem e
terrível. Nós o conhecemos unicamente no estado subjugado e
domesticado, denominado civilização: por isso nos assustam as
eventuais erupções de sua natureza. Porém, onde e quando a trava e
a cadeia da ordem jurídica se rompem, e se instaura a anarquia, se
revela o que ele é. Entrementes, quem deseja se esclarecer a
respeito também sem uma tal oportunidade, pode colher a comprovação
de que o homem não deve crueldade e intransigência a nenhum tigre
ou hiena a partir de centenas de relatos antigos e modernos.
Arthur Schopenhauer, in Parerga
e Paralipomena
Bobagem
Emocionado
e um pouco bêbado, aos cinco minutos do ano novo ele resolveu
telefonar para o velho desafeto.
-
Alô?
-
Alô. Sou eu.
-
Eu quem?
-
Eu, pô.
O
outro fez silêncio. Depois disse:
-
Ah. É você.
-
Olha aqui, cara. Eu estou telefonando pra te desejar um feliz
ano-novo. Entendeu?
-
Obrigado. - Obrigado, não. Olha aqui. Sei lá, pô...
-
Feliz ano-novo pra você também.
-
Eu nem me lembro mais por que nós brigamos. Juro que não me lembro.
-
Eu também não lembro.
-
Então, grande. Como vai Vivinha?
-
Bem, bem. Quer dizer, mais ou menos. As enxaquecas...
Ele
ficou engasgado. De repente se deu conta de que tinha saudades até
das enxaquecas da Vivinha. Como podiam ter passado tantos anos sem se
ver?
Como
tinham deixado uma bobagem afastá-los daquela maneira? As pessoas
precisavam se reaproximar. Aquele seria o seu projeto para o fim do
milênio.
Reaproximar-se
das pessoas. Só dar importância ao que aproximava. Puxa?
Estava
tão enternecido com as enxaquecas da Vivinha que mal podia falar.
-
A vida é muito curta. Você está me entendendo? Assim não dá.
Era
como se estivesse reclamando com o fornecedor. A vida vinha com a
carga muito pequena. Era preciso um botijão maior, senão não dava
mesmo.
E
ainda desperdiçavam vida com bobagem.
Ele
quis marcar um encontro para ontem. No Lucas, como antigamente. O
outro foi mais sensato e contrapropôs hoje, prevendo que ontem seria
um dia de ressaca e segundos pensamentos. E tinha razão. Ontem à
noite, ele voltou a telefonar. Falou secamente. Pediu desculpas,
disse que não poderia ir ao encontro e despediu-se com um formal
“Melhoras para a Vivinha”.
Tinha
se lembrado da bobagem que motivara a briga.
Luís
Fernando Veríssimo, in Comédias para se ler na escola
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