05/01/2017

O Beijo (1888-1889), de Auguste Rodin

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Moral: mais sacrifícios do que vale

Podemos dizer sem contemplações à sociedade que aquilo a que ela chama a sua moral custa mais sacrifícios do que o que vale, e que os seus modos de proceder são falhos tanto de sinceridade como de sabedoria.
(...) Dir-se-ia que basta um grande número, que milhões de homens se encontrem reunidos, para que todas as aquisições morais dos indivíduos que os compõem se desvaneçam por completo e não restem já em seu lugar senão as atitudes psíquicas mais primitivas, mais antigas, mais brutais.
Sigmund Freud, in As Palavras de Freud

04/01/2017

Esta é a forma fêmea

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a ação correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jatos límpidos de amor
quentes e enormes, trêmula geleia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e ativa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.
Walt Whitman

A vitória dos néscios

Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o gênio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.
Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas - os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles.
Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a atuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.”
Giovanni Papini, in Relatório sobre os homens

As onças...


Tem uma emoção nova no ar de Pocinhos do Rio Verde, lugar onde planto árvores para meus amigos que partiram para o outro mundo. Agora até mudei de ideia: estou plantando árvores para amigos que ainda não partiram. A minha própria árvore já está com mais de três metros. Pois a nova emoção é um cheiro diferente. É só ir lá para sentir. Antes era só tranquilidade, os cheiros conhecidos do capim-gordura, dos assa-peixes, dos lírios-do-brejo. Pois agora tem um cheiro novo, cheiro de onça... “Eu senti o cheiro dela, quando andava na minha roça de mandioca”, contou-me um sitiante. É, as onças estão voltando. Confesso que fiquei feliz. Minha felicidade é porque estou me sentindo transportado para o passado, os lugares da minha meninice. Naqueles tempos, sim, as onças estavam por toda parte. Jeca Tatuzinho que o diga! Porque, depois de curado de suas lombrigas e de ter tomado três vidros do Biotônico, ele topou com um par de onças no mato. Ouviu o miado. “E eu aqui, sem nem mesmo uma faca...”, ele pensou. Mas medo não teve. Fincou firme as botinas no chão e esperou. A onça chegou, arreganhou a dentuça e pulou com um miado de fazer pedra tremer. Jeca Tatuzinho pregou-lhe um murro nas fuças que fez com que ela rolasse pelo chão. “Conheceu, papuda?!” – foi isso que ele foi dizendo enquanto a estrangulava com suas próprias mãos. A outra onça, vendo o que acontecia, tratou de pôr-se a salvo, e, se os boatos são verdadeiros, está correndo até hoje. Até o Pedrinho, neto da dona Benta, do Sítio do Pica-pau Amarelo, teve uma aventura com uma delas, das pintadas, numa de suas caçadas. Antigamente, quem morava na roça pensava em onça. Me lembro, lá na fazenda velha onde vivi. Todo mundo já tinha topado com onças, todo mundo contava estórias de onças. “Pois eu vinha pela trilha quando, de repente, a cara de uma onça apareceu atráis duma pedra. Peguei a espingarda, mirei no meio dos zoio e pum! – era uma veiz uma onça. Mas aí não aquerditei no que vi. A onça apareceu de novo. Imaginei que estava ruim dos zoio, que estava perdendo a pontaria. Mirei de novo. Pum! – era uma veiz uma onça! Pois não é quela apareceu de novo? E assim foi, a onça aparecendo, eu atirando, ela aparecendo de novo – seis veiz, seis veiz. Aí, ela num apareceu mais. Fui chegando, matreiro, descunfiado, pra vê atráis da pedra. E ocê num vai aquerditá nu qui eu vi: seis onça morta com um tiro no meio da testa...” Pois uma onça, daquelas cinzentas, suçuarana, tamanho de um cão pastor, matou a mula de um homem lá em Pocinhos. Ele chamou os amigos, reuniu a cachorrada, e lá foram em perseguição da onça. Encontraram. Mataram. Mas não adiantou. Apareceu uma outra, igual. Amigos e cachorrada encurralaram a dita. Ela subiu numa árvore. A cachorrada ficou embaixo, latindo. Aí um dos caçadores ponderou que era melhor chamar a Polícia Florestal. Veio o polícia, olhou para a onça encarapitada no galho alto da árvore, e deu o veredito: “Este lugar é terra da onça. Vocês são invasores. A onça fica. Ninguém mata. Vocês se mudem para outro lugar”. Não sei se foi isso mesmo que ele disse, mas foi o que me relataram. Mas, como quem conta um conto aumenta um ponto, como mineiro acredito desacreditando. Me contaram do jeito seguro para saber se a onça está na tocaia. Primeiro é o cheiro. Quem quiser saber qual é o cheiro da onça é só visitar um zoológico. Depois é o barulhinho. Quando a onça está tocaiando, os entendidos me informaram, ela vai mexendo as orelhas para ouvir melhor. E quando ela mexe as orelhas, as orelhas fazem um barulho característico, um “clique” seco, como se fosse um galho quebrado. Assim, quem for andar por trilhas em Pocinhos, que preste atenção nos “cliques”. E cuidado se algum mineiro o convidar para pescar. Pois dizem que aconteceu de verdade. Um mineiro e um paulista estavam pescando, assentados à beira do rio, pitando um cigarrinho de palha, bebendo uma pinguinha, vida que se pediu a Deus – até que se ouviu um miado no mato. “Que miado é esse?”, perguntou assustado o paulista. “Acho que é miado de onça...”, respondeu o mineiro sem se mexer. Outro miado mais forte. “Parece que a onça está vindo pra cá”, disse o paulista. “É, está vindo pra cá”, disse calmamente o mineiro. Um outro rugido terrível. O paulista se apavorou. O mineiro calmamente abriu o embornal, tirou lá de dentro um par de tênis que se pôs a calçar. “Você está louco?”, disse o paulista. “Acha que vai correr mais depressa que a onça?” “Não, não vou correr mais depressa que a onça. O que eu quero é correr mais depressa que você...”
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

Taiguara - Hoje

Sabedoria

Entre outras vantagens, a sabedoria também tem isto de bom: só se pode ser ultrapassado por outro durante a fase de ascensão. Quando se chega ao cume, não mais subsistem diferenças: a sabedoria é um estado constante, não passível de qualquer incremento. Acaso o Sol pode aumentar de tamanho ou a Lua sair da sua órbita? Os oceanos também não crescem; o mundo conserva sempre a sua forma e as suas medidas. Todos os seres que atingiram as suas dimensões ideais já não podem aumentar e, por isso, todos os homens que atingirem a sapiência são de valor inteiramente idêntico. De entre eles, cada um terá as suas qualidades próprias: um poderá ser mais afável, outro mais desembaraçado, outro de palavra mais pronta, outro dotado de maior eloquência. Mas o ponto que nos interessa - a sapiência que gera a beatitude - essa será igual em todos eles.”
Sêneca, in Cartas a Lucílio

Realejo, gaita de boca e outras musiquinhas...

Há quase um século, escrevia Stéphane Mallarmé, de Londres, numa carta a seu amigo Henri:
... Interrompi um instante esta carta para atirar uma moeda a um pobre realejo que se lamenta na praça. São dez horas. O pobre-diabo ainda espera talvez a sua primeira refeição do dia e conta com a sua Marselhesa para comprar um penny de pão no vendeiro da esquina. Que tristes reflexões não tem ele a fazer diante de todas essas janelas fechadas e como deve desesperar — vendo esses postigos aferrolhados, essas cortinas descidas — de que qualquer mão aquecida a um bom fogo abra e atravesse tudo isso para lhe lançar o que comer! Tocar diante de uma janela acesa, ainda bem: vê-se vida e portanto bondade atrás das vidraças, mas tocar manivela diante dos postigos sombrios como o muro e indiferentes como ele! Marie diz que esse homem é um preguiçoso e que os verdadeiros pobres merecem mais os nossos pence. Isto não. Esse homem faz música nas ruas, é um ofício como o de notário e que tem sobre este último a vantagem de ser inútil.
Pode-se acaso sonhar uma vida mais bela do que essa que consiste em errar pelos caminhos e fazer a esmola de uma ária triste ou alegre à primeira janela que se avista, sem saber quem ali porá a cabeça, se um anjo ou uma megera, em tocar para as calçadas, para os pardais, para as árvores doentias das praças?! São aedos, esses homens... Seu instrumento é grotesco? Seja, mas a intenção permanece.”
A intenção... Mallarmé acertou no ponto: é na intenção que está o supremo encanto de todos esses instrumentos frustros... O realejo, a gaitinha de boca... É verdade que existem os virtuosi da gaitinha de boca, mas atrevo-me a dizer que esses não sabem tocar... Gaitinha de boca bem tocada não é gaitinha de boca. E outra coisa: falta-lhe o poder de sugestão, a graça melancólica do inatingido...
E havia, nos pátios da minha meninice, um outro instrumento, o mais humilde de todos, tão humilde que nem chegava a ser um instrumento... Mas, por isso mesmo era tão da gente que não se queria outro... E fico a lembrar o negrinho Filó; era um artista no pente.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

03/01/2017

Poema V

Companheiro, morto desassombrado, rosácea ensolarada
quem senão eu, te cantará primeiro. Quem senão eu
pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu
que bebi na tua boca a fúria de umas águas
eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei
porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”.
Ah! Se soubesses como ficou difícil a Poesia.
Triste garganta o nosso tempo, TRISTE TRISTE.
E mais um tempo, nem será lícito ao poeta ter memória
e cantar de repente: “os arados van e vên
dende a Santiago a Belén”.

Os cardos, companheiro, a aspereza, o luto
a tua morte outra vez, a nossa morte, assim o mundo:
deglutindo a palavra cada vez e cada vez mais fundo.
Que dor de te saber tão morto. Alguns dirão:
Mas se está vivo, não vês? Está vivo! Se todos o celebram
Se tu cantas! ESTÁS MORTO. Sabes por quê?

“El passado se pone
su coraza de hierro
y tapa sus oídos
con algodón del viento.
Nunca podrá arrancársele
un secreto.”

E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade. E vermelhos
azuis, braços e amarelos hão de gritar: morte aos poetas!
Morte a todos aqueles de lúcidas artérias, tatuados
de infância, de plexo aberto, exposto aos lobos. Irmão.
Companheiro. Que dor de te saber tão morto.
Hilda Hilst

Frida


Tina Modotti não está sozinha frente aos inquisidores. Está acompanhada, de cada braço, por seus camaradas Diego Rivera e Frida Kahlo: o imenso buda pintor e sua pequena Frida, pintora também, a melhor amiga de Tina, que parece uma misteriosa princesa do Oriente mas diz mais palavrões e bebe mais tequila que um mariachi de Jalisco.
Frida ri às gargalhadas e pinta esplêndidas telas desde o dia em que foi condenada à dor incessante.
A primeira dor ocorreu lá longe, na infância, quando seus pais a disfarçaram de anjo e ela quis voar com asas de palha; mas a dor de nunca acabar chegou num acidente de rua, quando um ferro de bonde cravou-se de um lado a outro em seu corpo, como uma lança, e triturou seus ossos. Desde então ela é uma dor que sobrevive. Foi operada, em vão, muitas vezes; e na cama de hospital começou a pintar seus autorretratos, que são desesperadas homenagens à vida que lhe sobra.
Eduardo Galeano, in Mulheres

O cavalo que bebia cerveja

Essa chácara do homem ficava meio ocultada, escurecida pelas árvores, que nunca se viu plantar tamanhas tantas em roda de uma casa. Era homem estrangeiro. De minha mãe ouvi como, no ano da espanhola, ele chegou, acautelado e espantado, para adquirir aquele lugar de todo defendimento, e a morada, donde de qualquer janela alcançasse de vigiar a distância, mãos na espingarda; nesse tempo, não sendo ainda tão gordo, de fazer nojo. Falavam que comia a quanta imundície: caramujo, até rã, com as braçadas de alfaces, embebidas num balde de água. Ver, que almoçava e jantava, da parte de fora, sentado na soleira da porta, o balde entre suas grossas pernas, no chão, mais as alfaces; tirante que, a carne, essa, legítima de vaca, cozinhada. Demais gastasse era com cerveja, que não bebia à vista da gente. Eu passava por lá, ele me pedia: — “Irivalíni, bisonha outra garrafa, é para o cavalo...” Não gosto de perguntar, não achava graça. Às vezes eu não trazia, às vezes trazia, e ele me indenizava o dinheiro, me gratificando. Tudo nele me dava raiva. Não aprendia a referir meu nome direito. Desfeita ou ofensa, não sou o de perdoar — a nenhum de nenhuma.
Minha mãe e eu sendo das poucas pessoas que atravessávamos por diante da porteira, para pegar a pinguela do riacho. — “Dei’stá, coitado, penou na guerra...” — minha mãe explicando. Ele se rodeava de diversos cachorros, graúdos, para vigiarem a chácara. De um, mesmo não gostasse, a gente via, o bicho em sustos, antipático — o menos bem tratado; e que fazia, ainda assim, por não se arredar de ao pé dele, que estava, a toda a hora, de desprezo, chamando o endiabrado do cão: por nome “Mussulino”. Eu remoía o rancor: de que, um homem desses, cogotudo, panturro, rouco de catarros, estrangeiro às náuseas — se era justo que possuísse o dinheiro e estado, vindo comprar terra cristã, sem honrar a pobreza dos outros, e encomendando dúzias de cerveja, para pronunciar a feia fala. Cerveja? Pelo fato, tivesse seus cavalos, os quatro ou três, sempre descansados, neles não amontava, nem aguentasse montar. Nem caminhar, quase, não conseguia. Cabrão! Parava pitando, uns charutos pequenos, catinguentos, muito mascados e babados. Merecia um bom corrigimento. Sujeito sistemático, com sua casa fechada, pensasse que todo o mundo era ladrão.
Isto é, minha mãe ele estimava, tratava com as benevolências. Comigo, não adiantava — não dispunha de minha ira. Nem quando minha mãe grave adoeceu, e ele ofertou dinheiro, para os remédios. Aceitei; quem é que vive de não? Mas não agradeci. Decerto ele tinha remorso, de ser estrangeiro e rico. E, mesmo, não adiantou, a santa de minha mãe se foi para as escuridões, o danado do homem se dando de pagar o enterro. Depois, indagou se eu queria vir trabalhar para ele. Sofismei, o quê. Sabia que sou sem temor, em meus altos, e que enfrento uns e outros, no lugar a gente pouco me encarava. Só se fosse para ter a minha proteção, dia e noite, contra os issos e vindiços. Tanto, que não me deu nem meio serviço por cumprir, senão que eu era para burliquear por lá, contanto que com as armas. Mas, as compras para ele, eu fazia. — “Cerveja, Irivalíni. É para o cavalo...” — o que dizia, a sério, naquela língua de bater ovos. Tomara ele me xingasse! Aquele homem ainda havia de me ver.
Do que mais estranhei, foram esses encobrimentos. Na casa, grande, antiga, trancada de noite e de dia, não se entrava; nem para comer, nem para cozinhar. Tudo se passava da banda de cá das portas. Ele mesmo, figuro que raras vezes por lá se introduzia, a não ser para dormir, ou para guardar a cerveja — ah, ah, ah — a que era para o cavalo. E eu, comigo: — “Tu espera, porco, para se, mais dia menos dia, eu não estou bem aí, no haja o que há!” Seja que, por essa altura, eu devia ter procurado as corretas pessoas, narrar os absurdos, pedindo providências, soprar minhas dúvidas. O que fácil não fiz. Sou de nem palavras. Mas, por aí, também, apareceram aqueles — os de fora.
Sonsos os dois homens, vindos da capital. Quem para eles me chamou, foi o seo Priscílio, subdelegado. Me disse: — “Reivalino Belarmino, estes aqui são de autoridade, por ponto de confiança.” E os de fora, me pegando à parte, puxaram por mim, às muitas perguntas. Tudo, para tirar tradição do homem, queriam saber, em pautas ninharias. Tolerei que sim; mas nada não fornecendo. Quem sou eu, quati, para cachorro me latir? Só cismei escrúpulos, pelas más caras desses, sujeitos embuçados, salafrados também. Mas, me pagaram, o bom quanto. O principal deles dois, o de mão no queixo, me encarregou: que, meu patrão, sendo homem muito perigoso, se ele vivia mesmo sozinho? E que eu reparasse, na primeira ocasião, se ele não tinha numa perna, em baixo, sinal velho de coleira, argolão de ferro, de criminoso fugido de prisão. Pois sim, piei prometi.
Perigoso, para mim? — ah, ah. Pelo que, vá, em sua mocidade, podendo ter sido homem. Mas, agora, em pança, regalão, remanchão, somente quisesse a cerveja — para o cavalo. Desgraçado, dele. Não que eu me queixasse, por mim, que nunca apreciei cerveja; gostasse, comprava, bebia, ou pedia, ele mesmo me dava. Ele falava que também não gostava, não. De verdade. Consumia só a quantidade de alfaces, com carne, boquicheio, enjooso, mediante muito azeite, lambia que espumava. Por derradeiro, estava meio estramontado, soubesse da vinda dos de fora? Marca de escravo em perna dele, não observei, nem fiz por isso. Sou lá serviçal de meirinho-mor, desses, escogitados, de tantos visares? Mas eu queria jeito de entender, nem que por uma fresta, aquela casa, debaixo de chaves, espreitada. Os cachorros já estando mansos amigáveis. Mas, parece que seo Giovânio desconfiou. Pois, por minha hora de surpresa, me chamou, abriu a porta. Lá dentro, até fedia a coisa sempre em tampa, não dava bom ar. A sala, grande, vazia de qualquer amobiliado, só para espaços. Ele, nem que de propósito, me deixou olhar à minha conta, andou comigo, por diversos cômodos, me satisfiz. Ah, mas, depois, cá comigo, ganhei conselho, ao fim da idéia: e os quartos? Havia muitos desses, eu não tinha entrado em todos, resguardados. Por detrás de alguma daquelas portas, pressenti bafo de presença — só mais tarde? Ah, o carcamano queria se birbar de esperto; e eu não era mais?
Demais que, uns dias depois, se soube de ouvidos, tarde da noite, diferentes vezes, galopes no ermo da várzea, de cavaleiro saído da porteira da chácara. Pudesse ser? Então, o homem tanto me enganava, de formar uma fantasmagoria, de lobisomem. Só aquela divagação, que eu não acabava de entender, para dar razão de alguma coisa: se ele tivesse, mesmo, um estranho cavalo, sempre escondido ali dentro, no escuro da casa?
Seo Priscílio me chamou, justo, outra vez, naquela semana. Os de fora estavam lá, de colondria, só entrei a meio na conversa; um deles dois, escutei que trabalhava para o “Consulado”. Mas contei tudo, ou tanto, por vingança, com muito caso. Os de fora, então, instaram com o seo Priscílio. Eles queriam permanecer no oculto, seo Priscílio devia de ir sozinho. Mais me pagaram.
Eu estava por ali, fingindo não ser nem saber, de mão-posta. Seo Priscílio apareceu, falou com seo Giovânio: se que estórias seriam aquelas, de um cavalo beber cerveja? Apurava com ele, apertava. Seo Giovânio permanecia muito cansado, sacudia devagar a cabeça, fungando o escorrido do nariz, até o toco do charuto; mas não fez mau rosto ao outro. Passou muito a mão na testa: — “Lei, quer ver?” Saiu, para surgir com um cesto com as garrafas cheias, e uma gamela, nela despejou tudo, às espumas. Me mandou buscar o cavalo: o alazão canela-clara, bela-face. O qual — era de se dar a fé? — já avançou, avispado, de atreitas orelhas, arredondando as ventas, se lambendo: e grosso bebeu o rumor daquilo, gostado, até o fundo; a gente vendo que ele já era manhudo, cevado naquilo! Quando era que tinha sido ensinado, possível? Pois, o cavalo ainda queria mais e mais cerveja. Seo Priscílio se vexava, no que agradeceu e se foi. Meu patrão assoviou de esguicho, olhou para mim: — “Irivalíni, que estes tempos vão cambiando mal. Não laxa as armas!” Aprovei. Sorri de que ele tivesse as todas manhas e patranhas. Mesmo assim, meio me desgostava.
Sobre o tanto, quando os de fora tornaram a vir, eu falei, o que eu especulava: que alguma outra razão devia de haver, nos quartos da casa. Seo Priscílio, dessa vez, veio com um soldado. Só pronunciou: que queria revistar os cômodos, pela justiça! Seo Giovânio, em pé de paz, acendeu outro charuto, ele estava sempre cordo. Abriu a casa, para seo Priscílio entrar, o soldado; eu, também. Os quartos? Foi direto a um, que estava duro de trancado. O do pasmoso: que, ali dentro, enorme, só tinha o singular — isto é, a coisa a não existir! — um cavalão branco, empalhado. Tão perfeito, a cara quadrada, que nem um de brinquedo, de menino; reclaro, branquinho, limpo, crinado e ancudo, alto feito um de igreja — cavalo de São Jorge. Como podiam ter trazido aquilo, ou mandado vir, e entrado ali acondicionado? Seo Priscílio se desenxaviu, sobre toda a admiração. Apalpou ainda o cavalo, muito, não achando nele oco nem contento. Seo Giovânio, no que ficou sozinho comigo, mascou o charuto: — “Irivalíni, pecado que nós dois não gostemos de cerveja, hem?” Eu aprovei. Tive a vontade de contar a ele o que por detrás estava se passando.
Seo Priscílio, e os de fora, estivessem agora purgados de curiosidades. Mas eu não tirava o sentido disto: e os outros quartos, da casa, o atrás de portas? Deviam ter dado a busca por inteiro, nela, de uma vez. Seja que eu não ia lembrar esse rumo a eles, não sou mestre de quinaus. Seo Giovânio conversava mais comigo, banzativo: — “Irivalíni, eco, a vida é bruta, os homens são cativos...” Eu não queria perguntar a respeito do cavalo branco, frioleiras, devia de ter sido o dele, na guerra, de suma estimação. — “Mas, Irivalíni, nós gostamos demais da vida...” Queria que eu comesse com ele, mas o nariz dele pingava, o ranho daquele monco, fungando, em mal assôo, e ele fedia a charuto, por todo lado. Coisa terrível, assistir aquele homem, no não dizer suas lástimas. Saí, então, fui no seo Priscílio, falei: que eu não queria saber de nada, daqueles, os de fora, de coscuvilho, nem jogar com o pau de dois bicos! Se tornassem a vir, eu corria com eles, despauterava, escaramuçava — alto aí! — isto aqui é Brasil, eles também eram estrangeiros. Sou para sacar faca e arma. Seo Priscílio sabia. Só não soubesse das surpresas.
Sendo que foi de repente. Seo Giovânio abriu de em par a casa. Me chamou: na sala, no meio do chão, jazia um corpo de homem, debaixo de lençol. — “Josepe, meu irmão”... — ele me disse, embargado. Quis o padre, quis o sino da igreja para badalar as vezes dos três dobres, para o tristemente. Ninguém tinha sabido nunca o qual irmão, o que se fechava escondido, em fuga da comunicação das pessoas. Aquele enterro foi muito conceituado. Seo Giovânio pudesse se gabar, ante todos. Só que, antes, seo Priscílio chegou, figuro que os de fora a ele tinham prometido dinheiro; exigiu que se levantasse o lençol, para examinar. Mas, aí, se viu só o horror, de nós todos, com caridade de olhos: o morto não tinha cara, a bem dizer — só um buracão, enorme, cicatrizado antigo, medonho, sem nariz, sem faces — a gente devassava alvos ossos, o começo da goela, gargomilhos, golas. — “Que esta é a guerra...” — seu Giovânio explicou — boca de bobo, que se esqueceu de fechar, toda doçuras.
Agora, eu queria tomar rumo, ir puxando, ali não me servia mais, na chácara estúrdia e desditosa, com o escuro das árvores, tão em volta. Seo Giovânio estava da banda de fora, conforme seu costume de tantos anos. Mais achacoso, envelhecido, subitamente, no trespassamento da manifesta dor. Mas comia, sua carne, as cabeças de alfaces, no balde, fungava. — “Irivalíni... que esta vida... bisonha. Caspité?” — perguntava, em todo tom de canto. Ele avermelhadamente me olhava. — “Cá eu pisco...” — respondi. Não por nojo, não dei um abraço nele, por vergonha, para não ter também as vistas lagrimadas. E, então, ele fez a mais extravagada coisa: abriu cerveja, a que quanta se espumejasse. — “Andamos, Irivalíni, contadino, bambino?” — propôs. Eu quis. Aos copos, aos vintes e trintas, eu ia por aquela cerveja, toda. Sereno, ele me pediu para levar comigo, no ir-m’embora, o cavalo — alazão bebedor — e aquele tristoso cachorro magro, Mussulino.
Não avistei mais o meu Patrão. Soube que ele morreu, quando em testamento deixou a chácara para mim. Mandei erguer sepulturas, dizer as missas, por ele, pelo irmão, por minha mãe. Mandei vender o lugar, mas, primeiro, cortarem abaixo as árvores, e enterrar no campo o trem, que se achava, naquele referido quarto. Lá nunca voltei. Não, que não me esqueço daquele dado dia — o que foi uma compaixão. Nós dois, e as muitas, muitas garrafas, na hora cismei que um outro ainda vinha sobrevir, por detrás da gente, também, por sua parte: o alazão façalvo; ou o branco enorme, de São Jorge; ou o irmão, infeliz medonhamente. Ilusão, que foi, nenhum ali não estava. Eu, Reivalino Belarmino, capisquei. Vim bebendo as garrafas todas, que restavam, faço que fui eu que tomei consumida a cerveja toda daquela casa, para fecho de engano.
Guimarães Rosa, in Primeiras estórias

Mas há a vida

Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver

Anésia, a Sincera

anesia-cor-vestido-dolores 
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O livro da memória (trecho)

Estou nas ruínas de Cartago, na Tunísia. As pedras são romanas, pedaços de muros construídos depois que a cidade foi destruída por Cipião Emiliano, em 346 a.C., quando o império cartaginês tornou-se província de Roma e foi rebatizado de África. Aqui, santo Agostinho, quando era jovem, ensinou retórica antes de ir para Milão. Perto dos quarenta anos de idade, atravessou o Mediterrâneo novamente, para estabelecer-se em Hipona, onde hoje é a Argélia; morreu ali em 430 d.C., quando os vândalos montavam o cerco à cidade.
Trouxe comigo minha edição escolar das Confissões, um volume fino Classiques Roma, de capa cor de laranja, que meu professor de latim preferia a todas as outras edições.
Nestas ruínas, com o livro nas mãos, experimento um certo sentimento de camaradagem para com o grande poeta renascentista Francesco Petrarca, que sempre levava consigo uma edição de bolso de Agostinho. Ao ler as Confissões, sentiu que a voz de Agostinho falava tão intimamente com ele que, perto do fim da vida, compôs três diálogos imaginários com o santo, publicados postumamente com o título de Secretum meum.
Uma observação a lápis na margem de minha edição comenta os comentários de Petrarca, como se continuasse aqueles diálogos imaginários.
É verdade que algo no tom de Agostinho sugere uma intimidade confortável, propícia a compartilhar segredos. Quando abro o livro, minhas anotações na margem trazem-me à lembrança a ampla sala de aula do Colégio Nacional de Buenos Aires, onde as paredes tinham a cor da areia cartaginesa, e recordo a voz de meu professor recitando as palavras de Agostinho, recordo nossos debates pomposos (tínhamos quatorze, quinze, dezesseis anos?) sobre responsabilidade política e realidade metafísica. O livro preserva não só a memória daquela adolescência distante, de meu professor (já morto), das leituras de Agostinho por Petrarca, que nosso professor lia com aprovação, mas também de Agostinho e suas salas de aula, da Cartago que foi construída sobre a Cartago destruída, para ser destruída novamente. A poeira dessas ruínas é muito mais velha que o livro, mas o livro também as contém, Agostinho observou e depois escreveu o que recordava. Entre minhas mãos, o livro relembra duas vezes.
Talvez tenha sido a sensualidade (que ele tanto tentou reprimir) que fez de Agostinho um observador tão agudo. Ele parece ter passado a parte final de sua vida num estado paradoxal de descoberta e distração, maravilhando-se com o que seus sentidos lhe ensinavam e, no entanto, pedindo a Deus que afastasse dele as tentações do prazer físico. O hábito de ler em silêncio de Ambrósio foi observado porque Agostinho cedeu à curiosidade de seus olhos, e as palavras no jardim foram ouvidas porque ele se entregou aos odores da relva e à canção de pássaros invisíveis.
Não foi apenas a possibilidade de ler em silêncio que surpreendeu Agostinho. Escrevendo sobre um antigo colega de escola, ele chamou a atenção para a extraordinária memória do homem, a qual lhe permitia compor e recompor textos que lera e decorara havia muito tempo. Era capaz, diz Agostinho, de citar o penúltimo verso de cada livro de Virgílio “rapidamente, em ordem e de memória.[...] Se pedíamos então que recitasse o verso anterior a cada um daqueles, fazia-o. E acreditávamos que seria capaz de recitar Vírgílio de trás para a frente.[...] Se quiséssemos até mesmo trechos em prosa de discursos de Cícero que havia armazenado na memória, também isso era capaz de fazer”. Lendo em silêncio ou em voz alta, esse homem era capaz de imprimir o texto (na expressão de Cícero que Agostinho gostava de citar) “nas tabuletas de cera da memória”, para relembrá-lo e recitá-lo quando quisesse, na ordem que escolhesse, como se estivesse folheando as páginas de um livro. Ao recordar o texto, ao trazer à mente um livro que um dia teve nas mãos, esse leitor pode tornar-se o livro, no qual ele e os outros podem ler.
Em 1658, aos dezoito anos de idade, estudando na abadia de Port Royal sob o olhar vigilante dos monges cistercienses, Jean Racine descobriu por acaso um antigo romance grego, Os amores de Teagenes e Carícleia, cujas noções de amor trágico ele talvez tenha relembrado anos depois, ao escrever Andrômaco e Berenice. Racine levou o livro para a floresta que cercava a abadia e começara a ler com avidez quando foi surpreendido pelo sacristão, que arrancou o livro das mãos do rapaz e jogou-o numa fogueira. Pouco depois, Racine conseguiu achar um outro exemplar, que também foi descoberto e lançado às chamas. Isso o estimulou a comprar um terceiro exemplar e a decorar o romance inteiro.
Então entregou-o ao feroz sacristão, dizendo: “Agora podes queimar este também, como fizeste com os outros”.
Alberto Manguel, in Uma história da leitura

02/01/2017

Impossível?

O impossível reside nas mãos inertes daqueles que não tentam.
Epicuro

O menino que escrevia versos

De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei?
(Versos do menino que fazia versos)

Ele escreve versos!
Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.
Há antecedentes na família?
Desculpe, doutor?
O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava-a bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:
Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.
Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel.
Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.
Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.
São meus versos, sim.
O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto? Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.
O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte elétrica.
Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.
Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:
Dói-te alguma coisa?
Dói-me a vida, doutor. O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Esta a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:
E o que fazes quando te assaltam essas dores?
O que melhor sei fazer, excelência.
E o que é?
É sonhar.
Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.
O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:
Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clínica psiquiátrica.
A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio.
Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.
Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendidos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.
Não continuas a escrever?
Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida – disse, apontando um novo caderninho – quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
Não temos dinheiro, fungou a mãe entre soluços.
Não importa, respondeu o doutor.
Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica que o menino seria sujeito a devido tratamento.
Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto de internamento do menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração.
Mia Couto, in O fio das missangas

Poema

A poesia está guardada nas palavras —
é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
Manoel de Barros

Beto Guedes - Lágrima de Amor

O homem: selvagem e terrível

O homem no fundo é um animal selvagem e terrível. Nós o conhecemos unicamente no estado subjugado e domesticado, denominado civilização: por isso nos assustam as eventuais erupções de sua natureza. Porém, onde e quando a trava e a cadeia da ordem jurídica se rompem, e se instaura a anarquia, se revela o que ele é. Entrementes, quem deseja se esclarecer a respeito também sem uma tal oportunidade, pode colher a comprovação de que o homem não deve crueldade e intransigência a nenhum tigre ou hiena a partir de centenas de relatos antigos e modernos.
Arthur Schopenhauer, in Parerga e Paralipomena

Bobagem

Emocionado e um pouco bêbado, aos cinco minutos do ano novo ele resolveu telefonar para o velho desafeto.
- Alô?
- Alô. Sou eu.
- Eu quem?
- Eu, pô.
O outro fez silêncio. Depois disse:
- Ah. É você.
- Olha aqui, cara. Eu estou telefonando pra te desejar um feliz ano-novo. Entendeu?
- Obrigado. - Obrigado, não. Olha aqui. Sei lá, pô...
- Feliz ano-novo pra você também.
- Eu nem me lembro mais por que nós brigamos. Juro que não me lembro.
- Eu também não lembro.
- Então, grande. Como vai Vivinha?
- Bem, bem. Quer dizer, mais ou menos. As enxaquecas...
Ele ficou engasgado. De repente se deu conta de que tinha saudades até das enxaquecas da Vivinha. Como podiam ter passado tantos anos sem se ver?
Como tinham deixado uma bobagem afastá-los daquela maneira? As pessoas precisavam se reaproximar. Aquele seria o seu projeto para o fim do milênio.
Reaproximar-se das pessoas. Só dar importância ao que aproximava. Puxa?
Estava tão enternecido com as enxaquecas da Vivinha que mal podia falar.
- A vida é muito curta. Você está me entendendo? Assim não dá.
Era como se estivesse reclamando com o fornecedor. A vida vinha com a carga muito pequena. Era preciso um botijão maior, senão não dava mesmo.
E ainda desperdiçavam vida com bobagem.
Ele quis marcar um encontro para ontem. No Lucas, como antigamente. O outro foi mais sensato e contrapropôs hoje, prevendo que ontem seria um dia de ressaca e segundos pensamentos. E tinha razão. Ontem à noite, ele voltou a telefonar. Falou secamente. Pediu desculpas, disse que não poderia ir ao encontro e despediu-se com um formal “Melhoras para a Vivinha”.
Tinha se lembrado da bobagem que motivara a briga.
Luís Fernando Veríssimo, in Comédias para se ler na escola