08/09/2014
Carpe diem!
“Por que não aproveitar o prazer de uma vez? Quão
frequentemente a felicidade é destruída por tolos preparativos!”
Jane
Austen
Celebração da amizade - 2
Juan
Gelman me contou que uma senhora brigou a guarda-chuvadas, numa avenida de
Paris, contra uma brigada inteira de funcionários municipais. Os funcionários
estavam caçando pombos quando ela emergiu de um incrível Ford bigode, um carro
de museu, daqueles que funcionavam a manivela; e brandindo seu guarda-chuva, lançou-se
ao ataque.
Agitando
os braços abriu caminho, e seu guarda-chuva justiceiro arrebentou as redes onde
os pombos tinham sido aprisionados. Então, enquanto os pombos fugiam em alvoroço
branco, a senhora avançou a guarda-chuvadas contra os funcionários.
Os
funcionários só atinaram em se proteger, como puderam, com os braços, e
balbuciavam protestos que ela não ouvia: mais respeito, minha senhora, faça-me
o favor, estamos trabalhando, são ordens superiores, senhora, por que não vai
bater no prefeito?, Senhora, que bicho picou a senhora?, esta mulher endoidou...
Quando
a indignada senhora cansou o braço, e apoiou-se numa parede para tomar fôlego,
os funcionários exigiram uma explicação.
Depois
de um longo silêncio, ela disse: — Meu filho morreu.
Os
funcionários disseram que lamentavam muito, mas que eles não tinham culpa. Também
disseram que naquela manhã tinham muito o que fazer, a senhora compreende...
—
Meu filho morreu — repetiu ela.
E
os funcionários: sim, claro, mas que eles estavam ganhando a vida, que existem milhões
de pombos soltos por Paris, que os pombos são a ruina desta cidade...
—
Cretinos — fulminou a senhora.
E
longe dos funcionários, longe de tudo, disse:
—
Meu filho morreu e se transformou em pombo.
Os
funcionários calaram e ficaram pensando um tempão. Finalmente, apontando os
pombos que andavam pelos céus e telhados e calçadas, propuseram:
—
Senhora: por que não leva seu filho embora e deixa a gente trabalhar?
Ela
ajeitou o chapéu preto:
—
Ah!, não! De jeito nenhum!
Olhou
através dos funcionários, como se fossem de vidro, e disse muito serena:
— Eu não sei qual dos pombos é meu filho.
E se soubesse, também não ia levá-lo embora. Que direito tenho eu de separá-lo
de seus amigos?
Eduardo
Galeano, in O livro dos abraços
O Melhor Da Vida | Marcelo Jeneci
O que vale nessa vida
Tem um pouco do seu jeito
Jeito do seu corpo, jeito do seu pensamento
Jeito de gostar dos outros cada vez gostando mais
Do seu jeito de falar tranquilo
Como quem promete e faz
O que vale nessa vida é ver como você aproveita
Desde a hora que levanta até a hora que deita
Quando escolhe a coisa certa é tudo sem receita
Quando perto de você a própria confusão se ajeita bem
E me vem que a vida vale mil
Mil vezes sou nós dois
Mil meses de amor
Antes de ter prorrogação
Se a vida é por um fio
Valeu pra quem já viu
Seu jeito de tocar no coração
E nas noites que o tempo para e você me abraça
Sinto que o melhor da vida sempre vem de graça
Sinto que o melhor momento é aquele que não quer passar
E que dura toda a eternidade
E isso é só pra começar
O que vale nessa vida, vale como um bom presente
Cai do céu, um bem que a gente sente
Vem como você vem antes de eu me preparar
E me diz: vai ficar aqui, pois aqui é seu lugar
E me vem que a vida vale mil
Mil vezes sou nós dois
Mil meses de amor
Antes de ter prorrogação
Se a vida é por um fio
Valeu pra quem já viu
Seu jeito de tocar no coração.
Tem um pouco do seu jeito
Jeito do seu corpo, jeito do seu pensamento
Jeito de gostar dos outros cada vez gostando mais
Do seu jeito de falar tranquilo
Como quem promete e faz
O que vale nessa vida é ver como você aproveita
Desde a hora que levanta até a hora que deita
Quando escolhe a coisa certa é tudo sem receita
Quando perto de você a própria confusão se ajeita bem
E me vem que a vida vale mil
Mil vezes sou nós dois
Mil meses de amor
Antes de ter prorrogação
Se a vida é por um fio
Valeu pra quem já viu
Seu jeito de tocar no coração
E nas noites que o tempo para e você me abraça
Sinto que o melhor da vida sempre vem de graça
Sinto que o melhor momento é aquele que não quer passar
E que dura toda a eternidade
E isso é só pra começar
O que vale nessa vida, vale como um bom presente
Cai do céu, um bem que a gente sente
Vem como você vem antes de eu me preparar
E me diz: vai ficar aqui, pois aqui é seu lugar
E me vem que a vida vale mil
Mil vezes sou nós dois
Mil meses de amor
Antes de ter prorrogação
Se a vida é por um fio
Valeu pra quem já viu
Seu jeito de tocar no coração.
07/09/2014
O humano, esse estranho
“Como é estranha a vida! O ser humano se
apressa em afugentar o próprio destino que tenciona atrair.”
Vladimir
Nabokov, in Lolita
Meu Deus
“Na
Europa eles têm um Deus diferente?”, perguntou o sheik em tom de brincadeira,
dando um tapinha nas costas de Ka.
“Eu quero um Deus que não me peça para
tirar os sapatos em sua presença e que não me obrigue a me pôr de joelhos para
beijar a mão das pessoas. Eu quero um Deus que entenda minha necessidade de
solidão”.
Orhan Pamuk, in Neve
Para ser solidários
Cliff
diz que a obra de Sylvia Plath é muito deprimente de se ler, e que a filha dele
penou muito ao ler recentemente A
redoma de vidro, porque ela está fazendo um curso de literatura
americana na Eastern High School.
– E
você não reclamou com a direção? – perguntei.
– A
respeito de quê?
– De
sua filha ser obrigada a ler histórias tão deprimentes.
– Não.
Claro que não. Por que eu faria isso?
– Por esse
romance ensina os jovens a serem pessimistas. Nenhuma esperança no fim, nenhum
final feliz. Os adolescentes devem aprender que…
– A
vida é dura, Pat, e os jovem têm de saber quão difícil ela pode ser.
– Por
quê?
– Para que sejam solidários. Para
que compreendam que algumas pessoas têm mais dificuldades do que eles e que uma
passagem por este mundo pode ser uma experiência totalmente diferente,
dependendo de quais substâncias químicas estão ativas na mente de um indivíduo.
Mattew
Quick, in O lado bom da vida
Mais segura
"Para conseguir efeitos grandes, e
para levar a cabo empresas dificultosas, mais segura é uma ignorância bem
aconselhada, que uma ciência presumida."
Padre
Antônio Vieira
05/09/2014
Perguntas e respostas
“A resposta certa, não importa nada: o
essencial é que as perguntas estejam certas.”
Mário
Quintana
03/09/2014
Considerações sobre a educação
Vou
falar de questões que, independentemente do espaço e do tempo, sempre estiveram
e sempre estarão relacionadas com a educação. Nesta tentativa não posso dizer
que sou uma autoridade, particularmente tão inteligente e bem-intencionado como
os homens que ao longo do tempo trataram dos problemas da educação e que
certamente exprimiram repetidas vezes os seus pontos de vista acerca destas
matérias. Com que base posso eu, um leigo no âmbito da pedagogia, arranjar
coragem para exprimir opiniões sem qualquer fundamento, exceto a minha
experiência pessoal e a minha convicção pessoal? Quando se trata de uma matéria
científica, é fácil uma pessoa sentir-se tentada a ficar calada com base nestas
considerações.
Contudo,
tratando-se de assuntos respeitantes ao ser humano, é diferente. Neste caso, o
conhecimento apenas da verdade não é suficiente; pelo contrário, este
conhecimento deve ser continuamente renovado à custa de um esforço contínuo, sob
pena de se perder. Lembra uma estátua de mármore no deserto que está
continuamente em perigo de ser enterrada pela areia em movimento. As mãos de
serviço têm de estar continuamente a trabalhar para que o mármore continue
indefinidamente a brilhar ao sol. A este grupo de mãos também pertencem as
minhas.
A
escola sempre foi o mais importante meio de transferência da riqueza da
tradição de uma geração para a seguinte. Hoje isto aplica-se ainda mais do que
antigamente, porque, através do desenvolvimento moderno da vida econômica, o
papel da família como entidade portadora da tradição e da educação tem
enfraquecido. A continuidade e a saúde da sociedade humana estão, portanto,
ainda mais dependentes da escola do que anteriormente.
A
influência educacional que é exercida sobre o aluno pela realização de um certo
trabalho pode ser muito diferente, dependendo de o sentimento subjacente a este
trabalho ser dor, paixão egoísta ou desejo de prazer e satisfação. E ninguém
pode afirmar que a administração da escola e a atitude dos professores não têm
influência no modo como moldam as bases psicológicas dos alunos.
Quanto
a mim, a pior coisa parece ser uma escola que trabalhe principalmente com
métodos baseados no medo, na força e na autoridade artificial. Esse tratamento
destrói os bons sentimentos, a sinceridade e a autoconfiança do aluno. Produz o
sujeito submisso.
O
segundo motivo referido, a ambição, ou, em termos mais suaves, o desejo de
reconhecimento e consideração, está firmemente associado à natureza humana. Na
ausência de estímulo mental deste tipo, a cooperação humana seria completamente
impossível; o desejo de aprovação por um colega é certamente uma das forças de
coesão mais poderosas da sociedade. Neste complexo de sentimentos, as forças
construtivas e destrutivas estão muito próximas. O desejo de aprovação e
reconhecimento é um motivo saudável, mas o desejo de ser reconhecido como
melhor, mais forte ou mais inteligente do que outra pessoa ou mais estudioso
conduz facilmente a um estado psicológico excessivamente egoísta, que pode
tornar-se prejudicial para o indivíduo e para a comunidade. Consequentemente, a
escola e o professor devem abster-se de utilizarem o método fácil de incentivar
a ambição individual por forma a levarem os seus alunos a trabalhar. Devemos
abster-nos de incentivar nos jovens a luta pelo sucesso na forma usual como o
principal objetivo de vida. O motivo mais importante para trabalhar na escola e
na vida é o prazer no trabalho, o prazer nos seus resultados e o reconhecimento
do valor do resultado para a comunidade. O importante é desenvolver a
inclinação para a brincadeira própria das crianças e o desejo de reconhecimento
também próprio das crianças e guiar a criança ao longo dos aspectos importantes
para a sociedade. Tal escola exige que o professor seja uma espécie de artista
na sua própria área.
Ainda
não disse nada até agora sobre a escolha dos assuntos a ensinar nem sobre o
método de ensino. Deve predominar o ensino das línguas ou a educação técnica em
ciência?
A isto respondo: na minha opinião, tudo
isso é de importância secundária. Se um jovem desenvolver os músculos e a
preparação física fazendo ginástica e caminhando, estará mais tarde preparado
para qualquer trabalho físico. Isto é igualmente verdade no caso do treino da
mente e do exercício das habilidades mentais e manuais. Assim, o dito não está
muito errado quando define a educação da seguinte forma: “Educação é o que fica
quando esquecemos tudo o que aprendemos na escola!”
Albert
Einstein, in Discurso (1936)
Arte de casa*
*Arte digital de meu filho Pablo: fanart de Rose Tyler, a Bad Wolf, a companion mais
querida de Doctor Who.
Os diversos eus
“Esses eus de que somos feitos,
sobrepostos como pratos empilhados nas mãos de um empregado de mesa, têm outros
vínculos, outras simpatias, pequenas constituições e direitos próprios -
chamem-lhes o que quiserem (e muitas destas coisas nem sequer têm nome) - de
modo que um deles só comparece se chover, outro só numa sala de cortinados
verdes, outro se Mrs. Jones não estiver presente, outro ainda se se lhe
prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada indivíduo poderá
multiplicar, a partir da sua experiência pessoal, os diversos compromissos que
os seus diversos eus estabelecerem consigo - e alguns são demasiado absurdos e
ridículos para figurarem numa obra impressa.”
Virginia
Woolf, in Orlando
02/09/2014
Moralistas
“Moralistas são pessoas que renunciam às
alegrias corriqueiras para poder, sem culpa e recriminação, estragar a alegria
dos outros.”
Bertrand
Russell
01/09/2014
Passarinho

Sempre me pareceu que um poema era algo assim como
um passarinho engaiolado. E que, para apanhá-lo vivo, era preciso um meticuloso cuidado
que nem todos têm. Poema não se pega a tiro. Nem a laço. Nem a grito.
Não, o grito é o que mais o mata. É preciso esperá-lo com paciência e
silenciosamente como um gato.
Ora, pensava eu tudo isso e o céu também, quando
topo com uns versos de Raymond Queneau, que confirmam muito a minha cinegética
transcendental. Eis por que aqui os traduzo, ou os adapto, e os adoto, sem
data venia:
“Meu Deus, que vontade me deu de escrever um poeminho...
Olha, agora mesmo vai passando um!
Pst pst pst
vem para cá para que te enfie
na fieira de meus outros poemas
vem cá para que eu te entube
nos comprimidos de minhas obras completas
vem cá para que eu te empoete
para que eu te enrime
para que eu te enritme
para que eu te enlire
para que eu te empégase
para que eu te enverse
para que eu te emprose
vem cá...
Vaca!
Escafedeu-se.”
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo
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