05/04/2012

Vó caiu na piscina

Noite na casa da serra, a luz apagou. Entra o garoto:
– Pai, vó caiu na piscina.
– Tudo bem, filho.
O garoto insiste:
– Escutou o que eu falei, pai?
– Escutei, e daí? Tudo bem.
– Cê não vai lá?
– Não estou com vontade de cair na piscina.
– Mas ela tá lá...
– Eu sei, você já me contou. Agora deixe seu pai fumar um cigarrinho descansado.
– Tá escuro, pai.
– Assim até é melhor. Eu gosto de fumar no escuro. Daqui a pouco a luz volta. Se não voltar, dá no mesmo. Pede à sua mãe pra acender a vela na sala. Eu fico aqui mesmo, sossegado.
– Pai...
– Meu filho, vá dormir. É melhor você deitar logo. Amanhã cedinho a gente volta pro Rio, e você custa a acordar. Não quero atrasar a descida por sua causa.
– Vó tá com uma vela.
– Pois então? Tudo bem. Depois ela acende.
– Já tá acesa.
– Se está acesa, não tem problema. Quando ela sair da piscina, pega a vela e volta direitinho pra casa. Não vai errar o caminho, a distância é pequena, você sabe muito bem que sua avó não precisa de guia.
– Por quê cê não acredita no que eu digo?
– Como não acredito? Acredito sim.
– Cê não tá acreditando.
– Você falou que a sua avó caiu na piscina, eu acreditei e disse: tudo bem. Que é que você queria que eu dissesse?
– Não, pai, cê não acreditou ni mim.
– Ah, você está me enchendo. Vamos acabar com isso. Eu acreditei. Quantas vezes você quer que eu diga isso? Ou você acha que estou dizendo que acreditei mas estou mentindo? Fique sabendo que seu pai não gosta de mentir.
– Não te chamei de mentiroso.
– Não chamou, mas está duvidando de mim. Bem, não vamos discutir por causa de uma bobagem. Sua avó caiu na piscina, e daí? É um direito dela. Não tem nada de extraordinário cair na piscina. Eu só não caio porque estou meio resfriado.
– Ô, pai, cê é de morte!
O garoto sai, desolado. Aquele velho não compreende mesmo nada. Daí a pouco chega a mãe:
– Eduardo, você sabe que dona Marieta caiu na piscina?
– Até você Fátima? Não chega o Nelsinho vir com essa ladainha?
– Eduardo, está escuro que nem breu, sua mãe tropeçou, escorregou e foi parar dentro da piscina, ouviu? Está com a vela acesa na mão, pedindo para que tirem ela de lá, Eduardo! Não pode sair sozinha, está com a roupa encharcada, pesando muito, e se você não for depressa, ela vai tem uma coisa! Ela morre, Eduardo!
– Como? Por que aquele diabo não me disse isto? Ele falou apenas que ela tinha caído na piscina, não explicou que ela tinha tropeçado, escorregado e caído!
Saiu correndo, nem esperou a vela, tropeçou, quase que ia parar também dentro d’água.
– Mamãe, me desculpe! O menino não me disse nada direito. Falou que a senhora caiu na piscina. Eu pensei que a senhora estava se banhando.
– Está bem, Eduardo – disse dona Marieta, safando-se da água pela mão do filho, e sempre empunhando a vela que conseguira manter acesa. – Mas de outra vez você vai prestar mais atenção no sentido dos verbos, ouviu? Nelsinho falou direito, você é que teve um acesso de burrice, meu filho!
Carlos Drummond de Andrade

Pensar como espiritualistas, agir como materialistas

“Pensar como espiritualistas, agir como materialistas. Não é absurda a doutrina: é, afinal, a doutrina espontânea da humanidade inteira.
O que é a vida da humanidade senão uma evolução religiosa sem influência sobre a vida quotidiana?
A humanidade é atraída pelo ideal, e quanto mais alto e anti-humano for o ideal, mais (se for progressiva) será atraída a prática da sua vida civilizada, que, por isso, vai de povo para povo, de era para era, de civilização para civilização. A humanidade civilizada abre os braços a uma religião que prega a castidade, a uma religião que prega a igualdade, a uma religião que prega a paz. Mas a humanidade normal procria, combate-se e contrasta sempre; assim, até que acabar, sempre fará.
No mesmo tempo, na mesma sociedade, o homem normal ateu procede em todo [o] social como o homem normal teísta; pareceria contudo que em poucas coisas devem proceder paralelamente. Não há tese ou teoria que afete a atmosfera que se respira.”
Fernando Pessoa, in A educação do estoico.

04/04/2012

A Notícia, com Vicente Barreto e Enrico di Miceli



O "New York Times" não deu uma linha
A "BBC"de Londres nenhuma palavra
Mas ontem no Xingu um índio se afogou
E um guarda-marinha
Se atirou nas águas
Pra salvar a sua vida
Na mesma hora um favelado da Rocinha
Que tinha sete filhos arrumou mais um:
Era menino loiro de olho azul
Que tinha sido abandonado nu
Numa avenida
Gente má,
Gente linda
Dia vem, noite finda
Em todo lugar.
Composição: Vicente Barreto e Celso Diáfora

Antônio Francisco - Homenagem ao poeta Luís Campos


Charge, de Lute (Hoje em Dia)

Soneto das Definições

Não falarei de coisas, mas de inventos
e de pacientes buscas no esquisito.
Em breve, chegarei à cor do grito,
à música das cores e do vento.

Multiplicar-me-ei em mil cinzentos
(desta maneira, lúcido, me evito)
e a estes pés cansados de granito
saberei transformar em cataventos.

Daí, o meu desprezo a jogos claros
e nunca comparados ou medidos
como estes meus, ilógicos, mas raros.

Daí também, a enorme divergência
entre os dias e os jogos, divertidos
e feitos de beleza e improcedência.

Carlos Pena Filho, in Livro Geral.

Gerhard Richter em Ação


03/04/2012

Quase Nada 150

Quase Nada 150
Tira de Fábio Moon e Gabriel Bá, in 10paezinhos.com.br

Novas profissões, novas broncas

- Mãe, posso ver TV?
- Você já montou os 5 looks?
- Já.
- Deixa eu ver então…
- Eu montei esses três aqui, depois eu monto os outros dois, tá?
- Nada feito. Tem que montar os 5 looks e me explicar quais são para usar durante o dia e quais para usar a noite. Você acha que a vida é fácil? Que 1 look do dia por semana vai te trazer anunciante?
- Tá bom, mãe… então depois eu posso ver TV?
- Não, depois tem que aprender a dar copy/paste em texto de assessoria! Esse povo adora conteúdo.
- Mas mãe…
- Nada de mas! Já mixou hoje? Quantas vezes eu tenho que te falar que atacar de DJ também te garante um bom futuro?
- Mas eu não quero ser blogueira e DJ…
- Quer sim, a mamãe sabe o que é bom pra você.
Só isso explica.
Camila Fremder, blogueira, in www.parecefilme.com.br

A respeito de meu pai, de Marco Aurélio

“As qualidades que eu admirava no meu pai eram a sua brandura, a sua firme recusa em se desviar de qualquer decisão a que tinha chegado, a sua completa indiferença às falsas honrarias; o seu esforço, a sua perseverança e vontade de ouvir atentamente qualquer projeto para o bem comum; a sua invariável insistência em que as recompensas devem depender do mérito; o seu hábil sentido de oportunidade para puxar ou soltar as rédeas; e os esforços que fazia para suprimir a pederastia. Ele tinha consciência de que a vida social tem as suas exigências: os seus amigos não tinham qualquer obrigação de se sentarem à sua mesa ou de o acompanhar nas suas viagens oficiais, e quando eles eram disso impedidos por outros compromissos, isso não lhe fazia qualquer diferença. Todas as questões que lhe eram submetidas em conselho eram examinadas meticulosa e pacientemente; nunca ficava satisfeito em despachá-las apenas com uma primeira impressão apressada. As suas amizades eram duradouras; não eram caprichosas nem extravagantes. Estava sempre à altura das circunstâncias; alegre, mas com uma visão de alcance suficiente para mandar discretamente cumprir os seus planos até ao mais pequeno pormenor.
Estava sempre atento às necessidades do império, conservando prudentemente os seus recursos e suportando as críticas daí resultantes. Não era supersticioso frente aos deuses; e frente aos seus concidadãos nunca se rebaixava para alcançar popularidade nem namorava as massas, mas prosseguia o seu caminho calma e firmemente, desprezando tudo o que lhe soasse a ostentação ou moda. Aceitava sem complacência ou compunção os bens materiais que a sorte pusera à sua disposição; quando estavam à mão aproveitava-os, e quando não estavam, não sentia qualquer mágoa.
Não lhe podiam ser apontados quaisquer vestígios dos sofismas dos casuístas, do atrevimento do adulador, ou do escrúpulo exagerado do pedante; todos os homens lhe reconheciam uma personalidade madura e acabada que era insensível à lisonja e perfeitamente capaz de se orientar a si próprio e aos outros. Além disso, tinha grande respeito por todos os filósofos genuínos; e embora abstendo-se de criticar os outros, preferia passar sem a sua orientação. Na convivência era afável e atencioso, mas sem exageros. Os cuidados que dispensava ao corpo eram razoáveis; não havia nele qualquer ansiosa preocupação de prolongar a existência, ou em embelezar a sua aparência, contudo estava muito longe de ser descuidado em relação a esta, e de fato cuidava tão bem de si próprio que raramente precisava de cuidados médicos ou de medicamentos. Não se notava nele o mais pequeno vestígio de inveja no seu pronto reconhecimento de qualidades notáveis, quer em discursos públicos, quer nos domínios da lei, da ética ou qualquer outro, e esforçava-se por dar a cada pessoa a oportunidade de conquistar reputação no seu próprio campo.
Embora todas as suas ações fossem guiadas pelo respeito pelo precedente constitucional, nunca abandonava o seu caminho para buscar o reconhecimento público disso. Também não gostava da agitação e da mudança e tinha uma arreigada preferência sempre pelos mesmos lugares e sempre pelas mesmas atividades. Depois de uma das suas enxaquecas, voltava logo aos seus deveres sem perda de tempo, com novo vigor e completo domínio das suas capacidades. Os seus documentos secretos e confidenciais não eram muitos, e os raros temas neles tratados referiam-se exclusivamente a assuntos do estado.
Revelava bom senso e comedimento na exibição de espetáculos, na construção de edifícios públicos, na distribuição de subsídios, etc., tendo sempre mais em vista a necessidade dessas medidas do que o aplauso que elas provocavam. Os seus banhos não eram a horas inconvenientes; não tinha a obsessão de construir; não era nada esquisito em relação à sua alimentação, nem ao corte e às cores das suas vestes, nem à apresentação daqueles que o rodeavam. As suas roupas eram-lhe enviadas da sua casa de campo em Lorium, e a maior parte das sua coisas eram de Lanuvium. A famosa maneira como ele tratou um inspetor em Tusculum era típica do seu comportamento, pois a falta de cortesia, bem como a brusquidão ou a jactância, eram estranhas à sua natureza; nunca ficava encalorado, como diz o povo, ao ponto de transpirar; era seu hábito analisar e pesar todos os incidentes, devagar, calma, metódica, decisiva e consistentemente. Aquilo que se diz de Sócrates, não é menos aplicável a ele: que tinha a capacidade de se permitir ou negar a si próprio indulgências que a maioria das pessoas são incapazes de recusar por fraqueza, ou de apreciar, pelos seus excessos. Ser assim tão forte para, à sua vontade, se conter ou ceder revela uma alma perfeita e indômita como Máximo também demonstrou no seu leito de doente.”

02/04/2012

Charge, de Duke (O Tempo)

Simply Red - For Your Babies / For Your Babies - Mick Hucknall**




*Uma música, dois momentos, duas versões.

Janela

Amar a janela –
soa melhor do que amar o sol
porque não ofusca

Se se perde a janela
Perde-se o estreito por onde se avança ao céu

E a alegria é para nós
A notícia de hoje

Pois quando limpamos a janela
É também quando podemos cantar

Dizem que as estrelas são terras alheias de dezembro,
Distantes, distantes

E conservando a janela limpa e cristalina
Exercitamos o hábito de abrir gentilmente os olhos,

E que os olhos límpidos
Sejam os nossos corações reluzentes
Na espera do amanhã.

Kim Hión-sung. Tradução de Yun Jung Im, in Germina Literatura

A incrível loucura de Bispo do Rosário

“Faltavam dois dias para o Natal de 1938. Era meia-noite e Arthur Bispo do Rosário descansava no quintal do casarão da família Leone, no Rio de Janeiro. De repente, a cortina preta que revestia o teto do mundo se rasgou sobre ele e deu passagem a sete anjos de aura azulada e brilhosa. Vinham do céu a seu encontro. Era um chamado. A noite se fez dia para convocá-lo a sua missão. Bispo recebeu os anjos e os acolheu em algum canto e sua psique. A glória absoluta: era enfim reconhecido.” (Hidalgo, 1966).

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Arthur Bispo do Rosário perambulou numa delicada região entre a realidade e o delírio, a vida e a arte. Taxado como louco e esquizofrênico, Bispo passou cinqüenta dos seus oitentas anos de vida, trancafiando em um hospital.  Criou um universo lúdico de bordados, assemblages, estandartes e objetos durante os mais obscuros períodos da psiquiatria.
Bispo nunca teve nenhum tipo de treinamento ou estudo, nem mesmo conviveu no meio das artes. Acreditava estar fazendo parte de um propósito maior, um propósito divino no qual atendia a um chamado de Deus. Dizia ser um escolhido do Senhor para “julgar os vivos e os mortos”, "reconstruir o universo" e "registrar a sua passagem aqui na terra".


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Mas, diferente do que se esperaria de um religioso fanático, Bispo não esculpiu santos, não decorou igrejas, nem nunca trabalhou com nenhuma espécie de tinta, telas ou cavaletes. Usava garrafas plásticas, utensílios domésticos velhos e até mesmo fios de linha, que arrancava de suas roupas e lençóis. Entre os temas, destacam-se navios (tema recorrente devido à sua relação com a Marinha na juventude), estandartes, faixas de mísses e objetos domésticos. A sua obra mais conhecida é o Manto da Apresentação, que Bispo deveria vestir no dia do Juízo final.
Sua arte foi descoberta por Frederico Morais, que organizou uma exposição nos anos 80, e de lá pra cá ganhou vários documentários, filmes, livros e até peças de teatro. A genialidade deste sergipano, nascido no ano de 1909 ou 1911 (não se sabe ao certo), ultrapassou não só barreiras psíquicas como territoriais. Chegou a representar o Brasil na prestigiada Bienal de Veneza, além de correr museus pelo mundo, a exemplo do Jeu de Paume, em Paris.
Curiosamente, em vida, Arthur Bispo recusava o rótulo de “artista”, dando caráter divino a sua tarefa. Mas a força de sua obra ignora limites e até hoje atravessa fronteiras, transgredindo convenções e levando espectadores de todo o mundo ao encantamento, os fazendo especular como homem de tão simples aparência e de tão pouco estudo chegou tão perto de Deus. Coisa que nenhum homem letrado até hoje conseguiu alcançar.


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Até onde a vida beira a loucura? E onde é o limite da loucura na arte? O fato é que o Bispo foi um gênio incontestavelmente, suas técnicas e sabedorias artísticas são naturais e instintivas. Sua mente era incrivelmente sensível a ponto de explodir em arte e loucura. O Bispo, que faleceu em 1989, só permitia que entrassem em seu ateliê se as pessoas vissem uma cor especial nele, um sinal de sensibilidade e delicadeza com sua obra. Arthur Bispo do Rosário produziu uma beleza insana, poética e humana como nenhum outro artista brasileiro em sã consciência conseguiu.

Mariana Biork, in obviousmag.org

Sobre o homem como agente de cultura

"Se, por um lado, o homem cria cultura, esta, por sua vez, é criadora do homem, é condicionadora da vida do homem em sociedade. Ao nascer, o ser humano assemelha-se, em seu comportamento, ao dos irracionais: não conhece freio para seus ímpetos, ignora de todo em todo o comportamento social, isto é de sua sociedade. Por logo tirocínio de aprendizagem, no convívio com os membros mais velhos, aprende, penosamente a dominar seus impulsos, a ordenar seus desejos, a atualizar suas potencialidades.
Na medida em que incorpora as normas de sua sociedade, a criança se endocultura, ou, como querem outros, se encultura. O que quer dizer isto? Quer dizer que assimila, incorpora, absorve a maneira de pensar, agir e sentir, própria da cultura em que nasceu. É um lento ajustamento à vida social, regidas por costumes regados pela tradição. Por outra, o ajustamento é fruto de internalização dos princípios que regem determinada sociedade. Internalizando tais princípios e a eles se ajustando, na vida prática, plasma-se a imagem do homem requerido por esta ou aquela cultura.
Dupla consequência advém do que deixamos dito: em primeiro lugar, garante-se a estabilidade cultural, porque a internalização da cultura constitui um penhor de que o passado está sendo vivido no presente. Em segundo lugar, se há uma linha sem solução de continuidade, na transmissão da cultura, não é menos verdade existirem modificações, as quais como que se tecem sobre o fluxo contínuo de cultura que vem do mais recôndito dos tempos e ruma para o porvir.
Como se dá esse processo de modificação cultural? Pode verificar-se na própria sociedade, pelo surgimento de inventos ou porvir de fora, pelo difusionismo de novas ideias. A mudança cultural, evidentemente, nunca renova todos os aspectos de uma cultura. Para aferir se houve mudança ou não, é mister haja aspectos estáveis. Aqui se faz necessário advertir que a interferência dos civilizados nas culturas primitivas quase sempre é desintegradora, porque é demasiado súbita, inesperada e violenta.
Vêm, a propósito, neste momento, duas considerações, em torno da mudança cultural, que aclaram mais o já referido. De duas maneiras ela pode dar-se: a) por acumulação b) por substituição. Algumas palavras sobre cada uma delas. As invenções e descobertas, no âmbito da técnica, sucedem-se, dia-a-dia. Podem consistir em aperfeiçoamento do que já existe. Exemplifica-o a TV, a qual, de inicio, se apresentava em preto e branco e, depois, permitiu ver as imagens coloridas. A acumulação pode, ademais, consistir em inventos nunca dantes imaginados, como é o caso do computador, de mil e uma utilidades. Por ser aperfeiçoamento, supõe-se que algo já existente é base para o respectivo aperfeiçoamento. As vantagens auferidas de todos os engenhos, propostos pela tecnologia, são perceptíveis diretamente, são tangíveis e manipuláveis. Por mais rápidas que sejam as mudanças pelo processo cumulativo, o homem consegue adaptar-se a elas com bastante facilidade e presteza, porque não entra em jogo algo totalmente novo a ser enfrentado. Quando se trata de substituição, na mudança cultural, o problema é mais complexo. A substituição atinge, de pleno, valores e ideias. Substituição significa, por natureza abalar e destruir os fundamentos, desarraigar o pré-existente e, em lugar dele, implantar algo totalmente novo. São raras tais substituições. Cá e lá, no entanto, acontecem, como, por exemplo, na Filosofia e na Política."
Reinholdo Aloysio Ullman, in Antropologia Cultural

01/04/2012

A Arte de Rua de Christian Guemy












Fonte: www.streetartutopia.com

Os Anjos, de Legião Urbana



Hoje não dá
Hoje não dá
Não sei mais o que dizer
E nem o que pensar
Hoje não dá
Hoje não dá
A maldade humana agora não tem nome
Hoje não dá
Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Coloque tudo numa forma
Untada previamente
Com promessas não cumpridas
Adicione a seguir o ódio e a inveja
Dez colheres cheias de burrice
Mexa tudo e misture bem
E não se esqueça antes de levar ao forno temperar
Com essência de espírito de porco
Duas xícaras de indiferença
e um tablete e meio de preguiça
Hoje não dá
Hoje não dá
Está um dia tão bonito lá fora
E eu quero brincar
Mas hoje não dá
Hoje não dá
Vou consertar a minha asa quebrada
E descansar
Gostaria de não saber destes crimes atrozes
É todo dia agora e o que vamos fazer?
Quero voar pra bem longe mas hoje não dá
Não sei o que pensar e nem o que dizer
Só nos sobrou do amor
A falta que ficou.

No meio da noite

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:
sem apoio de mesa ou jarro eram
as buganvílias brancas destacadas de um escuro.
Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
“A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos
da alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos.
” Doía como um prazer.
Vendo que eu não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei a repetir singela.
A palavra destacou-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou.
O que foi? - ele disse.
- As buganvílias…
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela e dormir de novo.
Adélia Prado 

A manipulação da ciência

"A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las. Fabrica para si modelos internos delas e, operando sobre esses índices ou variáveis as transformações permitidas por sua definição, só de longe em longe se defronta com o mundo atual. Ela é, sempre foi, esse pensamento admiravelmente ativo, engenhoso, desenvolto, esse parti pris de tratar todo o ser como "objeto em geral", isto é, a um tempo como se ele nada fosse para nós, e, no entanto, se achasse predestinado aos nossos artifícios.
Mas a ciência clássica guardava o sentimento da opacidade do mundo, era a este que ela pretendia juntar-se por suas construções, e por isto é que se acreditava obrigada a procurar para suas operações um fundamento transcendente ou transcendental. Há, hoje em dia - não na ciência, e sim numa filosofia das ciências assaz difundida -, isto de inteiramente novo: que a prática construtiva se torna e se dá por autônoma, e que o pensamento deliberadamente se reduz ao conjunto das técnicas ou tomada de captação, que ele inventa. Pensar é ensaiar, operar, transformar, sob a única reserva de um controle experimental onde só intervém fenômenos altamente 'trabalhados', e que os nossos aparelhos produzem, em vez de registrá-los. Daí toda sorte de tentativas desordenadas. Nunca, como hoje, a ciência foi sensível às modas intelectuais. Quando um modelo foi bem sucedido numa ordem de problemas, ela o experimenta em toda a parte."
Maurice Merleau-Ponty, in O Olho e o Espírito

"Creio que não se pode fazer nada de grande na vida se não se fizer representar o personagem que existe dentro de cada um de nós."
Charles Chaplin