09/09/2026

Piloto de Guerra

X

Já faz duas horas que estamos mergulhados numa pressão externa reduzida a um terço da pressão normal. A equipe se desgasta lentamente. Nós mal nos falamos. Ainda tentei, uma ou duas vezes, com prudência, agir sobre meus pedais. Não insisti. Fui duas vezes penetrado pela mesma sensação de esgotante calmaria.
Dutertre, em função das viragens que a foto exige, avisa-me muito tempo antes. Eu faço o que posso com o que me resta de comando. Inclino o avião e puxo para mim. E consigo, para Dutertre, viragens em vinte tomadas.
— Qual a altitude?
— Dez mil e duzentos…
Ainda penso em Sagon… O homem é sempre o homem. Somos homens. E, em mim, só encontrei a mim mesmo. Sagon não conheceu senão Sagon. Aquele que morre, morre como sempre foi. Na morte de um simples mineiro, é um simples mineiro que morre. Onde achamos essa demência desvairada que, para nos deslumbrar, inventam os literatos?
Vi tirarem um homem, na Espanha, depois de alguns dias de trabalho, do porão de uma casa desmoronada por um torpedo. A multidão cercava em silêncio e, parece-me, com uma súbita timidez, aquele que voltava quase do além, coberto ainda pelos destroços, um tanto embrutecido pela asfixia e pelo jejum, parecendo uma espécie de monstro extinto. Quando alguns se atreveram a interrogá-lo e ele prestou às questões uma atenção glauca, a timidez da multidão tornou-se mal-estar.
Tentavam com ele chavões desajeitados, pois a verdadeira interrogação ninguém sabia formular. Diziam-lhe: “O que o senhor está sentindo?… O que pensava?… O que
ficou fazendo?”. Lançavam assim, ao acaso, passarelas sobre um abismo como se tivessem usado uma primeira convenção para atingir, em sua escuridão, o cego surdo-mudo que tentavam socorrer.
Mas quando o homem conseguiu responder, disse:
— Ah, sim, ouvia longos desmoronamentos…
Ou ainda…
— Eu fiquei bem preocupado. Demorou…
— Ah, demorou muito…
Ou ainda…
— Eu tinha dor nas costas, muita dor…
E aquele valente homem falava-nos tão somente do valente homem. Ele nos falou principalmente de seu relógio de pulso, que perdera…
— Eu procurei… Gostava muito dele, mas no escuro…
E, decerto, a vida lhe ensinara a sensação do tempo que transcorre ou do amor pelos objetos familiares. E ele se servia do homem que era para sentir o seu universo, mesmo que fosse o universo de uma avalanche na noite. E, à questão fundamental, que ninguém soube fazer, mas que governava todas as tentativas: “Quem era o senhor? Quem surgiu no senhor?”, ele nada poderia ter respondido, senão: “Eu mesmo…”.
Nenhuma circunstância desperta em nós um estranho de que não suspeitássemos. Viver é nascer lentamente. Seria muito fácil tomar almas já prontas!
Uma iluminação repentina parece às vezes fazer bifurcar um destino. Mas a iluminação é somente a visão repentina, pelo Espírito, de uma estrada lentamente preparada. Eu aprendi lentamente a gramática. Exercitaram-me na sintaxe. Despertaram meus sentimentos. E eis que bruscamente um poema me bate ao coração.
Decerto, não sinto neste instante nenhum amor, mas se, esta noite, alguma coisa mefor tirada, é que terei levado pesadamente minhas pedras à construção invisível. Eu preparo uma festa. Eu não terei o direito de falar de aparição súbita, em mim, de outro diferente de mim, pois sou eu quem constrói esse outro.
Nada tenho a esperar da aventura de guerra, senão essa lenta preparação. Ela pagará, mais tarde, como a gramática…

Toda a vida se arrefeceu em nós por causa desse lento desgaste. Nós envelhecemos. A missão envelhece. Quanto custa a altitude? Uma hora vivida a dez mil metros equivale a uma semana, três semanas, um mês de vida orgânica, de exercício do coração, dos pulmões, das artérias? Pouco importa, aliás. Meus quase desvanecimentos me acrescentaram séculos: estou imerso na serenidade dos velhos. As emoções da preparação me parecem infinitamente longínquas, perdidas no passado. Arras infinitamente longínqua no futuro.
A aventura de guerra? Onde há aventura de guerra?
Quase morri há dez minutos e nada tenho a contar, senão a passagem das vespas minúsculas entrevistas durante três segundos. A verdadeira aventura teria durado um décimo de segundo. E em nosso grupo não voltamos jamais para contá-la.
— Um pezinho à esquerda, Capitão.
Dutertre esqueceu que meu pedal está congelado. Eu penso numa gravura que me deslumbrou na infância. Via-se, no fundo de uma aurora boreal, um extraordinário cemitério de navios perdidos, imobilizados nos mares austrais. Eles erguiam, na luz acinzentada de uma espécie de noite eterna, braços cristalizados. Numa atmosfera morta, ainda estendiam velas que conservaram a marca do vento, como um leito guarda a sutil marca de um ombro. Mas nos pareciam duras e quebradiças.
Aqui, tudo está congelado. Meus comandos estão congelados. Minhas metralhadoras estão congeladas. E quando perguntei ao artilheiro sobre as dele:
— Suas metralhadoras?
— Mais nada.
— Ah! Bom.
No tubo de expiração da minha máscara, cuspo agulhas de gelo. De tempos em tempos, preciso esmagar, através da borracha flexível, a rolha de gelo que me sufoca. Quando aperto, sinto-a estilhaçar-se na minha palma.
— Artilheiro, o oxigênio está o.k.?
— Tudo bem!
— Qual a pressão dos seus tubos?
— Hã… Setenta.
— Ah! Bom.
O tempo para nós está congelado também. Somos três velhos de barba branca. Nada é móvel. Nada é urgente. Nada é cruel.

A aventura de guerra? O comandante Alias achou um dia de me dizer:
— Tente tomar cuidado!
Cuidado com o quê, comandante Alias? O caça nos atinge como um raio. O Grupo de Caça, que sobrevoa mil e quinhentos metros de altitude acima de nós, quando nos descobre abaixo dele, fica à vontade. Ele serpenteia, orienta-se, posiciona-se. A gente ainda ignora tudo. Somos o rato fechado na sombra da ave de rapina. O rato pensa que vive. Ele ainda vagueia nos trigais. Mas já é prisioneiro da retina desse gavião, colado nela mais do que em goma, pois o gavião não o largará mais.
A gente continua, ainda assim a pilotar, a sonhar, a observar o solo, quando já está condenado pelo imperceptível ponto negro que se formou numa retina humana.
Os nove aviões do Grupo de Caça vão mergulhar para o ataque quando lhes aprouver. Eles têm todo o tempo. Eles darão a novecentos quilômetros por hora esseprodigioso tiro de arpão que não erra jamais sua presa. Uma esquadrilha de bombardeio constitui uma potência de tiro que oferece chances à defesa, mas a tripulação de Reconhecimento, isolada em pleno céu, nunca triunfa sobre setenta e duas metralhadoras que só se revelarão, aliás, pelo feixe luminoso de suas balas.
No exato instante em que se souber que há combate, o caça, depois de lançar seu veneno de uma só vez, feito uma cobra, já neutro e inacessível, nos dominará. As cobras oscilam assim, lançam a sua faísca e retomam o seu balanço.
Assim, quando o Grupo de Caça tiver desvanecido, nada ainda terá mudado. Nem mesmo os rostos mudam. Eles mudam quando o céu está vazio e a paz está feita. O caça, agora, é apenas um testemunho imparcial quando, da carótida seccionada do observador, escapa o primeiro dos jatos de sangue, quando, do capô do motor direito, filtra, hesitante, a primeira chama do fogo de forja. Assim, a cobra já se enrolou quando o veneno penetra no coração e quando o primeiro músculo do rosto se contrai. O Grupo de Caça não mata. Ele semeia a morte. Esta germina depois que ele passou.
Cuidado com o quê, comandante Alias? Quando nós cruzamos os caças, eu nada tive a decidir. Eu poderia não tê-los conhecido. Se me tivessem dominado, eu não os teria jamais conhecido!
Cuidado com o quê? O céu está vazio.
[…]

Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

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