Nas suas divagações, Souza vê que tem sorte, pois ainda possui memória. Ao contrário dos Militecnos, que já perderam as faculdades humanas
Um olhar surpreendente.
Esquivo e ao mesmo tempo atravessador. O que me
impressionou foi a cor da pele. Dava até mal-estar.
Vermelha. De pessoa branca que ficou muito exposta ao
sol. Nem um só fio de cabelo. A pele da cabeça
transformada em placas ressequidas,
como solo de caatinga.
Mais forte, no entanto, foi a
sensação de familiaridade. Certeza de
já ter visto esse homem. Aquelas mãos sem unhas não eram
desconhecidas. Bem que Adelaide diz, ando
precisando de um remédio. Antigamente, ela
compraria peixe, me daria todos os tipos.
Teve época, antes de me
aposentarem compulsoriamente,
que passei a me esquecer. De tudo, propositalmente.
Atrasava aluguel, não pagava luz, roubava nos
supermercados, tomava café nos bares e ia
embora. Não voltava para casa à noite, ficava
sentado no banco do jardim.
Adelaide me curou com dieta à base de
peixe. Frito, ensopado, à escabeche, à
milanesa. Não me fartei porque gostava
muito. Coisa tão boa. Há quanto não comemos peixe? Nem
factício. Adianta lembrar? Enfrento o olhar fixo do
careca. Pessoas se afastam dele, enojadas.
Se não for trabalhar, terei
de ficar pela cidade. Quente demais, os abrigos
refrigerados estão lotados, não vou me
amontoar por aí o dia inteiro. Ainda bem que não vim de
paletó. Termino optando pela repartição, estou
mais do que atrasado. O que não me perturba.
Declarei no guichê nome e
número, matrícula, CIC, IR, ISS, repartição.
A luz amarela acendeu. Atraso de meia hora, então.
Não sei que punições posso sofrer, nunca abri o Manual. Não
li, pouco me importa. Todos sabem, por ele não temos direitos,
somente deveres e obrigações.
– E este atraso, senhor Souza?
– Mal dava para andar. Muita
segurança na rua. Toda hora a gente estava
rastejando.
– Quando é que as pessoas vão
aprender a sair mais cedo?
– Pois é.
– Que tal um desconto em
folha? O sábado e o domingo perdidos? Um dia de
férias?
– Não posso fazer nada, doutor
Álvaro.
– Pois é, mas eu posso. Não há
neste país mais sentido de responsabilidade,
noções de dever cumprido, respeito com a coisa
pública.
Ele fica falando, vou para minha
mesa. Como colegial repreendido. Irritado, porque
nesses anos nem faltei, nem me atrasei. Ora, me
preocupar? Só fico inquieto com o afundamento
na mão. Agora todo vermelho, parece que cedeu mais.
Meu Deus! Será que peguei câncer galopante?
Todo o trabalho sobre a
mesa. Fitas longuíssimas de papel amarelo.
Fileiras de números, meu trabalho é conferir.
Papéis que vieram dos computadores. Somos
obrigados a revisar. Faz doze anos que ninguém,
mas ninguém, nem um só de nós, descobriu um erro,
imperfeição, deslize, falha.
Para contentamento
do doutor Álvaro. Ele pensa que somos perfeitos,
quando o computador é que é. Até hoje não
achei a utilidade desta seção. Ninguém descobriu.
Meus colegas fazem a revisão conscientemente.
Eu não. Assino o que cai na minha frente. Para que ficar
questionando?
Ao menos, calculo que meus
companheiros trabalhem conscientemente.
Ficam nervosos diante das pranchas de números.
Investigam as colunas, cada um criou seu método, inventou
um sistema. Usam réguas, calculadoras.
Verificam cifra por cifra. Corrigem os números apagados,
mal impressos.
Alguns recorrem a
minipotencialidades. Observo o tempo
que demoram com cada folha. A média é de cinco folhas por dia,
não mais. Procuro estabelecer tempo igual. Apenas vou
olhando, e pensando. Gasto um tempo enorme sem
fazer nada. Sinto, forte, a sensação do desperdício.
Isso me deixa inquieto. Esse
tempo não usado, morto. Um homem não pode passar a vida
olhando para folhas cheias de números. Então devo me
empenhar nessas verificações? Aproveito
parte de meu tempo contemplando o que se passa na
vizinhança. A janela fica ao meu lado.
É provável que também
me observem do lado de lá. Alguém que, entediado, me
olha, cogitando: vejo aquele homem há tanto tempo
atrás de sua janela, que vou sentir sua falta se um dia
ele sair dali. Acostumei com ele. Sei de seu trabalho,
conheço seus hábitos. A hora que chega, a hora que sai.
Antes de sentar-se, ele tira
o paletó e estende cuidadosamente
na guarda da cadeira. Acende o cigarro, o primeiro
dos dois que fuma durante o dia. Faz um gesto, se
espreguiçando, coça o peito e se acomoda.
Mas não olha imediatamente para sua mesa.
Vira-se primeiro para fora.
Percebo o seu olhar vagando pelo
fundo dos prédios. O centro é velho, os pátios internos
são sujos, cinzas, repletos de lixo. Telheiros cheios de
papéis, plásticos, bujões de gás, vidros
enegrecidos, caixotes, chaminés
de lanchonete soltando fumaça
engordurada, engradados, garrafas.
Aquele homem passa boa parte do tempo
numa panorâmica, demorando-se em cada
coisa. As mesmas coisas há tanto tempo, o que pode mudar
por aqui? Um dia, ele viu o homem sair correndo por uma
porta com as mãos na garganta, ar de desespero.
O homem chegou ao pé de um muro. Assustado.
Esse muro dava para um pátio de
lajotas enegrecidas. O homem quis pular e caiu.
Ficou estrebuchando, como que num ataque
epilético. Depois se acalmou. Não apareceu
ninguém. À noite, o corpo ainda estava lá; e na manhã
seguinte. Aqui de cima, olhávamos,
interrogadores.
O dia se passou, o corpo
continuou. Preocupei-me com a decomposição,
o mau cheiro. Parece que o homem do lado de lá se preocupava
também, pois olhava inquieto, e repetidamente,
pela janela. No fim da tarde, ele desapareceu e
imaginei que pudesse ter ido investigar lá
embaixo.
Desci, acreditando que
poderia encontrá-lo. Apesar de não saber como é o
seu rosto. Por trás da janela vejo apenas um vulto
indistinto, nada concretamente
delineado. Na rua, fiquei meio perdido, era
difícil saber de que prédio o homem tinha saído, com os
seus ataques ou seja lá o que for.
Havia dentistas,
escritórios, lanchonetes. Teria sido de uma
lanchonete? Pode ser. Mas eu não possuía
permissão para aquela. Frequento outra. Não me
deixariam entrar, nem que eu pedisse: “Quero ir ao
banheiro, estou apertado”. Nem que suplicasse,
chorasse. Ou me borrasse todo.
“Se está apertado, vá ao
Posto Apropriado”, diriam. “Nada podemos fazer aqui,
estamos limitados aos fregueses, a um
determinado número de pessoas por dia.”
Os Postos Apropriados correspondem aos antigos
mictórios públicos, recondicionados.
Cheios de sofisticada maquinaria própria.
Os Postos estão espalhados,
com maior concentração no Centro Esquecido de São
Paulo. Funcionam como clube inglês, privado, exclusivo.
Sanitários limpos, sabão, ar seco para enxugar o rosto e
as mãos, ventinhos frescos, banquinhos para
repousar, máquina de fazer vinco em calça.
Os Postos dão o conforto,
você fornece a urina. Para frequentá-los é
necessário um exame médico rigoroso,
análise detalhada dos rins e da bexiga.
Comprovada sua boa saúde, o cidadão privilegiado
recebe a Ficha de Utilização para o Posto Apropriado, FUPA.
Eh, que palavra feia!
A sua urina é comercializada.
Com a falta de água, aparelhos recolhem os mijos
saudáveis numa caixa central, onde se procede
à reciclagem. Há mistura, tratamento
químico intenso, filtragem, purificação,
refinamento, transformação. A urina
retorna branca, pura, sem cheiro, esterilizada.
Dizem que dá para beber. Eu é que
não vou experimentar. Nem o mijo meu, quanto
mais o dos outros. Mas os Postos Apropriados têm uma capacidade
limitada de recolhimento. Daí também
a seleção apurada e o bom ambiente que se
encontra nesses banheiros especiais, de luxo,
para pessoas de fino trato.
Quem não é autorizado
a frequentar os Apropriados, ou não quer pegar filas,
deságua de qualquer jeito, onde puder. Por isso
determinadas ruas fedem. E as escadarias,
então? Em último caso, se não tiver mesmo solução,
arrisque-se na fila menor dos Tapa Visão do Sexo, os TVS.
São pequenos muros em que a
pessoa fica com meio corpo para fora, de cara para a rua. Todos
te olham enquanto você se alivia. Por que o homem fica sem
graça quando urina coletivamente? Os TVS
são indecentes porque recolhem a urina de graça
e a distribuem a privilegiados.
Disse que jamais vou aceitar essa
urina reciclada como água. Quem me garante que já
não a estou usando em casa, na rua, nas lanchonetes?
Se existe alguma coisa neste país na qual ninguém
ponha fé, algo que não vale absolutamente nada,
trata-se da palavra do Esquema.
Meu sobrinho, o Militecno, foi
quem me contou. Todos pensam que o excedente de
líquido reciclado é conduzido para as
reservas das Zonas Populopostais, onde se concentram
os maiores índices de população. Não, não
confundam. Nada têm a ver com os Acampamentos Paupérrimos.
Estes se encontram um pouco mais
à frente, além dos Círculos Oficiais Permitidos. O povo dos
Acampamentos foi impedido de entrar, no dia em que um
prefeito decidiu: “São Paulo precisa
parar”. Então parte dessa água-mijada seria
utilizada para a população dessas
Zonas.
O resto é reserva. O ministro
das Águas declarou que nossas reservas dão para seis
meses, numa emergência. No entanto meu sobrinho
afirmou que estamos vendendo água ao Chile por
um décimo do preço que pagamos. Para nós, o preço do
barril aumenta constantemente, e sem
razão.
Querem que economizemos
para evitar racionamento obrigatório.
Todavia as fichas representam o quê, senão o
racionamento? Não há como entender. Jogam a
gente na chuva e ficam bravos: “Vocês vão se molhar, saiam”.
A gente quer sair, mas trancam a porta, continuamos
na chuva.
A verdade é que as
reservas recebem um mínimo de excedentes.
Os Bairros Privilegiados abiscoitam tudo o que podem.
Ninguém viu, no entanto dizem que existem até piscinas
cobertas. Desse modo, se a emergência chegar,
vai dar crepe, porque os tanques devem estar todos vazios.
Essa emergência é
esperada há algum tempo. Algum? Eu nem tinha começado
neste escritório e já lia sobre os constantes
sinais vermelhos que a natureza vem emitindo.
É o alerta, declaravam os cientistas. Os
poucos cientistas que tinham sobrevivido
e tentavam criar defesas.
Cientistas. Categoria mínima,
marginalizada. Numa fase quase
pré-histórica, o povo era alheio aos seus
avisos. Mais tarde, o Esquema percebeu a situação,
manipulou jornais e televisão e fomentou
a ironia. Foi quando se difundiu amplamente
a expressão galhofeira “paranoia científica”.
Qualquer ato era “paranoia
científica”. Um cientista esclarecido,
consciente, naquela época, equivalia a ser
judeu nos dias de nazismo. Pessoa perseguida,
maldita, que se camuflava. No entanto,
a gente continuava a estudar, falar, denunciar.
A provocar a opinião pública.
A maioria dos cientistas
foi cassada. Outros se retiraram, aceitando
convites estrangeiros. Houve quem se aposentou,
mudou de atividade. Muitos institutos
foram fechados, enquanto uma nova ordem crescia e
dominava: a dos Militecnos ou Tecnocratas
Avançados da Nova Geração.
Hoje, a palavra Militecno é
corriqueira, incorporou-se ao
linguajar. Mas então não sabíamos bem o que
significava. Líamos na imprensa, ouvíamos
no rádio e não ligávamos. Se tivéssemos
previsto o perigo! Como podíamos sequer
imaginar que aqueles homens não tinham o cérebro
normal?
Ficou demonstrado pelos
cientistas. Foi mais uma das razões que os
tornaram marginalizados.
Provou-se que os Militecnos sofreram
metamorfose em seu organismo. O cérebro
ficou afetado. Perdeu parte da memória. As emoções
foram eliminadas. Tornaram-se serenamente
calculistas.
Daí o caráter bastante
prático desta nova civilização. Se
podemos chamar a isto de civilização. De
tanto mexer com números, cálculos, máquinas,
métodos, os Militecnos perderam certas
faculdades. Partes do corpo quando não usadas
são passíveis de atrofiamento. Deu no que
deu. Instinto de conservação, fraternidade,
capacidade de distinguir beleza, boa
qualidade, isso morreu. Tudo foi revelado
num relatório apresentado nos Estados
Unidos. Cientistas norte-americanos,
especializados no estudo de nosso país,
chegaram a curiosíssimas conclusões.
As obras desses
norte-americanos estão banidas.
Encontram-se em algumas bibliotecas
particulares. Chegaram antes dos Interditos
Postais. Hoje, abrem todos os pacotes nos correios,
revistam nos aeroportos, confiscam.
Computadores fornecem rapidamente as listas
de proibidos.
Esses cientistas
especializados na mente do homem brasileiro
surgiram depois do boom de brasilianistas.
Toda a história brasileira foi revista
e reescrita por esses amáveis professores
norte-americanos. Em seguida apareceram
os biólogos, os anatomistas, os
pesquisadores da mente.
Nós, os brasileiros,
não tínhamos acesso aos arquivos, mas eles sim.
Trabalhavam livremente, recebiam bolsas, ajuda,
microfilmagens, cópias de todo o material de que
o pesquisador necessita em seu trabalho.
Não adiantava denunciar, o Esquema ignorava.
Mais que isso, nos punia.
Sou lúcido para saber que o
controle total, rígido, dos meios de comunicação,
aliado à Intensa Propaganda Oficial, IPO, amorteceu
as mentes. De tal modo que esta emergência em que
vivemos passou a ser considerada
normal. A nossa memória é admirável, porque
esse passado é recente.
E nos esquecemos. Tudo se
precipitou. Rápido demais. Os Que Se Locupletaram
estão hoje em seus territórios isolados,
vivendo ricamente. Não conseguem se
reproduzir, se perpetuar. Mas não tem
importância para eles. São os chamados
(ironicamente?) Homens dos Tempos Presentes.
No decorrer dos anos, temos nos
adaptado a tudo. Acaso as gerações dos anos
sessenta e setenta não se conformaram,
aceitaram e até buscaram o estado de sítio
permanente? Quando penso nessas coisas, não
me excluo. Eu também sou o povo. E talvez tenha maior
responsabilidade.
Afinal, sou professor de
História. Cheguei a rir das críticas que os cientistas
fizeram. Estão loucos, imaginava. Tais
coisas nunca vão acontecer. Ou então a humanidade
pode desaparecer. Agora, vejo. Talvez a humanidade
não desapareça, mas nosso povo está nos limites.
Medo. Vivo com medo. Minha mulher
repete sempre isso. Mas Adelaide é outro gênero, só
quer saber de sua igreja. Acredita na vida eterna. Pensa na
salvação. Sofrimento agora, paraíso depois. O que
acontece aqui é simples preparação
para encarar o Senhor que está lá em cima.
Assim ela enfrenta a vida,
conformada. Aceitando, recebendo.
Quando quer, sabe ver as coisas. Tanto que conduziu o
sobrinho para o Novo Exército. Sou um professor de
História que tem um afundamento na mão. Encaro isso
com naturalidade. Deve ser um efeito, não
uma causa.
Quantas coisas não têm
aparecido? O careca de hoje? Quem tem ideia de
onde veio? As pessoas que andam perdendo unhas? Os que
sofrem de ossos amolecidos? Os que ficaram cegos?
Ou sem dentes? Se a investigação científica
existisse, saberíamos os porquês. Quem
quer saber?
Todos querem apenas
sobreviver. Se analisarmos a história,
vamos concluir que o nível de vida do povo baixou a zero.
Não de todos. Os Que Se Locupletaram estão lá. Aqueles que os
serviram se arranjaram. E todo mundo só quis
servir. Foram décadas que derrotaram a
civilização.
Tempos em que o povo passou a
comer menos. A comer pior. Cada vez com menos qualidade.
Não chegamos a comer raízes porque elas não
existem mais. Esgotamos praticamente tudo.
Dependemos das indústrias químicas governamentais
ou do que é importado das fechadas reservas
multi-internacionais.
As casas sumiram, edifícios
dominaram tudo, os espaços ficaram caríssimos
devido à intensa especulação
imobiliária. Tudo produto da Grande
Locupletação, quando o país foi dividido,
retalhado, entregue, vendido, explorado.
Tenho medo de pensar nisso. Medo de falar com alguém a
respeito.
Eu me perco. Sempre que começo a
pensar, vou longe. Talvez minha imaginação seja
poderosa. Devia ter aproveitado para coisa
melhor que este emprego rotineiro, metódico.
Ou até decole nesses voos de fantasia em função
deste trabalho desarticulante,
regressivo. Ou esse ou nenhum.
Naquele dia em que desci à procura
da entrada para o pátio, não encontrei nenhum dos dois.
Nem o pátio, nem o homem que ficava por trás da janela.
Voltei à minha mesa e continuei observando. O
corpo estava lá. Ficou até apodrecer dias depois,
mas nenhum cheiro subiu. Anormal? E daí?
Certa manhã, o esqueleto
desapareceu. No seu lugar surgiram pacotes
metálicos, brilhantes. Estão lá até hoje,
enferrujados, apesar do tempo seco e firme que
faz há anos. Para mim, a ferrugem era provocada
pela umidade. Deve existir outra causa. Discussões,
reflexões inúteis.
Olho pela janela, há um homem
que me observa. Penso que está olhando para mim. Ele
interrompe o trabalho e se encosta
no vidro. Me olha e deve pensar: “Vejo aquele homem há
tanto tempo, que vou sentir sua falta se um dia ele sair dali.
Acostumei com ele”. Meu Deus, deliro. Bela novidade!
Ignácio de Loyola Brandão, em Não Verás País Nenhum

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