15/09/2026

Não Verás País Nenhum



Nas suas diva­ga­ções, Souza vê que tem sorte, pois ainda pos­sui memó­ria. Ao con­trá­rio dos Militecnos, que já per­de­ram as facul­da­des huma­nas

Um olhar sur­preen­den­te. Esquivo e ao mesmo tempo atra­ves­sa­dor. O que me impres­sio­nou foi a cor da pele. Dava até mal­-estar. Vermelha. De pes­soa bran­ca que ficou muito expos­ta ao sol. Nem um só fio de cabe­lo. A pele da cabe­ça trans­for­ma­da em pla­cas res­se­qui­das, como solo de caa­tin­ga.
Mais forte, no entan­to, foi a sen­sa­ção de fami­lia­ri­da­de. Certeza de já ter visto esse homem. Aquelas mãos sem unhas não eram des­co­nhe­ci­das. Bem que Adelaide diz, ando pre­ci­san­do de um remé­dio. Antigamente, ela com­pra­ria peixe, me daria todos os tipos.
Teve época, antes de me apo­sen­ta­rem com­pul­so­ria­men­te, que pas­sei a me esque­cer. De tudo, pro­po­si­tal­men­te. Atrasava alu­guel, não paga­va luz, rou­ba­va nos super­mer­ca­dos, toma­va café nos bares e ia embo­ra. Não vol­ta­va para casa à noite, fica­va sen­ta­do no banco do jar­dim.
Adelaide me curou com dieta à base de peixe. Frito, enso­pa­do, à esca­be­che, à mila­ne­sa. Não me far­tei por­que gos­ta­va muito. Coisa tão boa. Há quan­to não come­mos peixe? Nem fac­tí­cio. Adianta lem­brar? Enfrento o olhar fixo do care­ca. Pessoas se afas­tam dele, eno­ja­das.
Se não for tra­ba­lhar, terei de ficar pela cida­de. Quente demais, os abri­gos refri­ge­ra­dos estão lota­dos, não vou me amon­toar por aí o dia intei­ro. Ainda bem que não vim de pale­tó. Termino optan­do pela repar­ti­ção, estou mais do que atra­sa­do. O que não me per­tur­ba.
Declarei no gui­chê nome e núme­ro, matrí­cu­la, CIC, IR, ISS, repar­ti­ção. A luz ama­re­la acen­deu. Atraso de meia hora, então. Não sei que puni­ções posso sofrer, nunca abri o Manual. Não li, pouco me impor­ta. Todos sabem, por ele não temos direi­tos, somen­te deve­res e obri­ga­ções.
– E este atra­so, senhor Souza?
– Mal dava para andar. Muita segu­ran­ça na rua. Toda hora a gente esta­va ras­te­jan­do.
– Quando é que as pes­soas vão apren­der a sair mais cedo?
– Pois é.
– Que tal um des­con­to em folha? O sába­do e o domin­go per­di­dos? Um dia de férias?
– Não posso fazer nada, dou­tor Álvaro.
– Pois é, mas eu posso. Não há neste país mais sen­ti­do de res­pon­sa­bi­li­da­de, noções de dever cum­pri­do, res­pei­to com a coisa públi­ca.
Ele fica falan­do, vou para minha mesa. Como cole­gial repreen­di­do. Irritado, por­que nes­ses anos nem fal­tei, nem me atra­sei. Ora, me preo­cu­par? Só fico inquie­to com o afun­da­men­to na mão. Agora todo ver­me­lho, pare­ce que cedeu mais. Meu Deus! Será que peguei cân­cer galo­pan­te?
Todo o tra­ba­lho sobre a mesa. Fitas lon­guís­si­mas de papel ama­re­lo. Fileiras de núme­ros, meu tra­ba­lho é con­fe­rir. Papéis que vie­ram dos com­pu­ta­do­res. Somos obri­ga­dos a revi­sar. Faz doze anos que nin­guém, mas nin­guém, nem um só de nós, des­co­briu um erro, imper­fei­ção, des­li­ze, falha.
Para con­ten­ta­men­to do dou­tor Álvaro. Ele pensa que somos per­fei­tos, quan­do o com­pu­ta­dor é que é. Até hoje não achei a uti­li­da­de desta seção. Ninguém des­co­briu. Meus cole­gas fazem a revi­são cons­cien­te­men­te. Eu não. Assino o que cai na minha fren­te. Para que ficar ques­tio­nan­do?
Ao menos, cal­cu­lo que meus com­pa­nhei­ros tra­ba­lhem cons­cien­te­men­te. Ficam ner­vo­sos dian­te das pran­chas de núme­ros. Investigam as colu­nas, cada um criou seu méto­do, inven­tou um sis­te­ma. Usam réguas, cal­cu­la­do­ras. Verificam cifra por cifra. Corrigem os núme­ros apa­ga­dos, mal impres­sos.
Alguns recor­rem a mini­po­ten­cia­li­da­des. Observo o tempo que demo­ram com cada folha. A média é de cinco folhas por dia, não mais. Procuro esta­be­le­cer tempo igual. Apenas vou olhan­do, e pen­san­do. Gasto um tempo enor­me sem fazer nada. Sinto, forte, a sen­sa­ção do des­per­dí­cio.
Isso me deixa inquie­to. Esse tempo não usado, morto. Um homem não pode pas­sar a vida olhan­do para folhas cheias de núme­ros. Então devo me empe­nhar nes­sas veri­fi­ca­ções? Aproveito parte de meu tempo con­tem­plan­do o que se passa na vizi­nhan­ça. A jane­la fica ao meu lado.
É pro­vá­vel que tam­bém me obser­vem do lado de lá. Alguém que, ente­dia­do, me olha, cogi­tan­do: vejo aque­le homem há tanto tempo atrás de sua jane­la, que vou sen­tir sua falta se um dia ele sair dali. Acostumei com ele. Sei de seu tra­ba­lho, conhe­ço seus hábi­tos. A hora que chega, a hora que sai.
Antes de sen­tar­-se, ele tira o pale­tó e esten­de cui­da­do­sa­men­te na guar­da da cadei­ra. Acende o cigar­ro, o pri­mei­ro dos dois que fuma duran­te o dia. Faz um gesto, se espre­gui­çan­do, coça o peito e se aco­mo­da. Mas não olha ime­dia­ta­men­te para sua mesa. Vira­-se pri­mei­ro para fora.
Percebo o seu olhar vagan­do pelo fundo dos pré­dios. O cen­tro é velho, os pátios inter­nos são sujos, cin­zas, reple­tos de lixo. Telheiros cheios de papéis, plás­ti­cos, bujões de gás, vidros ene­gre­ci­dos, cai­xo­tes, cha­mi­nés de lan­cho­ne­te sol­tan­do fuma­ça engor­du­ra­da, engra­da­dos, gar­ra­fas.
Aquele homem passa boa parte do tempo numa pano­râ­mi­ca, demo­ran­do­-se em cada coisa. As mes­mas coi­sas há tanto tempo, o que pode mudar por aqui? Um dia, ele viu o homem sair cor­ren­do por uma porta com as mãos na gar­gan­ta, ar de deses­pe­ro. O homem che­gou ao pé de um muro. Assustado.
Esse muro dava para um pátio de lajo­tas ene­gre­ci­das. O homem quis pular e caiu. Ficou estre­bu­chan­do, como que num ata­que epi­lé­ti­co. Depois se acal­mou. Não apa­re­ceu nin­guém. À noite, o corpo ainda esta­va lá; e na manhã seguin­te. Aqui de cima, olhá­va­mos, inter­ro­ga­do­res.
O dia se pas­sou, o corpo con­ti­nuou. Preocupei­-me com a decom­po­si­ção, o mau chei­ro. Parece que o homem do lado de lá se preo­cu­pa­va tam­bém, pois olha­va inquie­to, e repe­ti­da­men­te, pela jane­la. No fim da tarde, ele desa­pa­re­ceu e ima­gi­nei que pudes­se ter ido inves­ti­gar lá embai­xo.
Desci, acre­di­tan­do que pode­ria encon­trá­-lo. Apesar de não saber como é o seu rosto. Por trás da jane­la vejo ape­nas um vulto indis­tin­to, nada con­cre­ta­men­te deli­nea­do. Na rua, fiquei meio per­di­do, era difí­cil saber de que pré­dio o homem tinha saído, com os seus ata­ques ou seja lá o que for.
Havia den­tis­tas, escri­tó­rios, lan­cho­ne­tes. Teria sido de uma lan­cho­ne­te? Pode ser. Mas eu não pos­suía per­mis­são para aque­la. Frequento outra. Não me dei­xa­riam entrar, nem que eu pedis­se: “Quero ir ao banhei­ro, estou aper­ta­do”. Nem que supli­cas­se, cho­ras­se. Ou me bor­ras­se todo.
“Se está aper­ta­do, vá ao Posto Apropriado”, diriam. “Nada pode­mos fazer aqui, esta­mos limi­ta­dos aos fre­gue­ses, a um deter­mi­na­do núme­ro de pes­soas por dia.” Os Postos Apropriados cor­res­pon­dem aos anti­gos mic­tó­rios públi­cos, recon­di­cio­na­dos. Cheios de sofis­ti­ca­da maqui­na­ria pró­pria.
Os Postos estão espa­lha­dos, com maior con­cen­tra­ção no Centro Esquecido de São Paulo. Funcionam como clube inglês, pri­va­do, exclu­si­vo. Sanitários lim­pos, sabão, ar seco para enxu­gar o rosto e as mãos, ven­ti­nhos fres­cos, ban­qui­nhos para repou­sar, máqui­na de fazer vinco em calça.
Os Postos dão o con­for­to, você for­ne­ce a urina. Para fre­quen­tá­-los é neces­sá­rio um exame médi­co rigo­ro­so, aná­li­se deta­lha­da dos rins e da bexi­ga. Comprovada sua boa saúde, o cida­dão pri­vi­le­gia­do rece­be a Ficha de Utilização para o Posto Apropriado, FUPA. Eh, que pala­vra feia!
A sua urina é comer­cia­li­za­da. Com a falta de água, apa­re­lhos reco­lhem os mijos sau­dá­veis numa caixa cen­tral, onde se pro­ce­de à reci­cla­gem. Há mis­tu­ra, tra­ta­men­to quí­mi­co inten­so, fil­tra­gem, puri­fi­ca­ção, refi­na­men­to, trans­for­ma­ção. A urina retor­na bran­ca, pura, sem chei­ro, este­ri­li­za­da.
Dizem que dá para beber. Eu é que não vou expe­ri­men­tar. Nem o mijo meu, quan­to mais o dos outros. Mas os Postos Apropriados têm uma capa­ci­da­de limi­ta­da de reco­lhi­men­to. Daí tam­bém a sele­ção apu­ra­da e o bom ambien­te que se encon­tra nes­ses banhei­ros espe­ciais, de luxo, para pes­soas de fino trato.
Quem não é auto­ri­za­do a fre­quen­tar os Apropriados, ou não quer pegar filas, desá­gua de qual­quer jeito, onde puder. Por isso deter­mi­na­das ruas fedem. E as esca­da­rias, então? Em últi­mo caso, se não tiver mesmo solu­ção, arris­que­-se na fila menor dos Tapa Visão do Sexo, os TVS.
São peque­nos muros em que a pes­soa fica com meio corpo para fora, de cara para a rua. Todos te olham enquan­to você se ali­via. Por que o homem fica sem graça quan­do urina cole­ti­va­men­te? Os TVS são inde­cen­tes por­que reco­lhem a urina de graça e a dis­tri­buem a pri­vi­le­gia­dos.
Disse que jamais vou acei­tar essa urina reci­cla­da como água. Quem me garan­te que já não a estou usan­do em casa, na rua, nas lan­cho­ne­tes? Se exis­te algu­ma coisa neste país na qual nin­guém ponha fé, algo que não vale abso­lu­ta­men­te nada, trata­-se da pala­vra do Esquema.
Meu sobri­nho, o Militecno, foi quem me con­tou. Todos pen­sam que o exce­den­te de líqui­do reci­cla­do é con­du­zi­do para as reser­vas das Zonas Populopostais, onde se con­cen­tram os maio­res índi­ces de popu­la­ção. Não, não con­fun­dam. Nada têm a ver com os Acampamentos Paupérrimos.
Estes se encon­tram um pouco mais à fren­te, além dos Círculos Oficiais Permitidos. O povo dos Acampamentos foi impe­di­do de entrar, no dia em que um pre­fei­to deci­diu: “São Paulo pre­ci­sa parar”. Então parte dessa água­-mija­da seria uti­li­za­da para a popu­la­ção des­sas Zonas.
O resto é reser­va. O minis­tro das Águas decla­rou que nos­sas reser­vas dão para seis meses, numa emer­gên­cia. No entan­to meu sobri­nho afir­mou que esta­mos ven­den­do água ao Chile por um déci­mo do preço que paga­mos. Para nós, o preço do bar­ril aumen­ta cons­tan­te­men­te, e sem razão.
Querem que eco­no­mi­ze­mos para evi­tar racio­na­men­to obri­ga­tó­rio. Todavia as fichas repre­sen­tam o quê, senão o racio­na­men­to? Não há como enten­der. Jogam a gente na chuva e ficam bra­vos: “Vocês vão se molhar, saiam”. A gente quer sair, mas tran­cam a porta, con­ti­nua­mos na chuva.
A ver­da­de é que as reser­vas rece­bem um míni­mo de exce­den­tes. Os Bairros Privilegiados abis­coi­tam tudo o que podem. Ninguém viu, no entan­to dizem que exis­tem até pis­ci­nas cober­tas. Desse modo, se a emer­gên­cia che­gar, vai dar crepe, por­que os tan­ques devem estar todos vazios.
Essa emer­gên­cia é espe­ra­da há algum tempo. Algum? Eu nem tinha come­ça­do neste escri­tó­rio e já lia sobre os cons­tan­tes sinais ver­me­lhos que a natu­re­za vem emi­tin­do. É o aler­ta, decla­ra­vam os cien­tis­tas. Os pou­cos cien­tis­tas que tinham sobre­vi­vi­do e ten­ta­vam criar defe­sas.
Cientistas. Categoria míni­ma, mar­gi­na­li­za­da. Numa fase qua­­se pré­-his­tó­ri­ca, o povo era alheio aos seus avi­sos. Mais tarde, o Esquema per­ce­beu a situa­ção, mani­pu­lou jor­nais e tele­vi­são e fomen­tou a iro­nia. Foi quan­do se difun­diu ampla­men­te a expres­são galho­fei­ra “paranoia cien­tí­fi­ca”.
Qualquer ato era “paranoia cien­tí­fi­ca”. Um cien­tis­ta escla­re­ci­do, cons­cien­te, naque­la época, equi­va­lia a ser judeu nos dias de nazis­mo. Pessoa per­se­gui­da, mal­di­ta, que se camu­fla­va. No en­­tan­to, a gente con­ti­nua­va a estu­dar, falar, denun­ciar. A pro­vo­car a opi­nião públi­ca.
A maio­ria dos cien­tis­tas foi cas­sa­da. Outros se reti­ra­ram, acei­tan­do con­vi­tes estran­gei­ros. Houve quem se apo­sen­tou, mu­­dou de ati­vi­da­de. Muitos ins­ti­tu­tos foram fecha­dos, enquan­to uma nova ordem cres­cia e domi­na­va: a dos Militecnos ou Tecnocratas Avan­çados da Nova Geração.
Hoje, a pala­vra Militecno é cor­ri­quei­ra, incor­po­rou­-se ao lin­gua­jar. Mas então não sabía­mos bem o que sig­ni­fi­ca­va. Líamos na impren­sa, ouvía­mos no rádio e não ligá­va­mos. Se tivés­se­mos pre­vis­to o peri­go! Como podía­mos sequer ima­gi­nar que aque­les homens não tinham o cére­bro nor­mal?
Ficou demons­tra­do pelos cien­tis­tas. Foi mais uma das ra­­zões que os tor­na­ram mar­gi­na­li­za­dos. Provou­-se que os Militecnos sofre­ram meta­mor­fo­se em seu orga­nis­mo. O cére­bro ficou afe­ta­do. Perdeu parte da memó­ria. As emo­ções foram eli­mi­na­das. Tornaram­-se sere­na­men­te cal­cu­lis­tas.
Daí o cará­ter bas­tan­te prá­ti­co desta nova civi­li­za­ção. Se pode­mos cha­mar a isto de civi­li­za­ção. De tanto mexer com núme­ros, cál­cu­los, máqui­nas, méto­dos, os Militecnos per­de­ram cer­tas facul­da­des. Partes do corpo quan­do não usa­das são pas­sí­veis de atro­fia­men­to. Deu no que deu. Instinto de con­ser­va­ção, fra­ter­ni­da­de, capa­ci­da­de de dis­tin­guir bele­za, boa qua­li­da­de, isso mor­reu. Tudo foi reve­la­do num rela­tó­rio apre­sen­ta­do nos Estados Unidos. Cientistas norte­-ame­ri­ca­nos, espe­cia­li­za­dos no estu­do de nosso país, che­ga­ram a curio­sís­si­mas con­clu­sões.
As obras des­ses norte­-ame­ri­ca­nos estão bani­das. Encontram­-se em algu­mas biblio­te­cas par­ti­cu­la­res. Chegaram antes dos In­­ter­ditos Postais. Hoje, abrem todos os paco­tes nos cor­reios, revis­tam nos aero­por­tos, con­fis­cam. Computadores for­ne­cem rapi­da­men­te as lis­tas de proi­bi­dos.
Esses cien­tis­tas espe­cia­li­za­dos na mente do homem bra­si­lei­ro sur­gi­ram depois do boom de bra­si­lia­nis­tas. Toda a his­tó­ria bra­si­lei­ra foi revis­ta e rees­cri­ta por esses amá­veis pro­fes­so­res norte­-ame­ri­ca­nos. Em segui­da apa­re­ce­ram os bió­lo­gos, os ana­to­mis­tas, os pes­qui­sa­do­res da mente.
Nós, os bra­si­lei­ros, não tínha­mos aces­so aos arqui­vos, mas eles sim. Trabalhavam livre­men­te, rece­biam bol­sas, ajuda, micro­fil­ma­gens, cópias de todo o mate­rial de que o pes­qui­sa­dor neces­si­ta em seu tra­ba­lho. Não adian­ta­va denun­ciar, o Esquema igno­ra­va. Mais que isso, nos punia.
Sou lúci­do para saber que o con­tro­le total, rígi­do, dos meios de comu­ni­ca­ção, alia­do à Intensa Propaganda Oficial, IPO, amor­te­ceu as men­tes. De tal modo que esta emer­gên­cia em que vive­mos pas­sou a ser con­si­de­ra­da nor­mal. A nossa memó­ria é admi­rá­vel, por­que esse pas­sa­do é recen­te.
E nos esque­ce­mos. Tudo se pre­ci­pi­tou. Rápido demais. Os Que Se Locupletaram estão hoje em seus ter­ri­tó­rios iso­la­dos, viven­do rica­men­te. Não con­se­guem se repro­du­zir, se per­pe­tuar. Mas não tem impor­tân­cia para eles. São os cha­ma­dos (iro­ni­ca­men­te?) Homens dos Tempos Presentes.
No decor­rer dos anos, temos nos adap­ta­do a tudo. Acaso as gera­ções dos anos ses­sen­ta e seten­ta não se con­for­ma­ram, acei­ta­ram e até bus­ca­ram o esta­do de sítio per­ma­nen­te? Quando penso nes­sas coi­sas, não me excluo. Eu tam­bém sou o povo. E tal­vez tenha maior res­pon­sa­bi­li­da­de.
Afinal, sou pro­fes­sor de História. Cheguei a rir das crí­ti­cas que os cien­tis­tas fize­ram. Estão lou­cos, ima­gi­na­va. Tais coi­sas nunca vão acon­te­cer. Ou então a huma­ni­da­de pode desa­pa­re­cer. Agora, vejo. Talvez a huma­ni­da­de não desa­pa­re­ça, mas nosso povo está nos limi­tes.
Medo. Vivo com medo. Minha mulher repe­te sem­pre isso. Mas Adelaide é outro gêne­ro, só quer saber de sua igre­ja. Acredita na vida eter­na. Pensa na sal­va­ção. Sofrimento agora, paraí­so depois. O que acon­te­ce aqui é sim­ples pre­pa­ra­ção para enca­rar o Senhor que está lá em cima.
Assim ela enfren­ta a vida, con­for­ma­da. Aceitando, rece­ben­­do. Quando quer, sabe ver as coi­sas. Tanto que con­du­ziu o sobri­nho para o Novo Exército. Sou um pro­fes­sor de História que tem um afun­da­men­to na mão. Encaro isso com natu­ra­li­da­de. Deve ser um efei­to, não uma causa.
Quantas coi­sas não têm apa­re­ci­do? O care­ca de hoje? Quem tem ideia de onde veio? As pes­soas que andam per­den­do unhas? Os que sofrem de ossos amo­le­ci­dos? Os que fica­ram cegos? Ou sem den­tes? Se a inves­ti­ga­ção cien­tí­fi­ca exis­tis­se, sabe­ría­mos os por­quês. Quem quer saber?
Todos que­rem ape­nas sobre­vi­ver. Se ana­li­sar­mos a his­tó­ria, vamos con­cluir que o nível de vida do povo bai­xou a zero. Não de todos. Os Que Se Locupletaram estão lá. Aqueles que os ser­vi­ram se arran­ja­ram. E todo mundo só quis ser­vir. Foram déca­das que der­ro­ta­ram a civi­li­za­ção.
Tempos em que o povo pas­sou a comer menos. A comer pior. Cada vez com menos qua­li­da­de. Não che­ga­mos a comer raí­zes por­que elas não exis­tem mais. Esgotamos pra­ti­ca­men­te tudo. Dependemos das indús­trias quí­mi­cas gover­na­men­tais ou do que é impor­ta­do das fecha­das reser­vas multi­-inter­na­cio­nais.
As casas sumi­ram, edi­fí­cios domi­na­ram tudo, os espa­ços fica­ram carís­si­mos devi­do à inten­sa espe­cu­la­ção imo­bi­liá­ria. Tudo pro­du­to da Grande Locupletação, quan­do o país foi divi­di­do, reta­lha­do, entre­gue, ven­di­do, explo­ra­do. Tenho medo de pen­sar nisso. Medo de falar com alguém a res­pei­to.
Eu me perco. Sempre que come­ço a pen­sar, vou longe. Talvez minha ima­gi­na­ção seja pode­ro­sa. Devia ter apro­vei­ta­do para coisa melhor que este empre­go roti­nei­ro, metó­di­co. Ou até deco­le nes­ses voos de fan­ta­sia em fun­ção deste tra­ba­lho desar­ti­cu­lan­te, regres­si­vo. Ou esse ou nenhum.
Naquele dia em que desci à pro­cu­ra da entra­da para o pátio, não encon­trei nenhum dos dois. Nem o pátio, nem o homem que fica­va por trás da jane­la. Voltei à minha mesa e con­ti­nuei obser­van­do. O corpo esta­va lá. Ficou até apo­dre­cer dias depois, mas nenhum chei­ro subiu. Anormal? E daí?
Certa manhã, o esque­le­to desa­pa­re­ceu. No seu lugar sur­gi­ram paco­tes metá­li­cos, bri­lhan­tes. Estão lá até hoje, enfer­ru­ja­dos, ape­sar do tempo seco e firme que faz há anos. Para mim, a fer­ru­gem era pro­vo­ca­da pela umi­da­de. Deve exis­tir outra causa. Discussões, refle­xões inú­teis.
Olho pela jane­la, há um homem que me obser­va. Penso que está olhan­do para mim. Ele inter­rom­pe o tra­ba­lho e se en­­cos­­ta no vidro. Me olha e deve pen­sar: “Vejo aque­le homem há tanto tempo, que vou sen­tir sua falta se um dia ele sair dali. Acos­tumei com ele”. Meu Deus, deli­ro. Bela novi­da­de!

Ignácio de Loyola Brandão, em Não Verás País Nenhum

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