Outubro de 2008
Dia 2
Que a família está em crise ninguém
se atreverá a negá-lo, por muito que a Igreja Católica tente
disfarçar o desastre sob a capa de uma retórica melíflua que já
nem a ela própria engana, que muitos dos denominados valores
tradicionais de convivência familiar e social se foram pelo cano
abaixo arrastando consigo até aqueles que deveriam ter sido
defendidos dos contínuos ataques desferidos pela sociedade altamente
conflitiva em que vivemos, que a escola moderna, continuadora da
escola velha, aquela que, durante sucessivas gerações, foi
tacitamente encarregada, à falta de melhor, de suprir as falhas
educacionais dos agregados familiares, está paralisada, acumulando
contradições, erros, desorientada entre métodos pedagógicos que
em realidade não o são, e que, demasiadas vezes, não passam de
modas passageiras ou de experimentos voluntaristas condenados ao
fracasso pela própria ausência de madurez intelectual e pela
dificuldade de formular e responder à pergunta, essencial em minha
opinião: que cidadão estamos a querer formar? O panorama não é
agradável à vista. Singularmente, os nossos mais ou menos dignos
governantes não parecem preocupar-se com estes problemas tanto
quanto deveriam, talvez porque pensam que, sendo os ditos problemas
universais, a solução, quando vier a ser encontrada, será
automática, para toda a gente.
Não estou de acordo. Vivemos numa
sociedade que parece ter feito da violência um sistema de relações.
A manifestação de uma agressividade que é inerente à espécie que
somos, e que em tempos pensámos, pela educação, haver controlado,
irrompeu brutalmente das profundidades nos últimos vinte anos em
todo o espaço social, estimulada por modalidades de ócio que
viraram as costas ao já simples hedonismo para se transformarem em
agentes condicionadores da própria mentalidade do consumidor: a
televisão, em primeiro lugar, onde imitações de sangue, cada vez
mais perfeitas, saltam em jorros a todas as horas do dia e da noite,
os vídeo-jogos que são como manuais de instruções para alcançar
a perfeita intolerância e a perfeita crueldade, e, porque tudo isto
está ligado, as avalanchas de publicidade de serviços eróticos a
que os jornais, incluindo os mais bem-pensantes, dão as boas-vindas,
enquanto nas páginas sérias (são-no algumas?) abundam
hipocritamente em lições de boa conduta à sociedade. Que estou a
exagerar? Expliquem-me então como foi que chegámos à situação de
muitos pais terem medo dos filhos, desses gentis adolescentes,
esperanças do amanhã, em quem um “não” do pai ou da mãe,
cansados de exigências irracionais, instantaneamente desencadeia uma
fúria de insultos, de vexames, de agressões. Físicas, para que não
fiquem dúvidas. Muitos pais têm os seus piores inimigos em casa:
são os seus próprios filhos. Ingenuamente, Ruben Darío escreveu
aquilo da “juventud, divino tesoro”. Não o escreveria hoje.
José Saramago, em O caderno
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