Num dia de setembro de 1820 chegou à
tristonha Assunção, do Dr. Francia, um prisioneiro ilustre e
sexagenário, a quem, entretanto, não se concedera o preito da mais
diminuta escolta. Vinha só; passou, a cavalo, pelas longas ruas
retilíneas e retangularmente cruzadas entre janelas de grades, à
maneira de extensos corredores de uma prisão vastíssima, e
descavalgou no largo onde se erige o palácio do governo.
Viu-se então que a idade o não
abatia. Num desempenho de rapaz atlético aprumava-se-lhe a estatura
elegantíssima entre as voltas do poncho desbotado que lhe desciam
até às botas de viagem, flexíveis e armadas das rosetas largas das
esporas retinindo ao compasso de um andar seguro.
Grande sombrero de abas
derribadas cobria-lhe a meio a face magra; e naquela face rígida,
cindida de linhas incisivas e firmes — como se um buril maravilhoso
ali rasgasse a imagem da bravura, num bloco palpitante de músculos e
nervos — um olhar dominador e duro, velado de tristeza
indescritível.
Era José Artigas, o motim feito
homem, o primeiro molde dos caudilhos, primeiro resultado dessa
combinação híbrida e anacrônica de D. Quixote, do Cid e de
Hernani — a idealização doentia, a coragem esplendorosa e o
banditismo romântico — indo perpetuar na América a ociosidade
turbulenta, a monomania da glória e o anelo de combates que
sacrificaram a Espanha do século XVII.
Correra-lhe a vida aventurosa e
tumultuária. Chefe de contrabandistas arremessado à ventura pelas
coxilhas da Banda Oriental e do Rio Grande, transformara-se logo
depois, com o mais doloroso espanto dos quadrilheiros condutícios,
em capitão de carabineiros da metrópole que o captara, impondo-lhe
o exercitar sobre os antigos sócios de desmandos uma fiscalização
incorruptível e feroz, até que se voltasse contra a mesma
metrópole, transmudado em tenente-coronel revolucionário, e
avantajando-se aos maiores demolidores do antigo vice-reinado, ou se
transfigurasse de chofre em general, “Jefe de los Orientales y
protector de las ciudades libres”, arremetendo com os irmãos
de armas da véspera e destruindo a solidariedade platina, com o
afastamento do Uruguai.
Salteador, policial, revolucionário,
chefe de governo.. Por fim, caiu. A tática estonteadora
quebraram-lha os voluntários reais de Lecor, endurecidos na
disciplina incoercível de Beresford; e traído pelos seus melhores
sequazes, sem exército e sem lar, errante e perseguido, viera bater
às portas do seu mais sinistro adversário, a quem tanto afrontara
nas antigas tropelias.
O ditador não lhe apareceu, mas não
o repeliu: mandou-o para um convento.
Extraordinário e enigmático Dr.
Francia! Este ato denuncia-lhe do mesmo passo a índole retrincada, a
ironia diabólica e a ríspida educação política que tanto o
incompatibilizava com o heroísmo criminoso daqueles esmaniados
cavaleiros andantes da liberdade. Entre o borzeguim esmoedor e a
estrapada desarticuladora só lhe dependiam de um gesto todos os
requintes das torturas: escolheu uma cela e constringiu ali dentro,
entre paredes nuas, sobre alguns metros quadrados de soalho, uma vida
que se agitara desafogadamente nos cenários amplíssimos dos pampas.
A vingança era, como se vê, antes de
tudo, uma lição duríssima, mas foi improdutiva. Artigas deixara no
Estado Oriental o seu melhor discípulo, Frutuoso Rivera, e em torno
deste e de seu êmulo e companheiro de armas, Lavalleja, veio
desdobrando-se até ao nosso tempo esta interessantíssima farândola
de heróicos degenerados, que invadem desabaladamente a história,
fugindo da polícia correcional, e vêm desfilando ante a
civilização, surpreendida, sob aspectos vários, que vão do
astucioso Urquiza a esse desassombrado Aparício, que nesta hora
convulsiona todas as paragens entre o Taquarembó e o Salto.
Em todos, uniformes na disparidade dos
temperamentos, do sanguinário Oribe ao destemeroso Lavalleja, que
nos arrebatou a Cisplatina, os mesmos traços característicos: a
combatividade irrequieta, a bravura astuciosa e a ferocidade não
raro sulcada de inexplicáveis lances generosos.
Traçar-lhes a história é fazer em
grande parte a nossa mesma história militar. Quase toda a nossa
atividade guerreira tem tido uma diretriz predominante naquela
fronteira perturbadíssima do Rio Grande, há cem anos batida a patas
de cavalos, e estirando-se como longo diafragma por onde nos penetra,
numa permanente endosmose, o espírito febril da caudilhagem,
obrigando-nos por vezes a colaborar também, a pontaços de lanças,
naquelas revoluções crônicas e naquele regime clássico de
tropelias.
Ali, na longa faixa que se estira de
Jaguarão ao Quaraim, o gaúcho resume, na envergadura possante e no
ânimo resoluto e inquieto, os traços proeminentes de dois povos.
Não há destacá-los às vezes. O bravo e versátil Rivera copia
servilmente o versátil e bravo Bento Manoel; Lavalleja, um Bayard
vibrátil e volúvel, afeiçoado a todas as temeridades, se acaso o
nobilitasse a disciplina, irromperia na figura escultural do primeiro
Mena Barreto.
Ainda agora o Aparício oriental tem
uma larva, o João Francisco rio-grandense: acorrentai o primeiro num
posto sedentário, e tereis o molosso ferocíssimo da fronteira;
arremessai o segundo pelo revesso das coxilhas, e vereis o caudilho…
Daí as surpresas que muitas vezes nos
saltearam naquelas bandas. Notemos uma, de relance. A Guerra do
Paraguai, em que pese aos seus velhos antecedentes, teve,
inegavelmente, um prelúdio muito expressivo nas ruidosas
“califórnias”, que arrebataram os nossos bravos patrícios aos
entreveros entre blancos e colorados. A primeira
bandeira que ali congregou brasileiros e orientais foi o pala do
general Flores, desdobrado e ruflando nas correrias vertiginosas. E
quaisquer que fossem depois os milagres de uma diplomacia que desde
1853 e 1858 vinha lentamente suplantando o malquerer e a vesânia de
Lopes, talvez não nô-lo impedisse mais, desde a hora em que os
peleadores de um e de outro lado, guascas e gringos, mas
uniformemente gaúchos, entrelaçassem, sobre o solo vibrante das
campinas, os laços e as bolas silvantes, objetivando a fraternidade
sanguinolenta que os atrai àqueles trágicos divertimentos, e às
arrancadas súbitas, e às batalhas originalíssimas e minúsculas
dispersas em torneios céleres, feitas de perseguições e de fugas,
e nas quais raro se queima um único cartucho, porque ao lidador
selvagem o que sobretudo apraz é desfechar sobre o contrário os
golpes simultâneos de cinco armas formidáveis — a lança e as
quatro patas do cavalo…
Ora, esta identidade de estímulos,
efeito de antiquíssimo contágio, reveste-nos de importância
considerável a situação atual do Uruguai. Entretanto, atraída por
outros sucessos, toda voltada para a Amazônia ameaçada, ou para o
enorme duelo do Extremo Oriente, a opinião geral mal se impressiona
com aquelas desordens. Um ou outro telegrama, impertinente e mal
lido, entre outros casos de maior monta, nos denuncia de longe em
longe que o caudilho rebelado ainda respira.
A despeito de não sabermos quantas
derrotas para logo corrigidas com outras tantas fugas triunfais,
rompendo entre as tropas do governo vitoriosas e desapontadas — no
“Passo dos Carros”, em Taquarembó, em Daimam, em Salto, em Santa
Luzia e em Santa Rosa, na Concórdia, no Aceguai e em toda a parte —
a revolta irradia para toda a parte, intangível e invencível,
espalhando alarmas desde Montevidéu, inopinadamente ameaçada de um
assalto, às remotas povoações e estâncias do interior, de súbito
despertadas pelo tradicional ahy vienen! que há um século
por ali espalha e atira fora dos lares as gentes retransidas de
espanto ante o estrupido dos cavaleiros errantes e ferozes…
Vencido pelo general Moniz desde os
primeiros dias da luta; acutilado, e algumas vezes morto a golpes de
telegramas; erradio, ou fugindo com os restos de uma tropa
desmoralizada, para o abrigo da nossa fronteira salvadora, Aparício
Saraiva recorda uma paródia grosseira do herói macabro do
Romancero, morto e espavorindo os inimigos.
Pelo menos a sua revolução, tantas
vezes destruída e tantas vezes renascente, tem a estrutura
privilegiada dos pólipos: despedaçá-la é multiplicá-la.
Ainda neste momento, rijamente
repelido do Salto, este combate perdido parece ter tido o efeito
único de remontar-lhe a cavalhada, permitindo-lhe a divisão das
forças em três corpos, que, dirigidos por ele, por Lamas e Muñoz,
vão refluir de novo sobre todo o Uruguai e reeditar a mesmice
inaturável das refregas inúteis e das correrias e das derrotas e
das eternas vitórias telegráficas — enfeixadas todas numa
anarquia deplorável cujo termo e cujas consequências dificilmente
se preveem.
Lutas à gandaia, adstritas ao
sustento aleatório das estâncias saqueadas, em que o soldado surge
pronto de todos os lados, laçando os adversários como laça os
touros bravios, combatendo ou “parando o rodeio”, sem notar
diferenças nas azáfamas perigosas, elas podem prolongar-se
indefinidamente.
Bastam-lhes como recursos únicos
alguns ginetes ensofregados e o pampa: a disparada violenta e o
plaino desimpedido; a velocidade e a amplidão…
Daí os seus principais
inconvenientes. O duradouro dessas desordens à ourela de uma
fronteira agitada fez sempre a mais prejudicial dissipação dos
nossos esforços e do nosso valor.
Quando se traçar o quadro emocionante
das nossas campanhas do Sul, que vêm, desde as arrancadas na colônia
do Sacramento, desdobrando-se numa interminável série de conflitos
sulcados de armistícios e de desfalecimentos, ver-se-á que aos
nossos melhores generais coube sempre o arriscadíssimo papel de uns
tenazes e brilhantes caçadores de caudilhos e de tiranos
irrequietos.
Felizmente, mudaram-se os tempos.
E certo não mais nos atrairão a
dispendiosas aventuras aqueles estonteados heróis, singulares
revenants, que nestes tempos de utilitarismo positivo exigem
apenas, prosaicamente, e de acordo com a lição memorável de
Francia, um termo de bem viver e uma cadeia.
Euclides da Cunha, em Contrastes e Confrontos

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